sexta-feira, 1 de junho de 2012


EMOÇÕES À FLOR DA PELE

Francisco de Assis de Freitas Silva*

Algumas vezes pode imaginar o cidadão comum, ser o policial militar alguém dotado de poucos recursos emocionais, que ora se encontra na condição de policial por pura e simples vocação, e que assim quis seguir carreira na segurança pública para enfrentar diversas situações de estresse e conflito e como não tem quase emoções e sentimentos, sai incólume e sem nenhuma seqüela de qualquer ocorrência e que esta seqüela não possa vir a ser classificada por um discípulo de Freud de experiência traumática. Ledo engano. Comete um erro crasso quem assim supõe; felizmente são uma minoria inexpressiva que talvez só pense nos próprios calos e não dá mínima importância aos problemas de seu próximo, ou num ensolarado dia de domingo, convidativo para um passeio no zoológico com a família para ver as piruetas e acrobacias dos macacos ou a soneca do cego urso Dimas, nesta condição devido às maldades do bicho homem, não ter a capacidade de dar um cordial bom dia ao vizinho, quiçá a um desconhecido.
Felizmente a condição de ermitões, que só enxerga sentido no seu existir em viver na mais completa e isolada solidão, é uma condição de poucos, sendo a maioria de nós classificada como um ser social, que necessita da companhia de outros semelhantes para viver, quer seja para inflar o próprio ego e contar mentirosas vantagens, jogar conversa fora numa rodada de cerveja ou mesmo para aquecer-se nas frias noites de inverno com a companheira e mãe de nossos descendentes. Em todo caso, a maioria absoluta dos cidadãos sabe que policiais são pessoas de carne e osso, que têm como ganha-pão resolver pendengas alheias, meter a colher em briga de marido e mulher, afagar e consolar pessoas que acabaram de ser roubadas ou mesmo tiveram um ente querido morto em um acidente de trânsito ou pela banalidade da violência nua e crua de nossos tempos, e até mesmo enfrentar a morte cara a cara no exercício de sua ingrata profissão. E em todas as situações de estresse e sentimentos à flor da pele, a capacidade do policial de assimilar as emoções é essencial para que o ser humano que necessita de auxílio num momento de aflição seja bem atendido e tenha minimizado o seu sofrimento; para isso as emoções do servidor público que está à frente da ocorrência devem ser as mais contidas possíveis, não deixando transparecer despreparo ou descontrole para passar a impressão de força, coragem e calma. Óbvio que nem todos os dedos das mãos são iguais e não podemos deixar de relatar que existem situações em que o policial que atende a ocorrência, seja de que natureza for, comete uma série de absurdos e erros que é bom nem citar, transformando uma ocorrência simples em algo de grandes proporções. Como numa situação que ouvi falar e nem sei bem como de fato se passou, ocorrida décadas atrás em um distrito de um município vizinho ao nosso, em que um jogo de futebol de crianças num terreno particular fez com que o pai de uma delas fosse assassinado pelo policial que atendeu a ocorrência, sendo este policial morto a golpes de faca pelos parentes da vítima que acabara de ser morta. Pura falta de um bom diálogo.
Cada caso é um caso, e acontece que na maioria das ocorrências realmente existe alguém necessitando de auxílio. È um marido que espanca a companheira, uma criança maltratada ou alguém que teve um bem subtraído por um assaltante, como um celular, por exemplo, usado como moeda de troca para alimentar o vício do crack avassalador, destruidor de lares e desagregador de famílias. Entretanto, algumas ocorrências são bem mais estressantes do que uma simples briga de vizinhos causada pela música alta de um aniversário; nos últimos anos uma modalidade de crimes vem tirando o sono de autoridades e moradores de municípios de pequeno e médio porte, quando grupos de criminosos fortemente armados invadem pequenas cidades do interior não só do Ceará mas também de praticamente todos os estados da federação e roubam o dinheiro de caixas eletrônicos utilizando além das armas, explosivos. Não sem antes sitiar os policiais ou rendê-los para que possam agir sem maiores preocupações e geralmente em alta madrugada. Aqui mesmo próximo a Canindé, já houve exemplos deste tipo de delito, como em Madalena, que na madrugada de sete de fevereiro foi invadida por uma horda de quinze a dezoito homens (houve controvérsia quanto ao número, quando no outro dia chegou a ser noticiado apenas em quatro o número de criminosos, segundo relatos da mídia local) que sitiou o prédio da unidade policial efetuando disparos e explodindo inclusive um artefato explosivo como forma de intimidar os militares que se encontravam no interior do prédio, impedindo uma reação. O bando fortemente armado com fuzis dividiu-se, enquanto uma parte cercava os policiais a outra fração seguiu para a agência do Banco do Brasil e explodiu o cofre fugindo em seguida.
São inúmeros os sentimentos que podem ser elencados em episódios desta espécie, tanto pelo cidadão comum que soube da informação, como pelo que foi testemunha ocular ou mesmo refém. Imagine então o policial que ali estava e teve sua vida em franco perigo. É de se imaginar que problemas sociais antigos e mal resolvidos, aliados a gigantesca burocracia e corrupção nos órgãos públicos e na política de um modo geral, tenham lá sua parcela de culpa em episódios como os narrados acima em comunhão com a flexibilidade de nossas inúmeras leis e colabore para a evolução destes e de outros tipos de crimes, sem mencionar a ineficácia de nossas prisões no sentido de ressocializar o infrator.
Outra ocorrência deste porte ocorreu na cidade de Hidrolândia, a qual já fez parte da jurisdição do 4º batalhão, estando hoje subordinada à 2ª Companhia do 7º batalhão, sediada em Nova Russas. No dia 3 de agosto de 2011, cerca de seis homens explodiram o caixa eletrônico do Banco do Brasil. De acordo com o apurado, dois elementos ficaram defronte à delegacia disparando para o alto para intimidar os policiais enquanto que os demais foram para a agência bancária, arrombaram a porta principal e tentaram explodir os caixas eletrônicos. Como não conseguiram seu intento criminoso fugiram do local em direção à Santa Quitéria. O que não foi veiculado nos meios de comunicação foi o fato de dois dos criminosos terem ficado com armas em punho em frente à residência do meu irmão, o cabo Eriberto, policial militar lotado em Nova Russas. No dia do ocorrido também me encontrava de serviço como fiscal de policiamento do Ronda do Quarteirão em Canindé e acompanhei o desenrolar dos fatos, quando meu irmão ouvindo as explosões e tiros, ligou de sua residência para Santa Quitéria e de lá houve o contato com o 4º batalhão, quando foi enviada uma equipe do FTA para a região, além de equipes de Crateús e Sobral. Talvez pelo fato de meu irmão ser um policial militar e já ter trabalhado em Hidrolândia, ou por sua casa ficar entre a delegacia e o Banco do Brasil daquela cidade, no meio da rua Professora Argentina Façanha, é que os bandidos ficaram em frente de sua casa.
A realidade converge para que relatemos que naquele instante em que eu estava de serviço e acompanhava a comunicação por rádio e ficava esclarecido do ocorrido, meus sentimentos eram de impotência, por não poder fazer nada para ajudar, e temor pela vida de meu irmão. Passados alguns momentos do episódio, conseguimos contato com o cabo Eriberto e senti pelo tom de voz em suas palavras que ele ficou temeroso pela sua segurança, mas principalmente pela segurança de sua família. Nas ocorrências com que nos deparamos, vemos sempre a situação da vítima, uma vez que temos amigos e familiares que eventualmente se veem ou já passaram por essa condição e já sabemos o que sente o familiar de alguém nestas horas, pois, como já disse em outra ocasião, somos tão ou mais vítimas como qualquer um pobre e reles mortal.

