sexta-feira, 27 de março de 2015

SONETO DE BENDIZER

Pedro Paulo Paulino

Bendigo a chuva que na terra espalha
O verde e a água que de cima veio,
Que abranda o sol e torna o solo cheio
De vida para quem nele trabalha.

Bendigo a névoa matinal que orvalha
A mata fresca, transformando o meio,
E envolve a serra inteira no seu seio
Cobrindo-a como alvíssima toalha.

Bendigo a chuva, porque dela vem
Nova esperança, como traz também
Recordações antigas dos meus Campos:

Manhãs de infância, tardes tão serenas
E a noite calma entrecortada apenas
Pelos relâmpagos e os pirilampos.

terça-feira, 24 de março de 2015

INVERNO


O SERTÃO RENASCE

Pedro Paulo Paulino

A chuva alegra o Sertão,
Que se mostra transformado.
A seca já nem parece
Que por cá tenha passado.
O relâmpago provoca,
O trovão responde em troca,
E a nuvem dá seu recado.

Tem-se notícia de chuva
Do Sertão ao Litoral.
A natureza, festiva,
Muda todo o visual.
E, de repente, este chão
Se mostra em nova versão,
Cheio de vida, afinal...

O céu tingido de nuvens
Parece enorme tecido
Nos quatro cantos do mundo
Sobre o Sertão estendido;
O sol, que tão forte ardia,
Passa atrás da nuvem fria
Estranhamente escondido.
  
A chuva vitaminada
Despejada pela nuvem,
De um momento para o outro
Fez germinar a babugem.
Da terra então ressequida,
Pequenas formas de vida
Feito um milagre ressurgem.

A fauna se movimenta
Com mais determinação.
As incontáveis formigas
Passam como em procissão...
Certamente deve ser
Um modo de agradecer
Pelas chuvas no Sertão.

Mais cheio de inspiração
Canta o galo-de-campina,
Que havia tempo calava
Ou cantava na surdina.
Só ele sabe, no entanto,
Que com a chuva , seu canto
Perfeitamente combina.

Na correnteza das grotas
Passa todo triunfal
Um cururu desfilando,
Que, se comparando mal,
Parece alegre palhaço
Dentro da lama e bagaço,
Em baile de carnaval.

A flora toda se anima:
O Pau-branco, o Marmeleiro,
A Catingueira, a Jurema,
Num milagre verdadeiro,
Juntam-se para acenar,
Verdejantes, de invejar
O verde do Juazeiro.

Foi tanto sol, tanta seca,
Que o nosso alegre Sertão
Ficou triste, pesaroso,
Mas esses dias se vão...
O céu tornou-se bravio,
Viu-se acender um pavio,
Era o raio, era o trovão.

Era a chuva que chegava,
Como nota alvissareira.
De noite, deu seu sinal
Cantando pela biqueira.
Agora, sim, meu Sertão
Pode afirmar com razão
Ser a terra hospitaleira.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

SONETO

A SERPENTE E O VAGALUME

Pedro Paulo Paulino

Havia muito tempo que a serpente
Um simples vagalume perseguia,
Enquanto ele na noite reluzia
Com a sua lanterna incandescente.

A víbora inimiga e repelente
Não dava trégua à presa em agonia.
Até que o vagalume, certo dia,
Resolveu indagar-lhe frente a frente:

"Por que tentas lançar-me o teu veneno?!
Sendo eu inseto frágil, tão pequeno,
Sirvo-te de alimento ou de empecilho?!”

E a serpente, vencida, respondeu:
“O que me aflige, na verdade, é eu
Rastejar toda a vida e ver teu brilho”.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SONETO

O OUTRO CARNAVAL

Pedro Paulo Paulino

O carnaval termina e a vida segue
A cadência de sempre. O recomeço
É para alguns, por certo, um alto preço;
Recomeço é atroz, não há quem negue.

Para quem, entretanto, vive avesso
À pândega, a vida então prossegue
No mesmo passo e ao mesmo modo entregue,
Onde a paz tem ali seu endereço.

Plenos de gozo ou lamentando enfado,
Estes e aqueles voltam, todavia,
Ao palco do labor continuado

E ao velho carnaval do dia a dia,
Do desfile de lutas agitado,
Sem máscara, sem pó, sem fantasia...

