sexta-feira, 17 de outubro de 2014


ROMEIROS SÃO IMPEDIDOS
DE CHEGAR A CANINDÉ

Pedro Paulo Paulino

A fé, que move montanha
Intransponível, fechada,
Poder supremo que pode
Produzir graça alcançada,
Agora por ironia,
Numa simples rodovia
De repente foi barrada.

domingo, 12 de outubro de 2014



MAGIA E DEVOÇÃO NO PARQUE

Há 29 anos o Parque do Airton é uma atração nos festejos de Canindé. E o dono, um romeiro fervoroso de São Francisco.

Pedro Paulo Paulino

José Airton de Sousa tinha apenas nove anos quando a primeira vez veio a Canindé como romeiro de São Francisco. Desde então ele assumiu um compromisso pelo resto da vida: nunca mais perder a festa do padroeiro dessa cidade do Sertão Central cearense que abriga o maior santuário franciscano das Américas e recebe por ano cerca de um milhão e meio de peregrinos. Ele conta, no entanto, que já nessa época trabalhava como ajudante de parque – e esse foi um fator determinante na sua caminhada profissional.

sábado, 27 de setembro de 2014

CHICO ALVES
62 ANOS SEM O ‘REI DA VOZ’



No dia 27 de setembro, completa 62 anos da morte do cantor, violonista e compositor FRANCISCO ALVES, falecido em 1952. Um dos maiores fenômenos da história da música popular brasileira, Francisco de Moraes Alves nasceu no dia 19 de agosto de 1898 e foi peça-chave no mercado fonográfico nacional.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SEMANA NACIONAL DO TRÂNSITO


Tem início hoje, 18/9, a Semana Nacional do Trânsito. O período é aproveitado pelos órgãos fiscalizadores do trânsito para reforçar o alerta aos condutores de veículos motorizados, sobre diversos temas importantes, principalmente educativos. A cada dia aumenta o número de veículos nas vias urbanas e rodovias.
Um dos assuntos mais abordados é a Lei Seca que entrou em vigor em 1998. Em 2012 a Lei Seca foi reeditada, tornando-se mais rigorosa. As estatísticas comprovam que após a promulgação da Lei Seca, os acidentes de trânsito no Brasil, a maioria com vítimas fatais, têm diminuído. Mesmo assim, os números atuais de acidentes de trânsito ainda são assustadores.
O trânsito também é tema para os poetas populares, a exemplo deste cordel :

DIRIGIR É IMPORTANTE,
MAS EDUCAR É PRECISO

Pedro Paulo Paulino

Alô, alô, juventude,
Nestes versos eu repriso
O que muito já foi dito,
Como um importante aviso
A respeito do volante:
Dirigir é importante,
Mas educar é preciso.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O HERÓI DO SERTÃO

(Zé Laurentino)


Conheci Pedro Tomaz
Na fazenda do Estreito.
Caboclo trabalhador,
Respeitador e direito.
Há muito tempo eu não via
Um cabra daquele jeito.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

DATA


VIVA O DIA DO FOLCLORE

Pedro Paulo Paulino

O Folclore é o conjunto
Das tradições populares,
De mitos, lendas e crenças
E de coisas similares,
Uso antigo e uso novo
Praticados pelo povo
Nos mais diversos lugares.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

BREVE HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA FAMILIAR

Freitas de Assis*

No trabalho de policiamento ostensivo e atendimento de ocorrências, das mais comuns é a de violência doméstica. Raro é o fato deste tipo de violência ser cometida contra homens. Geralmente é o contrário: a mulher, considerada o sexo frágil, é quem leva a pior na história, embora ocorram vez por outra situações, digamos, vexatórias para o homem, quando algumas mulheres literalmente partem para cima e resolvem as desavenças de casal no braço; e assim como a mulher, quando o homem leva a pior, nem sempre registra a ocorrência, talvez por se sentir envergonhado ou achar que as tenazes da justiça sejam incapazes de atingir a mulher neste tipo de situação, e que a lei Maria da Penha apenas protege as mulheres, quando na realidade, hoje, ela serve para inúmeras situações de violência doméstica, independente do grau de parentesco, apenas que haja vínculo afetivo ou consanguíneo e uma convivência dentro de um lar.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

19/8 - DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA


FOTOGRAFAR AINDA É UMA ARTE?

