sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ENSAIO

RELIGIÃO NÃO SE DISCUTE, CERTO?

Maurício Moreira Cardoso*

E se a religião for apenas uma espécie de seringa pela qual for administrado o soro das maiores ilusões em que o homem possa aprisionar sua mente? E se a experiência religiosa servir como uma fábrica de subjetividades postiças capazes de encobrir nossa verdadeira identidade concernente às relações fundamentais que temos com o Universo até agora conhecido e por conhecer? E se a religião servir como um dos mais eficientes instrumentos para o estabelecimento e manutenção do poder exercido por grupos de seres humanos tão suscetíveis a falhas e a enganos quanto qualquer representante da espécie humana e que, ao mesmo tempo, têm interesses nada altruístas?

sábado, 15 de agosto de 2015

SONETO


VILA EM FESTA

Pedro Paulo Paulino

Na minha vila, o rito secular
No mês de agosto ao venerando santo,
Pelo seu resplendor e pelo encanto,
Tornou-se a data magna do lugar.

Tem missa e tem novena e gente e tanto
Motivo para o povo festejar,
Tanto passado para recordar,
Que só quem é nativo sabe quanto!

A vila inteira em cores se transforma,
A natureza inerte então se alegra,
O sino na capela agita o toque,

A tradição tem vez e dita a norma,
A paz tem seu lugar e dita a regra,
E tudo canta em teu louvor – São Roque!

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

CRÔNICA

A Igreja Católica celebra anualmente em várias partes do mundo um de seus santos mais populares: S. Roque – o peregrino nascido na França por volta de 1295 e padroeiro dos inválidos e cirurgiões. No Brasil, o culto a S. Roque acontece em muitas cidades e comunidades interioranas. Vila Campos, no sertão central cearense, por exemplo, há cerca de 120 anos venera S. Roque, padroeiro da povoação e orago da capela que é uma das mais antigas do município de Canindé. Os festejos acontecem ali tradicionalmente na primeira quinzena de agosto, conforme ritos e costumes da população conservados fielmente através de gerações. Prova da difusão do culto a S. Roque é encontrada no livro “Mendigos”, publicado em 1920 pelo mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), um dos poetas mais importantes do Simbolismo no Brasil e que se destacou também na prosa. Transcrevemos a seguir a crônica do poeta:


S. ROQUE, O MIRACULOSO CONFESSOR*

Alphonsus de Guimaraens

Fez precisamente cento e cinquenta anos no dia 29 do mês de fevereiro que foi doada à Venerável Ordem Terceira da Penitência, de S. Francisco (de Mariana), a bela imagem de S. Roque, nascido em França, a heroica Filha Primogênita da Igreja, e que floresceu nos fins do século décimo terceiro.
Todos os hagiólogos têm tratado da vida extraordinária deste grande Santo, que fulgura como uma das mais maravilhosas estrelas da fé cristã no céu perenemente azul da Igreja; o seu nome, invocado sempre por milhares de devotos e crentes, cresce cada dia na adoração do povo.
S. Roque veio assinalado ao mundo: nascera com uma vermelha cruz minúscula, desenhada no peito, a ditar-lhe o fado que teria na terra. Um escritor piedoso, relembrando esse fato, diz que, embora a cruz não apareça impressa no nosso corpo, como sucedeu a S. Roque (pois só a um predestinado podia isto acontecer), todos nós nascemos com ela, por dádiva de Deus, e na verdade, não há quem não a veja cintilar no fundo da alma como parte integrante de nós mesmos.
A vida de S. Roque foi um rosário resplendoroso de milagres. Mortos os seus pais, despojou-se de todos os bens da fortuna, que lhe eram avantajados, e repartiu a sua riqueza pelos pobres; professando na Ordem Terceira de S. Francisco, vestiu-se de peregrino e deixou por muito tempo a França, pois era o seu intento visitar os mais afamados santuários da Itália.
A peste negra desoladora ceifava milhares de vidas na bela península do Lácio; S. Roque uniu-se aos enfermeiros, e, em diversas cidades, foi o mais incansável entre eles. Por longos anos Roma conservou, como uma unção, a memória dos prodígios praticados pelo grande Santo; aumentava dia a dia o número de pestosos salvos pela sua intervenção sagrada.
Em Placência a cruel epidemia o atacou; de enfermeiro sempre em vigília, viu-se o obstinado e pertinaz gaulês transformado no mais paciente enfermo. Foi nessa ocasião que uma seta, que viera de paragens desconhecidas, o feriu gravemente em uma das pernas; sentiu o Santo aumentada ainda, se possível, a sua humildade: aprendeu a compadecer-se mais dos males alheios com a experiência dos seus próprios males.
A sua enfermidade, a sua chaga, tinham sido novas fontes de milagres; resolveu, entretanto, deixar a Itália e voltar para o país que lhe fora berço generoso. Quando atravessava uma região desabitada, viu-se de novo recaído na doença; só pôde lançar-se debaixo de uma copada árvore, inteiramente desamparado de todo o socorro humano. Mas Deus o não desamparou: a mão d’Aquele que sustentava os eremitas nas covas do deserto, guiou um cãozinho fiel até o lugar onde o Santo se definhava. Esse animal trazia-lhe, todos os dias, o pão necessário à sua vida e fazia-lhe a higiene da ferida, lambendo-a e lavando-a com água que na boca conduzia.
Um anjo luminoso, que só o Santo via, para fortalecê-lo e animá-lo, guiava-o na sua peregrinação.
Seguiu enfim para a sua pátria. Achou a França perturbada por guerras calamitosas; não se querendo dar a conhecer, foi tido por um espião dos inimigos, que se disfarçara com veste de mendigo e peregrino. Recolhido a uma prisão horrível, volveu para Deus a sua alma sedenta de martírios; durante cinco longos anos, sem que ninguém desconfiasse que ali estava um dos maiores franceses de seu tempo, S. Roque suportou o duro cativeiro que lhe dava a própria pátria.
Faleceu enfim, depois que saíra da prisão, vitimado por nova recaída de peste; ele, que salvara a tantos enfermos, não pediu a Deus que o salvasse: recebeu a morte com toda a angélica tranquilidade do seu ser, como só a sabem receber os Santos.
Depois de morto, a sua identidade foi reconhecida por um tio; este seu parente, vendo que o povo, ainda antes da sua canonização, o venerava como a Santo, pela série contínua de milagres, ergueu-lhe um templo. O concílio de bispos de Constância, declarando e publicando a santificação do magnânimo francês, aprovou que a sua imagem fosse levada em procissão em tempo de peste; até hoje, decorridos tantos séculos, perdura no orbe católico essa prática piedosa.
E os milagres do caridoso Santo continuam a fortalecer eternamente as almas que nele creem e lhe pedem o seu sobrenatural auxílio.

______________
*Agradecimento ao poeta Silvio R. Santos pela indicação do texto.

domingo, 9 de agosto de 2015


MEU PAI

Pedro Paulo Paulino

Adeus, meu pai! – eu disse assim um dia
Para esse homem que toda a vida amei.
Adeus! – eu disse. Mas somente eu sei
Com que pesar e dor assim dizia.

E desde então já muita vez sonhei,
E ao ver meu pai nos sonhos, que alegria!
Na mesma antiga e boa moradia
Onde ele foi senhor e amigo e rei.

Toda a saudade dele ali reside:
Na rede do descanso ao meio-dia,
No chapéu pendurado no cabide,

Nas tardes sertanejas, quando eu via
Meu pai em seu silêncio, após a lide,
Rezar com devoção a Ave-maria...

sábado, 1 de agosto de 2015

CORDEL

NO DIA DO CORDELISTA
(1º de agosto)

Pedro Paulo Paulino

Eu começo uma viagem
Para cumprir uma lista
De parabéns e abraços
Levados a muito artista,
Pois a folhinha anuncia
Que nesta data é o dia
Do poeta cordelista.

Começo por minha terra,
Santuário de romeiro,
E aqui dou meus parabéns
A José Natan Marreiro
Que além de poeta é
Conhecido em Canindé
Como antigo folheteiro.

Seguindo esse itinerário,
Me levanto da cadeira,
Sigo no rumo do Monte,
Indo quase na carreira,
Estugando sempre o passo,
Carregando o meu abraço
Para o Gonzaga Vieira.

Depois vou para o Mercado,
Contente e sempre veloz.
Chegando ali, abro os braços
E proclamo em alta voz:
“Senhores, fiquem atentos,
Que vim dar meus cumprimentos
Ao poeta Celso Góis”.