*Cabo PM, colaborador do blog.

quinta-feira, 24 de maio de 2012


Humor até a tampa
ARIEVALDO VIANA LANÇA NOVO BAÚ


Este ano vai marcar a cultura de Canindé em dose dupla, com o lançamento dos livros O BAÚ DA GAIATICE, de Arievaldo Viana, e RAIMUNDO MARREIRO – Poeta Popular, do radialista Tonico Marreiro. O segundo vai ser lançado em 31 de agosto e o primeiro, na noite desta sexta-feira, 25, na choperia Aquarius, praça Dr. Aramis. Ambos os trabalhos têm parentesco de gênero, pois reúnem poesia, causos, anedotário e acontecimentos jocosos da vida boêmia desta cidade. O primeiro traz à tona a farta produção do poeta e folclorista Raimundo Marreiro contextualizada com o Canindé de seu tempo. O segundo é basicamente a continuidade desse período, coincidindo com a passagem de século-milênio, que assistiu ao surgimento de novos representantes da poética, da música, da boemia e do bom-humor da terra de S. Francisco.
Foi ainda em abril de 1999 que Arievaldo apresentou ao público a 1ª edição de seu BAÚ, dando com isso uma sacudida na cultura local, que amargava momentos de déficit. O acontecimento puxou uma série de outras novidades na literatura canindeense, pois nesse mesmo ano em setembro veio à lume o livro CONCERTO DE POEMAS SEM CONSERTO, de Celso Góis Almeida. No ano seguinte, Arievaldo enche mais o BAÚ, põe no ombro e publica a segunda edição da obra, desta vez mais rica em Literatura de Cordel, que por esse tempo começou a renascer com todo fôlego.
Nesse período, Augusto Cesar Magalhães Pinto dedica-se a uma intensa pesquisa iconográfica que resulta em seu livro VIAGEM PELA HISTÓRIA DE CANINDÉ, publicado em 2003. Seis anos depois o mesmo autor presenteia o público com o livro HISTÓRIAS DE NOSSA TERRA E DE NOSSA GENTE – Crônicas Ilustradas, enfeixando em suas páginas aspectos bem-humorados do cotidiano da cidade. Antes, em 2002, Arievaldo publica SÃO FRANCISCO DE CANINDÉ NA LITERATURA DE CORDEL, fugindo um pouco de seu filão, o humor.
Paralelas a essas publicações, outras tantas reavivaram as letras canindeenses, a exemplo do livro CREPÚSCULO MATUTINO, do poeta José Maria Costa, e vários folhetos de cordel de Gonzaga Vieira, Natan Marreiro, Jota Batista e Pedro Paulo Paulino. A música e as artes plásticas também revelaram em nossa terra novos talentos, promissores e dinâmicos.
Agora, O BAÚ DA GAIATICE, mais fornido em sua 3ª edição, traz visual gráfico e impressão de primeira qualidade, cheio até a tampa de novos causos, histórias, anedotas e cordéis atraentes. São peças novas misturadas com peças antigas, que ganharam novos bordados e novas cores, costuradas no melhor tecido encontrado na seara do folclore cearense, em especial, o folclore canindeense. Ao desafivelar o BAÚ e revirar seu conteúdo, Arievaldo Viana vai agitar uma fauna incomparável de personagens cheios de graça, como Zé Freire, Zé Adauto Bernardino, Franzé D’aurora (vivos); Bunaco, Broca da Silveira, Zuca Idelfonso, Antonio Viana, Muquila, Mundim Sampaio, Miguel Carpina (de saudosa memória). O livro, com ilustrações de fino traço, tem o adjutório de um magote de prosadores, poetas e humoristas canindeenses, entre os quais Jota Batista, Silvio R. Santos, Natan Marreiro e Pedro Paulo Paulino. E vem com recomendações de primeira ordem, deixadas pelos saudosos jornalistas-escritores Ribamar Lopes e Blanchard Girão. O efeito colateral é somente o riso.

