quarta-feira, 1 de abril de 2020

QUANDO O DIA DA MENTIRA SE TRANSFORMAR EM VERDADE


Hoje é Dia da Mentira,
Se não lembra, então anote.
Por isso, por brincadeira,
Vamos pegar esse mote,
E para suavizar,
Vamos a datar chamar
De simples Dia do Trote.

Hoje é dia da potoca,
E pra festejar o dia,
Vamos mentir um pouquinho,
Porém, mentira sadia.
Começando então agora
Com a notícia da hora:
Acabou-se a pandemia.

Depois de longa batalha,
Foi feliz o arremate
Da ciência contra o vírus
Que nesse duro combate
Perdeu seu poder de fogo,
A ciência vira o jogo
E lhe dá um xeque-mate.

O vírus não mata mais,
Foi erradicado o mal,
Através de uma vacina
Contra o contágio letal.
Felizmente o ser humano
Retoma o cotidiano
E o mundo volta ao normal.

Na manchete do jornal
Lê-se em letras garrafais:
O fim do coronavírus
– Já matou, não mata mais!
Pois finalmente a ciência
Deu cabo da virulência
E o mundo respira em paz.

Nas colunas dos jornais
Lê-se também a notícia:
O Brasil, pra se viver,
Está mesmo uma delícia,
Com trabalho e com decência,
Não tem mais nem violência
E nem caso de polícia.

Acabou-se o desemprego,
Todos têm ocupação.
O país está nos trinques
E sem risco de inflação.
Ministro da economia
Só deseja hoje em dia
O bem da população.

Bozo, com educação,
Fala com os jornalistas.
Não é mais o presidente
Totalitário e fascista.
E pra melhor governar,
Pretende se filiar
Ao Partido Comunista.

O “gado” não veste mais
O terno verde amarelo.
Estão todos de vermelho,
Calçando apenas chinelo;
Modificou a divisa
E a marca na camisa
São a foice e o martelo.

Cunha, Temer e Aécio
Não são mais os salafrários
Nem golpistas descarados
Nem bandidos ordinários.
E a classe trabalhadora
Terá da classe opressora
Triplicados seus salários.

Reforma da Prefidência
Mudou em todos sentidos,
Os seus pontos já não são
Nem sequer mais parecidos,
Porque vai daqui pra frente
Beneficiar somente
Os mais desfavorecidos.

Donald Trump resolve
Pedir paz à terra inteira.
Não é mais rival do México,
Acabou toda fronteira.
Fez as pazes com Iraque
E não mais fará ataque
Contra a terra petroleira.

A paz será a bandeira
Para toda a humanidade.
Não há mais desunião,
Só amor, fraternidade.
Tudo isso está na mira
Quando o Dia da Mentira
Se transformar em verdade!...

quinta-feira, 26 de março de 2020

CRÔNICA DOS DIAS DE INSULAMENTO


Pedro Paulo Paulino

A cidade amanhece e anoitece vazia. Os dias, de domingo a domingo, assumiram rosto de grande feriado como a Sexta-feira Santa. A paz e o silêncio, de mãos dadas (esses podem dar-se as mãos!) passeiam nas vielas, ruas e avenidas; sentam na praça, embora nada conversem, pois o silêncio e a paz entendem-se telepaticamente. O vento, a luz, as borboletas também se locomovem livres nos labirintos desses vários mundos a que chamamos cidades e que são ordinariamente território estrondoso da agitação, do vozerio e dos decibéis invasivos da parafernália humana.

Nesses dias incomuns e longos, quem por força das circunstâncias não deve transitar em plena liberdade são os verdadeiros donos desses habitats: os humanos, tolhidos repentinamente em seu vaivém eterno em busca do tudo e do nada num só tempo. Um inimigo que de tão pequeno é invisível nos manietou. E nos enjaulou em nossos tugúrios de pedra e nos fez reféns da espada diabólica de uma peste mundial, eufemisticamente chamada de pandemia.
A humanidade, em seu tumulto incessante, em sua atividade formidável, não contava decerto com a astúcia de um serzinho a princípio insignificante e sua invasão insidiosa nos domínios do fenômeno humano.

