sábado, 8 de outubro de 2011


A OUTRA ESTRELA DA NOITE


Pedro Paulo Paulino

 Nestas noites límpidas, de luar quase pleno, um astro debuta em nosso céu de verão, logo depois do escurecer. É Júpiter, o soberano planeta do nosso Sistema Solar. Tão brilhante, que ouço referirem-se a ele como "aquela estrela". E é mesmo quase uma estrela. Os cientistas explicam que o planeta Júpiter devolve duas vezes mais energia do que a que recebe do Sol. E dizem ainda que ele é mais ou menos mil vezes maior que a nossa adorável Terra. Mil vezes! Olhando-o através desta atmosfera pura, fico momentos imaginando que o planeta onde moramos é uma coisinha de nada aos pés de Júpiter. Logo, vem uma sensação humilhante. Depois, uma sensação de alívio. Calculando-se a Terra mil vezes maior do que é, e com as mesmas condições de vida, muita coisa se tornaria embaraçosa. Talvez a América ainda não tivesse sido descoberta. Qual Colombo ou Cabral cruzaria o Atlântico mil vezes mais largo? Até mesmo os voos intercontinentais se tornariam inviáveis. Suponho que precisaríamos de veículos em órbita para irmos de um continente a outro. A rota Rio-Paris, como exemplo, que se pode cobrir em uma noite, se transformaria então em coisa das mil e uma noites.
  Agora, estou vendo Júpiter pela luneta. E cada vez que repito esse gesto, sinto a mesma emoção. Pela lente, dá pra ver quatro pontinhos luminosos em torno do gigante. São as suas quatro luas interiores (sim! Júpiter também tem luas). A emoção bate, ao imaginar que essa imagem foi vista pela primeira vez por um ser humano, na noite de 7 de janeiro de 1610, quando o italiano Galileu Galilei apontou para o céu um binóculo por ele mesmo construído, e viu essas joias nunca dantes avistadas. Por causa dessa sua bisbilhotice com as coisas celestes, e também por ser muito abelhudo (ele andou espalhando que a Terra é redonda e gira ao redor do Sol), Galileu por pouco não virou churrasco na fogueira da santíssima Inquisição. Mas um contemporâneo de Galileu, de nome Simom Marius, foi quem deu nome às quatro luas – chamadas luas interiores – de Júpiter, e então as chamou: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. Júpiter e elas formam uma espécie de sistemar solar mirim, embora o maior dos planetas desta redondeza arraste consigo uma ninhada de pelo menos 16 satélites naturais.
Pela ocular da luneta, também chamada galileana em justa homenagem, é possível divisar uma faixa vermelha na cintura do planeta Júpiter, o que lhe confere um ar de respeitável campeão de alguma arte marcial. Júpiter era tão estimado na antiguidade, que os caldeus lhe dedicavam um dia da semana, a quarta-feira. Na mitologia, Júpiter é a maior divindade romana, encontrando no Zeus grego o seu correspondente, filho de Saturno e Reia e nascido na ilha de Creta. Sem querer escavacar a vida turbulenta dos deuses, basta dizer que havia sérias desavenças no Olimpo por esse tempo. Júpiter, por exemplo, teve graves conflitos com o pai, que o queria devorar. Mas disto escapou e, para crescer forte e robusto, foi nutrido com leite de cabra… Coisa da mitologia.
Na realidade, o quinto planeta do nosso Sistema Solar é um mundo fantástico, segundo foi revelado há pouco na década de 70 pelas sondas inteligentes enviadas lá pelo homem. Esses aparelhos não menos fantásticos mergulharam em nosso vizinho planeta, como amebas no corpo de um elefante. Mas anunciaram muita novidade impressionante de Júpiter. Por exemplo: não se trata de um corpo sólido, como a Terra, mas gasoso! Uma estrela frustrada. Inóspito para nós, talvez bonito mesmo só a 600 milhões de quilômetros em média.
Ohando o céu agora, é-me impossível não voltar ao tempo em que eu via Júpiter pelo ponto de vista do meu pai, que o chamava estrela, e estrela ruim, anunciadora de seca e outras coisas indesejadas. Mas a Mitologia é mais condescendente com Júpiter, e o tem na conta de guardião da honra, da hospitalidade e dos juramentos e presidente da Assembleia dos deuses. Ainda hoje, repito, ouço muita gente chamar Júpiter de estrela. Confesso que até me chega a vontade de também chamá-lo de estrela, embora sabendo que é um planeta – estrela dona do céu, que vai do Oriente ao Ocidente a noite inteira, única a competir em atração com o magnífico luar daqui.