Pedro Paulo Paulino

Hoje é o Dia Mundial da Fotografia. Diz-se que fotografar é uma arte. Mas será que na era da fotografia digital, fotografar ainda é mesmo uma arte? Com a facilidade incrível que se tem hoje para registrar imagens, acho que fotografar descambou mesmo para a banalização. Um aparelho celular, embora dos mais simples, traz embutida uma mini-câmera digital. As câmeras digitais propriamente ditas popularizaram-se extraordinariamente devido ao barateamento dos preços e podem ser encontradas à venda nos mais inusitados pontos. Sem o uso de filmes, munidas de cartões eletrônicos com enorme espaço de armazenamento, as maquininhas digitais são mesmo um milagre da tecnologia. E ainda contam com recursos de uso que a grande maioria de seus donos, certamente, quase não exploram.
Fáceis de operar, com apenas um clique está registrada a fotografia, desejada ou não, que logo é mostrada no display da câmera. A foto que não interessa pode ser imediatamente excluída. Associadas ao computador, já tão vulgarizado também, as câmeras digitais fizeram uma revolução impressionante. Com essa união de máquinas, perdeu-se também o hábito de passar nossas fotos para o papel. O mais impressionante em tudo isso foi a velocidade com que saltamos do processo analógico para o digital. Houve um autêntico boom, tanto tecnológico quanto comercial, no mundo da fotografia. A câmera digital ou o celular que levamos no bolso e até as crianças sabem usar, de um instante para outro aposentou a indústria do filme fotográfico e de todos os ingredientes utilizados no antigo processo.
Como fotógrafo amador e apaixonado por fotografia, venho ainda do mundo analógico. Fotografo desde os 13 anos. Minha primeira câmera foi uma Kodak que empregava filme de 126mm. O rendimento máximo de um cartucho era de 24 fotos, ou chapas. Por isto, tínhamos a devida cautela em não esperdiçar nenhuma pose, que era assim também chamada cada exposição do filme. Mais tarde, adquiri do meu amigo Laurismundo Marreiro, professor de inglês apaixonado por fotografia, uma câmera Olympus com filme de 35mm e rendimento de até 36 exposições. Nessa mesma época montei laboratório próprio e passei a revelar minhas fotos em preto e branco. (Confesso que pouca vez em minha vida repetiu-se a emoção que tive ao revelar a primeira fotografia.) 
Chico Karam, pioneiro da
revelação em cores em Canindé
Esse meu avanço no invento de Daguerre deveu-se ao incentivo e orientação do mago da fotografia em Canindé, Chico Karam. O Foto Karam, ao lado da basílica, foi por muito tempo o ancoradouro de todos os fotógrafos canindeenses, profissionais ou não. Os filmes eram levados a Fortaleza para revelação. Passava-se, via de regra, uma semana para recebermos nossas fotos, o que gerava uma expectativa ansiosa. No final dos anos 80, Chico Karam, num gesto pioneiro, montou nos fundos da sua loja um laboratório para revelação em cores. Foi empresa difícil para a Mônica, a laboratorista, atinar com o ajuste das cores, e enquanto isso as fotos tinham uma tonalidade azul. Depois tudo se consertou.
Guardo ainda hoje centenas de “negativos” e uma pequena montanha de ábuns, produto da minha senda de fotógrafo. Agora estou entre a fauna dos fotógrafos da era digital. Mas ainda mantenho o hábito de só apertar o obturador da câmera (ainda é obturador?) no momento que julgo necessário. Clicar, clicar e clicar, a meu ver, não é exatamente fotografar.
Minha homenagem aos antigos fotógrafos que conheci em Canindé, entre eles, João Almeida e Chico Karam (in memmorian), Giovanni Almeida, João Carneiro, Lourival e todos os fotógrafos lambe-lambe da Praça da Basílica. E viva a fotografia digital…

(Publicado inicialmente no blog em 19/8/11)

CENTENÁRIO DE ARACY DE ALMEIDA



Em 19 de agosto de 2014 comemora-se o centenário de nascimento da cantora ARACY DE ALMEIDA. Considerada a maior intérprete de Noel Rosa, Aracy de Almeida começou cantando em igrejas do subúrbio do Rio até ser levada para o rádio por intermédio de Custódio Mesquita, que a ouviu cantar em 1933. Logo fez fama como intérprete de sambas nas rádios Philips, Mayrink Veiga, Ipanema e Tupi e fez história com gravações antológicas de “Palpite infeliz” (Noel Rosa), “Tenha pena de mim” (Cyro de Souza e Babaú), “Fez bobagem” (Assis Valente), “Camisa amarela” (Ary Barroso) e “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico). Foi, ao lado de Carmen Miranda, a maior cantora de samba dos anos 30. Depois de atuar com sucesso na boate Vogue em Copacabana na década de 40, entre 1950 e 1951 gravou dois álbuns dedicados a Noel Rosa, que seriam responsáveis pela reavaliação da obra do poeta da Vila. Tinha uma personalidade franca e boêmia, falava sempre o que queria, e sua maneira de cantar foi determinante para definir os rumos do samba cantado por voz feminina. No final da vida atuava como jurada do programa A Buzina do Chacrinha e do Show de Calouros do Programa Silvio Santos, do SBT, em que era conhecida por dar notas baixas a quase todos os calouros.

