segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

SONETO

QUIXOTISMO

Pedro Paulo Paulino

Quisera ser às vezes Dom Quixote,
De escudo e lança e rígida armadura,
Ir pelo mundo à cata de aventura,
Montado em Rocinante a todo trote;

Velar por minha amada em noite escura,
Fazer de alguma estrela o meu archote,
E ter da fantasia o extremo dote,
Como o da triste, singular figura.

Mas para ser Quixote cavaleiro,
Se por um lado tenho Rocinante,
Por outro lado falta-me escudeiro.

E ainda tendo-os, abandono a ideia
Por falta do não menos importante
Fundamental amor de Dulcineia. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SONETO

AOS PASSARINHOS

Pedro Paulo Paulino

Mantenho todo dia um ritual
Que intimamente faz-me muito bem:
Arremessar mancheias de xerém
Aos passarinhos livres no quintal.

E logo um bando alegre de aves vem
Pousar, ruflando as asas, no local.
Dentre elas, o canoro cardeal
E os bem-te-vis que ali pousam também.

Se os passarinhos, por sinal, têm crença,
Talvez ser livre seja a crença deles,
E semelhante é nossa recompensa:

Vendo-os libertos de gaiola ou grade,
Identifico-me demais com eles,
Pois é também meu credo a Liberdade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

TRAGÉDIAS

Pedro Paulo Paulino

A “pátria de chuteiras” veste luto
Às vítimas fatais de Chapecó.
Há pranto, há crepe, desespero e dó,
Em face do sinistro atroz e bruto.

Um clube inteiro e um destino só,
Um sonho rudemente dissoluto
No espaço tão pequeno de um minuto
– E vida e alegria viram pó.

Também na mesma pátria, é madrugada,
Outra tragédia, embora anunciada,
Não menos desastrosa e infeliz,

Ocorre no Congresso às escondidas,
Na forma de propostas e medidas
Contrárias aos destinos do país.

domingo, 20 de novembro de 2016

HISTÓRIA


ZUMBI E A ESCRAVIDÃO

Pedro Paulo Paulino

O dia 20 de julho é dedicado a Zumbi, o mais famoso herói do Quilombo dos Palmares, morto em 1695. O quilombo, situado na região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, Alagoas, resistiu por quase um século e se desfez em 1710. Dessa época até a abolição da escravatura ainda se passaram quase dois séculos, pois o Brasil foi um dos últimos países a libertar os cativos. Não há registro, na história humana, de genocídio maior do que o praticado durante centenas de anos contra os negros traficados da África, principalmente para as colônias imperiais nas Américas. Tratados como bichos – para usar uma comparação grosseira, uma vez que os bichos também devem ser tratados com dignidade – os escravos eram submetidos aos mais cruéis tratos, suplícios e torturas. Eram trancafiados em senzalas, marcados a ferro em brasa e trabalhavam brutalmente sem ganho.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CRÔNICA

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

Freitas de Assis*

Escorre por entre os dedos a areia do tempo e tantas pessoas cruzam nossa estrada da mesma forma, que um dia cruzamos a delas. Sem nem mesmo imaginar que figuras de histórias alheias possam um dia estar diante de nossos olhos, passamos a ouvir e supor como esta ou aquela bravata se desenrolou de fato, que fatos apontados são reais e quais são mera licença poética ou mesmo uma lorota de indômita juventude.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

INDULTO DOS PASSARINHOS

Pedro Paulo Paulino

É cruel, sem coração,
Quem por si mesmo condena
Um passarinho à prisão,
Sem crime cumprindo pena.
É triste ver o bichinho
Preso longe do seu ninho,
Sem ninguém para o soltar.
Réu inocente, indefeso,
Que canta quando está preso,
Porque não sabe chorar.

E se soubesse, talvez
Praticava a própria morte,
Para se livrar de vez
De tão miserável sorte!
Porém, não! Seu negro fado
É penar encarcerado
Na detenção que o priva
De curtir a natureza
Em toda a sua grandeza
Tão bela e convidativa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

OBITUÁRIO

LUTO NAS LETRAS CEARENSES


Morreu na manhã de hoje, em Fortaleza, aos 72 anos, o médico e escritor Ray Silveira. Nascido em Massapê, Ceará, autor premiado nacionalmente e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), Silveira destacou-se na crônica e no conto, publicando pelo menos quatro livros, além de diversos artigos e ensaios em jornais, revistas e sites.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

SONETO

PARAGEM FINAL

Pedro Paulo Paulino

No Bonde da existência, em que viajamos,
Existe uma parada obrigatória:
Epílogo da nossa trajetória,
É para lá que nos encaminhamos.