De repente, um verme inconcebivelmente mau agarra o mundo e o bota de ponta-cabeça. Um profeta apocalíptico que estaciona o sol do trabalho, do progresso e da dinâmica da vida dos homens. Um intruso que altera comportamentos, regras, etiquetas e dita novas ordens contrárias mesmo ao bom senso. Ser solidário agora, por incrível que possa, é não estender a mão, é se afastar um do outro e se enclausurar dia e noite. Ser bonzinho agora é ficar distante do próximo, por contraditória que seja esta afirmação.

Em meio ao dilúvio pandêmico, convertemos nossos lares em arcas salvadoras, e dentro delas não sabemos ainda quando pisaremos terra firme, se em quarenta dias ou menos ou mais. Insulados, estamos testando nosso estoicismo, nossos princípios e crenças hipoteticamente inabaláveis.

No epicentro do pandemônio, adaptação tornou-se a palavra de ordem. E assim, usos e costumes e coisas vêm-se amoldando a esses dias tão incertos. Nos estádios esportivos transformados em emergência, entra em campo o time operoso a serviço da saúde pública, numa partida nervosa contra o adversário sinistro. Nas arquibancadas, somente o tempo e a esperança assistem de camarote ao duelo dos exércitos da salvação contra o gladiador virulento, numa batalha singular.

segunda-feira, 23 de março de 2020

CORONAVÍRUS TORNOU-SE A PIOR CELEBRIDADE!


















Autor: Pedro Paulo Paulino

O nome mais conhecido
Neste mundo, atualmente,
Não é papa nem artista,
Não é rei nem presidente.
É um bichinho invisível
Que com seu poder incrível
Vem matando muita gente!

Embarca pra todo canto,
Sem nunca pagar passagem.
Em tudo quanto é veículo,
Ele faz sua viagem,
Sem precisar passaporte,
Com a companheira morte
Na sua cruel bagagem.

Surgiu no mês de dezembro,
Lá pelos confins da China.
Seja qualquer território
Onde ele passa domina.
Não teme calor nem frio
E tornou-se um desafio
Pra moderna medicina.

Descobrir uma vacina
Contra o bicho, eis o problema
De difícil solução
Nessa conjuntura extrema!
Com a fúria de um demônio,
Não se viu tal pandemônio
Nem nas telas do cinema.

Qual Besta do Apocalipse
Velozmente galopando,
Por todos os continentes
Ligeiro foi se espalhando.
Contamina até no vento,
Por isso a cada momento
Vai-se o mal multiplicando...

Coronavírus não tira
Um momento de descanso.
Nada no mundo detém
Seu assustador avanço.
E no ponto a que chegou,
A pandemia fechou
O mundo para balanço.

Já invadiu toda a Itália
Da famosa Mona Lisa,
Foi à Praça de São Pedro
Subiu a Torre de Pisa.
Até o Papa Francisco
Está no grupo de risco,
Pois o vírus não alisa.

Detesta a terceira idade,
Com quem é mais violento.
Tornou-se um grande flagelo
Num mundo já virulento,
Com os seus terríveis danos
Provocando entre os humanos
Muito mais isolamento.

Opera feito um danado,
Não sabe o que é preguiça.
Como embaixador do mal,
Seu tempo não desperdiça.
Por causa dele, nem mais
Tem o abraço da paz
Na hora da santa missa!

Com seu poder diabólico
O Atlântico atravessou,
Até com a comitiva
Do Planalto viajou,
E em dada ocasião,
De mala e cuia na mão
No Brasil desembarcou.

No país que um arrogante
No poder fala mais alto,
Coronavírus chegou
E foi logo dando um salto.
Só faltou salva de tiros
Para receber o vírus
No Palácio do Planalto.

Pois o presidente então,
Com toda a sua arrogância,
Fez foi manifestação
Na mais grave circunstância,
Como um louco que, afinal,
Não dá ao terrível mal
Sua devida importância!

Se lá nos países ricos
Causa tanto prejuízo,
Imagine em um país
Onde um biltre sem juízo
Governa arbitrariamente;
O corona, certamente,
Encontrou seu paraíso.

De que valem das nações
Seus poderes militares,
E dos Estados Unidos
As ogivas nucleares,
Se o mundo fica refém
De um vírus que apenas tem
As funções rudimentares?...

