terça-feira, 7 de agosto de 2018

UM JUMENTO É ESCOLHIDO ENTRE OS MELHORES PREFEITOS




















Autor: Pedro Paulo Paulino

O Brasil está coberto
De fraudes e de defeitos,
De crimes e falcatruas,
Racismos e preconceitos.
Mas nem tudo está perdido,
Pois um jegue é escolhido
Entre os melhores prefeitos!

O seu nome é “Precioso”,
Um jegue pernambucano,
Mais honesto e mais sincero
Do que muito ser humano.
Por merecidos valores,
Foi eleito entre os gestores
Mais importantes do ano.

Entre os cem melhores chefes
Do poder municipal,
Segundo diz a notícia
Publicada no jornal,
Obedecendo a critérios,
Sem suborno e sem mistérios,
Foi eleito esse animal.

Um jumento ainda jovem
E com jeitão de artista,
Só não sei se é de direita
Ou tem veia comunista;
Entretanto, não me engano,
Ele é pernambucano
Da cidade de Paulista.

Esse fato interessante
Saiu na televisão,
E logo, o Brasil inteiro
Ao caso deu atenção,
Porque não é todo dia
Que a imprensa noticia
O sucesso de um gangão.

Logo o jumento, animal
Que a má gente discrimina,
E que já virou cardápio
Nos restaurantes da China,
Se tornar agora eleito
Dentre os melhores prefeitos,
Numa escolha de rotina!...

Segundo diz a notícia,
Esse famoso animal
Foi escolhido por conta
De trabalho social,
Educação, transparência,
E também por assistência
Direta ao seu pessoal.

E quem é que vai negar
Que o jumento, nosso irmão,
É um dos mais importantes
Gestores deste sertão:
De tudo pode fazer,
Inclusive, ensina a ler,
Como disse o Gonzação.

Na assistência social,
O jumento se garante:
Transporta o velho doente,
O menino e a gestante,
O aluno, o professor,
O doente e o doutor,
Para o lugar mais distante.

Também na infraestrutura,
O jumento é uma parada:
Ajuda na construção
De açude, cacimba, estrada...
O jumento, sim, senhor!
Merece ser ganhador
Dessa comenda afamada.

Além do mais, o jumento
Conduziu Nosso Senhor,
Como narra o Evangelho,
Todo mundo é sabedor.
Assim sendo, não convém
Que o jegue ganhe também
Prêmio de melhor gestor?!

Não é preciso dizer
O valor do seu talento!
E no meio de políticos
Desonestos cem por cento,
Sem-vergonhas, sem conceito,
Mais vale um jegue prefeito,
Do que prefeito jumento!

O jumento, no sertão,
Ainda é quem mais trabalha,
Bota lenha e bota água,
Carregando uma cangalha.
Muita coisa o jegue faz.
É meritório demais
Que receba essa medalha.

Medalha que foi entregue
Num dos mais chiques hotéis.
Em Recife, Pernambuco,
Entre colegas fiéis,
Esse fato aconteceu,
E o diploma recebeu
De “Jumento Nota Dez”.

Parabéns para o jumento,
Que por vocação trabalha.
Não se importa com cansaço
Nem o peso da cangalha.
E agora, como prefeito,
Merece mais que perfeito,
Receber essa medalha!

quinta-feira, 12 de julho de 2018

VEM AÍ A SELEÇÃO QUE DO TEU VOTO DEPENDE



















Autor: Pedro Paulo Paulino

Brasil já voltou pra casa,
Sem vitória e sem convite.
Perdeu na Copa da Rússia
Para um futebol de elite.
Mais uma vez adiado
Fica o hexa tão sonhado
Pela Seleção de Tite.

Fica também a lição
Desse vício vergonhoso:
Endeusar um jogador,
Torna-o ruim e caviloso,
Tal qual o camisa dez
Que com frieira nos pés
Caiu mais que um joão-teimoso.

Quando “gavião bundão”
Deixar de ser narrador,
Junto com mais dois patetas
Dentro do televisor,
Só nesse caso, talvez,
O Brasil volte outra vez
A se tornar vencedor.

Mas fracasso, no Brasil,
Já não mais nos surpreende.
Enquanto no futebol
A derrota ainda rende,
Vem aí a seleção
Que pra ter vitória então,
Do nosso voto depende.