____________________________

NOSSA LÍNGUA

BILUNGA - Em AL é mais um nome para pinta, o pênis da criança.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CORDEL


O poema de gracejo “A gata que mãe criava”, de José Moura de Oliveira, retrata um tema que é objeto até mesmo de estudo da psicologia e sempre vira assunto na imprensa: a adoração a animais domésticos. Com a originalidade própria do poeta espontâneo, o autor, natural do Município da Prata, Paraíba, usa de bom-humor com muita desenvoltura nos versos que seguem:

A GATA QUE MÃE CRIAVA


José Moura de Oliveira

Mãe criava uma gatinha
Com amor e com cautela
Fazia a vontade dela
Porém, não fazia a minha
Pela amizade que tinha
Pra gata, tudo comprava
Até água, só lhe dava
Se fosse água mineral
Que outra fazia mal
À gata que mãe criava

Mãe tinha tanto ciúme
Que brigava com a gente
E a gata, facilmente
Encheu-se de mal costume:
Usava cada perfume
Que nem miss-mundo usava
No lugar onde passava
Espalhava aquele cheiro
Era mesmo um exagero
A gata que mãe criava

Não comia mais feijão
Nem arroz e nem batata
Tinha dia que essa gata
Só queria macarrão
Se fosse com requeijão
Que não sendo, recusava
Aquilo me irritava
Do corpo todo tremer
Eu já ‘tava pra não ver
A gata que mãe criava

Pra não mais me aborrecer
Me retirava pra fora
Dizendo: estou vendo a hora
Mãe ensinar ela a aler
Pra engordar e crescer
Todo conforto mãe dava
Com dois meses já estava
Neste tratamento assim
Mais gorda do que Delfim*
A gata que mãe criava

Deitar na sala, ela ia
Na poltrona ou na janela
Os horários de novela
A danada não perdia
A das seis, ela assistia
Pela das sete esperava
Na das oito, já estava
Cochilando no lugar
Sem sair nem pra mijar
A gata que mãe criava

Um dia, eu e ‘tava deitado
Já quase ao anoitecer
Começou aparecer
Uns gatos pelo telhado
Num barulho tão danado
Que a gata não se aguentava
Um minuto não deitava
Arrepiando o cabelo
Eu vi logo o desmantelo
Da gata que mãe criava

Mais tarde, foi pra janela
Começou olhar pra ima
Minha mãe, com toda estima
Até cheiro dava nela
Procurando agradar ela
Mas nada lhe agradava
Dquanto mais mãe ajeitava
Mais ela achava ruim
Era o começo do fim
Da gata que mãe criava

Mãe, nesta situação
Sem ter mais o que fazer
Perguntava: quer comer?
Ela respondia: nião
Lá no telhado, um gatão
De vem em quando miava
Ela deitada, escutava
Mas não ficava deitada
Já estava apaixonada
A gata que mãe criava

O meu irmão foi dormir
Deixando a janela aberta
A danada, muito esperta
Aproveitou pra sair
E sem ninguém pressentir
Seu conforto abandonava
Fugindo pra onde estava
A gataria medonha
Que tiraria a vergonha
Da gata que mãe criava

Quando amanheceu o dia
Que todos tinham acordado
Se notou que do telhado
A gata fugido havia
E mãe, sorrindo, dizia:
- Por isso eu já esperava
E eu também confirmava:
Ela fugiu com os gatos
Trocou requeijão por ratos
A gata que mãe criava

_______________
*Delfim Netto, ex-ministro de governos militares.


ATENÇÃO! 
Estreamos hoje uma sessão do blog: NOSSA LÍNGUA. A cada dia, um termo coloquial do linguajar nordestino e seu significado. Começamos por:


ATUBIBAR - No CE significa: 1. Perseguir, rastrear. 2. Apoquentar, encher o saco, inquizilar. (Dicionário do Nordeste - Fred Navarro)







quinta-feira, 6 de outubro de 2011

semana da criança


A ETERNA CANÇÃO DA CRIANÇA


Tem início hoje a Semana da Criança. O Dia da Criança tem datas diferentes em outros países. No Brasil, é 12 de outubro. Durante a temporada, várias escolas programam atividades relacionadas. Alguns segmentos aproveitam para reallizar fóruns, debates e questionamentos sobre vários aspectos, como a condição da criança na sociedade atual. Provavelmente, a instituição brasileira com maior tempo de assistência à criança, funcionando até hoje, é a Casa de Lázaro, fundada em outubro de 1938 no Rio de Janeiro. De caráter filantrópico beneficente, educacional e de assistência social, inicialmente, amparava crianças filhas de hansenianos (doentes de lepra).
René Bittencourt e
Francisco Alves
A Casa de Lázaro tornou-se conhecida na sociedade brasileira em 1952, quando o seu antigo coral, formado pelas suas crianças, participou da gravação do grande sucesso “Canção da Criança” composta e interpretada por Francisco Alves, que entrou para a história da MPB como o “Rei da Voz”. A letra da música é de René Bittencourt e foi gravada em três de setembro de 1952, com objetivo altruísta, pois toda a arrecadação com a venda do disco foi doada em favor daquela instituição de caridade.
Francisco Alves não chegou a ouvir a gravação da “Canção da Criança”, pois morreu dias depois, em 27 de setembro de 1952, num acidente automobilístico na Via Dutra, S. Paulo, quando voltava para o Rio de Janeiro. Na saída do caixão do local onde seu corpo foi velado, as crianças da Casa de Lázaro, despedindo-se do “Rei da Voz”, cantaram a “Canção da Criança”, o que levou à intensa emoção e às lagrimas a multidão de fãs e admiradores que ali estavam para prantear o seu ídolo.


Francisco Alves e a locutora
Lúcia Helena
A música passou depois a ser cantada em escolas, principalmente no Dia da Criança. A declamação que antecede o início da melodia foi feita pela locutora Lúcia Helena. Sua voz tornou-se famosa e inconfundível porque apresentava o Chico Viola, no seu programa dominical ao meio-dia na Rádio Nacional. A abertura do programa virou na época uma marca registrada: “Ao soar o carrilhão das doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros no meio do dia, os ouvintes da Rádio Nacional também se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz“. Logo em seguida, Francisco Alves começava o programa.

Vídeo para a "Canção da Criança" (gravação original):



LETRA DA “CANÇÃO DA CRIANÇA”
Declamação (Lúcia Helena):
Brincando marcha o menino de hoje. Lutando marhará o menino de amanhã. Crianças despreocupadas desse Brasil-Menino, cujas glórias hão de colher os homens grandes que dominarão o Brasil-Gigante, esse Brasil grandioso que eu canto, que as crianças da Casa de Lázaro felizes cantarão, numa esperança de vitórias e de alegrias!

Criança feliz, que vive a cantar
Alegre a embalar seu sonho infantil!
Ó meu bom Jeus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil!

Crianças, com alegria,
Qual um bando de andorinhas
Viram Jesus que dizia:
Vinde a mim as criancinhas!
Hoje dos céus num aceno
Os anjos dizem: Amém!
Porque Jesus Nazareno
Foi criancinha também.




quarta-feira, 5 de outubro de 2011


DESENTERRANDO HUMBERTO DE CAMPOS

Quase esquecido nos dias de hoje, o escitor maranhense Humberto de Campos (1886-1934) foi um dos cronistas brasileiros mais lidos em seu tempo. De origem humilde, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde se tornou jornalista conhecido, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Os dois livros de memórias que escreveu são a sua obra mais popular. Sob o pseudônimo de Conselheiro X.X., Humberto de Campos assinou na imprensa diversas historietas cômicas, enfeixadas depois em volumes. Uma delas transcrevemos abaixo:


O CONFESSOR SEM SORTE

Humberto de Campos

Pároco de uma das duas igrejas de Santa Ana do Rio Manso, padre Valério tivera a desdita de ter como competidor, na conquista de almas para o reino de Deus, um colega ainda moço e, o que era mais, bonito. Enquanto o padre Ricardino era elegante, verboso, verdadeiro tipo de sacerdote moderno, ele representava a geração deposta, entrincheirada na severidade jesuítica, fortalecido por um físico desolador. Baixo, moreno, cabeça grande e chata, enterrada no pescoço, constituía, pode-se dizer, a negação da simpatia. Daí, naturalmente, o abandono da sua igreja pela gente melhor da localidade, e principalmente pelas mulheres novas, cuja presença lhe acentuava ainda mais a consciência do seu desapreço, comparativamente a padre Ricardino. Dia e noite, eram aquelas confissões hipócritas, sem veneno e sem novidade. Não lhe aparecia, sequer, uma noiva, para dizer-lhe o susto dos primeiros anseios, ou uma senhora bonita, para sussurrar-lhe, num misto de inquietação e de orgulho, o horror de uma falta deliciosa! Tudo isso, todos esses quitutes de escândalo, eram, agora, privilégio do outro vigário!...
Foi, pois, com uma verdadeira festa de alma que padre Valério verificou, naquele dia, ao entrar no templo que, entre os urubus costumeiros que ali faziam pouso, havia uma pomba-rola, que era nada mais, nada menos, que a Antonina, filha única da viúva Gama, e que toda a gente considerava, sem favor, uma das meninas mais lindas de toda a comarca. Vendo-a preparada para a confissão, o véu branco à cabeça, o sacerdote estalou a língua, intimamente.
– temos novidade! – exclamou, de si, consigo.
E adiantou:
– E cousa supimpa!
Em menos de cinco minutos, padre Valério despachou nove beatas e três velhos. Estava ansioso pela variedade do menu, e foi com verdadeira volúpia da sua curiosidade que pôs a linda criaturinha à vontade, para que ela lhe contasse, sem rebuços, todo o pecado que a trazia aos seus pés.
– Senhor padre, foi uma verdadeira desgraça… – começou a pobre.
– Conte, minha filha, conte; conte.
– Eu estava na sala, sozinha, com o primo Alfredo… Ele começou a beijar-me… a acariciar-me…
– E depois, minha filha? – insistiu o sacerdote, encantado.
– Eu fiquei assim meia tonta… Não sabia o que fazer… Ele, então, fez-me sentar junto dele, no divã…
– Adiante, minha filha, adiante! – instou padre Valério, com o interesse de um torcedor de futebol aflito por saber o resultado do  jogo.
– Ele me fez deitar ao lado dele, no divã… Eu deitei-me… Ele também se deitou e…
– E…?
– Nesse momento, ouvimos os passos de mamãe, que vinha, e nos levantamos.
– Ora bolas!... – fez padre Valério, dando um murro no confessionário.
E cerrando os dentes:
– Mas, sim, senhor! Já se viu? Que falta de sorte esta minha!...