O corona não distingue
Primeiro e terceiro mundo.
Igualou a humanidade
Num desespero profundo,
Velozmente se espalhando,
Multidões contaminando
A cada simples segundo.

Colabore na campanha
Que por ora se promove.
O vírus se espalha mais,
Se o povo se locomove.
Fique em casa enquanto passa
A temível ameaça
Da covid-19.

E que sirva de lição
Para toda a humanidade,
Escrava do capital,
Longe da fraternidade.
Basta um vírus, simplesmente,
Pra desbancar de repente
A nossa pobre vaidade!...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UM GRILO QUE HOJE PÁRA DE CANTAR



Pedro Paulo Paulino

Enterrou-se esta manhã, no cemitério de Vila Campos, o corpo de Francisco Edilson Uchoa Cruz. Por este nome completo, poucos, até mesmo entre seus conterrâneos, o identificam. “Grilo”, na verdade, foi seu nome de guerra, desde que nasceu. O apelido, reconheça-se, foi um dos mais premonitórios. Pois durante toda a sua vida, Grilo justificou com absoluta espontaneidade a alcunha que recebera ainda no berço e com a qual se tornou um tipo bastante popular.
Tagarela, seu barulho era inversamente proporcional à sua estatura de homem pequeno. Porém, agigantava-se interiormente quando tocado pelos eflúvios etílicos – aos quais se entregou de vez. Inebriado, fazia barulho por todos os grilos do mundo, em especial quando era provocado. Seu tipo jocoso, extrovertido e agradável o fez conhecido na parada de Vila Campos, interior de Canindé. Tornou-se o mascote da beira da estrada, no local onde pontuou por tantos anos.
Fazendo incontáveis amizades com transeuntes habituais, Grilo era querido por todos, visto que se tornou uma atração, incorporando-se à rotina do vilarejo. De modo generoso, fazia o papel também de cicerone, informando caminhos e distâncias, com uma gentileza amável. As gorjetas que ia acumulando durante o dia subsidiavam a sua “tequila”. No quente da carraspana, mentalizava-se um hércules, vigoroso, bravo, o que só o tornava ainda mais cômico. Satisfazia-se em fazer rir, como um saltimbanco rústico, cujo palco era a vida livre. Instigado pela gaiatice geral, sucediam-se, nessas circunstâncias, cenas e lances da mais pura e boa molecagem cearense. Ganhou fama também na cidade, citado como foi em programas rádio.
Grilo tinha seu mundo, seus amigos, suas paixões e convicções; exaltava-se, mas era nobre, leal e puro. Abdicou de tudo em troca de uma existência erradia, que durou seis décadas, num combate sem trégua consigo próprio, feito mesmo cantiga de grilo. Seu cricri agora é saudade. Capitulou sem se lastimar; do contrário, agradeceu aos que o assistiram, pois em seus últimos dias, não lhe faltaram a bondade e o carinho de familiares e amigos. Seu enterro, na manhã bucólica de hoje, realizou-se enquanto chovia – talvez uma última saudação da natureza ao Grilo humano que já não canta mais...


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

SONETO PREMIADO


Em outubro deste ano, inscrevi-me no Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. Em sua 28ª edição, o certame teve mais de 500 obras inscritas, entre poesias e sonetos. O evento para divulgação oficial dos nomes dos ganhadores aconteceu na noite de 29 de novembro. Meu soneto intitulado 𝑸𝒖𝒊𝒙𝒐𝒕𝒊𝒔𝒎𝒐 obteve o segundo lugar entre os cinco melhores, segundo a comissão julgadora. Além de certificação, os vencedores receberam uma premiação em dinheiro. A mim, particularmente, o que mais me honra é ganhar um prêmio com o nome de um gênio da poesia que leio e releio desde minha puberdade. 