terça-feira, 22 de maio de 2012


O NASCIMENTO DE UM LIVRO

Pedro Paulo Paulino

Costuma-se dizer que publicar um livro é como botar um filho no mundo. Nada mais comparável do que o livro RAIMUNDO MARREIRO – Poeta Pular, escrito pelo Tonico Marreiro. Foram exatos nove meses de gestação. Acompanhei a evolução do trabalho passo a passo. Quando ainda era um feto, o livro não prometia alcançar duas centenas de páginas. Mas o seu desenvolvimento foi exigindo, de modo natural, muito mais textos. E a verdade é que o livro nasceu robusto, beirando as 400 páginas e muito bem nutrido de prosa e poesia.
Mas do que quero falar mesmo é dos bastidores da feitura do livro. Para o leigo, convém dizer que o trabalho de diagramação consiste em pôr em seu devido lugar na página de jornal, livro, revista etc, o texto, a ilustração, a legenda, e ainda optar pelo formato da publicação, além de detalhes como o tipo e o tamanho de letras. Pois foi essa tarefa que o Tonico me delegou desde que seu livro era ainda um embrião. E de todas as edições gráficas que já passaram por minhas mãos, sou capaz de jurar que nenhuma foi tão prazerosa de fazer como essa. Também pudera, pois o livro encerra o trabalho deixado por um grande poeta do povo, o canindeense Raimundo Marreiro.
Vavá, PPP e Tonico
Nesse período de elaboração, aconteceram momentos memoráveis que, segundo o Tonico, mais o inspiravam a escrever. Assim foram brotando novas ideias e mais capítulos foram sendo criados, e cada vez mais encorpado foi ficando o livro. Em dado momento, nosso trabalho a quatro mãos assemelhava-se a… uma farinhada. Tonico redigia mais um capítulo, como que preparando outro rebolo de massa, o qual me repassava, e eu, como um forneiro, dava prontas as novas páginas.
O trabalho, desta forma, transformou-se o tempo todo numa lida atraente, em que certas discussões sobre o andamento da obra davam vez a histórias engraçadas, entre os inúmeros causos do repertório do Tonico. Durante vários fins de semana, ele botou o notebook a tiracolo e viajou em seu fuscquinha até meu rancho na Vila Campos, vindo da cidade onde mora, Caridade de Santo Antonio. Acompanhado da esposa Patrícia e das três filhas, ou as Três Poderosas, logo gerou-se um entrosamento familiar deles com os da minha convivência. Em algumas ocasiões, a visita improvisada de outros amigos tornava-se um encontro saboroso, temperado de boa prosa e muita descontração. Tínhamos mesmo o cuidado de não deixar o livro em segundo plano, tal era a leveza dessas audiências.
Djacir e Mobral
Foi nesse período, e por causa desse trabalho, que tive a graça de fazer amizade com o cronista Djacir Aimoré Martins, cujo pai, o Tenente Martins, é personagem-chave no roteiro do livro. Entre este e o poeta Raimundo Marreiro travaram-se no passado interessantes desafios poéticos, em que o lápis tomava o lugar da viola. Suas correspondências em versos estão nas primeiras páginas. Pois bem, Djacir, certa manhã, por aqui chegou, montado em sua motocicleta, que ele chama Duquesa. Conhecíamo-nos, já, virtualmente. Em pessoa, ele chegou num domingo, admirou a mata verde, fotografou, filmou os galos-de-campina, gravou o canto do sabiá, e logo eu e ele nos tornamos compadres.
Uma ocasião bem eloquente, já na contagem regressiva para o fechamento do livro, deu-se quando recebemos a visita do humorista Vavá. Canindeense de boa cepa, tem ele na cabeça uma invejável safra de conversa animada; se acaso faltar o que contar, para não interromper seu verbo fluente ele cria na hora, embora com alguma dose a mais que o genuíno. A vida social e política de Canindé passa antes pelo Vavá e em sua boca ganha o melhor formato. Pois o Vavá, de ocasião, também integrou o making of do livro do Tonico.
Outras vezes, paguei as visitas do meu amigo indo a sua casa em Caridade, onde levávamos em frente a diagramação. Foi ali que conheci o vizinho dele, um sujeito passado na casca do alho e que de Mobral só tem o apelido. Tais surpresas, portanto, tornaram gratificante o trabalho de fazer o livro, já por si tão compensatório para nosso espírito.
RAIMUNDO MARREIRO – O poeta popular foi concluído no último domingo, 20 de maio. Trata-se de um trabalho de fôlego e de uma pesquisa minudente, um livro de bom gosto gerado numa atmosfera deleitosa, fazendo jus ao seu conteúdo, uma verdadeira joia extraída no minério da poética, do humor e do folcore nosso. Tonico Marreiro arremata em seu livro mais de meio século da história literária e boêmia de Canindé, entregando ao público um presente há tanto tempo esperado. Filho do poeta Raimundo, ele está quitando o antigo débito de registrar num volume as criações e inventividades que imortalizaram seu pai na tradição oral. Mas o leitor ávido terá ainda que esperar um pouquinho mais, porque o livro, ou rebento, embora nascido espontâneo e vigoroso, depois de impresso vai ficar na incubadora até o dia 31 de agosto de 2012, data do lançamento que promete ser uma festa pai-d’égua!

Com Patrícia e Ivonete
Com as Três Poderosas
Foto que registra o fechamento do livro


sexta-feira, 18 de maio de 2012


Portaria baixada esta semana pelo juiz da comarca de Canindé, Josimar de Almeida Alves, determina que todas as calçadas da cidade sejam reservadas unicamente para o trânsito de pedestres. Havia muito tempo, comerciantes e camelôs ocupavam o espaço das calçadas para expor suas mercadorias, obrigando o pedestre a trafegar pela rua, onde o trânsito é notoriamente desgovernado. A nova medida ganhou defensores e opositores, os primeiros em maioria, segundo pesquisa feita por meio eletrônico. O poeta João Pajeú, sempre de plantão em tais momentos, também dá seu parecer sobre o assunto, no cordel a seguir:

TRANSFORMAÇÕES EM CANINDÉ


 Autor: Poeta João Pajeú

Quem passar no Canindé
Vai achar muito mudado.
Eu mesmo, lá passei ontem
E fiquei todo espantado,
Era ver uma quimera,
Parecia até que era
Dia santo ou feriado.

No centro comercial
Vi a cidade arejada,
E eu, a primeira vez
Andei por uma calçada
Onde antes não se andava
Porque todo o tempo estava
De bugiganga ocupada.

