quarta-feira, 13 de abril de 2016

SONETO

VIDAS CÉLERES

Pedro Paulo Paulino

Para que, neste mundo, tanta pressa,
Se a vida, por mais longa, é passageira?
Já basta o tempo em rápida carreira,
Pois mal termina o dia, outro começa.

Portanto, se marchamos tão depressa,
Maior é nosso fardo de canseira.
E quanto mais se vive na cegueira
Disto ou daquilo, em pedra se tropeça.

No trânsito da vida, a regra exige
De quem a vida, célere, dirige,
Que siga um pouco mais devagarinho,

Porque na marcha sempre acelerada,
Corre-se o risco de, nessa jornada,
Não desfrutar as prendas do caminho.

quinta-feira, 31 de março de 2016

SONETO

AMIGOS

Pedro Paulo Paulino

Discorde do que eu penso, do que eu digo,
Da minha crença ou não ou do meu time,
Que o bom amigo, sem pesar, redime
Do amigo a falha, e continua amigo.

Discorde se por vezes eu maldigo
De tal filosofia ou tal regime,
Que no final das contas, mais sublime
É amizade – e com você não brigo.

Em meio a tamanha turbulência,
De vendaval político e conflito...
Contrários partem para a violência.

Porém, de longe, mas na tempestade,
Bandeira branca em punho, eu, alto, grito:
Meu partido é o partido da amizade!!!

segunda-feira, 28 de março de 2016

MEMÓRIA



“OS HOMENS QUEREM PAZ”: 25 ANOS

Uma história que não sai da memória dos habitantes de Vila Campos

No dia 28 de março de 1991, uma equipe de produção da tevê Globo despedia-se de Vila Campos, no interior de Canindé, depois de duas semanas de locações que tiveram o povoado como cenário. As filmagens do especial “Os homens querem paz” agitaram o cotidiano da pacata vila que foi transformada na Soledade dos anos 30 – palco de ataques do bando de Lampião. É para lá que regressa Emerenciano, remanescente do bando, na intenção de fazer vingança dez anos depois de ter sido humilhado, espancado e preso pelos habitantes de Soledade.

sexta-feira, 25 de março de 2016

SONETO

DOIS MÁRTIRES

Pedro Paulo Paulino

A cada passo de Jesus, Maria
Presente estava, mesmo em pensamento.
Da vil traição ao torpe julgamento,
As dores dele ela também sentia.

Como uma flor atônita no vento,
Seu coração de mãe já o seguia
Rumo ao Calvário – palco de agonia,
Sinônimo de angústia e sofrimento.

O espinho, a cruz, o fel, a dor que anula
A vida de seu filho injustiçado...
Eis o dilema em que ninguém calcula

Qual é a dor maior, a dor mais triste:
Se a dor do filho que é crucificado,
Se a dor da mãe que à dor do filho assiste.

terça-feira, 8 de março de 2016

EFEMÉRIDE

A MULHER

Pedro paulo Paulino

É comparada à flor. A flor, porém,
Por mais que tenha cores, tenha encanto,
Jamais terá fascinação do tanto
Que uma mulher naturalmente tem.

As pétalas têm sedução; no entanto,
Não têm o dom daquele charme nem
Aquela graça original que vem
De uma mulher, ainda quando em pranto.

Sensualidade sobra num sorriso...
Eis a mulher! – o doce paraíso
Que Deus legou ao homem por bondade;

Porque não há, em toda a natureza,
Mais outro ser que tenha mais beleza
E mais amor e sensibilidade.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

CORDEL

No dia 26 de fevereiro de 2013 morria num acidente de carro, no interior da Bahia, o ex-vigário de Canindé frei Lucas Dolle. Franciscano atuante, sua história de vida confunde-se com a história contemporânea dessa cidade. Cordel publicado na época resume o legado do religioso para Canindé.


ADEUS A FREI LUCAS DOLLE

Pedro Paulo Paulino

Vinte e seis de fevereiro,
Quando o dia amanheceu,
Perante um fato brutal
Canindé entristeceu.
Durante o correr do dia,
Na cidade se anuncia:
Frei Lucas Dolle morreu.