Via Site Collector's http://www.collectors.com.br/

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

EVENTO



PROCISSÃO DOS VAQUEIROS ABRE FESTA

DE SÃO ROQUE EM VILA CAMPOS


Uma caravana de vaqueiros montados a cavalo acompanhou no final da tarde de hoje a procissão com o painel de São Roque, num percurso de cerca de um quilômetro, entre Campos Novo (BR-020) e Campos Velho, assinalando a abertura dos festejos dedicados ao padroeiro da localidade, na zona rural de Canindé.
Dezenas de fiéis seguiram também em caminhada o mesmo percurso até a capela da vila de Campos Velho, onde no início da noite foram hasteadas bandeiras e celebrada missa campal, presidida por frei Jean Souza. No local, vaqueiros entoaram aboios e externaram sua religiosidade.
A missa dos vaqueiros é um evento tradicional que reúne grande número de pessoas em Vila Campos. A movimentação acontece durante todo o dia e a recepção é feita por Cosme Paulino Viana, um dos vaqueiros mais antigos dos sertões de Canindé. Em sua casa é servido banquete aos companheiros, que aproveitam a ocasião para se confraternizar e relembrar juntos vaquejadas e pegas de boi. “É um presente que damos anualmente ao meu pai e aos seus colegas vaqueiros”, garante Flaubert Viana, filho de Cosme Paulino.
A festa de São Roque em Vila Campos é um acontecimento centenário. A capela da povoação é uma das mais antigas do município de Canindé e é mantida pela própria comunidade, com apoio da Paróquia de São Francisco das Chagas. “Contamos sempre com a colaboração dos nossos conterrâneos, de parceiros e fiéis de São Roque, através das nossas campanhas beneficentes. Nossa festa tem o poder de promover um reencontro anual entre nossos familiares que moram fora”, afirma Verônica Paulino Viana, do Conselho Pastoral da Comunidade.
Durante os próximos dias acontecerá o novenário com a participação de comunidades circunvizinhas. No dia 16 de agosto, será celebrada missa festiva de encerramento, seguida de leilão e atrações à noite na quadra social da paróquia. (Texto/fotos: Pedro Paulo Paulino)


terça-feira, 5 de agosto de 2014

CRÔNICA

DERROTAS E CONQUISTAS

Freitas de Assis*

Por água abaixo foram os anseios e sonhos do País do Futebol na terça feira 08 de julho de 2014. Na fatídica data para o futebol tupiniquim, a poderosa Alemanha, que já havia imposto uma sonora goleada em Cristiano Ronaldo e seus patrícios, desta feita humilhou a seleção canarinha com um placar de sete a um. A culpa? Muitos atribuíram à comissão técnica, aos cartolas e patrocinadores, e até mesmo a inércia do apoio psicológico à falta que fez o único fora de série da equipe, o jogador Neymar, seriamente contundido em uma disputa de bola em jogo anterior. Fato que lembra a “convulsão” de Ronaldo na copa da França em 1998, onde na final o Brasil também se mostrou apático e perdeu a final para os anfitriões por três a zero. Mas agora perdeu para um time organizado, humilde e que não contava com grandes estrelas. Contava sim, com a persistência, o trabalho em equipe e o espírito de grupo, tanto que na final com nossos vizinhos platinos, o jogador que fez o único gol da partida era um reserva que entrara havia pouco tempo.
Recordo que no dia do jogo no estádio Mineirão, a euforia era generalizada. A esperança era contagiante e eu entrava de serviço no turno da noite prevendo conter os ânimos de torcedores mais exaltados. Mas veio a derrota e não houve carreata. As motocicletas com descarga alterada ficaram caladas e o consumo de bebidas entorpecentes foi reduzido a patamares mais civilizados. Registraram-se naturalmente umas poucas ocorrências, normal para uma terça-feira e que não vale a pena tecer uma ou outra frase sobre estas. Quanto aos alemães, após a conquista do Mundial comemoraram na terça-feira em seu país, embora na segunda-feira, conforme reportagem em telejornal, pouca coisa em Berlim memorava o feito dos seus compatriotas e os alemães foram trabalhar normal e sobriamente.  Fosse o Brasil campeão, haveria uma festa memorável no domingo e na segunda-feira seria decretado feriado.  Aliás, o Brasil, campeão mundial de feriados, no período da copa e em dias de jogos do Brasil, era ponto facultativo, fazendo a economia parar em diversos setores, embora o setor de turismo tenha tido um “boom”.  O lado bom desse fato é que das adversidades e derrotas sempre conseguimos tirar algum ensinamento; sobretudo por que conseguimos aprender algo com os vitoriosos. E que sirva então de exemplo os alemães, que derrotadas em 1945, juntamente com o Japão depois da II Guerra Mundial, ergueu uma grande potência pouco tempo depois. E após a unificação do país com a queda do muro de Berlim em 1990, realmente virou uma potência. E de que forma conseguiram erguer-se dos escombros? Com uma simples receita: investimento em educação e trabalho com seriedade, aliados a um sistema jurídico eficiente, sem ser condescendente nem carrasco.
Voltando à realidade de julho e patrulhando nossas ruas de tosco calçamento e asfalto em uns poucos pontos da cidade, observo que o progresso começa a se instalar por aqui. É fato notório que o número de veículos que circula na cidade é bem maior que o número de pessoas habilitadas. E que para conseguir tirar a habilitação é necessário um pouco de esforço e dinheiro para pagar as taxas de auto-escola e as do Detran, sendo que alguns exames eram realizados em Fortaleza pelo fato do posto do órgão em Canindé funcionar de forma incompleta. Ocorre que agora funciona plenamente e os usuários não precisam se deslocar a nossa capital para sanar seus problemas. É só ir até a Avenida Perimetral, próximo ao loteamento Monte Líbano, passando por alguns redutores de velocidade, as populares tartarugas, ultrapassar os quebra-molas, os quais foram acrescidos também de tartarugas, isto se a pessoa vem do lado do Quartel do 4º BPM, pois se vier da Igreja do Cristo Rei, além dos redutores de velocidade, enfrentará um eterno buraco do lado direito. Este é numa subida, obrigando o motorista invadir um pouco a mão contrária para poupar a suspensão do carro, arriscando a  se envolver em um acidente. Sem mencionar os loucos sobre motocicletas que teimam em fazer deste logradouro uma pista de corrida, e seu acostamento, muito estreito, ainda é povoado por alguns animais que pastam por lá.
Nas últimas décadas houve uma estagnação no progresso e um ostracismo político como nunca se viu antes na história do nosso município. Posso citar como ponto positivo em Canindé a vinda do IFCE, que oferece formação superior e de qualidade. Infelizmente, obras que poderiam alavancar o progresso, como a construção da escola profissionalizante e a policlínica, estão atrasadas por conta das licitações feitas para sua execução, ou seja, a empresa ganhou o direito de executar a obra, mas não tem recursos suficientes para tal empreitada, ou então foi à bancarrota. Nova licitação tem que ser feita e todo o jogo recomeça.   