terça-feira, 4 de outubro de 2011


BLOG COMPLETA SEIS MESES DE VIDA

Pedro Paulo Paulino

O blog Vila Campos Online completa hoje seis meses de existência. Desde que foi criado vem conquistando um público fiel e formando um leque de colaboradores. O número de visitas, até o momento, já soma perto de 24 mil. Além do Brasil, contabilizamos diariamente uma cota certa de visitantes em mais outros nove países, com predominância para os Estados Unidos, Itália e Alemanha. As estatísticas do blog apontam uma visitação praticamente nivelada para as postagens. Mas ainda batem recorde as que tratam de temas relacionados ao sertão e à Literatura de Cordel. Nesta última categoria, vale ressaltar o número fenomenal de visitas que o cordel “Morte e Testamento de Osama Bin Landen” alcançou num só dia: mais de seis mil frequências. Isto no primeiro mês de existência do Vila Campos Online. Ainda hoje essa postagem bate o recorde, com 7.230 acessos. Ultimamente, os assuntos relacionados à Festa de São Francisco de Canindé, divulgados nesta página, fizeram aumentar nosso público.
Também atingimos mais de 400 comentários publicados, das mais diversas origens. Um deles partiu do frei Hermínio Bezerra, que também é tradutor e atualmente mora em Roma, Itália. Frei Hermínio é colunista do jornal Diário do Nordeste e há alguns dias nos enviou comentário sobre crônica do nosso colaborador Augusto Cesar Magalhães Pinto, intitulada “Xico Luiz”. Esta, aliás, uma das postagens mais acessadas e comentadas no mês de agosto.
Criado sem maiores pretensões, senão de gerar um link entre simpatizantes da nossa cultura, e também sem qualquer fim lucrativo, o lucro que temos de fato auferido até agora é um bom acervo de escritos, originários do próprio blog e de nossos colaboradores, na prosa e na poesia. Dessa intenção inicial, em alguns momentos, este espaço pulou para a formação de opinião e para abrigar o ponto de vista mais diverso. Uma questão polêmica, por exemplo, levantada aqui refere-se à campanha do radialista Tonico Marreiro pela reposição das luminárias decorativas da basílica de São Francisco. Uma enquete feita pelo blog e encerrada hoje aponta que a grande maioria é a favor (confira ao lado).
A variedade de assuntos publicados aqui é uma comprovação do ecletismo e da feitura democrática deste blog. Embora, evidentemente, tenhamos sempre procurado dar primazia ao nosso lema: “Informação e Cultura Regional”. De um hobby, a sustentação deste espaço eletrônico ganhou foros de uma atividade como qualquer outra que exige pertinácia e responsabilidade, por exemplo, de manter a página atualizada diariamente. E isto é possível graças à preciosa colaboração dos amigos, a exemplo de Augusto Cesar Magalhães Pinto, Arievaldo Viana, Francisco de Assis Freitas Silva, Silvio R. Santos, Tonico Marreiro, Maurício Cardoso e Flávio Henrique, que participam diretamente e com mais frequência deste blog escrevendo artigo, crônica, poesia, crítica e comentário. Além de sugerirem e difundirem nosso link.
Neste meio ano de vida do blog Vila Campos Online, nossa gratidão a todos os nossos leitores, seguidores e colaboradores. Nossa estima pelo trabalho dos companheiros blogueiros, principalmente dos que estão na nossa lista de favoritos. Em particular, o blog Acorda Cordel, do companheiro Arievaldo Viana, e Kanindé Cultural, sites com os quais mantemos um tráfego em comum. Nossa satisfação em comemorar seis meses de existência cresce ainda mais por coincidir esta data, com o Dia de São Francisco, Dia da Ecologia e Dia das Aves e dos Animais. Por isso, encerramos este comentário com um soneto de nossa autoria:

ÚLTIMA AROEIRA

Quem passa, da estradinha avista à beira,
No pé da cerca em meio ao descampado,
Qual um herói altivo e abandonado,
Resistindo, sozinha, uma aroeira.

Tavez seja, talvez, a derradeira
A salvar-se da fúria do machado,
Pois da caatinga é tronco cobiçado,
Devido à qualidade da madeira.

Como num holocausto sem perdão,
As aroeiras somem do sertão...
E aquela que acolá sobreviveu,

Solitária, isolada no seu canto,
Parece alguém olhando com espanto
Um mundo que já foi todinho seu.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011