Sozinho, se deslocava
Numa estrada da Bahia.
O carro dele tombou,
A notícia assim dizia.
Frei Lucas, infelizmente,
Em razão desse acidente,
Do mundo se despedia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

NOTÍCIA

A terra enxuta dificulta o crescimento da lavoura

FALTA DE CHUVA JÁ AFETA
LAVOURA EM CANINDÉ

Se o ano começou acenando favorável ao homem do campo,
o mês de fevereiro vem a cada dia matando a esperança
de uma boa safra em 2016

Contabilizando até agora quase 20 dias sem chover, pequenos agricultores do município de Canindé já começam a dar mostras de preocupação com mais uma ameaça de perdas na lavoura. Plantios de culturas tradicionais, como o milho e o feijão, amargam não só a falta de água como o ataque violento de pragas, notadamente de lagartas. A estiagem ocorre justamente no momento crítico para o desenvolvimento de algumas plantas, como é o caso do feijoeiro em seu estágio de floração.
Na localidade de Morada Nova, distrito de Iguaçu, o agricultor Júlio Paulino Gomes afirma que fez seu plantio de feijão aproveitando as boas chuvas que caíram em janeiro. O pequeno trecho de terra plantado mostra os pés de feijão crescidos esperando por água. “Todo dia eu faço limpa de mato e ‘chego’ terra no legume”, explica Júlio, enquanto bate a enxada no chão seco levantando poeira.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

SONETO

SUPERFOLIA

Pedro Paulo Paulino

Prometo estar com tudo e em toda parte
Durante os quatro dias de folia:
Dos sertões de Canudos, na Bahia,
À superfície do planeta Marte.

Na corte do eloquente D. Duarte,
Estrelas ouvirei em pleno dia;
E vou bater repleto de euforia
Na França do guerreiro Bonaparte.

Com Brás Cubas, no Rio, passearei.
Com Eça, vou voltar a Portugal.
Marília de Dirceu encontrarei

Distante no Brasil colonial...
Por isso, com prazer já reservei
Os livros para ler no carnaval.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A MORTE DO PROFESSOR E
DO SOLDADO ANDRADE

Freitas de Assis*


Não se consegue fugir das peças que o tempo costuma nos pregar. Invariavelmente ele nos cerca e faz com que revivamos fatos que já estavam adormecidos ou mesmo guardados em algum baú empoeirado de nossa traiçoeira memória. Um destes fatos ocorreu em 1995, precisamente em 23 de janeiro, uma segunda feira em que o policiamento de Canindé era feito em um precário Gol Mil de duas portas, sendo necessário mencionar que uma única patrulha fazia o policiamento da cidade, formada por três policiais, sendo os demais homens de serviço distribuídos em policiamento a pé, na guarda do quartel e na cadeia pública.

sábado, 23 de janeiro de 2016

CORDEL


BOM SERTANEJO É ASSIM

Pedro Paulo Paulino

Heliodório Paulino,
Setenta e cinco de idade,
Desde o tempo de menino
Não perde oportunidade:
Quando no mês de janeiro
O trovão alvissareiro
Lá do céu manda recado,
Ele agradece rezando
E logo vai se animando
Para plantar seu roçado.

Pega a cuia e a enxada,
Acompanhado de um filho,
Cava a terra já molhada
E planta feijão e milho.
E do chão onde ele planta,
Sente-se que se levanta
Um cheiro de terra nova.
Alegre como criança,
Deposita a esperança
E a semente na cova.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

CORDEL

O ANO QUE MORRE

Pedro Paulo Paulino

“Eu sou o Ano que morre
Nas mãos do Tempo que corre,
Morro e ninguém me socorre,
Nem mesmo adianta mais.
Contra as ordens naturais
É sempre em vão insistir;
Não deixem, pois, de assistir
Aos meus instantes finais.

Já vejo meu sucessor
Nascendo qual uma flor,
Cheio de luz e vigor,
Cercado de muita gente.
Vem chegando alegremente
Numa noite barulhenta,
Com trezentos e sessenta
E cinco dias na frente.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CRÔNICA


UMA FÊNIX QUE DESCANSA

Pedro Paulo Paulino

A última vez que ele me visitou em minha morada foi numa tarde de maio de 2013. O sertão, ainda verde, respirava o ar fresco próprio desse período do ano, e o meu fabuloso amigo chegou dando mostras de força e alento no seu espírito absolutamente livre. Espichou-se tranquilamente na rede armada no alpendre, mirou a paisagem em volta, molhou a palavra, sorriu e dissertou sobre a natureza, o clima, as aves, o solo, a vida no campo e um sem-número de outros assuntos passados em revista pelo seu olhar agudo. Vinha de mais uma das muitas batalhas que nos últimos anos travou contra a indesejada. E sobre o tema, pormenorizou os desafios, as lutas, vitórias, erros e acertos, com a grandeza de conhecimento que lhe era habitual.