DÉCIMAS

NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ*


Pedro Paulo Paulino

Veja um simples vagalume
Gerado naturalmente
Clareando intermitente
No mais intenso negrume.
Com diminuto volume
Um pisca-pisca ele traz,
Sem bateria nem gás,
Sem poluir com fumaça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

Agora veja o tatu
Que num buraco discreto
Constrói o seu próprio teto
Sem pagar IPTU,
Sem o risco de andar nu,
Com sua capa tenaz.
Se o homem deixá-lo em paz,
Nunca perde a carapaça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

Um gigantesco vulcão
É das maiores façanhas,
Vomitando das entranhas
Da terra, feito um glutão.
No calor da erupção,
A rocha se liquefaz.
E, qual ébrio contumaz,
Provoca e faz arruaça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

O joão-de-barro pedreiro,
Sem ajuda de servente,
Constrói de barro, somente,
Seu apartamento inteiro.
Pode cair aguaceiro
Da maneira mais voraz,
Que nada disso desfaz
Aquela sua argamassa:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

Como um titã invisível,
Imaginemos o vento
Correndo a todo momento
E vencendo qualquer nível.
Todo o tempo disponível
E o tempo todo fugaz,
Ora o vento nos apraz
Ora nos causa ameaça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

Uma pequena semente
Que cabe na nossa mão,
Quando enterrada no chão
Se transforma de repente.
Rompe a terra e bravamente
Cresce de modo eficaz.
Tem espécie tão audaz,
Que cem metros ultrapassa:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ:

Um cromossomo invisível
É quem cedo determina
No menino ou na menina
O sexo, de modo incrível,
Tornando bem distinguível
Quem será moça ou rapaz.
Tem cromossomo incapaz
Que a coisa então embaraça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

Natureza soberana,
Tão enérgica e singela,
Que produz tanto a procela
Quanto uma simples banana.
Mãe da inteligência humana
De mil prodígios capaz.
Conquista sempre cartaz
Quem a Natureza abraça:
NÃO TEM NO MUNDO QUEM FAÇA
O QUE A NATUREZA FAZ.

__________
* Mote sugerido por Arievaldo Viana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

DÉCIMAS

A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA

Pedro Paulo Paulino

Um baile celestial
Pelos deuses promovido
Será jamais esquecido,
Conforme deu no jornal.
Na coluna social
Da grande imprensa sagrada,
Essa manchete estampada
Foi por todo mundo lida:
“A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA”.

É claro que a informação
Só foi vista com grandeza,
Porque a rara beleza
Foi de chamar atenção.
O Autor da Criação
Foi do céu para a sacada
Assistir à sua amada
Bailar e ser aplaudida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Nesse baile, a Lua bela
Não vestia um simples véu,
E o vasto salão do céu
Abriu-se inteiro pra ela.
A plateia em torno dela
Ficou toda concentrada
E a deusa tão prateada
Foi bastante enaltecida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

As mais lindas sinfonias,
Os astros executaram.
Das estrelas, se escutaram
Envolventes harmonias.
Até mesmo as Três Marias,
Já pertinho da alvorada,
Cantaram uma toada
Que sacudiu a torcida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Grande Júpiter, na sua
Posição alta e preclara,
Abandonou tudo para
Ver o corpo nu da Lua.
A notícia continua
Dizendo que essa noitada
Foi por deuses aclamada
Como a mais bela da vida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Era quase uma miragem
De uma vedete divina.
Na plateia, a adrenalina
Crescia com essa imagem.
Viu-se enorme tietagem
Pela Lua provocada,
Bailando como uma fada,
Porém, com nada vestida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Num ponto mais altaneiro,
Pra ver o que jamais viram,
Pequenos astros subiram
Nas estrelas do Cruzeiro.
Até Marte, deus guerreiro,
Não ligou mais para nada,
Com a alma apaixonada
De intenso amor possuída:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Como toda mulher linda
Em sua plena nudez,
A Lua, por sua vez,
Ficou mais bonita ainda.
E se sempre foi bem-vinda
Numa noite iluminada,
Para Miss eternizada
Foi lá no céu promovida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Da Terra, todos olhares
Para a Lua se voltaram,
Pelo espaço se juntaram
Astros de todos lugares.
E por eles, aos milhares,
Foi a Lua cortejada,
Mas quando se viu cansada,
Começou a despedida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

Pois nesse exato momento,
Pequena nuvem tão leve
Vestiu a Lua de neve,
Pelas próprias mãos do vento.
E o festim do Firmamento
Findou na hora marcada.
A nota então publicada
Nos jornais foi repetida:
A LUA DANÇA DESPIDA
NO SALÃO DA MADRUGADA.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

CORDEL

PROFETAS DO MEU SERTÃO

Pedro Paulo Paulino

No nosso sertão, ainda
É possível se saber,
Pela voz da Natureza,
Se está perto de chover.
Nem a tecnologia
Derrubou essa magia,
Pois temos sempre o desejo,
Mesmo no mundo moderno,
De saber sobre o inverno
O que diz o sertanejo.

