domingo, 29 de junho de 2014

HOMENAGEM

UM ANIVERSARIANTE ILUSTRE

O sonetista brasileiro mais fecundo completa hoje 63 anos de vida. Seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva, nascido em São Paulo no dia 29 de junho de 1951. Seu nome artístico é vem do termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. Glauco Mattoso tem milhares de sonetos e dezenas de livros publicados. Fenômeno da literatura brasileira hodierna e de todos os tempos, ele mesmo se define neste soneto, homenagem do blog ao aniversariante ilustre:


“SONETO REMONTANDO A 1951

Minha cronologia principia
no dia de São Pedro. De glaucoma
já nasço portador, mas, nesse dia,
só querem que se beba e que se coma...

Sou neto de italianos, e a mania
é dar diminutivos: no idioma
de Dante, sou Pierin. Me oferecia
um brinde o bisavô, que vinho toma...

Pierin, ou Piergiuseppe, dura pouco.
Já sou Pedro-José. O ouvido mouco
não é, mas um dos olhos já pifava...

Na foto, faço gestos algo obscenos,
unindo dois dedinhos: já pequenos,
mostravam a revolta: ‘Vão à fava!’”  


NO ANIVERSÁRIO DO MATTOSO*

Pedro Paulo Paulino

São Pedro, hoje é teu dia, é nosso dia,
Que Pedro eu sou também, embora santo
Não seja. Mas, debaixo do teu manto,
Teu nome, se preciso, evocaria…

Que sejas sempre eterno o nosso guia.
E se não for acaso pedir tanto,
Louve, ó São Pedro, sem nenhum espanto,
Um grande Pedro que aniversaria.

Glauco Mattoso, Pedro de batismo,
Sem ranço algum de mero fanatismo,
Louvado sejas tu entre os poetas!

Pedindo, rezarei (assim prometo),
Que São Pedro te cubra de soneto,
Nas seis décadas que hoje tu completas!...


__________
*Soneto publicado no blog em 2011.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SOBRE COPA DO MUNDO E
OUTROS ASSUNTOS