Serão em sete de outubro
Novas eleições gerais,
Para escolher deputados
Federais e estaduais,
Além de governadores
E também os senadores,
Por leis constitucionais.

Tem primeiro o treinador
No Palácio do Planalto,
Onde a força do poder
Do Brasil fala mais alto!
Onde por ora um golpista,
Presidente vigarista
Tomou o trono de assalto.

A seleção que aí vem
Só pra eles faz sucesso.
Com pouco mais de 500
Deputados no Congresso!
Todos pelo povo eleitos,
Praticando seus maus-feitos,
Sem ter ordem nem progresso...

Nas diversas assembleias
Pelos 27 estados,
Também por meio do voto
São mais de mil deputados,
Todos confortavelmente
Ganhando à custa da gente
Os mais gordos ordenados!

Tem ainda no Brasil
81 senadores,
Deputados distritais
E os nobres governadores.
Uma enorme seleção,
Tudo à custa da Nação,
Sem falar nos assessores.

Essa seleção, portanto,
Já segue em plena campanha,
Usando de todo truque,
De manobra e de patranha,
Batendo de porta em porta.
E no final, pouco importa:
De qualquer forma ela ganha.

Sendo o voto obrigatório
E sendo a grande torcida
Geralmente alienada,
Muito pouco esclarecida,
A seleção brasileira
Da política embusteira
Nunca perde uma partida.

O gramado desse jogo
Tão imundo e trapaceiro,
Com certeza é o enorme
Território brasileiro.
A bola desse jogão
É o voto do cidadão,
Tendo a urna por goleiro.

É um jogo diferente,
Sem juiz e sem apito,
E vence o craque que for
Na mentira mais perito,
Como o atual presidente
Tenebroso e delinquente,
Que leva o povo no grito!

Esse time, contra o povo,
Vai sempre se defendendo.
Não partimos para o ataque
E nem vamos aprendendo
Como o cenário mudar,
Por isso, nesse placar,
Estamos sempre perdendo.

Cuidado! Em sete de outubro
Não bata a bola na trave.
O seu gol, melhor dizendo,
O seu voto é ponto-chave:
Bota pra dentro ou pra fora;
Com ele, tudo melhora
Ou fica tudo mais grave.