O resultado dessa falta de estrutura em educação e saúde, sem citar outras áreas, pode ser traduzido em parte no meu trabalho. Que consiste em prevenir o crime e prender pessoas que cometem crimes. E em meados de julho, a polícia militar, num esforço conjunto de suas equipes, desbaratou uma quadrilha responsável por vários crimes de assalto em Canindé, e boa parte dos membros da gangue são menores. Um fato que não deve ser comemorado. Mas julho também é aniversário de Canindé, e sinceramente espero que nos próximos aniversários possamos aplaudir não as prisões de infratores, mas o número recorde de alunos matriculados em cursos superiores, e que tais cursos também sejam feitos aqui; espero não prender dia sim dia não, o mesmo menor infrator, que ri da cara do policial que trabalha para que leis tão ineficientes sejam cumpridas. E espero ver ainda o progresso em ação, não só na minha cidade, mas em todo o país. Quero ver as pessoas tomarem consciência e não trocar seu voto por um adesivo no carro e dez litros de gasolina, um pneu de bicicleta ou mesmo uma clássica dentadura, e depois não poder cobrar ações de seu candidato. Em seus próximos aniversários, seus próximos 29 de julhos, ó Canindé, te verei como uma cidade moderna, com indústrias e fábricas, escolas e faculdades; verei avenidas e ruas asfaltadas nos bairros periféricos, te verei com honras e glórias. Serás uma cidade de renome e paz. Seus cidadãos sentarão às suas calçadas tranquilos e o país também terá atingido seu esplendor e apogeu. Veremos cada um pensar no próximo, ajudando a transformar sua terra num lugar melhor. E uma amarga derrota no futebol para um potência mundial será uma nota de rodapé em algum livro de história. Pelo seu aniversário, parabéns, Canindé! 

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*Cabo PM, colaborador do blog.

sábado, 2 de agosto de 2014

SONETO

VIVER O HOJE

Pedro Paulo Paulino

Jamais ancore o barco da existência
No porto permanente do passado.
Desfrutar o momento que é nos dado,
É prêmio que se alcança com vivência.

Pois quem vive ao sabor de contingência
Ou lamentando o tempo superado,
Constantemente viverá frustrado
Ou viverá só de reminiscência.

A vida é bela agora. É inseguro
O amanhã. O passado tem seus méritos,
Mas já passou. Portanto, viva e leve

A vida sem as ânsias do futuro
E o fardo dos momentos já pretéritos,
Que a vida tende a se tornar mais leve.




domingo, 29 de junho de 2014

HOMENAGEM

UM ANIVERSARIANTE ILUSTRE

O sonetista brasileiro mais fecundo completa hoje 63 anos de vida. Seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva, nascido em São Paulo no dia 29 de junho de 1951. Seu nome artístico é vem do termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. Glauco Mattoso tem milhares de sonetos e dezenas de livros publicados. Fenômeno da literatura brasileira hodierna e de todos os tempos, ele mesmo se define neste soneto, homenagem do blog ao aniversariante ilustre:


“SONETO REMONTANDO A 1951

Minha cronologia principia
no dia de São Pedro. De glaucoma
já nasço portador, mas, nesse dia,
só querem que se beba e que se coma...