Por Freitas de Assis*

O despertador tocando e o corpo não querendo obedecer ao som que me acorda em horário um tanto “draconiano”, ficando mais cinco minutos na cama, são evidências de que mais uma jornada de serviço terá início logo mais um pouco depois do nascer do sol.  A chegada ao quartel, o encontro com os colegas que estão saindo de seus turnos, os fatos pertinentes ao serviço e as ocorrências que chamaram mais a atenção, são informações compartilhadas entre as equipes, além de alguma eventual fofoca e brincadeiras ou mesmo uma bravata, permeiam o ambiente deixando o serviço menos estressante. Após pegarmos nossos equipamentos, armamento e apetrechos e ouvirmos as orientações e determinações do comando na pessoa do fiscal de policiamento, seguimos enfim para o trabalho propriamente dito de patrulhamento e policiamento ostensivo nas ruas de Canindé. Para cada ocorrência e para cada vítima uma história poderia ser escrita sobre diferentes ângulos e tentar explicar os pormenores que levaram àquela situação. Mas é necessário confessar que às vezes me sinto com um enorme fardo sobre os ombros ou como se tentasse enxugar gelo devido ao rumo que as ocorrências tomam. Já nestes últimos dias de março e começo de abril, homicídios mancham de sangue as crônicas policiais. Em 31 de março, cinquentenário do golpe de 1964, um duplo homicídio no bairro João Paulo II deixa como vítima dois irmãos que tinham como ocupação a prestação de serviços na área de segurança privada. E em 1º de abril, um adolescente de 17 anos, conhecido pela prática de furtos na região do Centro de Canindé, tem a vida ceifada por um homem identificado por “Lero”, um ex-presidiário. Os motivos do crime estão envoltos em aura de mistério. Cogita-se um crime passional, onde um parente da vítima poderia ter tido um fortuito relacionamento com a companheira do homicida confesso, e este se vingou em alguém da família, já que não encontrou o verdadeiro “Don Juan”.
Ao iniciarmos nossa íngreme missão, alguns pormenores e certa rotina deixam-na um tanto tediosa e procuramos sempre manter conversas sobre assuntos diversos para que o marasmo não se sobressaia a bordo da viatura. A quantidade de dias que faltam para a Copa do Mundo, os gastos excessivos desta e seus atrasos que porventura exponham o país ao ridículo, sem mencionar as eventuais manifestações que venham a ocorrer durante tal evento, vez por outra vêm à tona dentro da viatura. Sobre a Copa, fica difícil imaginar outro país emergente, com uma democracia das mais desenvolvidas, com a economia em franco desenvolvimento, mas que esbarra ainda em escândalos de corrupção e tem um sistema jurídico ineficiente e até arcaico, com leis que mais beneficiam quem as ultraja do que protege aos ultrajados, e ainda, dentre outros problemas, o baixo investimento em educação e a falta de assistência à saúde para as camadas mais baixas da população, frutos também da corrupção na política; e com tantos paradoxos, investe milhões em obras para um evento desse porte, sem ter a certeza de que o investimento terá algum resultado em médio e longo prazo. Óbvio que não é só de conversa e passeio de Hilux, como muita gente já chegou a afirmar que nosso trabalho é feito; seguimos patrulhando, observando e também recebendo solicitações de ocorrências pelo COPOM. Uma abordagem a um suspeito, a consulta de uma placa e o atendimento de uma ocorrência de violência doméstica, são comuns e quebram nossa rotina. Infelizmente, os gastos da Copa do Mundo, como o mais de um bilhão gastos no Itaquerão do Corinthians em tempo recorde, apesar dos atrasos e acidentes de trabalho, em detrimento de obras de maior alcance social, como a construção da Policlínica em nosso município, que há tempos já deveria estar concluída, me fazem refletir que investimentos em saúde, saneamento e infraestrutura, além de educação, fariam meu trabalho ser bem mais simplificado. Porém a cada volta em bairros como Palestina, Cachoeira da Pasta e Can, apenas para exemplificar, percebo que o trabalho será cada vez mais difícil, em razão de que nestes e outros mais como o Canindezinho quase abandonado pelo poder público, investimentos em serviços essenciais ao bom desenvolvimento e evolução da sociedade ficam relevados a um segundo plano e apenas em época de campanha política é que promessas que não são fantasiosas são proferidas, mas são só promessas. Porém, uma obra de esgoto fica escondida, não é inaugurada e não fica exposta para ser observada por todos, enaltecendo o responsável por sua execução.
Um dia depois da morte do jovem de 17 anos que citei antes, uma senhora aborda minha viatura na feira da Praça Azul e, já cansada da impunidade reinante em nossos dias, comentou com surpresa e indignação, sobre mais uma morte em Canindé e perguntou quem era. Respondi-lhe que era um jovem de família carente, useiro na ‘’arte’’ de pequenos delitos. Não para minha surpresa, a cidadã mudou de expressão, passando do espanto ao alívio dizendo: que bom, era só mais um bandido; contudo não cogitou nem por um momento tratar-se da vida de um ser humano, um adolescente, que é filho de uma mãe que hoje chora. E este mesmo BANDIDO poderia ser neto dela. E mais, a sociedade de um modo geral, vendo que a impunidade é uma constante, adota a máxima de que bandido bom já nasce morto.