O sertanejo que vive
Em contato com a terra,
Que dialoga com aves
E com Sapo-boi que berra.
Esse matuto importante
Muita coisa nos garante
Pela sua experiência!
A Natureza é seu tema
E não tem nenhum problema
Se misturar com ciência.

Ele, observando, sabe
O que diz o passarinho
Que dependendo do ano
Vê como constrói o ninho:
Se de chuva há garantia,
Faz a sua moradia
Com entrada pro poente;
Mas quando é seca que arrasa,
João-de-barro faz a casa
Com entrada pro nascente.

Antes, quanto encantamento,
Quanta surpresa e magia
Tem nas pedrinhas de sal
Noite de Santa Luzia.
Seis pedras representando
De janeiro a junho quando
Nosso inverno se sustenta,
A pedra que umedecer
Informa que vai chover
No mês que ela representa.

Pra saber se vai chover,
O sertanejo entrevista
Uma Rã no pé do pote
Que canta feito um artista.
Depois dessa sinfonia,
Ele encontra sintonia
Com o Pássaro Carão,
E, segundo a sua norma,
Através dele se informa
Se vai chover cedo ou não.

O sertanejo consulta
Também o Fura-barreira
Que, sentindo vir a chuva,
Antes canta a tarde inteira.
Por outro lado, a Acauã
Quando canta de manhã
Ou da tarde, no final,
Da maneira que eu entendo
Cantando ela está dizendo
Que não é um bom sinal.

O profeta do sertão
Também decifra a Cigarra,
E na manhã do Natal
Acorda pra ver a barra.
Se tem barra, inverno tem,
Se não tem barra, porém
O matuto desanima.
Pode parecer banal,
Mas a barra do Natal
Também faz parte do clima.

Jumento escaramuçando
Meio-dia no sol quente,
Pode esperar confiante
Que vem chuva pela frente.
Aranha Caranguejeira
Desfilando bem faceira
Num calor que a terra treme,
A chuva está prometida,
Às vezes mais garantida
Que previsão da Funceme.

Também Gavião Vermelho
Com sua alegre chegada,
A Tatu fêmea buchuda,
Tetéu fazendo enxurrada.
E tem outra fonte amiga:
A ciência da Formiga,
Muito importante também.
Se no período de estio
Formiga deixar o rio,
É sinal que a chuva vem.

Depois que escuta os insetos,
Nosso sertanejo agora
Se volta para espiar
Ao redor de si a flora.
Por exemplo, o Cajueiro,
Se “fulorar” em janeiro,
Todo mundo fique alerta,
Porque sua floração
Fora da própria estação
Indica seca na certa.

A floração da Aroeira,
Que ocorre no fim do ano,
Se for no seu tempo certo,
Tem inverno, sem engano.
A Jurema, no verão,
Com a sua floração
Também bom inverno indica;
Se o Mandacaru 'florar'
Na seca, pode botar
O pote embaixo da bica.

O sertanejo examina
A correnteza do vento
E a partir disso também
Faz previsão a contento.
Mas quando em cima do chão
Esgota-se a munição
E o tema se torna escasso,
Para adivinhar o clima
O profeta olha pra cima
E consulta o grande espaço.

Repara se a estrela d’Alva
De tarde está para Oeste
Ou se nasce de manhã
Do lado oposto, no Leste.
Nessas observações,
Tira as suas conclusões,
Conforme seus rituais.
Prefere não comentar,
Se por acaso notar
Que não são bons os sinais.

Um lago ao redor da Lua
Também lhe traz esperança;
As estrelas cintilando
Transmitem mais confiança.
E tem ainda o Cruzeiro
Que no céu é mensageiro
Se chove na terra ou não.
Faz parte da experiência
E da sagrada ciência
Dos profetas do sertão.

É sabedoria pura
Que o homem trouxe da terra.
Até pode errar porque
A própria Ciência erra.
Também é nosso folclore.
Onde quer que você more,
Preserve, não perca ensejo.
Viva a nossa poesia
E viva a sabedoria
Do profeta sertanejo!