Agora, vou buscar outro
Que faz parte desta lista.
É cantor e é poeta
E também radialista,
Famoso compositor
Do “Pãozinho de amor”,
Um tal de Jota Batista.

E nesta cidade, ainda,
Eu parto feito um corcel
E abraço Silvio Roberto
Que já mostrou no papel
O brilho do seu escrito;
É um poeta erudito,
Mas, quando quer, faz cordel.

Eu vou à procura, agora,
Cá neste mesmo torrão,
Do poeta Arlando Marques
Com a sua inspiração.
Um dos melhores, calculo.
Assim é que o congratulo
Com forte aperto de mão.

Pra fazenda Santa Cruz
Eu marcho agora apressado.
Ao Sebastião Ferreira
Eu vou deixar meu recado.
Leva uma vida de duque,
Não quer nem ver facebook,
Por isso não foi marcado.

Da fazenda Santa Cruz
Eu sigo pra Caridade.
Para o Tonico Marreiro,
Levo encômios de verdade.
Brilhante radialista.
Condoreiro cordelista
Do bairrismo e da saudade.

Agora eu deixo o sertão
E sigo em rumo da praia,
Mas chegando em Fortaleza
Eu entro para a Caucaia
E vou bater à choupana
De Arievaldo Viana,
Poeta da mesma laia.

Então o parabenizo
Pelo seu grande papel
De poeta popular
Que faz versos a granel
E tem bastante conceito
Por tudo quanto tem feito
Em defesa do cordel.

Ainda na Capital,
Dar meu abraço é preciso
Num poeta cordelista
Que já pisou onde eu piso,
Trabalho em Canindé
La no IFCE,
Não foi, Ricardo Narciso?

Voltando pra minha terra,
Eu deixo por derradeira
Esta lembrança à memória
De um poeta de primeira,
O exímio cordelista
E não menos sonetista
Que foi Wanderley Pereira.

Parabéns, todos poetas
Do cordel tão nordestino!
Falei nos que mais conheço
E as homenagens termino.
Para cada companheiro,
O abraço verdadeiro
Do Pedro Paulo Paulino.

terça-feira, 28 de julho de 2015

MEUS SONHOS

Pedro Paulo Paulino

Meus sonhos eram tantos! Lembro-os eu
Tão vivos! tão risonhos! coloridos!
No fundo da minh’alma, reunidos
Ficaram – ninguém mais os conheceu.

Pois, por motivos nunca esclarecidos,
A pouco e pouco, cada sonho meu
Melancolicamente feneceu,
Como enfermos à míngua, desvalidos.

Meus sonhos, que eram tantos, me deixaram.
E se alguns, porventura, ainda ficaram,
Nem mais são coloridos nem risonhos.

Sem eles, nesta altura, eis que me ocorre
Indagar, temeroso, se se morre
De uma falência múltipla dos sonhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RESENHA


A DIVINA ORGIA DE ‘AMADADAMA’