𝑷𝒐𝒓 𝒒𝒖𝒆 𝑳𝒆𝒐𝒑𝒐𝒍𝒅𝒊𝒏𝒂? Augusto dos Anjos nasceu na Paraíba em 1884, bacharelou-se em Direito em Recife e transferiu-se para o Rio de Janeiro para exercer o magistério. Em 1914, mudou-se para Leopoldina, indicado para dirigir o colégio estadual daquela cidade. Nesse mesmo ano, contraiu tuberculose e morreu, com apenas 30 anos. Em homenagem ao habitante ilustre, a cidade de Leopoldina mantém o Museu Espaço dos Anjos, que inclui objetos pessoais do poeta, e realiza anualmente o Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos. Aos idealizadores e organizadores do certame, sinceros parabéns pela iniciativa cultural em memória de um dos maiores poetas brasileiros! (Pedro Paulo Paulino)

QUIXOTISMO

Quisera ser às vezes Dom Quixote,
De escudo e lança e rígida armadura,
Ir pelo mundo à cata de aventura,
Montado em Rocinante a todo trote;

Velar por minha amada em noite escura,
Fazer de alguma estrela o meu archote,
E ter da fantasia o extremo dote,
Como o da triste, singular figura.

Mas para ser Quixote verdadeiro,
Se por um lado tenho Rocinante,
Por outro lado falta-me escudeiro.

E ainda tendo-os, abandono a ideia
Por falta do não menos importante
Fundamental amor de Dulcineia.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019


HUMBERTO DE CAMPOS – 133 ANOS

Pedro Paulo Paulino

Obra escolhida de Humberto de Campos,
lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda
No dia 25 de outubro de 1886 nascia Humberto de Campos Veras, na então cidade maranhense de Miritiba. Autodidata, foi poeta, contista e crítico literário. Mas se destacou como o cronista mais lido na década de 1920 e começo dos anos 30, na imprensa do Rio de Janeiro, para onde mudou-se depois de trabalhar como caixeiro na bodega de um tio, na Parnaíba, Piauí. Menino pobre, órfão de pai aos seis anos, descobriu o talento literário ainda em sua pequena Miritiba que hoje se chama Humberto de Campos. Sua obra completa inclui crônicas, contos, poesia e memórias. Aos 33 anos entrou para Academia Brasileira de Letras. Também com o pseudônimo de Conselheiro XX, assinou escritos que atraíram grande público. Humberto de Campos foi um dos escritores brasileiros mais lidos em seu tempo e suas obras tornaram-se presentes nas bibliotecas de todo o País, algumas sendo adotadas em escolas públicas. Sua notável popularidade e identificação com o espírito nacionalista consagraram-no também na política, elegendo-se deputado federal pelo Maranhão. O estilo conservador de escrever, embora numa linguagem bem acessível e dinâmica, entrou em confronto com os ditames da Semana de Arte Moderna de 1922; mesmo assim, conseguiu romper a fronteira entre o velho e o novo na literatura feita no Brasil, e por isso seu nome ainda hoje encontra visibilidade. Segundo Humberto de Campos Filho, que a exemplo do pai seguiu a carreira jornalística, ele foi um homem que sempre viveu modestamente e inteiramente dedicado à vida literária. Essa revelação está na obra escolhida de Humberto de Campos, lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda., composta de dez dos 40 volumes da bibliografia completa do escritor maranhense. No primeiro volume, Poesias completas, Humberto de Campos Filho relata detalhes da vida do pai, reconhecido largamente em seu tempo, pelo público e pela crítica, mas em constante preocupação com a notoriedade no futuro. “Eu queria a vida para consagrá-la principalmente às minhas letras; à realização de uma obra que trazia no pensamento. Isso tornou-se impossível. E minhas horas são consumidas, todas, na conquista do pão de cada dia”, desabafa Humberto de Campos em seu Diário secreto. Em 1986, foi lançado pela Universidade Federal Fluminense – EDUFF, o livro O miolo e o pão, em homenagem ao centenário de Humberto de Campos, com estudo crítico e antologia do autor de O monstro e outros contos e um dos artistas nordestinos mais populares da literatura brasileira. O título do livro alude a outra citação de Humberto: “Passou a vida a insistir no comércio mais idiota deste mundo: vendia miolo da cabeça para comprar miolo de pão” (Os Párias). Humberto de Campos morreu no dia cinco de dezembro de 1934, aos 48 anos, deixando mulher e três filhos. Durante muito tempo lutou contra uma doença rara chamada acromegalia, um distúrbio na glândula hipófise. Problemas relacionados a cálculos na bexiga, no entanto, foram a causa de sua morte. Depois de uma operação para retirada dos cálculos, Humberto de Campos passou cerca de um ano urinando através de uma sonda implantada abaixo do umbigo. Depois desse período, uma nova cirurgia foi necessária para retirada da sonda. O pavor da anestesia raquidiana, que o já  traumatizara, fê-lo exigir do médico uma anestesia geral, a despeito dos riscos que corria. Morreu de um ataque do coração enquanto eram feitos os pontos da última sutura. Enxergou com profunda sensibilidade a vida, sendo-lhe poupado ver a própria morte.