domingo, 10 de junho de 2018

A VOZ AMIGA (E SAUDOSA) DO CANINDÉ


Pedro Paulo Paulino

Era sempre aos domingo, que se ouvia no rádio essa saudação: “Alô, meus amigos, alô, minhas amigas, cumprimenta-lhes Tonico Marreiro!”. Saudação antológica, alegre e cordial. Ao som da melodia de “Pedacinhos do céu”, estava no ar mais um programa “Fim de semana com o Tonico”. Essa saudação transformou-se em silêncio. Tonico Marreiro já se chama saudade – palavra entranhada no seu coração que por longos anos drenou rios de sentimento bairrista. Depois de estar presente sete décadas e meia no palco da vida, Tonico dá adeus no derradeiro ato da existência. E Canindé fica órfão de um patrono apaixonado por esse pedaço de chão.
São muitos os vácuos que se formam com a ida desse conterrâneo vibrante. O rádio cearense, para começar, perde uma voz autêntica que por 40 anos a fio levou o entretenimento, a prosa divertida, a música de qualidade, a opinião sincera a milhares de ouvintes, nos vários prefixos em que trabalhou o comunicador brilhante.
A história, o folcore e as tradições de Canindé ficam à deriva com a falta do seu contador de causos e anedotas, depositário de um repertório opulento de fatos e gracejos. A música popular dos bons tempos cala-se agora sem o seu guardião e divulgador mais leal.
Perde-se um soldado aguerrido e sempre a postos no campo de batalha cultural da terra de São Francisco. A exemplo de um Atlas incansável, Tonico Marreiro carregou, não nos ombros mas no coração, o Canindé de sua paixão, de seu romantismo, de sua mocidade e recordações. E com isso, fez caso de combater, sempre, em favor da manutenção dos costumes e tradições de sua terra.
Sua despedida é o epílogo de uma vida dedicada inteiramente a uma causa: a preservação das tradições locais. Seu combate, reconheça-se, nem sempre logrou êxito. Sua batalha, muita vez, foi em vão. O que o fez jamais desistir. Determinado e movido por um carinho insólito por Canindé, Tonico Marreiro arregaçou as mangas, ergueu o peito e dedicou-se às suas origens, por força de talento e coragem. E assim conseguiu legar para nossas letras três livros, dois dos quais dedicados – antes de tudo e com justa razão – à memória de seu pai, o poeta Raimundo Marreiro. Trabalho de gigante, numa terra de costas e olhos vendados para lutas desse porte.
E como se não bastasse ainda, nos derradeiros anos de vida, alcançou a realização de outro sonho: a criação de uma entidade que congregasse os artistas de Canindé. De bom alvitre surgiu a Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória, a Aclame, da qual ele era presidente. Muito antes, entretanto, representou sua cidade no parlamento municipal, erguendo continuadamente a bandeira em defesa da cultura. Militou em prol da bandinha de música; bradou em favor da preservação dos costumes religiosos locais; defendeu a identificação de ruas e logradouros com nomes de vultos canindeenses; conservou com desvelo a divulgação de músicas de raiz; salvaguardou um acervo importante de gravações antigas; e sustentou por décadas a apresentação de seu programa radiofônico, no qual inseria a crônica “A voz amiga do Canindé”. Sem ele, agora, as tardes de domingo estão vazias.
Na sexta-feira passada, sete de junho, um aglomerado de amigos, admiadores e familiares reuniu-se na capela vicentina para prestar despedida a Tonico Marreiro. A bandinha de música do maestro J. Ratinho fez-lhe homenagem merecida. Seus companheiros recordaram trechos alegres da convivência. O cortejo fúnebre desfilou pela rua princial de sua cidade, onde fica a Casa Marreiro, monumento das tradições locais. E seu corpo foi devolvido à terra em que seu coração pregou raízes firmes, como uma árvore antiga e resistente, em cuja copa amadureceram os frutos da experiência e da sabedoria, irrigada pela seiva da inspiração, da criatividade e da integridade moral. Naquela tarde tranquila e comovida, pareceu-me ver meu querido amigo no expresso do infinito, sorrindo e acenando da janela para a terra da sua infância, mocidade e amores, e mergulhando para sempre no seu pedacino de céu de sonhos e utopias. Adeus, Tonico! Os que aqui permanecemos, até quando não se sabe, seguiremos fielmente sintonizados em você, através das ondas possantes e amigas da recordação e da saudade.


terça-feira, 17 de abril de 2018

NÃO HÁ DINHEIRO QUE PAGUE O INVERNO NO SERTÃO

Autor: Pedro Paulo Paulino

Eu sei que a cidade tem
Mil escolhas de lazer,
Lugares que dão prazer
Da maneira que convém;
Praia, parque e mais uns cem
Recantos de diversão...
Porém eu peço perdão
Por minha rude franqueza:
Nada tem maior beleza
Do que chuva no sertão!

Sei que a praia tem o riso
Do sol e mulheres belas,
E a serra tem aquarelas
Que parece um paraíso.
Mas eu não fico indeciso
Com a minha opinião.
Sem querer, meu coração
Por si mesmo se declara,
Porque nada se compara
Com inverno no sertão!

Acordar de manhãzinha
Ouvindo a doce cantiga
Da chuva mansa e amiga
Que há tanto tempo não vinha!
A nuvem lambendo a linha
Dos serrotes (que visão!).
Água correndo no chão
E fazendo ziguezague:
Não tem dinheiro que pague
O inverno no sertão!

O raio, para o Nascente,
Piscando de madrugada,
Avisando à matutada
Que vem chuva novamente.
Ouvir-se eloquentemente
O soluço do trovão
Sacudindo a imensidão
Com seu gemido profundo:
Nada é mais belo no mundo
Do que chuva no sertão!

Ouvir alguém nos contar
Que tem açude sangrando.
De tarde, avistar-se um bando
De borboleta a voar.
Galo-campina cantar,
Tomado de inspiração,
A mais bonita canção
Que até parece um bendito:
Não há nada mais bonito
Do que chuva no sertão!

Até mesmo uma goteira
Em cima da nossa rede
Ou descendo na parede
Tem qualquer coisa fagueira.
Tomar banho na biqueira,
Sem sabonete ou sabão.
Colher maxixe e feijão,
Milho verde e jerimum:
Não há bem maior algum
Do que chuva no sertão!