Pedro Paulo Paulino

O mais novo livro de contos do premiado escritor Raymundo Silveira tem como nome “AMADADAMA”. A exemplo de “Lagartas de vidro”, lançado em 2011, este segundo volume chega enriquecido por qualidade literária em primeiro lugar, a escrita cristalina, o lampejo da ideia e a oferta generosa de palavras e de construção textual atraente para o leitor mais insaciável.
“AMADADAMA”, 182 páginas, traz o selo da Editora Premius de Fortaleza, reúne ao todo 42 peças literárias e vem divido em duas partes, ou Livro I e Livro II. No primeiro repertório encontram-se os contos eróticos, não obstante, a meu ver, a adjetivação passe indiferente ao gênero de leitor que, a partir logo do primeiro conto (aliás, nome do livro), mergulha na leitura pelo mero prazer que esta lhe dá, convidando-o a seguir até a última página. O leitor mais pundonoroso poderá por sua vez estranhar o tema e até, com frequência, a linguagem dos contos iniciais; já o leitor, digamos, neutro não verá excessos na abordagem aberta e franca de uma condição tão imperativa a todo ser que vive.
Pois nessa sequência de contos a narrativa é tomada por uma descarga fulminante de erotismo, sem contudo se desgarrar jamais da fineza literária e da elegância de estilo. O autor consegue, de envolta com o arrepio da trama, transmitir para o leitor a volúpia da inspiração, o ardor da chama criativa, em enredos envolventes quase sempre com um final cheio de êxtase, a exemplo do conto “A vizinha” que, duvido, alguém consiga deixar de ler ao começar. E diga-se o mesmo de “A possuída”, “Sarita”, “Carne viva”, “A analista”, assim por diante. A ideia dominante em todas essas narrativas é, não há dúvida, a beleza e a sensualidade femininas, de vez que é a feminilidade a “forma fundamental da vida humana”, como observa o contista, ao tratar da relação carnal por meio de uma linguagem despida e clara.
No segundo repertório de contos de “AMADADAMA”, que soma exatamente 25 peças, o leitor poderá se refestelar com temática variada. Em todos eles, entretanto – eróticos ou não –, são inexistentes as figuras do vilão e do herói. O autor é parcimonioso ainda com descrições paisagísticas, voltando-se com exclusividade e percuciência para o elemento humano e seu vasto e infinito universo interior. Primeira e terceira pessoas coabitam harmoniosamente em todos os enredos, e os diálogos acontecem de maneira espontânea, sem prejuízo do entendimento da obra. Reflexão, considerações filosóficas e um poderoso fundo psicológico são características notáveis também nessa segunda seleção de contos. A começar por “Vaso vazio”, vamos identificar em “Tensão”, “Sacrifício”, “O charcuteiro”, “O fabricante de espelhos”, “O criacionista”, “O mistério de Capitu” e, praticamente em quase todos, a força da subjetividade por trás de argumentos puramente engenhosos e aprofundados.
O segundo livro de contos de Raymundo Silveira é, como foi dito, uma obra literária de fino gosto; por isto mesmo, tem o mérito de superar qualquer tabu. E, por ser lapidado conforme limpidez e garbo de estilo, chega-se à inevitável conclusão de que está, acima de tudo, na Arte e leveza de bem escrever a maior e divina orgia de “AMADADAMA”.

___________
Lançamento: 30 de junho, 19h, sede da UNIMED, av. Santos Dumont, 877, Fortaleza.
Disponível na Livraria Cultura. Preço: R$ 24,90.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CORDEL

No Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente,
repriso a publicação desse cordel do poeta Wanderley Pereira.

QUEIXA DE UMA ÁRVORE EM EXTINÇÃO
AO AUTOR DA NATUREZA


 Wanderley Pereira*

Eu vou contar uma história
Que precisa ser ouvida
Por adultos, por crianças,
Por pessoa esclarecida,
Por quem queira refletir
Sobre a beleza da vida.

Aqui na nossa floresta,
Das espécies de primeira,
Tinha uma delas famosa
Que se chamava aroeira;
De tanto ser desmatada,
Sumiu da mata costeira.

Foi para nós planta nobre
Por ter grande utilidade
Para os homens do sertão,
Para os homens da cidade,
Os mesmos que decretaram
Seu fim sem necessidade.

Uma dessas que escaparam
Do desmatamento humano,
Foi levada por um Anjo
Ante o Todo Soberano,
Para pedir providências
Contra esse furor tirano!

Aproveitando essa festa
Das árvores – que beleza!
Vou relatar aos leitores,
Transtornado de tristeza,
A queixa de uma aroeira
Ao Autor da Natureza:

Eu já sofri no Planeta
Tamanha perseguição,
Que os homens me utilizaram
Para fabricar caixão,
Para cepo de moinho,
Pra fazer mão-de-pilão.

Eu já fui pau-de-porteira,
Também mourão-de-curral,
Estaca nas construções,
Já fui cerca de quintal,
Caixão de guardar farinha,
Tábua pra fazer portal.

Fui móvel de casa rica,
Fui linha na cumeeira,
Fui galamarte na roça,
Já fui pau-de-bulandeira,
Fui forquilha de barraca,
Lenha pra fazer fogueira.

Onde houvesse uma aroeira,
Tinha um machado certeiro,
Estava na preferência
De qualquer um fazendeiro
Pra fazer canga de boi
E até banco de terreiro.

Eu tinha que estar presente
Na mais humilde fazenda,
Nos engenhos de madeira
Eu servia de moenda,
E na casa da rendeira
Fui bilro de fazer renda!