CURIOSIDADES DE HUMBERTO DE CAMPOS

♦ Ainda existe na cidade piauiense de Parnaíba o cajueiro centenário plantado por Humberto de Campos e que inspirou uma de suas crônicas mais conhecidas.

♦ A biblioteca de Humberto de Campos, com alguns milhares de volumes, foi vendida pela família do escritor para o governo do Estado do Maranhão, por 40 contos.

♦ Ainda depois de morto, Humberto de Campos foi motivo de grande polêmica. Por volta de 1941, novas publicações assinadas por ele, como “psicografadas” por Chico Xavier e editadas pela Federação Espírita do Rio de Janeiro, ganharam grande popularidade em todo o Brasil, fazendo com que a família do escritor movesse uma ação judicial reivindicando direitos autorais. A família perdeu a causa.

♦ No final dos anos 50, o nome de Humberto de Campos é estampado novamente na imprensa. O anúncio da publicação do seu Diário secreto causa alvoroço no meio intelectual brasileiro. Mesmo assim, seu diário é publicado em fascículos pela revista O Cruzeiro e depois editado em dois volumes.

♦ Na edição de 3 de setembro de 2008, a revista Veja trazia em sua coluna “Radar”, assinada pelo jornalista Lauro Jardim, a seguinte nota: “VENDE-SE UM FARDÃO - Serão leiloados nos próximos dias no Rio de Janeiro o fardão e o espadim da Academia Brasileira de Letras usados pelo escritor maranhense Humberto de Campos. O lance mínimo é de 30. 000 reais – aliás, o mesmo preço de um fardão novinho em folha. A vestimenta tem quase noventa anos e estava guardada desde 1934, quando Campos morreu. Quem tiver a intenção de desfilar por aí fantasiado de imortal não deve perder a oportunidade. Não é todo dia que se consegue um fardão original, até porque a maioria dos acadêmicos é enterrada com seus trajes de gala”.