TEATRO ESCOLA DE CANINDÉ


Augusto Cesar Magalhães Pinto

No nosso primeiro livro, “Viagem Pela História de Canindé”, consta como sendo o maior capítulo o IX que vai da folha 141 à 262, denominado “O Século XX - Efemérides”. Trata-se de um registro cronológico dos fatos sociais, políticos e religiosos da terra de São Francisco, ocorridos durante o século passado. As fontes informativas foram os jornais locais, os noticiosos estaduais, alguns registros deixados pelo saudoso Sr. Chico Karam, além de informações repassadas pelas testemunhas oculares da história. Grande parte do que ali se acha escrito nos foi repassada e/ou chancelada como verdadeira pela palavra lúcida e inquestionável pelo saudoso amigo, Sr. Luis Pereira que nasceu em 1906 e faleceu em 2008, portanto com 102 anos, e em plena lucidez.
Ali consta, na página 180, um registro datado de 15 de julho de 1952, na forma que se segue:  “por iniciativa de Frei Walfredo Teppe, a Basílica de São Francisco ganhou diversas reformas. Foram abertos dois arcos laterais ao altar-mor a fim de melhorar a ventilação. Houve ampliação das portas que dão entrada à sacristia, que ganhou forro de placa de cimento. Pelo corpo do templo foi feita uma barra de marmorito”.
Dita “barra”, tinha como objetivo evitar que as pessoas sujassem as paredes, fruto da arcaica mania sertaneja de se escorar, levantar o joelho e apoiar o pé na parede, magnificamente descrita por Euclides da Cunha na sua brilhante obra “Os Sertões”, quando se reporta aos sertanejos:  “em pé, quando parado, recosta-se, invariavelmente, ao primeiro umbral ou parede que encontra...”.
Didi
O responsável por tal benfeitoria foi Francisco Antônio dos Santos, conhecido como “Didi”, que veio de Fortaleza. Durante seis décadas a “barra de marmorito” desempenhou a contento suas funções, todavia, no ano passado, foi substituída por granito, o que pelo menos do meu conhecimento não gerou nenhum protesto nem reclamação, afinal o granito é mais nobre e deixou a nossa basílica mais bela e aconchegante.
Didi era um apaixonado por teatro e em Fortaleza foi membro de uma companhia amadora do Teatro José de Alencar.  Tão importante quanto a obra em marmorito que realizou, foi a fundação em Canindé de um grupo de teatro que foi denominado “Teatro Escola Canindeense”, do qual ele foi o idealizador, diretor e ator, que, durante os anos de 1952 a 1953, foi o esteio da animação e do engajamento, notadamente da juventude daquela época, com suas peças e dramas educativos que contaram com o pronto apoio da comunidade franciscana que cedia as instalações da Casa Paroquial para os eventos e ensaios.
Outro dia eu conversava com o amigo Osanam Martins, filho do saudoso professor Nem Martins, diretor e proprietário do Instituto Frei Mathias de Ponterânica, de relevantes serviços prestados a Canindé, e ele  me falava das recordações que guardava do Teatro Escola, da figura do idealizador (Didi) e dos demais membros daquela época que marcaram profundamente sua vida. Passaram-se quase 60 anos, os seus colegas de palco que à época eram jovens, a grande maioria já veio a óbito; o próprio Osanam conta hoje 81 anos e é um dos poucos remanescentes daquela confraria,  aparenta ter idade bem inferior a sua e de quebra esbanja saúde e lucidez.
Na verdade eu conversei com o Osanam em busca de informações complementares, que foram de grande valia, porque já tinha conhecimento da existência do teatro, através do  seu Chico Karam, que falava com entusiasmo daquela época e era visível o apreço que tinha pelo Didi a quem ele classificava como “uma pessoa fabulosa”. As fotos que ilustram este texto pertenciam ao arquivo do seu Chico, que na época me emprestou para reprodução.
Chico Karam e Didi
Faziam parte do Teatro Escola de Canindé, além dos três mencionados,  Didi, Osanam e Chico Karam, uma jovem conhecida como Ninfa (que veio a ser esposa do Didi), uma outra conhecida como Maninha (filha do então coletor federal  Renato Varela), Chico da Santa que também era conhecido como Chico Passos, Edmundo Bandeira,  Edmar Soares, João Marmorito, Terezinha (esposa do Anildo Gomes), e José Pereira Rocha, então sacristão da basílica, a que todos chamavam de seu Zé da Igreja.
Muitas foram as peças  apresentadas pelo grupo, destacando-se uma intitulada “O filho do camponês”. As Exibições se davam aos sábados, e como a Companhia não dispunha de figurino, cada membro era responsável pela confecção do seu vestuário. Os cenários eram confeccionados  pelos próprios membros do Teatro em papel de sacos de cimento virados pelo avesso que eram artísticamente pintados pelo velho “Chicutinho”, pai do “Zé do Chicutinho, que na minha infância tocava clarinete na Banda do maestro João Sobral. Naquela época não se falava em matérial reciclável nem de consciência ambiental, a precariedade financeira do grupo era que forçava a criatividade, todavia, os cenários eram belíssimo, conforme nos narra Osanam com todo entusiasmo. Até mesmo a limpeza do prédio, palco e varrição do salão  ficavam por conta dos atores que se revezavam nas tarefas.
Os espetáculos tinham público cativo que pagava preço módico. Nenhum membro recebia qualquer pagamento, investia-se tudo na compra de equipamentos de efeito (luzes e fiação), na manutenção do prédio, e como obra pia foram utilizados recursos na construção de um túmulo para as Filhas de Maria e na aquisição de alimentos para pessoas pobres.
A propósito, tínhamos até bem pouco tempo um magnífico grupo teatral denominado “Contracenação”, que presumo ter sido dirigido pelo Magno Calixto e Itami de Morais. Sinceramente não sei dizer se o grupo foi extinto ou apenas se acha adormecido. O fato é que Canindé necessita desses atrativos que servem de diversão sadia e educativa para o público, além de disciplina e aprendizado para seus membros. É imprescindível que seja revitalizado, afinal, o espetáculo tem que continuar, e o respeitável público agradecer em forma de aplauso.