Fui Cantareira de pote
E cancela de cercado;
Servi de cunha de enxada
E de cabo de machado,
Fui também tábua de sótão,
Fui estrado de sobrado.

Fui prateleira em bodega,
Fui tablado de armazém,
Onde se lotavam sacos
Desembarcado do trem,
Até poleiro em quintal
De mim fizeram também!

Como cruz de cemitério
Eu fui usada à vontade,
Duro era gravar em mim
Data e a palavra saudade;
Servi também de cruzeiro
Nas entradas de cidade.

Também em torres de igreja
Estive sempre sozinha,
Nunca assisti a uma missa,
Pois sempre foi sorte minha
Servir de pouso a coruja
E à sempre alegre andorinha!

Fizeram de mim porrete
Para bater e matar,
Também grades de cadeia
Para o preso não quebrar;
Gamela pra botar mel,
Mesa em sala de jantar.

Fui trava em carro-de-boi,
Fui  ferrolho de portão,
Torno de pendurar sela,
Fui cepo de caminhão,
Tramela em porta de igreja,
Pau dentro de cacimbão.

Já fui também tecelagem
Para fios de algodão,
Tronco para amarrar bichos,
Dia de feira no sertão,
Muleta para aleijado,
Tora pra fazer pião.

Fui também colher-de-pau,
Fui tamborete e cadeira,
Fui armário de cozinha
E fui espreguiçadeira,
Fui litro de medir milho,
Farinha e feijão na feira.

Muitas vezes me cortaram,
Quando em plena floração,
Só para fazer cangalha,
Ou me queimar pra carvão,
Pra ser torno de armador
Ou madeira pra balcão.

Vivi sempre de servir
A todo ser, a toda hora,
Tive mil utilidades;
Para quem não me ignora,
Servi também de remédio
De medicina da flora.

Até meu fruto vermelho
Também se prestava à cura
De doenças que levavam
Muita gente à sepultura;
Era empregada também
Pelos índios na tintura.

A minha casca era usada
Em tratamentos com banho,
Em infusões para cura
De mal de todo tamanho,
Sobretudo inflamações
De algum ferimento estranho.

O mel da minha florada
Curava tosse e bronquite,
E o chá para inalação
Era bom pra sinusite,
Como também a infusão
Curava tumor, gastrite!

O poder cicatrizante
Que a minha seiva detinha
Era igual ao do mastruz
Que emenda pé-de-galinha;
Só que o mastruz tem efeitos
Que a minha seiva não tinha.

Um condimento de folhas
Aplicado em animal,
Era igual a um laxativo
Pra limpeza estomacal,
E o bicho no mesmo instante
Se libertava do mal!

Meu miolo era tão duro
Que havia fazendeiro
Que não tendo perto um banco,
Contratava um carpinteiro
Que de mim fazia um cofre
Para guardar seu dinheiro.

Assim, nunca tive paz,
Era sempre procurada,
Mesmo sem necessidade,
Na mata eu era cortada
E levada pra fazenda,
Ficando lá encostada.

Com a chegada do progresso,
Eu fui poste de energia,
Antes, transportei os fios
Da velha telegrafia;
Servi de lastro pra pontes,
Fui base de ferrovia!

Tive tanta serventia
Que muitas delas nem sei,
Só sei que fui perseguida
Como madeira-de-lei,
E outras da minha família
Se tem, não mais encontrei!

Entre as espécies extintas
Eu sei que estou na fileira,
Porque não fui replantada
Nem poupada na fogueira,
Sou conhecida hoje em dia
Só pelo nome: aroeira!