E pouco importa o infortúnio ou glória,
Lauréis que porventura conquistamos,
Pois fatalmente ali nos despojamos
Das ilusões da vida transitória.

Mais cedo ou tarde, do fugaz transporte
Nós desceremos, um por um, sem trégua,
Nesse endereço e última morada.

Ao passo que no Bonde, a mão da Morte
Segue apontando com a sua régua
Quem descerá na próxima parada.

CRÔNICA

O CEMITÉRIO SECULAR DE CAMPOS


Pedro Paulo Paulino

O cemitério de Vila Campos tem um século e alguns anos mais de existência. Durante decênios funcionou como destino último quase exclusivo da gente do lugar e só de tempos a tempos testemunhava um funeral. Reduzido e muito simples, foi construído em terras de Júlio Paulino Gomes, coração dos mais humanitários que já vieram a este mundo e hoje ali ‘descansa dessa longa vida’. A conservação da velha necrópole ficava também sob seu encargo filantrópico, afora outras ações próprias de um benfeitor.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DIA DE FINADOS

FAMOSOS SEM SEPULTURA

Pedro Paulo Paulino

No dia consagrado aos mortos, vem-me à reflexão aqueles que se foram e não tiveram o abrigo digno de uma sepultura. Isto vale tanto para os anônimos quanto para as celebridades. No primeiro grupo, existe uma numerosa quantidade de pessoas, incluindo as vítimas de epidemias, acidentes aéreos de grande proporção e os mortos na guerra, por exemplo. No grupo das pessoas famosas, dentre outros, pelos menos dois grandes vultos universais não deixaram seu endereço final.
De Camões, lê-se que: “Entre 1579 e 1581 grassa em Lisboa, mais uma vez, violenta peste. A morte sobrevém em quatro ou cinco dias. No meio do caos reinante, com a acumulação de cadáveres para ser inumados, o corpo de Camões é apenas envolvido numa mortalha e lançado, com os de outras numerosas vítimas da epidemia, na cripta da Igreja de Santa Ana. Um terremoto em 1755 destrói o templo e mistura ainda mais as ossadas que sob ele jazem. Em 1880 todos os despojos que ali se encontram são levados para o Panteão dos Jerônimos, onde ficam sepultados, na esperança de que entre eles estivessem os restos do maior poeta português”. No dia da morte do autor de Os Lusíadas, 10 de junho de 1580, O historiador Diogo do Couto limitou-se a esse necrológio: “Em Portugal morreu este excelente poeta em pura pobreza”.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DATA


ERA UMA VEZ O SACI PERERÊ…

Pedro Paulo Paulino

Qual o menino de hoje que conhece o Saci Pererê? Qual o adulto que se lembra dele? Pois hoje, 31 de outubro, é o dia dedicado ao Saci, um dos personagens mais populares do folclore brasileiro. Para infelicidade do negrinho de uma perna só, hoje também é o Dia das Bruxas, ou Halloween, uma festa típica do folclore dos países anglo-saxônicos, mais especialmente dos Estados Unidos.
No Brasil, de algum tempo para cá, celebrar o Dia das Bruxas vem se tornando um costume, principalmente nas escolas. Eu mesmo não sei por que nem entendo como esse costume adaptou-se ao nosso calendário. Já temos de quase tudo enlatado em nossa cultura, da música à moda, do cinema à gastronomia. Até falamos uma língua enlatada, o inglês, que nos é empurrado de goela abaixo, e com mais força ainda pelas garras da informática. Neste momento, suponho que no campo da eletrônica, a única palavra que falamos em português é computador; todo o resto da nomenclatura eletrônica vem do inglês.
Acontece que por último estamos também importando folclore. Um vez mais não sei por quê, haja vista a rica variedade de folclore tipicamente brasileiro, com suas representações em cada região e em cada estado. A riqueza de costumes e lendas no Brasil é incontável, com raízes seculares. A lenda do Saci, por exemplo, data de fins do século dezoito e seu nome tem origem no Tupi Guarani, que, aliás, deveria ser essa a nossa língua oficial. O nome Pererê tem ainda uma grande variação, como Cererê, Saçurá, Matimpererê e outros. “Diz a lenda que, se alguém jogar dentro do redemoinho um rosário de mato bento ou uma peneira, pode capturá-lo, e se conseguir sua carapuça, será recompensado com a realização de um desejo.”