Seguindo na rotina de meu trabalho, quando chego a brincar com amigos de fora do meu círculo profissional, dizendo que meu ofício é viver de desgraça e confusões alheias, continuo atendendo ocorrências diversificadas. Num dia é uma dupla armada de faca nas imediações da prefeitura, depois um assalto à residência no bairro da Can, onde um casal de idosos com sua filha, uma profissional liberal, acordam com três criminosos armados dentro de casa e ficam satisfeitos em levar dois celulares. E em outro dia, a mais comum das ocorrências, a violência doméstica. Desta vez é no bairro Cachoeira da Pasta. Para chegar ao endereço, um verdadeiro raly, devido a precariedade das ruas. No local, a vítima diz que seu ex-companheiro, com quem já trocara juras de amor eterno, lhe ameaçara com um facão. Levamos vítima e acusado para a delegacia, onde após uma conversa com os policiais de serviço, esta desiste de mover qualquer ação contra seu ex-companheiro. Neste meio tempo, alguém de dentro do xadrez me chama e o reconheço de pronto. Um jovem de menos de trinta anos que conheço desde sua infância. No começo deste ano eu o detive por violação de medida protetiva. Desta vez disse que foi preso preventivamente para ser internado devido ao vício em cack. Disse estar esperançoso, tem vontade de sair do pesadelo das drogas e que desde que chegou ao cárcere está “limpo”, juntamente com outro usuário, preso por furtar uma moto outro dia na Rua Euclides Barroso. “Vai procurar uma igreja, a palavra de Deus o libertará”, afirmou. Pediu-me uma ajuda. Apenas algumas folhas de papel para concluir um trabalho de artesanato. Atendo ao seu pedido. Algumas palavras e sinto que nem tudo está perdido. Despeço-me de um jovem sorridente, com alegria no coração e esperança de que dias melhores virão.

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*Cabo PM, colaborador do blog.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O VALOROSO SARGENTO JOTAPÊ


Pedro Paulo Paulino

A cidade de Canindé perde um personagem dos mais conhecidos de suas ruas. Morreu atropelado, na manhã do último domingo, João Paulo de Sousa Medeiros, o caricato Sargento Jotapê, que contava pouco mais de 30 anos de idade. Se é comprovado que a vocação não escolhe criaturas, a vocação para as armas, em seu voo cego, aterrissou de cheio na cabeça do Jotapê e dali nunca mais bateu asas. Pois se o destino não lhe favoreceu seguir seu ideal segundo a razão, de outro modo ele o fez.
Rigorosamente uniformizado, era sempre assim que ele aparecia em diversos lugares, sem lhe importar que o traje fosse velho e amarrotado ou que a boina ou o quepe excedesse em tamanho; o importante era não abandonar a farda. O coturno surrado e rasgado também não lhe diminuía a grandeza da sua vocação, expressa por ele com muita seriedade. Na sua curta carreira militar, cumpriu uma hierarquia meio confusa, de acordo com os fardamentos velhos que conseguia adquirir entre os amigos.
Personagem perfeito e acabado, como aqueles da ilustre Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte, o Sargento Jotapê era um voluntário incondicional da Pátria, um miliciano aguerrido, defensor da moral e dos bons costumes. Cultivava amizades e por isso era querido de todos. Seu olhar melancólico talvez reclamasse a manifestação de outros abnegados que como ele engrossassem as fileiras do seu exército fantasioso e da sua militância filantrópica. Isto porque abraçou as armas tempos depois que saiu de cena outro voluntarioso, por nome Valdemar Teixeira Lopes, o VTL, que por conta própria resolveu também envergar uma farda e se fazer quixotescamente guarda de trânsito da cidade, antes que esta tivesse um departamento dessa ordem.
Nosso herói mais recente, contudo, foi mais longe, e se é suposto que não logrou alcançar de todo o oficialato, a culpa, em suma, não lhe cabe. O indubitável é que, em tempos de tamanha conturbação e de insegurança pública, o valoroso Sargento Jotapê não se rendia a crises nem fazia conta de outra coisa senão exercer o seu ofício. Comparecia dessa forma nos mais variados pontos da cidade, dia e noite, inspecionando cada esquina, detendo-se em cada vulto suspeito, observando tudo e proclamando a ordem. Caminhava com passos regulares e sonoros, quase numa marcha bélica. Para os mais próximos, batia continência e passava, carregando nos ombros as insígnias do seu delírio e na cabeça o seu mundo fantástico, um mundo paralelo ao do restante dos homens que se julgam sãos.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

POETAS E BANANAS

MORTE AOS POETAS!
E BANANAS, MUITAS BANANAS PARA TODOS...