♦♦♦

"
RODOLFO TEÓFILO

Humberto de Campos

QUANDO eu conheci Rodolfo Teófilo, em 1906, tinha ele já sua grande barba toda grisalha. Era um homem alto, magro, de rosto fino, que a barba tornava mais longo, e que vivia enrolado em uma sobrecasaca negra, abotoada de cima a baixo. Fantasiado assim de guarda-chuva, trazia, para evitar equívocos, outro guarda-chuva na mão. E eu confesso que, desde que o vi pela primeira vez, senti uma comovida simpatia por aquele homem, ao mesmo tempo que recebia uma impressão funda, e segura, da sua capacidade de sonho e de fé. Um homem que anda de guarda-chuva no Ceará, dispõe, necessariamente, de uma grande força de imaginação.
Era isso nos dias mais ingratos da existência do romancista. Dividido em dois agrupamentos políticos, o Ceará fervia, desde as praias do mar até às chapadas do Cariri, de entusiasmo e de indignação partidárias. As penas dos jornalistas ciscavam, no papel branco dos jornais, pondo à superfície dele, com as paixões próprias, os vícios ou defeitos dos adversários. Sem descer às discussões pela imprensa, Rodolfo Teófilo havia ficado, como eleitor, em oposição ao governo do Estado. O melhor governo é, sempre, no Brasil, o do partido que vai subir. E Rodolfo Teófilo era brasileiro e possuía, como todo brasileiro, espírito messiânico.
Essa definição de atitude custou, todavia, caro, ao velho sonhador. Lente de História no Liceu Cearense, foi removido imediatamente, como castigo, para a cadeira de grego. Debalde protestou ele contra essa confusão, alegando, como coautor da “Bo­tânica Amorosa”, que as raízes gregas nada têm com as dos vegetais. O governo manteve o ato. E Rodolfo Teófilo, que não sabia grego, foi demitido por abandono do cargo, exposto a todas as conseqüências de uma pobreza honrada, corajosa e inflexível.
Para viver, foi fabricar, então, na sua chácara de Cauípe, vinho de caju, cuja fermentação e filtragem aperfeiçoou, e que tomou, no comércio, a denominação de “néctar”. Aquela abelha não fabricava senão mel. Doce de alma e doce de coração, escolheu, para explorar, a mais doce e amável das indústrias. Não sabia grego, mas era um irmão de Aristeu, isto é, do primeiro grego que domesticou abelhas.
Não foi, todavia, na sua indústria, mas no seu apostolado, que o governo cearense passou a atacar o venerando e suave trabalhador. Toda a vez que a seca se manifesta­va no sertão, a companheira da fome era, sempre, a varíola. Farmacêutico, Rodolfo Teófilo chamou a atenção das autoridades sanitárias para a vacinação intensa. A ciência provinciana não admite, porém, insinuações. Só os oposicionistas fazem observações públicas ao governo ou aos seus auxiliares. E Rodolfo Teófilo passou a figurar no índex governamental.
Seu coração não se conformava, entretanto, com a devastação que a varíola fazia no Ceará. Menos para afrontar o governo do que para substituí-lo no exercício de um dever caprichoso, passou a vacinar, por conta própria, nas vizinhanças da capital. Adquiria vitelos, e fabricava uma das melhores vacinas do Brasil, a qual era distribuída gratuitamente pelos médicos locais que a pediam, ou enviada, independente de remuneração, para os Estados vizinhos. O governo do Estado multou-lhe o laboratório. E como se isso não bastasse, o órgão oficial do partido governista fazia contra a vacina utilizada pelo filantropo a mais terrível e desumana das guerras, aconselhando a população que a não aceitasse, porque era venenosa e causava a morte!
Não obstante essa campanha, Rodolfo Teófilo não esmorecia. Com a sua voz mansa, os seus olhos bons, e a sua derramada barba de apóstolo, andava de casa em casa, pedindo licença para premunir a família contra a epidemia reinante. Vacinada a maior parte da população da capital, passou ele, com a mesma dedicação, a exercer o sacerdócio entre a gente do interior. Escanchado em um burro, e levando como bagagem científica apenas a caixa de soro e alguns remédios suplementares, atirou-se para os municípios mais próximos solicitando, de choça em choça, de fazenda em fazenda, de povoado em povoado, permissão para vacinar as pessoas que ali moravam. Os caboclos o recebiam, quase sempre, com acentuada desconfiança, quase com hostilidade. E foi, então, quando, segundo se contava no sertão, Rodolfo Teófilo inventou uma linda história cristã, que teria repetido mil vezes, nos terreiros das cabanas e nos alpendres das casas de campo. Mais tarde, ele contestou, em carta que me escreveu, a paternidade do conto. A defesa foi, porém, tão frágil que me pareceu uma confirmação.
“Há muitos anos, — começava, foi uma grande cidade, capital de um grande reino, atacada pelas bexigas, que mataram quase toda a população. Dentro de pouco tempo estava a cidade quase deserta. Quem não morreu, fugiu, abandonando casa, fazenda, riquezas, tudo. Havia, entretanto, entre o povo, um homem muito bom, que, tendo perdido já todos os parentes, resolveu deixar a terra empestada. Arrumou a sua roupa, e partiu. Assim, porém, que chegou fora da cidade, encontrou-se com uma mulher muito formosa, que puxava uma vaca toda preta, seguida de um bezerrinho, alvo como o algodão. A mulher, ao vê-lo, perguntou-lhe por que fugia. Como ele lhe explicasse, ela lhe pôs a mão no ombro, e disse: ‘Não tenhas medo, meu filho. Volta à cidade com esta vaca e este bezerrinho. Quando chegares lá, tira uma gota do seu leite e, com ele, faze três cruzes em cada braço, em todas as pessoas que se quiserem salvar. Toda aquela em quem fizeres isso não será atacada pela peste’. Aí, a mulher, que não era outra senão Nossa Senhora, desapareceu, enquanto que o fugitivo regressava ao ponto de partida, onde fez o que ela lhe havia dito, e salvou todo o resto do povo. Essa vaquinha — acrescentava o narrador, — teve depois outras crias, e é do sangue e do leite delas que eu trago algumas gotas, para salvar das bexigas os que são filhos de Nossa Senhora.”
O sertanejo, ainda desconfiado do homem, mas confiando em Deus, entregava prontamente o braço, e o braço dos filhos, e o da mulher. E foi por esse meio que Rodolfo Teófilo, sozinho, extinguiu a varíola, até hoje, no interior do Ceará.
E esse benemérito acaba de morrer... Há um homem de menos na terra. Mas há, a esta hora, — se o céu existe, — mais um justo entre os justos. (Destinos)