sábado, 8 de outubro de 2016



MAGIA E DEVOÇÃO NO PARQUE

Há 31 anos o Parque do Airton é atração nos festejos de Canindé.
E o dono, um romeiro fervoroso de São Francisco.

Pedro Paulo Paulino

José Airton de Sousa tinha apenas nove anos quando a primeira vez veio a Canindé como romeiro de São Francisco. Desde então ele assumiu um compromisso pelo resto da vida: nunca mais perder a festa do padroeiro dessa cidade do Sertão Central cearense que abriga o maior santuário franciscano das Américas e recebe por ano cerca de um milhão e meio de peregrinos. Ele conta, no entanto, que já nessa época trabalhava como ajudante de parque – e esse foi um fator determinante na sua caminhada profissional.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

SONETO

HISTÓRIA DE FRANCISCO

Pedro Paulo Paulino

O jovem que nascera em berço nobre,
Do mundo tinha tudo o que queria:
Conforto, amigos, festa, regalia...
No bolso nunca lhe faltava o cobre.

Mas, de repente, o moço se descobre
Tomado de um fervor que o mudaria.
Despoja-se dos bens que possuía
E com molambos o seu corpo cobre.

Reúne-se aos mendigos e aos enfermos,
Pratica penitência pelos ermos,
Falando às irmãs aves no caminho.

Toma a pobreza como companheira,
E quando o corpo abraça-se à poeira,
Nasce em Assis o Santo Pobrezinho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

LIVRO

Lançamento: 09/09/16, às 20h, no BNB Clube de Canindé, Ceará


HUMOR NOSSO DE CADA DIA

Pedro Paulo Paulino

Certa vez, a companheira do Jota Batista sofreu um acidente provinciano: foi atropelada na rua por um cavalo em disparada guiado por um cavaleiro bêbado.
À noite, numa roda de amigos, o Jota nos detalhava o fato, dizendo que a vítima tivera fratura no braço e resolvera queixar-se na polícia contra o dono do cavalo.
Um silêncio, e alguém pergunta:

domingo, 21 de agosto de 2016

CRÔNICA


O ENTERRO DE UMA TRADIÇÃO

Pedro Paulo Paulino

Há mais de cem anos que em Vila Campos, interior de Canindé, no mês de agosto realiza-se a festa de São Roque, padroeiro da povoação. Nesse período, o lugarejo engalana-se, feliz, acima de tudo, por acolher seus filhos que, por circunstâncias da vida, separam-se a maior parte do tempo. É o momento de alta estação na vida do lugar. Hora do reencontro fervoroso de familiares e de amigos. Hora de festejar tradições e honrar costumes, homenagear entes queridos e rememorar coisas que vão ficando na esteira do tempo. A maioria de nossos parentes mora em Fortaleza ou fora do estado. Mas não há distância nem dificuldade que os impeça de comparecer ao encerramento dos festejos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CORDEL


AS DESVENTURAS DE UM JOVEM
CAÇADOR DE POKEMON

Pedro Paulo Paulino

Tem cada coisa na terra
De arrepiar o cabelo.
O mundo vive hoje em dia
Em tão grande desmantelo,
Que parece estar no fim.
Foi aceso o estopim
E não resta mais apelo.

Depois do ano 2000,
Três lustros atravessamos,
E cada coisa absurda
Hoje nós testemunhamos,
Cada coisa sem razão,
Que fugiu da previsão
Do profeta Nostradamus.

É grande e maravilhosa
Nossa tecnologia.
Mas em vez de conquistar
Juízo e sabedoria,
O homem se banaliza,
Degrada e desvaloriza
O que o próprio homem cria.