Sou neto de italianos, e a mania
é dar diminutivos: no idioma
de Dante, sou Pierin. Me oferecia
um brinde o bisavô, que vinho toma...

Pierin, ou Piergiuseppe, dura pouco.
Já sou Pedro-José. O ouvido mouco
não é, mas um dos olhos já pifava...

Na foto, faço gestos algo obscenos,
unindo dois dedinhos: já pequenos,
mostravam a revolta: ‘Vão à fava!’”  


NO ANIVERSÁRIO DO MATTOSO*

Pedro Paulo Paulino

São Pedro, hoje é teu dia, é nosso dia,
Que Pedro eu sou também, embora santo
Não seja. Mas, debaixo do teu manto,
Teu nome, se preciso, evocaria…

Que sejas sempre eterno o nosso guia.
E se não for acaso pedir tanto,
Louve, ó São Pedro, sem nenhum espanto,
Um grande Pedro que aniversaria.

Glauco Mattoso, Pedro de batismo,
Sem ranço algum de mero fanatismo,
Louvado sejas tu entre os poetas!

Pedindo, rezarei (assim prometo),
Que São Pedro te cubra de soneto,
Nas seis décadas que hoje tu completas!...


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*Soneto publicado no blog em 2011.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SOBRE COPA DO MUNDO E
OUTROS ASSUNTOS

Por Freitas de Assis*

O despertador tocando e o corpo não querendo obedecer ao som que me acorda em horário um tanto “draconiano”, ficando mais cinco minutos na cama, são evidências de que mais uma jornada de serviço terá início logo mais um pouco depois do nascer do sol.  A chegada ao quartel, o encontro com os colegas que estão saindo de seus turnos, os fatos pertinentes ao serviço e as ocorrências que chamaram mais a atenção, são informações compartilhadas entre as equipes, além de alguma eventual fofoca e brincadeiras ou mesmo uma bravata, permeiam o ambiente deixando o serviço menos estressante. Após pegarmos nossos equipamentos, armamento e apetrechos e ouvirmos as orientações e determinações do comando na pessoa do fiscal de policiamento, seguimos enfim para o trabalho propriamente dito de patrulhamento e policiamento ostensivo nas ruas de Canindé. Para cada ocorrência e para cada vítima uma história poderia ser escrita sobre diferentes ângulos e tentar explicar os pormenores que levaram àquela situação. Mas é necessário confessar que às vezes me sinto com um enorme fardo sobre os ombros ou como se tentasse enxugar gelo devido ao rumo que as ocorrências tomam. Já nestes últimos dias de março e começo de abril, homicídios mancham de sangue as crônicas policiais. Em 31 de março, cinquentenário do golpe de 1964, um duplo homicídio no bairro João Paulo II deixa como vítima dois irmãos que tinham como ocupação a prestação de serviços na área de segurança privada. E em 1º de abril, um adolescente de 17 anos, conhecido pela prática de furtos na região do Centro de Canindé, tem a vida ceifada por um homem identificado por “Lero”, um ex-presidiário. Os motivos do crime estão envoltos em aura de mistério. Cogita-se um crime passional, onde um parente da vítima poderia ter tido um fortuito relacionamento com a companheira do homicida confesso, e este se vingou em alguém da família, já que não encontrou o verdadeiro “Don Juan”.
Ao iniciarmos nossa íngreme missão, alguns pormenores e certa rotina deixam-na um tanto tediosa e procuramos sempre manter conversas sobre assuntos diversos para que o marasmo não se sobressaia a bordo da viatura. A quantidade de dias que faltam para a Copa do Mundo, os gastos excessivos desta e seus atrasos que porventura exponham o país ao ridículo, sem mencionar as eventuais manifestações que venham a ocorrer durante tal evento, vez por outra vêm à tona dentro da viatura. Sobre a Copa, fica difícil imaginar outro país emergente, com uma democracia das mais desenvolvidas, com a economia em franco desenvolvimento, mas que esbarra ainda em escândalos de corrupção e tem um sistema jurídico ineficiente e até arcaico, com leis que mais beneficiam quem as ultraja do que protege aos ultrajados, e ainda, dentre outros problemas, o baixo investimento em educação e a falta de assistência à saúde para as camadas mais baixas da população, frutos também da corrupção na política; e com tantos paradoxos, investe milhões em obras para um evento desse porte, sem ter a certeza de que o investimento terá algum resultado em médio e longo prazo. Óbvio que não é só de conversa e passeio de Hilux, como muita gente já chegou a afirmar que nosso trabalho é feito; seguimos patrulhando, observando e também recebendo solicitações de ocorrências pelo COPOM. Uma abordagem a um suspeito, a consulta de uma placa e o atendimento de uma ocorrência de violência doméstica, são comuns e quebram nossa rotina. Infelizmente, os gastos da Copa do Mundo, como o mais de um bilhão gastos no Itaquerão do Corinthians em tempo recorde, apesar dos atrasos e acidentes de trabalho, em detrimento de obras de maior alcance social, como a construção da Policlínica em nosso município, que há tempos já deveria estar concluída, me fazem refletir que investimentos em saúde, saneamento e infraestrutura, além de educação, fariam meu trabalho ser bem mais simplificado. Porém a cada volta em bairros como Palestina, Cachoeira da Pasta e Can, apenas para exemplificar, percebo que o trabalho será cada vez mais difícil, em razão de que nestes e outros mais como o Canindezinho quase abandonado pelo poder público, investimentos em serviços essenciais ao bom desenvolvimento e evolução da sociedade ficam relevados a um segundo plano e apenas em época de campanha política é que promessas que não são fantasiosas são proferidas, mas são só promessas. Porém, uma obra de esgoto fica escondida, não é inaugurada e não fica exposta para ser observada por todos, enaltecendo o responsável por sua execução.
Um dia depois da morte do jovem de 17 anos que citei antes, uma senhora aborda minha viatura na feira da Praça Azul e, já cansada da impunidade reinante em nossos dias, comentou com surpresa e indignação, sobre mais uma morte em Canindé e perguntou quem era. Respondi-lhe que era um jovem de família carente, useiro na ‘’arte’’ de pequenos delitos. Não para minha surpresa, a cidadã mudou de expressão, passando do espanto ao alívio dizendo: que bom, era só mais um bandido; contudo não cogitou nem por um momento tratar-se da vida de um ser humano, um adolescente, que é filho de uma mãe que hoje chora. E este mesmo BANDIDO poderia ser neto dela. E mais, a sociedade de um modo geral, vendo que a impunidade é uma constante, adota a máxima de que bandido bom já nasce morto.