As nuvens, como lençol
Pesado feito de lã,
Vencendo pela manhã
A claridade do sol,
Apagando o seu farol
Com perfeita distinção;
Singular combinação
Do mais belo colorido:
Não há nada parecido
Com inverno no sertão!

Pisar a terra molhada
Descalço e sentir o cheiro
Da folha do marmeleiro
Na caatinga esverdeada,
Onde alegre, a passarada
Faz a sua orquestração;
Sapo fazer refeição
Com cardápio de besouro:
Vale muito que ouro
O inverno no sertão!

sábado, 31 de março de 2018

O TESTAMENTO DO JUDAS PARA O POVO BRASILEIRO




















Autor: Pedro Paulo Paulino

Sou Judas, o Tenebroso,
Covarde, falso, embusteiro,
Inimigo da justiça,
Sou corrupto e caloteiro,
E quero, neste momento,
Escrever meu testamento
Para o povo brasileiro.

Sou golpista e consegui,
Por meio de traição,
Ocupar de qualquer jeito
O comando da Nação,
A minha conduta é má
E o Brasil inteiro está
Na palma da minha mão.

quarta-feira, 28 de março de 2018

HÁ 27 ANOS, VILA CAMPOS VIROU PALCO DE GUERRA


Texto/fotos: Pedro Paulo Paulino

A hora “H” da grande luta aproxima-se. Desde cedo, ouvem-se os estampidos dos rifles de cangaceiros e soldados, que em confronto e montados em seus cavalos atravessam velozmente a pequena Soledade, situada no meio do sertão do Ceará. O regresso de Emerenciano, remanescente do bando de Lampião, deixa a cidade em polvorosa. O bandoleiro retorna com o propósito de fazer vingança, dez anos depois de ter sido humilhado, espancado e preso pela população.

sexta-feira, 23 de março de 2018

FOLCLORE


UNIVERSIDADE VALE DO LEITE: 16 ANOS

Pedro Paulo Paulino

Hoje, 23 de março, está fazendo 16 anos de fundação da Universidade Vale do Leite, em Canindé. A UVL foi uma brincadeira de amigos que frequentam o estabelecimento comercial do sr. Pedro Mathias, o Pedro do Leite, na tradicional Praça Azul. Rotineiramente, reúnem-se ali pessoas de várias atividades, desde o prosaico “cambista” a profissionais liberais. Os artistas locais são presença quase certa no local e, evidentemente, também não faltam os “funcionários de Cristo” e outras autoridades. Entre um brinde e outro, muitos assuntos são levantados, principalmente nos finais de tarde quando seu Pedro resolve instalar as cadeiras na calçada. Então começam a chegar um a um os habitués.

sexta-feira, 16 de março de 2018

A MORTE DE MARIELLE E A PÁTRIA DA VIOLÊNCIA



















Autor: Pedro Paulo Paulino

A morte de uma mulher
No mês dedicado a ela,
Mulher negra e ativista
Nascida numa favela,
Onde a pobreza resiste,
É o capítulo mais triste
De uma assombrosa novela.

Novela da violência
Que assola todo o Brasil,
Que ceifa vidas humanas
E tem por lei o fuzil
Com pontaria assassina
Para a classe feminina
E até a classe infantil.

sábado, 3 de março de 2018

O DEDO DE UM JOGADOR COMOVE O PAÍS INTEIRO


Autor: Pedro Paulo Paulino

Jornais, rádio, internet,
Canais de televisão,
A imprensa brasileira
Volta completa atenção
Para um fato aterrador:
O dedo de um jogador
Comove toda a nação.

Dedo mindinho do pé,
Que num momento infeliz,
Jogando bola distante
Na cidade de Paris,
Foi de repente atingido,
E o fato só tem sido
A desgraça do país.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

MANGA COM UM PAR DE CHIFRES NASCE LÁ EM PETROLINA


Autor: Pedro Paulo Paulino

Diziam velhos profetas
Que pregavam no deserto,
Que após o ano dois mil,
Seria o mundo coberto
De tudo quanto é ruim.
E se não chegou ao fim,
Só pode está muito perto.