sábado, 12 de dezembro de 2015


A CARTA DE MICHEL TEMER
PARA A PRESIDENTE DILMA

Autor: João Pajeú

“Brasília, mês de dezembro,
Dia sete do corrente
Do ano dois mil e quinze,
Pra ser mais precisamente.
Cara Dilma, se te escrevo
É somente porque devo
Dar-te então notícias minhas.
Almejo, cheio de ânsia,
Encurtar nossa distância
Nestas mal traçadas linhas.

‘Verba vá e verba venha’,
Quero começar assim
Com essa bonita frase
Que fui buscar no latim.
Não precisa que se frise
Que nos momentos de crise
A paixão fala mais alto.
Saibas que não é tolice
O quanto padece um vice
Na solidão do Planalto.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

SONETO

O PINTOR E O POETA

Pedro Paulo Paulino


Das artes – esse dom sem paralelo –
Deve a pintura ser a mais distinta,
Porquanto a tela, embora a mais sucinta,
Comporta a majestade de um castelo.

Com que emoção – calculo! – com que anelo
Confronta-se o artista com a tinta,
E embevecido em seu silêncio pinta
A liberdade, o sonho, a vida, o belo...

Por linha reta, prolongada ou breve,
Por linha curva, delicada ou brusca,
E toques repousados do pincel,

O artista plástico, na tela, escreve
O que o poeta, aflito às vezes, busca
Com símbolos transpor para o papel.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CORDEL


O PROTESTO DO JUMENTO
CONTRA O MERCADO CHINÊS

Pedro Paulo Paulino

Esta semana, um jumento
Moderno e bem informado
Escutou uma notícia
E ficou desesperado.
A informação dizia
Que muito jegue seria
Lá para a China exportado.

Ao saber dessa notícia
O jumento passou mal.
Porém quando melhorou,
Viu-se cheio de moral,
E contra o ato funesto
Publicou esse protesto
Numa rede social:

 “Socorro, Padre Vieira!
Clamamos aos quatro ventos,
Que desça de onde estiver
Com os seus conhecimentos
E corra pra nos salvar,
Pois a China quer comprar
Mais de um milhão de jumentos!

Tá vendo, meu caro Padre,
Que tal coisa não combina,
O gangão abandonar
Sua pátria nordestina!
Não cabe em meu pensamento:
Que diabo vai ver jumento
Lá pelos confins da China?!

Queremos permanecer
No nosso solo, o Nordeste,
Pois provaram nossa carne
Lá fora, e passou no teste.
Por isso, me desespero,
Morro de fome e não quero
Me mudar praquela peste!

Socorro, Padre Vieira!
Suplico mais uma vez.
Interceda já por nós,
Como o senhor sempre fez.
Jumento vira, em Pequim,
Banquete de madarim
E moda para chinês.

Não deixe isso acontecer,
Eu lhe peço em alta voz!
Vender jegue para abate
É comércio muito atroz.
Nos salve, Padre Vieira!
Evite essa bagaceira
Que querem fazer ‘com nós’.

Aquele povo de lá
É um povo muito rico.
Se querem comprar jumento,
Muito encabulado fico.
Seria muito bizarro
Chinês largar o seu carro
Pra passear num burrico.

Muito interessante mesmo!
Pois quem é que não se zanga?
Vender jumento pra China
Como se fosse miçanga!
Enquanto o chinês hostil
Exporta para o Brasil
Tudo quanto é bugiganga!

Sem falar que no Nordeste,
A nossa população
Já sofre muito porque
Não tem muita proteção.
É grande a carnificina,
Se o Brasil vender pra China,
Por ano, mais de um milhão!

Vai ser o fim do jumento
No sertão do Ceará.
Talvez em todo o Nordeste,
O jegue se acabará,
Pra ser servido na mesa
Da culinária chinesa,
Como quitute ou jabá.

Se o Brasil permitir isso,
Será grande a covardia,
Pois jumento sempre foi
Animal de serventia.
Foi ou não foi, seu Luiz?
O senhor mesmo é quem diz
Lá na sua ‘Apologia’.