Seguindo na rotina de meu trabalho, quando chego a brincar com amigos de fora do meu círculo profissional, dizendo que meu ofício é viver de desgraça e confusões alheias, continuo atendendo ocorrências diversificadas. Num dia é uma dupla armada de faca nas imediações da prefeitura, depois um assalto à residência no bairro da Can, onde um casal de idosos com sua filha, uma profissional liberal, acordam com três criminosos armados dentro de casa e ficam satisfeitos em levar dois celulares. E em outro dia, a mais comum das ocorrências, a violência doméstica. Desta vez é no bairro Cachoeira da Pasta. Para chegar ao endereço, um verdadeiro raly, devido a precariedade das ruas. No local, a vítima diz que seu ex-companheiro, com quem já trocara juras de amor eterno, lhe ameaçara com um facão. Levamos vítima e acusado para a delegacia, onde após uma conversa com os policiais de serviço, esta desiste de mover qualquer ação contra seu ex-companheiro. Neste meio tempo, alguém de dentro do xadrez me chama e o reconheço de pronto. Um jovem de menos de trinta anos que conheço desde sua infância. No começo deste ano eu o detive por violação de medida protetiva. Desta vez disse que foi preso preventivamente para ser internado devido ao vício em cack. Disse estar esperançoso, tem vontade de sair do pesadelo das drogas e que desde que chegou ao cárcere está “limpo”, juntamente com outro usuário, preso por furtar uma moto outro dia na Rua Euclides Barroso. “Vai procurar uma igreja, a palavra de Deus o libertará”, afirmou. Pediu-me uma ajuda. Apenas algumas folhas de papel para concluir um trabalho de artesanato. Atendo ao seu pedido. Algumas palavras e sinto que nem tudo está perdido. Despeço-me de um jovem sorridente, com alegria no coração e esperança de que dias melhores virão.

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*Cabo PM, colaborador do blog.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O VALOROSO SARGENTO JOTAPÊ