"

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O MUNDO ESTÁ SENDO VÍTIMA DE UMA LÍNGUA ENVENENADA



Autor: Pedro Paulo Paulino 

Em mais de quinhentos anos,
Nosso Brasil, certamente,
No reinado ou na república,
Nunca teve um presidente
Indecoroso, insultante,
Torpe, vil e arrogante,
Que nem esse no presente.

A cada dia que passa,
É mais feio o seu papel,
Pois só basta abrir a boca
Pra virar uma babel.
Fala como abobalhado,
Está sendo até chamado
De “língua de cascavel”.

Pra todo canto do mundo,
Que o presidente se vira,
Personagens importantes
Já estão na sua mira,
Os mais destacados vultos
São alvos dos seus insultos,
Do seu ódio e sua ira!

Parece até que o demônio
Mora no seu coração,
E sai pela sua boca
Cuspindo fogo no chão,
Assombrando o mundo inteiro,
Com seu horrível berreiro,
Igual uma assombração!

Causam revolta e repúdio
As suas declarações
Vexatórias ao Brasil
Perante várias nações,
Ferindo a diplomacia,
Provocando antipatia,
Pondo em xeque as relações.

Criou animosidade
Recentemente com França,
Que por longa tradição,
Com Brasil tem aliança.
Qual chocalho que badala,
A cada vez que ele fala
Vomita a pura lambança.

Feriu Brigitte Macron,
Primeira-Dama francesa,
Que foi alvo abertamente
Da sua indelicadeza.
Poço de deselegância,
O “Bozo” tem abundância
Da mais extrema rudeza!

Em troca do desaforo,
Aumentou a sua lista
Dos seus antipatizantes,
Incluindo muito artista.
E nas redes sociais,
Foi chamado até demais
De moleque e sexista.

Como uma metralhadora
Por um louco utilizada,
Da sua boca só sai
Palavra mal-educada.
E do fel da sua bile,
Agora foi alvo o Chile,
Que ao Brasil não deve nada.

Em todo tipo de mídia,
Todo o mundo agora vê
Os ataques que ele fez
A Michelle Bachelet
E a seu pai, morto em tortura,
Por conta da ditadura
Do tirano Pinochet.

Como se vê, nem defunto
É por ele respeitado!
É feliz, quem hoje em dia
Está de peito lavado,
E de modo consciente
Não votou pra presidente
Num louco despreparado.

Com exceção de Donald,
A quem faz salamaleque,
O presidente grosseiro
Só põe o Brasil em xeque.
Seu comportamento imundo,
Perante o resto do mundo,
É visto como moleque.

Enquanto, neste momento,
Países esclarecidos
Tentam salvar a Amazônia
Dos incêndios produzidos,
O presidente careta
Não passa de um proxeneta
Para os Estados Unidos.

Pelo voto irrefletido
De eleitores sem preparo,
O Brasil agora está
Pagando bastante caro!
Enquanto a merda prossegue,
Viraliza a 𝘩𝘢𝘴𝘩𝘵𝘢𝘨:
“#calabocabolsonaro”.

Nós brasileiros vivemos
Mais um governo cruel,
Com verniz de ditador,
Por isso eu uso o cordel
Como uma arma decente
De repúdio ao presidente
De língua de cascavel.
 

sábado, 24 de agosto de 2019

ZÉ ADAUTO BERNARDINO, BOIADEIRO DO SERTÃO


Homenagem do Blog, ao boiadeiro Zé Adauto Bernardino, dos Sertões
de Canindé, Ceará, que nesta data completa 75 anos de idade.


Autor: Pedro Paulo Paulino

Antigamente o sertão
Tinha cabra bom de gado,
Vestido em roupa de couro,
No seu cavalo montado.
No campo ou no tabuleiro,
Sendo mesmo um bom vaqueiro,
Dava conta do recado.