Vender jumento pra corte,
Onde foi que se viu isto?!
Com razão eu continuo
Meu protesto e não desisto!
Não seria um grande mal
Comer carne do animal
Que transportou Jesus Cristo?!

Que crime! Que ingratidão!
Que medonha estupidez!
Não há nada que na terra
Mate a fome de vocês?!
Não concordo que jumento
Sirva jamais de alimento
Pra ninguém nem pra chinês!

O jumento é patrimônio
Do Nordeste brasileiro.
Ajudou fazer açude,
Estrada, casa e barreiro.
E novamente é bem-vindo,
Na grande seca servindo
No sertão como ‘pipeiro’.

Meu santo Padre Vieira,
Recomende em sua missa
Que ninguém transforme o jegue
Em motivo de cobiça.
E repita em seu sermão,
Que o jumento nosso irmão
Vale mais que uma linguiça!”

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SONETO

Rio Doce, em Minas Gerais, destruído por crime ambiental

RÉQUIEM PARA UM RIO

Pedro Paulo Paulino

Haverá crime rude e mais sombrio,
Que à natureza cause tanto dano,
Maior que o crime repulsivo e insano
De quem destrói sumariamente um rio?!

Um rio de água doce que ano a ano,
Em seu curso por épocas a fio,
Matou a sede – até no longo estio! –
Ao peixe e à planta e ao próprio ser humano.

Artéria aberta nunca antes vencida
Que vai ao longe transportando vida
Por trechos ora retos ora tortos...

Mas de repente um mar de lama escura
Encobre-a como horrenda sepultura:
E rio e peixe e planta tombam mortos...

segunda-feira, 2 de novembro de 2015


O CEMITÉRIO SECULAR DE CAMPOS

Pedro Paulo Paulino

O cemitério de Vila Campos tem um século e alguns anos mais de existência. Durante decênios funcionou como destino último quase exclusivo da gente do lugar e só de tempos a tempos testemunhava um funeral. Reduzido e muito simples, foi construído em terras de Júlio Paulino Gomes, coração dos mais humanitários que já vieram a este mundo e hoje ali ‘descansa dessa longa vida’. A conservação da velha necrópole ficava também sob seu encargo filantrópico, afora outras ações próprias de um benfeitor. 

sábado, 31 de outubro de 2015

MOTE

O SACI NÃO SE APOSENTA,
MESMO SENDO UM MUTILADO

Pedro Paulo Paulino

O Saci é quem governa
A floresta, a natureza.
Essa missão, com certeza,
Será para sempre eterna.
Embora falte uma perna
E por lei seja amparado,
Se ele for aposentado
O folclore se arrebenta:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Mesmo estando na ativa,
Já tem bruxa por aí
Querendo que do Saci
Apague-se a lenda viva!
Mas, da cultura nativa
Jamais será apagado
Esse moleque adorado
Que o folclore representa:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015


O VERDE DO JUAZEIRO
ENCHE OS OLHOS DE ESPERANÇA

Pedro Paulo Paulino

No sertão estorricado
Pelo sol constantemente,
Um vegetal resistente
Mantém-se verde isolado.
Ao redor, por todo lado,
Até onde a vista alcança,
A caatinga seca avança
Como um gigante cinzeiro:
O VERDE DO JUAZEIRO
ENCHE OS OLHOS DE ESPERANÇA.

É um verde tropical
Do mais pomposo matiz.
Embaixo, à sombra feliz,
Tem-se abrigo natural.
Sua copa colossal
Resgata em nossa lembrança
Os invernos de bonança,
De fartura e aguaceiro:
O VERDE DO JUAZEIRO
ENCHE OS OLHOS DE ESPERANÇA.

O juazeiro resiste
Como um símbolo de vida,
Onde a mata ressequida
É hostil, é feia e triste.
Galharia seca em riste
(Nem mesmo o vento balança)
Só se parece com lança
De derrotado guerreiro:
O VERDE DO JUAZEIRO
ENCHE OS OLHOS DE ESPERANÇA.

Viva o juazeiro forte,
Grande herói do desafio
Dos longos anos de estio
Que na terra lança a morte.
Mas juazeiro tem sorte
De resistir com pujança.
Como um sonho de criança
É seu verde hospitaleiro:
O VERDE DO JUAZEIRO
ENCHE OS OLHOS DE ESPERANÇA.