Pedro Paulo Paulino

A cidade de Canindé perde um personagem dos mais conhecidos de suas ruas. Morreu atropelado, na manhã do último domingo, João Paulo de Sousa Medeiros, o caricato Sargento Jotapê, que contava pouco mais de 30 anos de idade. Se é comprovado que a vocação não escolhe criaturas, a vocação para as armas, em seu voo cego, aterrissou de cheio na cabeça do Jotapê e dali nunca mais bateu asas. Pois se o destino não lhe favoreceu seguir seu ideal segundo a razão, de outro modo ele o fez.
Rigorosamente uniformizado, era sempre assim que ele aparecia em diversos lugares, sem lhe importar que o traje fosse velho e amarrotado ou que a boina ou o quepe excedesse em tamanho; o importante era não abandonar a farda. O coturno surrado e rasgado também não lhe diminuía a grandeza da sua vocação, expressa por ele com muita seriedade. Na sua curta carreira militar, cumpriu uma hierarquia meio confusa, de acordo com os fardamentos velhos que conseguia adquirir entre os amigos.
Personagem perfeito e acabado, como aqueles da ilustre Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte, o Sargento Jotapê era um voluntário incondicional da Pátria, um miliciano aguerrido, defensor da moral e dos bons costumes. Cultivava amizades e por isso era querido de todos. Seu olhar melancólico talvez reclamasse a manifestação de outros abnegados que como ele engrossassem as fileiras do seu exército fantasioso e da sua militância filantrópica. Isto porque abraçou as armas tempos depois que saiu de cena outro voluntarioso, por nome Valdemar Teixeira Lopes, o VTL, que por conta própria resolveu também envergar uma farda e se fazer quixotescamente guarda de trânsito da cidade, antes que esta tivesse um departamento dessa ordem.
Nosso herói mais recente, contudo, foi mais longe, e se é suposto que não logrou alcançar de todo o oficialato, a culpa, em suma, não lhe cabe. O indubitável é que, em tempos de tamanha conturbação e de insegurança pública, o valoroso Sargento Jotapê não se rendia a crises nem fazia conta de outra coisa senão exercer o seu ofício. Comparecia dessa forma nos mais variados pontos da cidade, dia e noite, inspecionando cada esquina, detendo-se em cada vulto suspeito, observando tudo e proclamando a ordem. Caminhava com passos regulares e sonoros, quase numa marcha bélica. Para os mais próximos, batia continência e passava, carregando nos ombros as insígnias do seu delírio e na cabeça o seu mundo fantástico, um mundo paralelo ao do restante dos homens que se julgam sãos.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

POETAS E BANANAS

MORTE AOS POETAS!
E BANANAS, MUITAS BANANAS PARA TODOS...


Por Arievaldo Viana

A cada dia que passa a gente se surpreende com mais um ato de barbárie ou de imbecilidade coletiva nesse velho país do futebol. Enquanto o oportunista Neymar posa com uma banana, dizendo que “SOMOS TODOS MACACOS”, um maluco quebra a estátua do poeta Ascenso Ferreira, às margens do rio Capibaribe, em Recife. Tempos atrás foi a vez do Patativa, que teve seu monumento quebrado em Assaré. É meus caros, no país do futebol parece que poesia é mesmo um estorvo!

A humanidade hoje em dia
Perdeu de vez o bom senso
Já quebraram o PATATIVA
Apedrejaram o ASCENSO
Em Recife, Pernambuco,
Que o mundo está maluco
Cada vez mais me convenço.

Nesse país tropical
Só se fala em futebol
Poesia é um estorvo
É baba de caracol
Bananas ao preconceito
Eu não quero ser prefeito
Nem estátua exposta ao sol.

ESTALTA DISMANTELADA

(Patativa “psicografado “por Arievaldo Viana e Pedro Paulo Paulino)

Ô mamãe você num sabe
O qui foi qui aconteceu
Cum a minha bela estalta
Qui o dotô Luço mi deu...
Apregaram lá na praça
Feliz e achando graça
Mas veja só o caé...
Um sujeito ruim da vista
Cabilerêro, paulista,
Veio batê no Assaré.

O moço era atuleimado
E se dizia meu fã
Chegô na praça cedinho
Oito horas da menhã
Querendo tirá retrato
Fez um grande ispaiafato
Se atrepô no pedestá
Da estalta e desabô
Na queda ele me puxou
Cousa munto naturá.

Os meninos lá de casa
Pensando sê vandalismo
Trataro de discubrí
Quem me jogô no abismo...
Quebrei as perna, a cabeça,
Por incríve que pareça
Quebrei tombém as custela
Fiquei todo fachiado
Lá no chão, desmantelado
Cum tão medonha sequela.

Inda bem que esse moço
Não andou lá no Dragão
Imbora que ele dichesse
Qui tinha boa intenção
Se a ôtra estalta ele visse
Fazia a merma tolice
E num me deixava bem
Mamãe, eu tenho certeza
Se ele fosse a Fortaleza
Quebrava a ôtra tombém.


Eu já li foi no jorná
Escuitei em alta voz
Já quebram inté a estalta
Da Raquezim de Queiroz
Ô mundo dismantelado
Eu já não sei de que lado
Eu posso ficar em pé
Pois vivo nessa incerteza
Se fico na Fortaleza
Ou mermo no Assaré!

Nem estalta neste mundo
Tem um momento de calma
Na terra, eu sou uma estalta
E aqui tou como alma
Vagando na eternidade
Mas sinto munta é sodade
Da terrena vida minha
Fazendo verso e fumando
E de noite chamegando
Com minha insposa Belinha.

Aqui em riba, no céu
Eu num corto mais cabelo
Num vou a cabilerêro
Só pra num ver dismantelo
Aqui fiquei bom da vista
Cabilerêro paulista
Aqui num tira partido
E si vier me quebrá
É arriscado levá

Mãozada no pé-do-uvido.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O mais notável poeta e escritor vivo do Brasil, Glauco Mattoso, em crônica recente menciona Canindé e um símbolo da romaria. 