Do grande comerciante
Ao vendedor de rapé,
Banca de jogo do bicho,
Vendedor de picolé,
Proíbe uma portaria
De vender mercadoria
Na calçada em Canindé.

Portaria foi baixada
Pelo Juiz de Direito.
Com isso, tenho certeza,
Que aumenta o seu conceito.
Tem muita gente gostando,
Tem outras desaprovando,
Eu mesmo acho bem feito.

Acho bem feito porque
Qualquer que seja a cidade
Deve ter calçada e praça
Para o pedestre, à vontade.
O lugar onde se mora
Deve gozar toda hora
De total urbanidade.

Mas o Canindé vivia
Todo o tempo sufocado,
Com as calçadas repletas
Por coisa de lado a lado,
O pedestre sem espaço,
Aumentando o embaraço
Do trânsito desmantelado.

Porém essa portaria
Baixada pelo Juiz
Chegou bem na hora certa
Como o povo sempre quis.
É a Lei, de prontidão,
Defendendo o cidadão
E fazendo-o mais feliz.

Mesmo assim, vi muita gente
Com ar de reprovação,
E querendo resistir
contra a determinação.
Comerciante insurgente.
Porém vi muito mais gente
Aprovando a decisão.

Um certo comerciante,
Teimoso como ele é,
Deu patada, fez berreiro,
Fez careta e fincapé,
Mas retirou da calçada
A sacaria arrumada
De feijão, milho e café.

Na calçada, camelô,
Um minuto ou dia inteiro,
Agora não fica mais,
Como era de primeiro;
Nem mesmo a Gilda afamada
Pode ficar na calçada,
Me disse Natan Marreiro.

Só lamento é o Zilmar,
Com sua confecção,
Uma banca de vender
Cueca, calça e calção,
Teve que alugar um ponto,
E neste cordel nem conto
Qual foi sua reação.

A portaria proíbe
Até mesmo colocar,
Bem acima da calçada
Placa ou tolder num lugar
Da parede, simplesmente…
Isso é bom pra certa gente,
Porque não vai enganchar.

Lá na rua Mozart Pinto,
A que tem mais confusão
No trânsito a todo momento,
Pois é mão e contramão,
Onde a coisa fica preta,
Não vai parar mais carreta
Nem carroça e caminhão.

Em frente à santa basílica
Do sagrado padroeiro,
As calçadas estão limpas
E o patamar inteiro
Ficou livre pra passar
O povo deste lugar,
O turista e o romeiro.

Desejo que Canindé,
Com essa Lei publicada,
Se transforme num modelo
De terra civilizada,
Com direito de ir e vir,
E da gente usufruir
Nosso direito à calçada.

Não foi ordem do prefeito,
Que é muito distraído.
Pelos seus auxiliares
É também mal assistido.
O nosso povo, afinal,
Ao Poder Judicial
É que fica agradecido.

Parabéns, senhor Juiz,
Pela determinação!
Quem não gostar, me perdoe,
Tenho direito ao perdão.
Infelizmente, eu bem sei:
É necessário impor lei,
Quando falta educação.

terça-feira, 15 de maio de 2012


O radialista Tonico Marreiro moveu em 2011 uma intensa campanha contra a retirada das luzes que enfeitavam o exterior da basílica de S. Francisco, em Canindé. Ele lançou, inclusive, uma revista chamando a atenção para o caso, alertando que a basílica iluminada, durante muito tempo, tornou-se um cartão-postal da cidade, cujo santuário franciscano é visitado por milhares de fiéis. Seu protesto ganhou mais fôlego no 7 de Setembro, quando Tonico desfilou exibindo uma faixa com dizeres que pediam de volta as luzes decorativas da basílica. Tonico retoma agora o tema no rádio e na mídia eletrônica, com um artigo de sua autoria, no qual ele questiona o tombamento da basílica de S. Francisco como patrimônio histórico do Estado do Ceará e comenta o desrespeito de alguns vigários com os ícones da fé e da nossa cultura.