A violência matando,
Os povos se dividindo.
Roubo, corrução e crime
O globo inteiro cobrindo.
O mundo num pé de guerra,
A paz descendo por terra,
A desunião subindo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

SAGA DE DOIS CEARENSES NA GRANDE SECA DO QUINZE


Autor: Pedro Paulo Paulino

Na grande seca do Quinze,
O Sebastião Pereira,
O caboclo mais disposto
De toda sua ribeira,
Devido à situação
De faltar chuva no chão,
Perdeu sua roça inteira.

A seca destruidora
Foi se alastrando geral,
Fazendo no Ceará
Um quadro descomunal;
Quanto mais foi aumentando,
Gente foi se retirando
Do Sertão pra Capital.

Mas nem na cidade grande
Havia emprego também.
E Sebastião Pereira
Ajuntou os seus terém
Pra vender e apurar
Dinheiro pra viajar,
Sem pedir nada a ninguém.

Despediu-se da família
No final de fevereiro,
Vendeu até mesmo o galo
Que cantava no poleiro,
 Vendeu jegue, vendeu boi,
Comprou o bilhete e foi
Para o Rio de Janeiro.

Na viagem de navio
Pra capital fluminense,
O Sebastião conhece
Um colega cearense,
Era o Mamede Cordeiro,
Que pro Rio de Janeiro
Vai também, pra ver se vence.

E quando os dois chegam na
Cidade Maravilhosa,
Contentes se agradecem
Pela companhia e prosa.
Um do outro se despede,
Sebastião e Mamede
Seguem sorte tortuosa.

O dia todinho andou
O pobre Sebastião
Pela cidade do Rio
Procurando ocupação.
Andou por toda biboca,
Mas sequer um carioca
Lhe dava nem atenção.

Do dinheiro que levou,
Não restava uma quantia
Nem pra quebrar o jejum,
Pois durante a travessia
Viajando de navio
Do Ceará para o Rio
Gastou toda mixaria.

Bateu perna e percorreu
O Rio por todo lado.
Aquele bom cearense,
Trabalhador e honrado,
Longe do seu aconchego,
Sem dinheiro e sem emprego,
Estava desesperado.

No dia seguinte andou
Por acolá, por ali...
Dentro da cidade grande,
Perdido feito um zumbi,
Foi esbarrar, o coitado,
Num circo que estava armado
Pras bandas do Andaraí.

Morrendo quase de fome,
E sem poder andar mais,
Pediu ao dono do circo,
Soltando profundos ais:
“Emprego, por caridade!
Nem que seja, por bondade,
Pra cuidar dos animais!”

O dono do circo disse:
“Não tem vaga pra ninguém.
Aliás, tem uma vaga,
Se topares, tudo bem!
Já começa a trabalhar
No show que vai começar,
E bastante gente vem”.

E continuou dizendo:
“Morreu o tigre real.
E se o amigo topar
O meu convite, afinal,
De tigre vai se vestir,
Pra de noite divertir
Nosso público leal”.

O Sebastião Pereira
No mesmo instante topou.
Vestiu a pele dum tigre
E tão perfeito ficou,
Que à noite, no picadeiro,
Agradou o público inteiro
E ninguém desconfiou.

Mas quando foi de manhã,
O pobre Sebastião,
Viu-se cercado de bichos
Numa jaula, e viu então,
Perto dele acocorado
Bufando feito um danado,
Um pavoroso leão!

“Valei-me, meu São Francisco
Das Chagas do Canindé!
Me salve desse aperreio,
Que eu juro com toda fé:
Se eu conseguir sair dessa
Pagarei uma promessa,
Voltando daqui a pé!”

Tremendo muito, assim disse,
Perante tanta desgraça.
Mas, para sua surpresa,
Acabou-se a ameaça,
Pois na mesma ocasião
Ele avistou o leão
Se acabando de achar graça.

Em vez de dar um rugido,
Assim falou o leão:
“Tu larga de ser tão besta,
Cumpade Sebastião!
Vou contar o que sucede:
Sou teu amigo, o Mamede,
Colega de arribação.

Eu também vim para o circo,
Procurando me empregar.
E só teve mesmo um jeito,
Foi esta oferta aceitar.
O meu caso é igual ao teu:
O leão também morreu,
E eu fiquei no seu lugar!”