A QUINCTA DIMENSÃO
E O SEXTO SENTIDO

Por Glauco Mattoso


Quem não é cego de nascença e perdeu a visão na meia edade, como eu, tem registros tridimensionaes bem nitidos na memoria, alem da obvia noção de perspectiva que deforma os objectos dependendo do angulo de observação, como naquella famosa tela de Dali focando um Christo crucificado visto de cyma para baixo, ou naquellas embalagens que replicam uma figura dentro de si mesma, successivamente menor, até que desappareça do olho nu, mas presuppondo infinita visualização com algum effeito de lente de augmento, como os tradicionaes rotulos do fermento Royal e do óleo Maria. Si não me enganno, a banda Pink Floyd usou esse recurso na cappa do album UMMAGUMMA, alguem me confirme ou desminta. Podolatra que sou, minha casa sempre guardou innumeros itens decorativos representando pés e calçados de todo typo, mas, depois de cego, só posso continuar usufruindo das peças tridimensionaes. Dos quadros e posters ficou apenas a lembrança: um chartaz do sorvete Gelato com a photo dum garoto prestes a lamber um picolé no formato dum pé descalço, o "Perepepé"; a impressão plantar em tamanho natural do pé do Jackie Chan; dois chartões postaes com a photo do pé da estatua de Constantino, a mim enviados em differentes datas por João Silverio Trevisan e por Néstor Perlongher, quando passaram por Roma; dois quadros com xerocopias dos pés de Hudinilson Junior, feitas pelo proprio artista plastico na phase em que documentou seu corpo nu e presenteou os amigos com imagens de cada zona anatomica, e assim por deante. A proposito, aproveito para render meu tributo à rte postal, mural e corporal, que eu chamaria de "symplastica", desse legitimo expoente da  vanguardista intervenção urbana, recentemente fallecido, e me disponho a doar os dois quadros xerographicos a quem esteja na curadoria da obra do Hudinilson. Entretanto, ainda posso desfructar dos objectos palpaveis espalhados pelo mobiliario, taes como bibelôs, estatuetas, cinzeiros, miniaturas, brinquedos, penduricalhos e ex-votos, tudo reproduzindo sapatos, botas, cothurnos, tennis ou pés descalços. Destes, meus xodós são presentes que recebi de Canindé e outros centros de romaria, para onde os devotos levam, em pagamento de promessas, esculpturas de madeira representando partes do corpo "curadas" por obra e graça divinas. Algumas dessas esculpturas são verdadeiros exemplos de arte popular anonyma, detalhando tornozelos, curvas plantares, tendões, artelhos, unhas, inclusive o dedão menor nos casos de pé do typo grego, formato que fascina meu fetichismo. Vez por outra algum amigo, como o poeta cearense Sylvio Roberto Sanctos, se lembra de que continuo me alegrando ao ganhar taes mimos e, deliciosamente surpreso, abro a caixa contendo mais um ex-voto para a collecção.  Por fallar em dimensões e em memoria visual, sei onde está cada quadro e qual imagem está emmoldurada nelle, como sei onde está cada ex-voto e qual typo de pé está esculpido nelle. Locomover-me pela casa, à luz do dia ou na escuridão da noite, é-me indifferente do poncto de vista das referencias espaciaes e concretas, ja que desvio dos obstaculos por força do habito e me desloco com relativa desenvoltura. O que me impressiona é uma especie de radar abstracto, à guisa de percepção extrasensorial, que me faz evitar obstaculos imprevistos, não só dentro de casa, e me poupa por um triz de algum accidente. Claro que, de vez em quando, fico desattento, batto a testa ou dou cannelladas, solto um palavrão e provoco gostosas gargalhadas naquelles leitores que curtem meu masochismo. Mas o presentimento da collisão não é o unico effeito dessa percepção extrasensorial: consigo detectar até as más vibrações e as energias negativas emittidas pelas pessoas que me rodeiam, o que já constitue assumpto para outra chronica. Por emquanto, limito-me a illustrar este aponctamento com dois sonetos pertinentes e a reiterar a intenção de doar os quadros do Hudinilson.
Até a proxima!

SONETO DO UNIVERSO DENTRO DO OLHO [1499]

Algumas embalagens são lembrança
curiosa: oleo Maria, a do fermento...
Na latta, a propria latta ninguem cansa
de ver reproduzida um só momento...

É como na TV, quando se alcança
que a imagem se reflicta: o pensamento
reduz-se ao infinito, a mente avança
até que o menor poncto ganhe augmento...

Si dentro dum espelho se replica
o mesmo espelho, indago: onde é que fica
o fim? Só no limite da visão?

E quando o cara é cego? Sei que a latta,
no fundo, bem no fundo, só retracta
a minha propria cara, olhando em vão...


Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.

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Com a colaboração de Sylvio R. Sanctos.