TOMBANDO O TOMBADO


Tonico Marreiro

Aplausos de todos canindeenses e daqueles que adotaram o Canindé nos seus corações, para a feliz iniciativa do atual Secretário de Desenvolvimento e Turismo da Prefeitura Municipal desta cidade, Plínio Gomes, que, objetivando obstinadamente defender o patrimônio cultural histórico da “Terra de São Francisco”, contra a sanha dos vândalos de “mente miúda”, que se revezam na criminosa destruição dos prédios marcos da nossa história, logo que assumiu aquela pasta, arregaçou as mangas e fez jus ao cargo que passou a ocupar. E começou pelo ícone maior do Canindé, no caso, a nossa suntuosa Basílica. 
Conforme documentos que tenho em minhas mãos, o Secretário Plínio Gomes desde Abril de 2009 vem gestionando junto a Secretaria de Cultura do Estado buscando preservar para a história cultural religiosa e turística da nossa terra, o que ainda sobrava da grande obra tocada pelo saudoso benfeitor do Canindé, Frei Matias de Ponterânica, cujo Capuchinho Franciscano, com parcos recursos, entre os anos de 1910 e 1915, conseguiu transformar a então matriz na mais bela e suntuosa Basílica da América do Sul.
Dia 4 de Maio ultimo, encontrei o Plínio Gomes feliz, com ar de vitorioso, ao me comunicar a vitória da sua árdua batalha: 
- Tonico, o Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, decretou o tombamento da Basílica de São Francisco de Canindé! 
E eu quebrei-lhe o encanto quando lhe respondi com duas perguntas: 
- Tombamento da Basílica de São Francisco? Mas... Ela já não foi “tombada”? 
O dinâmico secretário Plínio Gomes perdeu o sorriso. Ficou sério. Como se fosse se deixar fotografar para adquirir sua carteira de identidade. Seu RG.
Daí, eu fui adiante com o meu ponto de vista, expondo para o jovem Secretário, que, a nossa suntuosa Basílica há muito vinha sendo mutilada nas suas feições arquitetônicas góticas, notadamente no que se refere ao seu interior. Exceto as pinturas sacras no teto, obra de muita arte do pintor alemão Jorge Kau, nada mais ali lembra a grande obra projetada pelo exímio arquiteto Italiano Antonio Mazzini e supervisionada pelo grande canindeense Thomaz Barbosa Cordeiro e seu Mestre de Obras Luiz Fabiano. 
Infelizmente, alguns vigários franciscanos menores, (alguns menores na mente) desfiguraram a majestosa basílica. Frei Matias de Ponterânica era de baixa estatura física, porém, de inteligência brilhantemente incrível. Conforme anotou para a posteridade o saudoso escritor canindeense Hélio Pinto, da Basílica construída por Frei Matias, foram retiradas: a mesa da comunhão em fino mármore, a pia batismal em forma de concha, confeccionada em mármore italiano e as “banquetas” dos altares laterais. Do meu conhecimento, o maior acinte contra a história cultural religiosa em Canindé foi cometido agora pelo atual Vigário, Frei João Hamilton ao arrancar bruscamente da fachada da Basílica as LUZINHAS que ornamentavam o seu estilo gótico no período dos festejos em louvor ao nosso Glorioso Padroeiro, ali colocadas em 1926. Coisa de quem tem a mente miúda e se deixa “assessorar” por bajuladores de plantão. 
Resta-nos daqui agradecer ao Governador Cid Gomes e louvar a luta do grande secretário do Desenvolvimento e Turismo da Prefeitura de Canindé, Plínio Gomes pelo tombamento da nossa basílica, que seria um grande patrimônio histórico. No entanto, não existe mais nada para ser tombado em Canindé. Lamentável aqui registrar, que, todos os prédios históricos da nossa cidade já foram “tombados” por truculentas alavancas e picaretas, que se tornam grosseiros instrumentos quando a serviço de homens de “mentes miúdas”. Li, o livro “História de São Francisco”, onde, em determinado tópico, refere-se à ida dele a uma determinada cidade para participar de um torneio de cavaleiros, quando no caminho ouviu a voz de Cristo: 
- Francisco! Francisco! Volta e reconstrói a minha Igreja! 
Bom seria agora que São Francisco, imitando o Senhor Jesus, ordenasse o imaculado Frei Matias de Ponterânica, que também se encontra céu, assim: 
- Frei Matias! Frei Matias! Volte ao Canindé e restaure a minha Basílica, e, aproveitando a viagem, dê uns puxões de orelhas em alguns vândalos que vestem o meu hábito!


Via Site KANINDÉ CULTURAL: http://kanindecultural.jimdo.com/

domingo, 13 de maio de 2012


ESTRELAS DE MAIO

O mês de maio assinala várias efemérides na vida de grandes artistas da Música Popular Brasileira, dentre eles:

No dia 4 de maio, fez 75 anos que o compositor, cantor e violonista NOEL ROSA nos deixou. Nascido e criado no bairro carioca de Vila Isabel, colaborou para transformar o bairro em ponto-chave no mapa do samba brasileiro. Mesmo tendo morrido com apenas 26 anos, deixou mais de 200 composições, entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como Palpite infeliz, Feitiço da Vila, Conversa de botequim, Último desejo, Silêncio de um minuto, Pastorinhas e Com que roupa?. Desde a adolescência mostrou gosto pela música e pela vida boêmia, deixando de lado os estudos e o curso de medicina sonhado pelos pais. Criou fama de bom violonista no bairro e em 1929 foi chamado para integrar o Bando dos Tangarás, ao lado de João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito. Suas primeiras composições foram gravadas por ele mesmo em 1930: Minha viola e Festa no céu. Desde cedo Noel mostrou grande aptidão para o humor, para o relato do cotidiano urbano, do amor nem sempre idílico, da realidade nua e crua e, dependendo do ponto de vista, muito engraçada. Exemplos de seu bom humor são Coração (samba anatômico), lembranças do curso de medicina), Mulher indigesta, Com que roupa?, Tarzan, o filho do alfaiate (com Vadico), Gago apaixonado, Cem mil-réis (com Vadico) e muitas outras. Já sua faceta cronista do Rio de Janeiro dos anos 20/30 se revela em Conversa de botequim (com Vadico), Coisas nossas, O orvalho vem caindo (com Kid Pepe), O X do problema, Três apitos. Noel vendeu alguns sambas a cantores e teve outros gravados, sendo conhecido no rádio. Mário Reis, Francisco Alves e principalmente Aracy de Almeida foram alguns dos intérpretes mais notórios de seus sambas. Com Mário Reis chegou a excursionar pelo sul do país, atuando como violonista. No ano de 1933, depois de gravar sucessos como Até amanhã, Fita amarela e Onde está a honestidade, aconteceu o primeiro “round” de seu desentendimento com o sambista Wilson Batista. Da rixa saíram as músicas Lenço no pescoço (Wilson), Rapaz folgado (Noel), Mocinho da Vila (Wilson). O segundo “round” deu-se em 1934, com Feitiço da Vila (Noel), Conversa fiada (Wilson), Palpite infeliz (Noel) e Frankenstein da Vila (Wilson). Nesse mesmo ano de 1934 casou-se com Lindaura, apesar de sua notória paixão pela dançarina de cabaré Ceci, para quem compôs suas músicas mais líricas, como Último desejo, Dama do cabaré, Pra que mentir (com Vadico) e Quantos beijos (com Vadico). Apesar da tuberculose que o atacou desde cedo, obrigando-o a internações em sanatórios, jamais abandonou a boêmia, o samba na rua, a bebida, o cigarro. Depois de sua morte, em 1937, sua obra caiu em um certo esquecimento, sendo redescoberta por volta de 1950, quando Aracy de Almeida lançou com enorme sucesso dois álbuns de 78 rotações com músicas suas. Desde então passou a figurar na galeria dos nomes fundamentais do samba.