Atores em cena - 1953



domingo, 2 de outubro de 2011


Hoje deponho minha modesta pena, para transcrever uma crônica de autoria de frei João Pinto (OFM), antigo celebrante da Paróquia de Canindé. Numa prosa pura, sem floreados e sem presunsão literária, o religioso e escritor assim pintou a romaria de São Francisco das Chagas de Canindé:

LÁ VÊM OS ROMEIROS 
DE SÃO FRANCISCO

Frei João Pinto


Canindé é uma cidade para onde convergem muitos caminhos. Caminhos dos homens e caminhos de Deus. Todos levam a São Francisco das Chagas de Jesus Cristo. O santo, por sua vez, reúne-os todos na auto-estima que conduz ao Divino Mestre.
Desce uma estrada do Norte e, à altura de Sobral, no Ceará, ansiosa por chegar, quebra o braço direito para Santa Quitéria, formando a Estrada da Fé. Todas elas sempre dão um jeitinho proposital de passar por Canindé. São as estradas dos homens por onde palmilham os romeiros da fé.
– Lá vêm os romeiros de São Francisco!
Setembro, tornam-se mais intensas as romarias. Vêm os romeiros em levas mais numerosas para a festa do santo e até à estação chuvosa, em regulares enchentes. De ônibus, paus-de-arara, por via de regra; a pé, muitos de perto e de longe.
Quanto desconforto num pau-de-arara! Carroceria de caminhão com toldo baixo de lona, tábuas estreitas pouco espaçadas e dezenas e dezenas de romeiros no arrocho para caber mais. Todos querem vir!
Que desconforto! Para nós! Para os romeiros de São Francisco é como se viajassem de ônibus com ar-condicionado. Não medem eles sacrifícios nem se permitem incomodá-los com as canseiras, poeira, calor e catabis. É que vão a Canindé encontrar-se com seu senhor milagroso São Francisco.
Grupos de romeiros a pé margeiam as estradas. Não querem nem pedem carona. Para quê? A promessa é ir mesmo a pé. Os homens carregam a bagagem maior e as mulheres, com trouxas ou, por vezes, com garotos escanchados dum lado. Poucos conduzem carroças puxadas a animais para carregar seus bagulhos e crianças. Em geral levam trouxas nas costas ou pendentes duma vara. Há também os crucificados. Atravessam um pau nos ombros e nas pontas dos braços da cruz penduram seus minguados haveres.
A gente pára a vê-los passar. Devia ser assim que São Francisco viajava neste mundo. De túnica-mortalha, descalço ou de alpercatas, pouco ou nada levando, que S. Francisco não era homem de promessas. Também tão santo, que não precisava de promessas, nada pedindo a Deus a não ser sua graça.
– Lá vai um São Francisco! Mais dois! Um cento!
Em suas almas simples são todos “poverellos”. E de fato! Homens e mulheres, jovens, crianças e velhos; romeiros de São Francisco de todos os tipos e tamanhos, de todas as idades, cores e origens.
– Lá vêm os romeiros de São Francisco das Chagas do Canindé!
Por mais incômodos que sofram, por mais longe que morem, alegres e felizes põem o pé na estrada e vencem as distâncias que os separam geograficamente do Canindé de São Francisco das Chagas.
– Meu senhor São Francisco, cheguei!