*Poeta e jornalista.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

EVENTO


'ACLAME' JÁ TEM 26 ACADÊMICOS

Com a posse de mais quatro aclamados, a Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória (ACLAME) conta agora com 26 imortais, restando 14 cadeiras vagas.
A quarta sessão ordinária da academia fundada em 14 de março deste ano aconteceu na sexta-feira, 29/05, no auditório do Complexo Jardineira Parque.
Compuseram a mesa o presidente da ACLAME, Silvio R. Santos, prefeito de Canindé Celso Crisóstomo, coordenador da Crede 7, Paulo Alexandre Queiroz e empresários José Ivan Magalhães, José Messias Filomeno e Raimundo Carlos Ferreira.
Após o ritual de posse dos novos aclamados, o primeiro secretário da academia, Tonico Marreiro, fez a entrega de diploma de Membro Benemérito da ACLAME às seguintes personalidades: prefeito Francisco Celso Crisóstomo Secundino, Antônio Pereira Alves (CDL), Francisco Plínio Gomes (Turismo), José Anastácio Pereira (produtor fonográfico), Simone Barroso Amorim (executiva), Paulo Alexandre Queiroz (Crede 7) e Raimundo Carlos Ferreira (gráfica Encaixe).
Desta vez a solenidade teve um toque especial. Dentre os mais novos integrantes da ACLAME estão os músicos Chico Walter e Jota Batista, que após a solenidade, presentearam confrades e convidados com música ao vivo.
O poeta Celso Góis saudou com versos a chegada dos novos aclamados e recebeu de um deles, o poeta Arlando Marques, um poema de agradecimento, ambos aqui reproduzidos:

SAUDAÇÃO

Celso Góis


Eu saúdo e dou boas vindas
A este quarteto artista
Composto por Chico Walter,
Junto com Jota Batista;
Arlando Marques completa
Com o Klévison poeta
A paisagem cordelista.

É arte a perder de vista
De inimitável valor,
Expoentes da canção,
Do cordel e do humor.
Magos de traços sutis
Trazem pra Aclame o matiz
De aquarela multicor.

Vem músico, vem escritor,
Vem arte da nossa gente.
A Academia se orgulha
De receber de presente
Os artistas com seus dons,
Cultura de vários tons
De uma canção diferente. 

Vejo agora em minha frente
Várias faces da poesia:
Nas letras, desenho e humor,
Tanta arte, que extasia!
Enquanto a gente aclamava,
O quarteto completava
Os quadros da Academia.

Hoje é especial o dia
Pra cultura da cidade
Que recebe de uma vez
Quatro artistas de verdade,
Cada um traz o valor
De um estilo criador
Da mais alta qualidade.

Chega em grande quantidade
Essa verve multiarte.
A Aclame se engalana
Por cada um que faz parte
Deste celeiro de fé
Que brotou em Canindé
Em grande explosão de arte.

A Aclame hoje reparte
Valores selecionados
Com toda a população
Abrigando os aclamados.
Bem-vindo quem aqui veio
Pra se alimentar no seio
Da casa dos renomados.

Parabéns aos aclamados
Artistas de tantos sóis!
Na iluminação das artes
São mais perfeitos faróis.
Parabéns pra poesia!
Parabéns pra Academia!
Um abraço: Celso Gois.

AGRADECENDO A CELSO GÓIS

Arlando Marques


Obrigado, Celso Góis,
Pela receptividade!
Desejo na Academia
Novos laços de amizade.
Fico feliz, lhe confesso,
Ao receber nos seus versos
Tanta generosidade.

Vejo criatividade
Nessa escolha tão seleta.
Você, com suas palavras,
Constrói versos e arquiteta
Com toda sua presteza,
"Inda" faz a gentileza
De me chamar de poeta.

Atingi mais uma meta
Ocupando um dos assentos.
Herdei de Silá Rabelo,
Garbosa, noutros momentos.
E hoje me sinto honrado
De poder sentar ao lado
De renomados talentos.

Formulam meus sentimentos
Satisfação, alegria,
Um ar de contentamento,
Amor pela poesia,
Meu respeito pela arte,
Agora fazendo parte
Dessa honrosa Academia.

Que eu não sinta afasia
Com tamanha emoção,
Possa falar o que sinto
Do fundo do coração.
"Ousadamente" me atrevo
Deixar nos versos que escrevo
Minha eterna gratidão!

Eu, sujeito do sertão,
Homem da lida de gado,
Matuto por vocação,
Trabalhador de roçado,
Alcançando esta conquista
Por essa gleba de artistas
Sendo homenageado.

Meu nome "imortalizado"
Me traz alegria pura.
Mas eterno é Celso Góis
Porque se porta à altura,
Nos brinda com poesias,
Composições, melodias,
No limiar da cultura.

A paz que não se mensura,
Eu peço que Deus derrame
Nos campos da poesia,
Inspiração de enxame,
Para andarmos nesses parques.
Abraço do Arlando Marques,
Seu companheiro da ACLAME.