(Adaptado de um conto do escritor maranhense Humberto de Campos – 1886-1934.)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

EU VOU VOTAR NO BANDIDO MAIS QUERIDO DA NAÇÃO

Autor: Pedro Paulo Paulino


Num país de tanta fraude,
De roubo e corrupção,
Onde nem se sabe mais
Quem é santo ou é ladrão,
Eu já estou decidido
Que vou votar no “bandido”
Mais querido da Nação!

Votei nele cinco vezes
E volto a votar de novo!
Pois diante de injustiça
Todo dia eu me comovo.
Já estou determinado:
vou votar no “acusado”
Mais querido pelo povo!

domingo, 28 de janeiro de 2018

NOTA CULTURAL

UNIÃO BRASILEIRA DOS TROVADORES
INSTALA SECÇÃO EM CANINDÉ

O segmento cultural de Canindé viveu neste fim de semana um momento marcante. Na manhã de ontem, foi instalada na cidade uma Secção da União Brasileira dos Trovadores (UBT). O evento aconteceu no auditório do Jardineira Park e reuniu artistas locais e convidados. Para proceder à instalação, compareceu o presidente da UBT-Ceará e vice-presidente do Conselho de UBTs do Ceará, Francisco José Moreira Lopes.
A cerimonia foi comandada pelo presidente da Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória (ACLAME), Tonico Marreiro. Na ocasião, foi eleita e empossada a diretoria da Secção da União Brasileira de Trovadores de Canindé – Ceará, tendo como presidente Pedro Paulo Paulino. Trovadores e cordelistas de Maranguape, Maracanaú e Ocara também abrilhantaram o acontecimento, num autêntico intercâmbio cultural.
A solenidade foi aberta com os presentes entoando a oração de São Francisco, patrono dos trovadores, e o Hino dos Trovadores, composto pelo fundador da UBT.
A União Brasileira dos Trovadores foi criada em 1966, pelo poeta Luiz Otávio (nome literário de Gilson de Castro), nascido no Rio de Janeiro em 1916. A entidade é dividida em seções e delegacias municipais, conforme o número de membros no município e em seções estaduais, conforme o número de cidades representadas no estado. O Dia do Trovador é comemorado em 18 de julho.

Prof. Zé Parecido, sec. de educ. de Canindé, Arleyse Matos,
Erivaldo Costa (IBGE), presidente da ACLAME, Tonico
Marreiro, presidente da UBT-CE, Francisco Lopes e PPP

Auditório Jardineira Park 

Tonico Marreiro e PPP

Francisco Lopes, trovador Artemiza Silva (Ocara) e PPP

Tonico Marreiro, Artemiza Silva, Francisco Lopes, PPP,
trovador Luiz Carlos (Maranguape) e cantor Chico Walter


Arleyse Matos, PPP e Artemiza Silva


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A LIÇÃO DO RATO E O GOLPE DA PREVIDÊNCIA

Autor: Pedro Paulo Paulino

Certo dia, um fazendeiro,
Ao retornar da cidade,
Trouxe um pacote na mão,
E por curiosidade,
Lá do telhado espiando,
Um rato ficou brechando
Qual seria a novidade.

 “Deve ser comida boa!”,
Calculou dessa maneira.
Mas quando viu o que era
Quase cai da cumeeira,
Pois o dono da fazenda
Trazia uma coisa horrenda
Que se chama ratoeira.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O ADEUS DE LOURO BRANCO

Autor: Pedro Paulo Paulino


A viola está de luto,
O repente emudeceu,
O brilho da cantoria
Neste dia esmaeceu:
Corre a notícia no mundo,
Que Louro Branco Morreu.

Setenta e quatro viveu
E sessenta e três cantou,
Porque foi com doze anos
Que na viola pegou
E durante a vida inteira
Muito verso improvisou.

Muita graça provocou
Com o seu humor preciso,
Que sempre ilustrava mais
Seu genial improviso,
Por isso é que Louro Branco
Morreu no Dia do Riso.

Fez da terra um paraíso
Da mais pura poesia.
Seu improviso veloz
No palco da cantoria
Era como um carro novo
Correndo na rodovia.

Cantava durante um dia
Inteiro, sem lhe faltar
O verso feito na hora
E a rima pra completar,
Pois o seu forte era mesmo
A arte de improvisar.

Quem o quisesse topar,
Devia estar preparado,
Pois Louro, de todo jeito,
Dava conta do recado,
Foi sempre fera terrível
No seu verso improvisado.