Por Arievaldo Viana

A cada dia que passa a gente se surpreende com mais um ato de barbárie ou de imbecilidade coletiva nesse velho país do futebol. Enquanto o oportunista Neymar posa com uma banana, dizendo que “SOMOS TODOS MACACOS”, um maluco quebra a estátua do poeta Ascenso Ferreira, às margens do rio Capibaribe, em Recife. Tempos atrás foi a vez do Patativa, que teve seu monumento quebrado em Assaré. É meus caros, no país do futebol parece que poesia é mesmo um estorvo!

A humanidade hoje em dia
Perdeu de vez o bom senso
Já quebraram o PATATIVA
Apedrejaram o ASCENSO
Em Recife, Pernambuco,
Que o mundo está maluco
Cada vez mais me convenço.

Nesse país tropical
Só se fala em futebol
Poesia é um estorvo
É baba de caracol
Bananas ao preconceito
Eu não quero ser prefeito
Nem estátua exposta ao sol.

ESTALTA DISMANTELADA

(Patativa “psicografado “por Arievaldo Viana e Pedro Paulo Paulino)

Ô mamãe você num sabe
O qui foi qui aconteceu
Cum a minha bela estalta
Qui o dotô Luço mi deu...
Apregaram lá na praça
Feliz e achando graça
Mas veja só o caé...
Um sujeito ruim da vista
Cabilerêro, paulista,
Veio batê no Assaré.

O moço era atuleimado
E se dizia meu fã
Chegô na praça cedinho
Oito horas da menhã
Querendo tirá retrato
Fez um grande ispaiafato
Se atrepô no pedestá
Da estalta e desabô
Na queda ele me puxou
Cousa munto naturá.

Os meninos lá de casa
Pensando sê vandalismo
Trataro de discubrí
Quem me jogô no abismo...
Quebrei as perna, a cabeça,
Por incríve que pareça
Quebrei tombém as custela
Fiquei todo fachiado
Lá no chão, desmantelado
Cum tão medonha sequela.

Inda bem que esse moço
Não andou lá no Dragão
Imbora que ele dichesse
Qui tinha boa intenção
Se a ôtra estalta ele visse
Fazia a merma tolice
E num me deixava bem
Mamãe, eu tenho certeza
Se ele fosse a Fortaleza
Quebrava a ôtra tombém.


Eu já li foi no jorná
Escuitei em alta voz
Já quebram inté a estalta
Da Raquezim de Queiroz
Ô mundo dismantelado
Eu já não sei de que lado
Eu posso ficar em pé
Pois vivo nessa incerteza
Se fico na Fortaleza
Ou mermo no Assaré!

Nem estalta neste mundo
Tem um momento de calma
Na terra, eu sou uma estalta
E aqui tou como alma
Vagando na eternidade
Mas sinto munta é sodade
Da terrena vida minha
Fazendo verso e fumando
E de noite chamegando
Com minha insposa Belinha.

Aqui em riba, no céu
Eu num corto mais cabelo
Num vou a cabilerêro
Só pra num ver dismantelo
Aqui fiquei bom da vista
Cabilerêro paulista
Aqui num tira partido
E si vier me quebrá
É arriscado levá

Mãozada no pé-do-uvido.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O mais notável poeta e escritor vivo do Brasil, Glauco Mattoso, em crônica recente menciona Canindé e um símbolo da romaria. 