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A cantora DALVA DE OLIVEIRA completaria, no dia 4 de maio, 95 anos de idade amanhã, dia 05.05.2012. O pai era saxofonista e clarinetista amador em Rio Claro (SP), e a menina acompanhava o conjunto do pai em serenatas e bailes. Com a morte do pai quando ela tinha apenas oito anos, foi para um orfanato e um pouco depois juntou-se à mãe em São Paulo, onde trabalhou como babá e arrumadeira de hotel e cozinheira. Arranjou um emprego de faxineira numa escola de dança, e lá costumava cantar e improvisar ao piano depois das aulas. Um professor a ouviu cantando e conseguiu que ela integrasse um grupo musical, com o qual viajou por algumas cidades do interior. O grupo acabou e, sem dinheiro, fez um teste para a Rádio Mineira, em Belo Horizonte. Foi aprovada e adotou o nome artístico que a consagraria. Mudou-se em seguida para o Rio de Janeiro e acabou arranjando uma vaga na Rádio Ipanema depois outras emissoras até parar na Philips. Na década de 30 formou o Trio de Ouro com Nilo Chagas e Herivelto Martins, com quem acabou casando. O grupo emplacou clássicos como Praça Onze (Herivelto e Grande Otelo) e Ave Maria no morro (Herivelto). Trabalhou nas principais rádios da então capital do país, cantou no famoso Cassino da Urca. Em fins de 49, separou-se de Herivelto e em 1950, lançou três grandes sucessos: Errei sim (Ataulfo Alves), Que será (Marino Pinto e Mário Rossi) e Tudo acabado (J. Piedade e Oswaldo de Oliveira Martins). Fez sucesso ainda com "Segredo" (Herivelto e Marino Pinto), Olhos verdes (Vicente Paiva), Ave-Maria (Vicente Paiva e Jayme Redondo), A Bahia te espera (Herivelto e Chianca de Garcia) e outras músicas. Em 1951 foi eleita Rainha do Rádio e excursionou pela Argentina e Europa. Outro grande sucesso foi a gravação do baião Kalu (Humberto Teixeira), acompanhada pela orquestra do maestro Roberto Inglez. Morou por um tempo em Buenos Aires, depois voltou ao Brasil nos anos 60 e continuou em atividade gravando sucessos como as marchas-rancho Rancho da Praça Onze (João Roberto Kelly e Chico Anysio), Máscara negra (Zé Keti e Pereira Matos) e Bandeira branca (M. Nunes e L. Alves), do Carnaval de 1970, seu derradeiro e imortal sucesso. Até o fim da vida se apresentou em casa noturnas e programas de televisão.

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No dia 7 de maio, foi o 119º aniversário de nascimento do compositor, poeta, escritor e jornalista ORESTES BARBOSA. Aprendeu a tocar violão ainda na infância. Mais tarde trabalhou em redações de diversos jornais do Rio de Janeiro e publicou seu primeiro livro de poemas em 1917, Penumbra sagrada. Como jornalista, militou politicamente através de seus artigos, tendo sido preso por esse motivo algumas vezes. Acabou escrevendo o livro Na prisão, com seus relatos do cárcere. Escreveu outros livros de poesia e prosa antes de fazer suas primeiras letras para música: Romance de Carnaval, valsa em parceria com J. Machado, e "Bangalô", com Osvaldo Santiago. Compôs também nos anos 30 com o maestro J. Thomaz, Heitor dos Prazeres (Nega, meu bem), Nássara (As lavadeiras, Caixa Econômica) e Noel Rosa (Positivismo). Outros parceiros foram Custódio Mesquita ("Flauta, cavaquinho e violão"), Francisco Alves (Adeus, Dona da minha vontade), Wilson Batista (Abigail, Cabelo branco), Ataulfo Alves e Silvio Caldas, com quem compôs várias músicas, entre elas "Arranha-Céu, Suburbana, Serenata, Quase que eu disse, Torturante ironia e seu maior sucesso, Chão de estrelas, considerado um dos hinos da MPB. Entre valsas, foxes e sambas, suas composições foram gravadas por intérpretes como Castro Barbosa, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Orlando Silva e Zezé Gonzaga.

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No dia 10 de maio, faz 66 anos da morte do poeta, compositor, cantor e teatrólogo CATULO DA PAIXÃO CEARENSE. Filho de Amâncio José Paixão Cearense (natural do Ceará) e Maria Celestina Braga (natural do Maranhão). Mudou-se para o Rio em 1880, aos 17 anos, com a família. Trabalhou como relojoeiro. Conheceu vários chorões da época, como Anacleto de Medeiros e Viriato Figueira da Silva, quando se iniciou na música. Integrado nos meios boêmios da cidade, associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório de modismos da época. Catulo da Paixão Cearense passou a organizar coletâneas, entre elas O cantor fluminense e O cancioneiro popular, além de obras próprias. Vivia despreocupado, pois era boêmio, e morreu na pobreza. Em algumas composições teve a colaboração de alguns parceiros: Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Francisco Braga e outros. Como interprete, o maior tenor do Brasil, Vicente Celestino. Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1914, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e a letra para Flor amorosa, que havia sido composta por Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha’.