Deixou um grande legado
De poemas e canções
Que somam juntas, talvez,
Seiscentas composições,
Todas bastantes poéticas
E cheias de emoções.

Diversas premiações
Louro Branco conquistou.
Os melhores cantadores,
Em desafio enfrentou,
E em mais de vinte estados
Do Brasil ele cantou.

Sua viola calou,
Nós lamentamos perder
Um dos maiores poetas
Que o Nordeste pôde ter.
E sobre sua própria morte,
É Louro quem vai dizer:

“No dia em que eu morrer,
Deixo a mulher sem conforto,
Roupas em malas guardadas,
O chapéu num prego torto,
E a viola com saudade
Dos dedos do dono morto”.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Uma cena original
É um jumento com sela
Parado em frente à cancela
Da moradia rural;
Com estribo e peitoral,
Esperando paciente
O dono seguir em frente
Montado no seu “gangão”:
Ainda existe sertão
Como havia antigamente.

PPP
26/12/17

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O JUMENTO E O NATAL


Autor: Pedro Paulo Paulino

Personagem esquecido
Nos festejos de Natal,
Não é homem nem mulher,
Mas um singelo animal
Que conduziu o menino
Jesus Cristo pequenino
Num sagrado ritual.

O jumento, todos sabem,
Transportou com segurança
A Santa Virgem Maria
Que deu à luz a criança
Jesus Cristo iluminado,
Símbolo divinizado
De bondade e de esperança.

Nesse pequeno animal,
A Santa Virgem Maria
E seu esposo José
Passaram na travessia
Que São Lucas descreveu,
E Jesus Cristo nasceu
Dentro de uma estrebaria.

O jumentinho ficou
Na espera do casal,
Pra chegarem na viagem
Ao seu destino final.
Sem nunca os deixar a pé,
O jumento também é
Um emblema do Natal.

Seu lombo tem um sinal
Que alguma coisa traduz,
Um desenho muito claro
No formato de uma cruz
Que segundo Gonzagão,
Não foi outra coisa não,
Foi o pipi de Jesus.

Por ter conduzido Cristo
Em notável trajetória,
O jumento nunca deve
Sair da nossa memória
Nem tampouco dos anais,
Porque dentre os animais
O jumento tem história.

Infelizmente, o jumento
Também é injustiçado,
Por não ter mais serventia
Vive à toa abandonado.
Sem dono e sem proteção,
Muito jegue no sertão
Morre sempre atropelado.

É que da terra distante
Onde o Salvador nasceu,
O jumento servidor
No Nordeste apareceu,
E à custa do seu suor
O sertão ficou melhor
Porque se desenvolveu.

Fez a vez de caminhão
E fez a vez de trator,
De transporte do matuto,
De parteira condutor,
Fez açude e fez estrada...
Jumento, em sua jornada,
Foi bastante servidor.

Como disse Gonzagão,
Fez também até a feira,
Usando em cima das costas
A cangalha e a esteira,
Em escravo convertido;
Também não foi esquecido
Por padre Antônio Vieira.

Se Jesus Cristo voltar,
Como diz o Testamento,
Talvez daqui a mil anos
Ou mesmo a qualquer momento,
A certeza podem ter
Que ele vai aparecer
Escanchado num jumento.

E quem sabe, novamente,
O Nazareno arrebanha
A multidão para ouvir
Novo sermão da montanha,
E ali, mesmo ao relento,
Faça em favor do jumento
Uma bonita campanha.

E talvez discurse assim:
“Meus irmãos, neste Natal
E em todo tempo do ano
Não esqueçam do animal
Que uma vez me transportou
E para sempre ficou
No seu lombo o meu sinal.

O jumento é nosso irmão,
Leal, amigo e fiel,
Seja lá pelo sertão,
Seja lá por Israel...
Deixo aqui aconselhado
Que ele seja mais lembrado
Do que o Papai Noel!”

Portanto, digamos viva!
Ao jumento nosso irmão.
Já disse padre Vieira,
Também disse Gonzagão.
Um deles foi escritor,
O segundo foi cantor,
Porta-vozes do sertão!

O jumento sempre foi
O servidor mais leal,
Auxiliar do matuto
No seu trabalho braçal.
Ao leitor sempre fiel,
Desejo neste cordel
Votos de Feliz Natal!