A QUINCTA DIMENSÃO
E O SEXTO SENTIDO

Por Glauco Mattoso


Quem não é cego de nascença e perdeu a visão na meia edade, como eu, tem registros tridimensionaes bem nitidos na memoria, alem da obvia noção de perspectiva que deforma os objectos dependendo do angulo de observação, como naquella famosa tela de Dali focando um Christo crucificado visto de cyma para baixo, ou naquellas embalagens que replicam uma figura dentro de si mesma, successivamente menor, até que desappareça do olho nu, mas presuppondo infinita visualização com algum effeito de lente de augmento, como os tradicionaes rotulos do fermento Royal e do óleo Maria. Si não me enganno, a banda Pink Floyd usou esse recurso na cappa do album UMMAGUMMA, alguem me confirme ou desminta. Podolatra que sou, minha casa sempre guardou innumeros itens decorativos representando pés e calçados de todo typo, mas, depois de cego, só posso continuar usufruindo das peças tridimensionaes. Dos quadros e posters ficou apenas a lembrança: um chartaz do sorvete Gelato com a photo dum garoto prestes a lamber um picolé no formato dum pé descalço, o "Perepepé"; a impressão plantar em tamanho natural do pé do Jackie Chan; dois chartões postaes com a photo do pé da estatua de Constantino, a mim enviados em differentes datas por João Silverio Trevisan e por Néstor Perlongher, quando passaram por Roma; dois quadros com xerocopias dos pés de Hudinilson Junior, feitas pelo proprio artista plastico na phase em que documentou seu corpo nu e presenteou os amigos com imagens de cada zona anatomica, e assim por deante. A proposito, aproveito para render meu tributo à rte postal, mural e corporal, que eu chamaria de "symplastica", desse legitimo expoente da  vanguardista intervenção urbana, recentemente fallecido, e me disponho a doar os dois quadros xerographicos a quem esteja na curadoria da obra do Hudinilson. Entretanto, ainda posso desfructar dos objectos palpaveis espalhados pelo mobiliario, taes como bibelôs, estatuetas, cinzeiros, miniaturas, brinquedos, penduricalhos e ex-votos, tudo reproduzindo sapatos, botas, cothurnos, tennis ou pés descalços. Destes, meus xodós são presentes que recebi de Canindé e outros centros de romaria, para onde os devotos levam, em pagamento de promessas, esculpturas de madeira representando partes do corpo "curadas" por obra e graça divinas. Algumas dessas esculpturas são verdadeiros exemplos de arte popular anonyma, detalhando tornozelos, curvas plantares, tendões, artelhos, unhas, inclusive o dedão menor nos casos de pé do typo grego, formato que fascina meu fetichismo. Vez por outra algum amigo, como o poeta cearense Sylvio Roberto Sanctos, se lembra de que continuo me alegrando ao ganhar taes mimos e, deliciosamente surpreso, abro a caixa contendo mais um ex-voto para a collecção.  Por fallar em dimensões e em memoria visual, sei onde está cada quadro e qual imagem está emmoldurada nelle, como sei onde está cada ex-voto e qual typo de pé está esculpido nelle. Locomover-me pela casa, à luz do dia ou na escuridão da noite, é-me indifferente do poncto de vista das referencias espaciaes e concretas, ja que desvio dos obstaculos por força do habito e me desloco com relativa desenvoltura. O que me impressiona é uma especie de radar abstracto, à guisa de percepção extrasensorial, que me faz evitar obstaculos imprevistos, não só dentro de casa, e me poupa por um triz de algum accidente. Claro que, de vez em quando, fico desattento, batto a testa ou dou cannelladas, solto um palavrão e provoco gostosas gargalhadas naquelles leitores que curtem meu masochismo. Mas o presentimento da collisão não é o unico effeito dessa percepção extrasensorial: consigo detectar até as más vibrações e as energias negativas emittidas pelas pessoas que me rodeiam, o que já constitue assumpto para outra chronica. Por emquanto, limito-me a illustrar este aponctamento com dois sonetos pertinentes e a reiterar a intenção de doar os quadros do Hudinilson.
Até a proxima!

SONETO DO UNIVERSO DENTRO DO OLHO [1499]

Algumas embalagens são lembrança
curiosa: oleo Maria, a do fermento...
Na latta, a propria latta ninguem cansa
de ver reproduzida um só momento...

É como na TV, quando se alcança
que a imagem se reflicta: o pensamento
reduz-se ao infinito, a mente avança
até que o menor poncto ganhe augmento...

Si dentro dum espelho se replica
o mesmo espelho, indago: onde é que fica
o fim? Só no limite da visão?

E quando o cara é cego? Sei que a latta,
no fundo, bem no fundo, só retracta
a minha propria cara, olhando em vão...


Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.