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O cantor e compositor JAMELÃO completaria, no dia 12 de maio, hoje 99 anos de idade. Conheceu ainda na infância os primeiros componentes da Mangueira, e integrou a bateria da escola tocando tamborim. Logo aprendeu cavaquinho e passou a cantar em gafieiras, influenciado principalmente pelo estilo de Cyro Monteiro. Em 1945 participou do programa Calouros em Desfile, comandado por Ary Barroso, interpretando "Ai, que saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago. A partir daí conseguiu trabalhos no rádio e em boates, participando também como crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo, com quem excursionou à Europa. Consagrou-se principalmente como cantor de samba, emplacando sucessos como Fechei a porta (Sebastião Motta e Ferreira dos Santos), Leviana (Zé Kéti), Folha morta (Ary Barroso), Não põe a mão (P.S. Mutt, A. Canegal e B. Moreira), Matriz ou filial (Lúcio Cardim), Exaltação à Mangueira (Enéas Brites e Aluisio da Costa), Eu agora sou feliz (com Mestre Gato), O samba é bom assim (Norival Reis e Helio Nascimento) e Quem samba fica (com Tião Motorista). Nos anos 50 começou a atuar como puxador de samba-enredo para a Estação Primeira de Mangueira tornando-se uma referência obrigatória no gênero. Foi o maior intérprete dos sambas-canções doloridos de Lupicínio Rodrigues, como Esses moços, Ela disse-me assim, Torre de Babel, Quem há de dizer, Sozinha e Exemplo.
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A cantora ÂNGELA MARIA completa hoje 84 anos. Abelim Maria da Cunha, verdadeiro nome de Ângela Maria, nasceu em Macaé, RJ, em 13 de maio de 1928. Filha de pastor protestante, passou a infância nas cidades fluminenses de Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti, e desde menina cantava em coro de igrejas. Foi operária tecelã, mas sonhava com o rádio, embora a família – por princípios religiosos – fosse contra a carreira artística. Por volta de 1947, começou a freqüentar programas de calouros. Apresentou-se no Pescando Estrelas, de Arnaldo Amaral, na Rádio Clube do Brasil (hoje Mundial), na Hora do Pato, de Jorge Curi, na Radio Nacional, e no programa de calouros de Ari Barroso, na Rádio Tupi. Usando o nome de Ângela Maria, para não ser descoberta pela família, participou também do Trem da Alegria, dirigido pelo “Trio de Osso” (os magérrimos Lamartine Babo, Iara Sales e Heber de Bôscoli), na Rádio Nacional. Logo sua voz foi se tornando conhecida dos ouvintes, o que dificultou sua participação nesses programas, pois ela estava deixando de ser caloura. Nessa época, era inspetora de lâmpadas numa fábrica da General Eletric e, decidindo tentar realmente a carreira de cantora, abandonou a família e foi morar com uma irmã no subúrbio de Bonsucesso. Em 1948 conseguiu lançar-se como crooner no Dancing Avenida. Em sua noite de estreia, cantou Olhos verdes (Herivelto Martins e Benedito Lacerda). No dancing, foi ouvida pelos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira Filho, que a apresentaram a Gilberto Martins, diretor da Rádio Mayrink Veiga. Feito o teste, começou carreira na emissora, interpretando musicas de Othon Russo e Ciro Monteiro, compositores quea ajudaram a criar um repertório pessoal, abandonando a influência de Dalva de Oliveira. Firmando-se a partir de 1950 como intérprete, em 1951 estreou em disco com Sou feliz (Augusto Mesquita e Ari Monteiro) e Quando alguém vai embora (Ciro Monteiro e Dias Cruz), na Victor. No ano seguinte, sua gravação do samba Não tenho você (Paulo Marques e Ari Monteiro) bateu recordes de venda, marcando o primeiro grande sucesso de sua carreira. Durante a década de 1950, atuou intensamente no rádio, apresentando-se na Rádio Nacional, nos programas de César de Alencar e Manuel Barcelos, e na Rádio Mayrink Veiga, como a estrela de A Princesa Canta, nome derivado de seu titulo de Princesa do Rádio, um dos muitos que recebeu em sua carreira. Em 1954, em concurso popular, tornou-se a Rainha do Rádio, e no mesmo ano estreou no cinema, participando do filme Rua sem sol, de Alex Viany. Apelidada Sapoti pelo presidente Getúlio Vargas, tornou-se a cantora mais popular do Brasil durante a década de 1950, alcançando os maiores êxitos com os sambas-canções Fósforo queimado(Paulo Marques, Milton Legey e Roberto Lamego), Vida de bailarina (Américo Seixas e Chocolate), Orgulho (Valdir Rocha e Nelson Wederkind), Ave Maria no morro (Herivelto Martins) e Lábios de mel (João Vilaça Júnior e Nage), alem da canção afro-cubana Babalu (Margarita Lecuona). Voltando a gravar na RCA Victor em fins da década de 1950, em 1963 viajou para Portugal e África, cantando para soldados portugueses que então lutavam nas colônias. Um de seus grandes êxitos na segunda metade da década de 1960 foi a canção Gente humilde (Garoto, Chico Buarque e Vinícius de Moraes). Em 1975, com 25 anos de uma carreira de muitos sucessos, preferia apresentar-se em clubes do interior ou em churrascarias das grandes cidades, ambientes onde, ao contrario da televisão e das boates sofisticadas, sentia mais de perto a reação do povo. Em 1979, com João da Baiana, participou do documentário Maxixe, a dança perdida, de Alex Viany. Em 1982 foi lançado o LP Odeon com Ângela Maria e Cauby Peixoto, primeiro encontro em disco dos dois intérpretes. Em 1992 apresentou-se com Cauby no show Canta Brasil, com grande sucesso de publico, sendo lançado em disco Ângela e Cauby ao vivo (RCA/BMG, 1992).

Considerada, ao lado de Elis Regina, uma das mais puras vozes da musica popular brasileira, continua a apresentar-se em espetáculos e em televisão.

Via Site COLLECTOR'S.

