segunda-feira, 3 de outubro de 2011


TEATRO ESCOLA DE CANINDÉ


Augusto Cesar Magalhães Pinto

No nosso primeiro livro, “Viagem Pela História de Canindé”, consta como sendo o maior capítulo o IX que vai da folha 141 à 262, denominado “O Século XX - Efemérides”. Trata-se de um registro cronológico dos fatos sociais, políticos e religiosos da terra de São Francisco, ocorridos durante o século passado. As fontes informativas foram os jornais locais, os noticiosos estaduais, alguns registros deixados pelo saudoso Sr. Chico Karam, além de informações repassadas pelas testemunhas oculares da história. Grande parte do que ali se acha escrito nos foi repassada e/ou chancelada como verdadeira pela palavra lúcida e inquestionável pelo saudoso amigo, Sr. Luis Pereira que nasceu em 1906 e faleceu em 2008, portanto com 102 anos, e em plena lucidez.
Ali consta, na página 180, um registro datado de 15 de julho de 1952, na forma que se segue:  “por iniciativa de Frei Walfredo Teppe, a Basílica de São Francisco ganhou diversas reformas. Foram abertos dois arcos laterais ao altar-mor a fim de melhorar a ventilação. Houve ampliação das portas que dão entrada à sacristia, que ganhou forro de placa de cimento. Pelo corpo do templo foi feita uma barra de marmorito”.
Dita “barra”, tinha como objetivo evitar que as pessoas sujassem as paredes, fruto da arcaica mania sertaneja de se escorar, levantar o joelho e apoiar o pé na parede, magnificamente descrita por Euclides da Cunha na sua brilhante obra “Os Sertões”, quando se reporta aos sertanejos:  “em pé, quando parado, recosta-se, invariavelmente, ao primeiro umbral ou parede que encontra...”.
Didi
O responsável por tal benfeitoria foi Francisco Antônio dos Santos, conhecido como “Didi”, que veio de Fortaleza. Durante seis décadas a “barra de marmorito” desempenhou a contento suas funções, todavia, no ano passado, foi substituída por granito, o que pelo menos do meu conhecimento não gerou nenhum protesto nem reclamação, afinal o granito é mais nobre e deixou a nossa basílica mais bela e aconchegante.
Didi era um apaixonado por teatro e em Fortaleza foi membro de uma companhia amadora do Teatro José de Alencar.  Tão importante quanto a obra em marmorito que realizou, foi a fundação em Canindé de um grupo de teatro que foi denominado “Teatro Escola Canindeense”, do qual ele foi o idealizador, diretor e ator, que, durante os anos de 1952 a 1953, foi o esteio da animação e do engajamento, notadamente da juventude daquela época, com suas peças e dramas educativos que contaram com o pronto apoio da comunidade franciscana que cedia as instalações da Casa Paroquial para os eventos e ensaios.
Outro dia eu conversava com o amigo Osanam Martins, filho do saudoso professor Nem Martins, diretor e proprietário do Instituto Frei Mathias de Ponterânica, de relevantes serviços prestados a Canindé, e ele  me falava das recordações que guardava do Teatro Escola, da figura do idealizador (Didi) e dos demais membros daquela época que marcaram profundamente sua vida. Passaram-se quase 60 anos, os seus colegas de palco que à época eram jovens, a grande maioria já veio a óbito; o próprio Osanam conta hoje 81 anos e é um dos poucos remanescentes daquela confraria,  aparenta ter idade bem inferior a sua e de quebra esbanja saúde e lucidez.
Na verdade eu conversei com o Osanam em busca de informações complementares, que foram de grande valia, porque já tinha conhecimento da existência do teatro, através do  seu Chico Karam, que falava com entusiasmo daquela época e era visível o apreço que tinha pelo Didi a quem ele classificava como “uma pessoa fabulosa”. As fotos que ilustram este texto pertenciam ao arquivo do seu Chico, que na época me emprestou para reprodução.
Chico Karam e Didi
Faziam parte do Teatro Escola de Canindé, além dos três mencionados,  Didi, Osanam e Chico Karam, uma jovem conhecida como Ninfa (que veio a ser esposa do Didi), uma outra conhecida como Maninha (filha do então coletor federal  Renato Varela), Chico da Santa que também era conhecido como Chico Passos, Edmundo Bandeira,  Edmar Soares, João Marmorito, Terezinha (esposa do Anildo Gomes), e José Pereira Rocha, então sacristão da basílica, a que todos chamavam de seu Zé da Igreja.
Muitas foram as peças  apresentadas pelo grupo, destacando-se uma intitulada “O filho do camponês”. As Exibições se davam aos sábados, e como a Companhia não dispunha de figurino, cada membro era responsável pela confecção do seu vestuário. Os cenários eram confeccionados  pelos próprios membros do Teatro em papel de sacos de cimento virados pelo avesso que eram artísticamente pintados pelo velho “Chicutinho”, pai do “Zé do Chicutinho, que na minha infância tocava clarinete na Banda do maestro João Sobral. Naquela época não se falava em matérial reciclável nem de consciência ambiental, a precariedade financeira do grupo era que forçava a criatividade, todavia, os cenários eram belíssimo, conforme nos narra Osanam com todo entusiasmo. Até mesmo a limpeza do prédio, palco e varrição do salão  ficavam por conta dos atores que se revezavam nas tarefas.
Os espetáculos tinham público cativo que pagava preço módico. Nenhum membro recebia qualquer pagamento, investia-se tudo na compra de equipamentos de efeito (luzes e fiação), na manutenção do prédio, e como obra pia foram utilizados recursos na construção de um túmulo para as Filhas de Maria e na aquisição de alimentos para pessoas pobres.
A propósito, tínhamos até bem pouco tempo um magnífico grupo teatral denominado “Contracenação”, que presumo ter sido dirigido pelo Magno Calixto e Itami de Morais. Sinceramente não sei dizer se o grupo foi extinto ou apenas se acha adormecido. O fato é que Canindé necessita desses atrativos que servem de diversão sadia e educativa para o público, além de disciplina e aprendizado para seus membros. É imprescindível que seja revitalizado, afinal, o espetáculo tem que continuar, e o respeitável público agradecer em forma de aplauso.


Atores em cena - 1953



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