.......................
Com a colaboração de Sylvio R. Sanctos.

sábado, 12 de abril de 2014

PETIÇÃO EM VERSOS

Encarnando Ronaldo Cunha Lima, a pedido de um amigo fiz esta "petição" em versos em favor da soltura de uma bola de futebol que, por mau comportamento de jogadores mirins, foi presa pela direção da escola onde estudam.

EM DEFESA DA BOLA

Pedro Paulo Paulino

Arbitrando uma questão,
Em versos faço a defesa
Da bola de futebol
Que há dias se acha presa.

Pra começar minha tese,
Não tem sentido e razão
Uma bola, no Brasil,
Ir parar na detenção.

No país do futebol,
Esporte que nos consola,
Há muita contradição
Em se prender uma bola.

Essa bola que está presa
Não praticou ato mau;
Do contrário, sofreu muito
Em muita perna de pau.

Por esquerda e por direita,
Já foi muito mal chutada
E bateu tanto na trave,
Que quase fica quadrada. 

Já foi muito machucada
Se chocando com canela.
Deram tanto passe errado,
E quem foi preso foi ela!...

Logo no ano da Copa
No Brasil, é com tristeza
Que uma bolinha inocente
Encontre-se agora presa.

A bola é pra viver solta
E no gramado rolar.
Ser presa só por goleiro
Quando a conseguir pegar.

Bola não deve estar longe
Da companhia do pé.
Já pensou essa manchete:
“Bola presa em Canindé!”

Cadê o senhor juiz
Do campo de futebol,
Que não vem salvar a bola
E trazê-la à luz do sol?! 

Conservar a bola presa,
Eu acho um ato perverso.
Não a defendo no pé,
Mas a defendo no verso.

A bola é pra viver livre
E subir riscando os céus,
Descer, sentar no gramado
E não no banco dos réus.

Portanto, peço habeas-corpus
Para essa bola indefesa.
Que ganhe já liberdade
E nunca mais seja presa.

Afinal, a bola é vítima,
A bola nunca é culpada,
Principalmente se ela
Todo dia é mal chutada.

Por isso, ao fim da defesa,
Por pouco não volto atrás:
Presa, a bola sofre muito;
Solta, a bola sofre mais.

...

Em tempo: a defesa ganhou a causa.

segunda-feira, 31 de março de 2014

RELEMBRANDO A DITADURA,
SEM NADA A COMEMORAR

Capa: Arievaldo Viana

Autor: Pedro Paulo Paulino

Vamos relembrar um fato,
Sem nada a comemorar,
Episódio vergonhoso
Que temos para contar:
Com seus atos desumanos,
Já se vão cinquenta anos
Do Regime Militar.

Foi a 31 de março,
Que a nossa grande Nação
Perdeu toda a liberdade,
Sem direito ao cidadão.
No ano sessenta e quatro,
Brasil tornou-se o teatro
Dessa triste aberração.

Pois a partir dessa data,
Ditadores desumanos,
Radicais, totalitários,
Criminosos e tiranos,
Com seu regime infeliz,
Mandaram neste país
Durante vinte e um anos.

Em plena Idade Moderna,
Não tem porquê nem razão
De um país enveredar
Na total escuridão
De estupidez execrável,
Que somente é comparável
Aos tempos da escravidão.

A lembrança que ficou
Do tempo da ditatura
Foi repressão violenta,
A lei cruel da censura,
A falência de conceitos,
A cassação de direitos,
Assassinato e tortura.

Devido à deposição
Do presidente Goulart,
Sucessor de Jânio Quadros
Num momento singular,
Se não me falha a memória,
Começou a trajetória
Do regime militar.

Contra o presidente Jango,
Como era assim conhecido,
Um grupo de militares
Conspirava no sentido
De lhe tomar o poder,
O que veio acontecer,
Deixando o povo oprimido.

O general Mourão Filho,
Deixando Minas Gerais,
Com tropa de três mil homens
Foi se juntando aos demais.
Logo no primeiro dia
Estava a democracia
Nos seus momentos finais.

Por Ranieri Mazzili,
Que então era deputado,
Somente por nove dias
O Brasil foi governado.
No Congresso, com efeito,
Castelo Branco é eleito,
Depois do Golpe de Estado.