A nossa modernidade
Produziu a geração
Escrava do forró ruim,
Sertanejo assombração,
E só curte tal estrume
No derradeiro volume
De um nojento paredão.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TRADIÇÃO


PROCISSÃO DOS VAQUEIROS MARCA
INÍCIO DA FESTA DE SÃO ROQUE 

Uma procissão com cerca de cem vaqueiros montados a cavalo marcou na tarde desta quarta-feira a abertura da festa de São Roque em Vila Campos, zona rural de Canindé. O percurso de um quilômetro entre Campos Novo (BR 020) e Campos Velho encerrou-se com uma missa campal em frente à capela da localidade. Peregrinos também acompanharam a procissão, entoando cânticos e conduzindo o painel com a imagem do padroeiro.
Durante o dia, os vaqueiros participaram de uma confraternização na casa de Cosme Paulino Viana, que aos 88 anos é um dos vaqueiros mais antigos dos sertões de Canindé. Conhecido pelo apelido de “Prefeito”, Cosme Paulino é um dos símbolos vivos da festa de São Roque, evento religioso que tem mais de um século de tradição. “Desde menino que acompanho nossa festa. Por isso, faço questão de receber em minha casa meus colegas vaqueiros e amigos”, afirma.
Durante o novenário, comunidades circunvizinhas participam da programação festiva, que este ano tem como tema “São Roque acolhe os doentes com misericórdia”. Segundo os organizadores, o calendário de realização da festa sofre alteração anualmente, permitindo que o encerramento aconteça num fim de semana. “Quem incrementa nossa festa são nossos familiares que moram fora e só podem participar nos fins de semana. Portanto, convencionamos em adaptar a data”, explica Verônica Paulino, uma das organizadoras. O dia de São Roque é celebrado pela igreja católica em dia 16 de agosto.
As festividades em Vila Campos encerram-se no próximo dia 20, com missa festiva às nove da manhã, seguida de procissão com o painel de São Roque no pátio da localidade e leilão beneficente na quadra da Casa Paroquial.

Texto/fotos: Pedro Paulo Paulino




segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SALVE AGOSTO!

Pedro Paulo Paulino

Quem foi que disse: “agosto é mês do azar”?
Se não há nele diferença alguma.
O mesmo Sol rompendo a treva e a bruma
Renasce a cada dia sem cessar.

As coisas acontecem, uma a uma,
Em qualquer tempo ou em qualquer lugar;
A mesma estrada vamos palmilhar,
Sem nada novo sob o Sol, em suma.

Agosto de quem nasce e de quem morre,
Do riso e da tristeza; pois suposto
Ser mês de mau presságio, tudo ocorre

Como nos outros meses. Isso posto,
Abaixo o preconceito que decorre
Da sem-razão, e salve o mês de agosto!

quarta-feira, 20 de julho de 2016

RITO CELESTIAL

Pedro Paulo Paulino

Nos céus repete-se adorável rito:
É noite de mais uma Lua cheia.
Somente alguma estrela no infinito
Timidamente ante o luar vagueia.

Resto de nuvem que desliza aflito
Recorda vagamente uma sereia.
O dobre do silêncio é quase um grito,
Nos ermos ao redor da minha aldeia.

A noite cresce ingênua e compassiva,
E quanto mais a noite se condensa,
Mais vai ficando bela a Lua altiva.

Por fim, na paz do seu clarão enorme,
– Que todo o afã do dia recompensa –
Descansa a terra e a própria noite dorme.

domingo, 17 de julho de 2016

FILOSOFIAS

Pedro Paulo Paulino

Desde as remotas eras tem-se visto
A busca infinda da filosofia
Definitiva, e tudo é utopia
Sofismadora – nada mais que isto.

Desde os filósofos de Alexandria;
De Sócrates, Platão a Jesus Cristo;
Ou do sucinto “Penso, logo existo”
Aos profundos conceitos de hoje em dia,

Jamais se chega ao marco decisivo.
Nada liberta o homem da dramática
Angústia de se ver no mundo a esmo.

E sábio, sim! é quem, por lenitivo,
Dentre as filosofias põe em prática
A de viver em paz consigo mesmo.