Porém essa tradição
Está ficando pra trás.
O sertão modernizou-se,
O tempo tudo desfaz,
De modo que hoje em dia,
Vaqueiro como existia,
No sertão já não tem mais.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A TERRA PEDE SOCORRO, SEM NUNCA SER ATENDIDA!



“Sou a Terra, sou a Mãe
De toda forma de vida.
Em todo canto do mundo,
Sou a casa garantida.
Mas de algum tempo pra cá
A minha saúde está
Bastante comprometida.

Padeço pelo que fazem
Com a minha natureza.
Está virando deserto
Onde existia riqueza.
Estou velha, estou cansada,
E preciso ser tratada
Com muita delicadeza.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CORDEL



Autor: João Pajeú

PAPA ESCREVE PARA LULA,
DIABO ESCREVE PARA BOZO

Pelas redes sociais,
Quase todo mundo leu
Carta que o Papa Francisco
Recentemente escreveu,
Seu nome embaixo assinou
E para Lula enviou,
Que bastante o comoveu.

Nessa carta já histórica,
Fala Sua Santidade
Em amor, em esperança,
Em justiça e liberdade.
E de maneira envolvente,
Expõe ao ex-presidente
Sua solidariedade.

Por outro lado, no inferno,
O diabo, com mais de cem,
Todo cheio de rancor,
Resolveu lá do além,
De modo bastante claro
Escrever pra Bolsonaro
A sua carta também.

Pela inveja, todos sabem,
O capeta vive cego.
Quando soube da notícia,
Viu insultado o seu ego,
Uma carta logo fez
E lançou, por sua vez,
No site da caixa-prego.

Um internauta que viu,
Leu a carta até o fim,
Aproveitou, fez um print
Da letra do “coisa ruim”,
Um escrito bem graúdo
E todo seu conteúdo
Diz mais ou menos assim:

 “Inferno, trinta de maio,
Caro Bozo presidente,
Desde que você ganhou,
Vivo aqui muito contente!
Lhe apoiei, não me arrependo,
Aprovo o que está fazendo,
No Brasil, contra essa gente.

Eu também estou torcendo
Pelo fim a Previdência,
Pode exterminar sem pena
Tudo quanto é assistência.
E nem que cresça o alarma,
Libere o porte de arma,
Pra aumentar a violência.

Reduza o mais que puder
Verbas pra universidade,
Que é para pobre jamais
Fazer qualquer faculdade.
Faça isso com ganância,
Que aumentando a ignorância,
Aumenta a incapacidade.

Acabe vários projetos
Em favor da educação.
Suba bem os combustíveis,
Aumentando a inflação.
Cometa também o crime
De adotar o regime
De capitalização.

Confesso-lhe, caro Bozo,
Adoro cada proposta
Que você faz contra o povo,
Sem dar ouvido a resposta.
Eu acho muito bem feito,
Pode fazer desse jeito,
Que assim é que o diabo gosta!

Invista no desemprego
Do jeito que me convém,
Porque nessa proporção
Vão multiplicar também
Os casos de violência,
E logo, com evidência,
Muita gente pra cá vem.

Dê todo apoio a banqueiros,
De fora, principalmente.
Privatize as estatais,
Destrua o meio ambiente.
Com Trump faça aliança,
Pois ele desde criança,
Sempre foi gente da gente.

Dê castigo a todo aquele
Que com você não se alinha.
Aumente bastante o preço
Também do gás de cozinha.
Ache graça do demente,
Que em você, todo contente,
Foi votar fazendo arminha.

Saudações a seus ministros,
O Tchutchuquinha, a Damares,
O Serginho, o Marcos Pontes,
Que vivia pelos ares...
Para todos, com carinho,
Tenho aqui no meu cantinho
Reservados seus lugares.

Mando também saudações
A seus filhos (aliás,
Tem um deles que eu não sei
Se é moça ou se é rapaz).
O resto, deixe comigo.
Abraços do velho amigo
E colega, Satanás”.

Dizem que ao ler esta carta,
Quase no final do dia,
Bozo, com seus “pareceiros”,
Quase morrem de alegria.
Se é fakenews eu não sei,
Apenas só repassei,
E viva a democracia!