Castelo logo adotou
As medidas radicais,
Conhecidas pelos seus
Atos institucionais.
Fim das eleições diretas
Foi uma de suas metas,
Dentre outras tão brutais.

Criou o SNI,
Um poderoso espião,
Protegendo os militares,
Fragilizando a Nação;
De partidos, só ARENA
E MDB, na cena
De suposta oposição.

Depois de Castelo Branco,
E muito mais linha dura,
Seu sucessor, Costa e Silva,
Promoveu a assinatura
Do Ato Institucional
Que dava poder total
À terrível ditadura.

O Congresso foi fechado,
Cresceram as repressões,
Suspensão de garantias,
Abusos, violações,
A polícia, noite e dia
Promovendo à revelia
As mais vis perseguições.

Confrontando os militares
Surge um grupo varonil,
A União dos Estudantes,
Em defesa do Brasil,
Numa marcha audaciosa
Realizou a famosa
“Passeata dos Cem Mil”.

Mas continua o regime
De plena arbitrariedade,
Com o presidente Médici
Falando em prosperidade,
Com seu “milagre econômico”,
Porém gerando astronômico
Débito à posteridade.

O tal milagre gerou
Dívida internacional.
O “Brasil, ame-o ou deixe-o”
Virou lema oficial.
Por outro lado, a Nação
Amargava a situação
Da crise salarial.

O controle do governo
Sobre todos os setores
Impedia organizarem-se
Os nossos trabalhadores,
Pois os sindicalizados
Eram todos controlados
Pelos órgãos repressores.

Departamentos estranhos,
Como DOPS e DOI-CODI,
A linha de espionagem
Em todo o País eclode.
Com a boca costurada
Ninguém pode dizer nada,
Somente o governo pode.

Depois do governo Médici
Veio outro general,
Desta vez, Ernesto Geisel
Que nessa regra geral
Deixou de novo o Brasil,
Com o “Pacote de Abril”,
Sem Congresso Nacional.

Eram todos indicados
Pelo modo aristocrático,
Sem consultarem o povo
Nesse regime antipático,
Ficando assim mais remoto
O nosso sonho do voto
Em um país democrático.

Porém, sucedendo Geisel,
Indicaram Figueiredo.
Era o momento final
Do regime tão azedo.
A ditadura morria,
Um novo tempo surgia
E o povo perdia o medo.

Foram os “anos de chumbo”
Grande atraso pra Nação,
Com danos à economia,
Ao progresso e evolução.
A temível ditadura
Emperrou nossa cultura,
Arte e comunicação.

As cicatrizes ficaram
Desses tempos de terror,
No qual o Brasil viveu
Longos anos de torpor.
Expulsos e constrangidos,
Muitos foram perseguidos
Pela “Operação Condor”.

Dos porões da ditadura,
Sempre os ecos se ouvirão
Dos que foram torturados
Na “cadeira do dragão”,
Das vítimas de afogamentos,
De choques, espancamentos
E de tanta perversão.

Jamais serão esquecidos
Nossos patrícios no exílio,
Sem direito à sua pátria,
Ao seu chão, seu domicílio,
Nossos artistas queridos
Que lutaram destemidos
Pela paz buscando auxílio.

Relembremos os artistas
Zé Keti, Nara Leão,
João do Vale, grande nome
Que nos deu o Maranhão,
Pois fizeram manifesto
Em um famoso protesto,
Com o “Show Opinião”.

Outros artistas famosos,
Caetano, Chico e Gil,
Empregaram seu talento
Da maneira mais sutil,
Pra dizer que a ditadura
Era o emblema da feiura
Da política do Brasil.

Um país que, infelizmente,
É pátria da covardia,
Pois pra defender aqueles
Autores da tirania
No período mais sangrento,
Aprovou no Parlamento
A tal da “Lei da Anistia”.

Assim, não temos motivos
Pra comemorar horrores.
Sem esquecer, todavia,
Os vinte um anos de dores.
Meu recado em versos dei,
Pra não dizer que eu deixei
Também de falar das flores.