quinta-feira, 10 de maio de 2012


MEMÓRIAS DE UM GATINHO DE MALÍCIAS


Ray Silveira*

Meu nome é Menino. Sou um gato persa. Nunca entendi o porquê deste meu nome. Se eu fosse um menino humano ficaria mais estranho ainda. Seria a mesma coisa que me chamarem de gato. Onde já se viu um gato se chamar gato? Esses humanos inventam cada uma! Tantos nomes apropriados para um gato persa como eu... Poderiam me chamar de Chéri, por exemplo, pois é um lindo e carinhoso nome francês. Podiam me chamar, por exemplo, de Ted, Bob, Rick ou de qualquer outro apelido que põem nestes americanos metidos a besta. Mas agora não tem mais jeito, sou Menino e pronto! Desconfio que eles puseram este nome em mim porque jamais tiveram algum filho homem. Fazer o quê? Deixa pra lá.
Outra mania deles: querer interferir na minha vida particular. Quando decidi escrever estas memórias, nunca pretendi usar esse título que está aí acima. Foram eles que escolheram para ficar parecido com o livro de um escritor famoso de quem nunca ouvi falar. Quéqueu tenho a ver com livro de escritor famoso se eu não leio nem o rótulo das embalagens das minhas rações? Além disto, qual é a minha malícia? Só por que uma vez ou outra procuro atazanar a vida deles? Há dias, por exemplo, que, só de mau, não como a comida que eles compraram pra mim. Não como e pronto! Daí, eles têm de voltar ao supermercado e trocar pela que eu gosto. Eles sabem qual é! Pra que entendem de trocar a minha ração a que já estou acostumado, por uma que jamais provei antes? Pensam que sou igual a eles: todo dia querem comer uma comida diferente.
Dizem, também, que tenho muita mordomia nesta casa. Isso eu não sei, porque ainda não estive noutra pra comparar. Os meus donos me têm como filho. Pelo menos quando falam comigo dizem que são meu pai e minha mãe.
Outra esquisitice dos humanos. Onde já se viu gente ser pai e mãe de gato? Isto não me perturba nem um pouco. Num tô nem aí. Pelo contrário: eu me aproveito disto e faço o que quero com eles e eles só fazem o que eu quero. Há noites, por exemplo, em que não deixo o meu “pai” dormir uma hora seguida. Se estiver fora do quarto, bato na porta até que ele venha abrir. Mesmo que esteja caindo de sono. Quando entro e vejo que já está dormindo outra vez, não sossego enquanto ele não acorda e abre a porta pra eu sair. Há noites em que passo o tempo inteiro assim. Por que não deixam ela aberta todo tempo? Não sei pra que esta porta fechada...
Suspeito também que esta tal malícia que querem me atribuir corre por conta de um capricho meu do qual não abro mão nem a pau. Por falar em pau, um dia chegaram aqui umas crianças querendo brincar comigo. Mas cantavam uma cantiga da qual não gostei nem um pouco. Dizia assim: “Atirei o pau no ga t-o to / Mas o ga t-o to não morreu.” No começo fiquei com muito medo, mas depois entendi que só queriam mesmo brincar. Brincadeirinha de mau gosto, sô! Mas como eu dizia, há um capricho do qual não abro mão. É que sou louco por um afago. Meu “pai” se acostumou a me afagar, por isso agora que agüente.
Como gosta muito de escrever – praticamente é só o que ele faz, embora não ganhe nada com isto; nem sei como sustenta a casa -, fico aporrinhando ele na hora que tá escrevendo naquele tal de computador que ele não larga nem pra ir comer. Não sei como ainda se levanta para ir ao banheiro.
A única coisa que faz com que interrompa as suas escrevinhações é quando bato com a minha pata na perna dele. Aí ele se derrete todo. Sempre pára de escrever quando faço isto. Tem de me afagar! Pra que inventou de me criar? Se isto for ser malicioso, aí sim, têm toda razão de terem escolhido o título destas memórias. Mas ele tem também uma mania chata: só por que eu peço que me acaricie, entende de me pôr no ombro, ou no colo e me abraçar. Detesto isto! Se eu gostasse de abraço saía atrás de uma gata, não de um homem. Ora, malicioso! Não tenho nada de malícia. Se quiserem me chamar de egoísta, vá lá. Pois mando e desmando mesmo dentro desta casa. Mais do que qualquer pessoa.

*Da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores).

quinta-feira, 3 de maio de 2012


SERTÃO ALEGRE

Chega às minhas mãos um presente inestimável: o livro Sertão Alegre, exemplar raro editado pela Imprensa Universitária do Ceará em 1965, com prefácio da escritora Rachel de Queiroz. A publicação é uma das mais importantes obras que o folclorista cearense Leonardo Mota (1891-1948) legou para nossas letras. Em suas quase 300 páginas, o livro reúne farta coletânea de causos e versos populares que o incansável Leota garimpou em suas pesquisas sertão adentro.
A oferta torna-se ainda mais especial, porque veio do meu amigo Tonico Marreiro, que por sua vez, já tomou de empréstimo do acervo do seu saudoso pai, o poeta canindeense Raimundo Marreiro, outro folclorista dos bons. Como dedicatória, Tonico escreve na página de rosto do livro essa décima:

“Este livro do Leota,
Que pertenceu ao meu pai,
Para o Pedro Paulo vai
Nas rimas, na mesma rota.
Nossa amizade que brota
Neste sertão escaldado,
Por ela tenho zelado,
Amizade tão dileta...
Nas mãos de você, poeta,
O livro fica guardado.”

Transcrevemos na íntegra o primeiro causo do livro Sertão Alegre:

“PARNAÍBA COMO É

Foi tentar a vida, em Parnaíba, no Piauí, um rapazelho semi-analfabeto e que jamais houvera visto uma vila ou cidade. Dias depois, escrevia ele à sua genitora uma carta de que copio, em seguida, vários tópicos, respeitando-lhes a íntegra, mas corrigindo um tanto a respectiva ortografia para mais fácil entendimento do leitor:
- ‘Mamãe, Parnaíba é uma cidade monarca de grande. Demanhãsinha se alvoroça tanta gente na beira do rio que parece formiga arredó de lagartixa morta e quase tudo é trabaiadô caçando ganho. O Mercado é outro despotismo: se arrreúne mais povo do que na desobriga, quando Padre diz Missa na Capela dos Morros, da dona Chiquinha. Tudo se vende; de tudo se faz dinheiro: fiquei besta de espiar gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de João-gome e inté taiada de rirmum. O passadio daqui é bom. Todo dia eu como pão da cidade com manteiga do Reino.
Mamãe, as coisa aqui são muito deferente e adversa daí. As casa são apregada umas nas otura que nem casa de maribondo de parede e é quase tudo de telha e atijolada e tem umas delas calçada e forrada de tauba por riba que nem gaiola de xexéu e que chama sobrado. Gente rica aqui é em demasia. Inda onte numa loja eu vi uma ruma de dinheiro de cobre no chão que parecia juá, quando se ajunta mode dar pra bode em chciqueiro.
Mamãe, a Igreja faz inté sobroço, de grande e alta, cabe dentro dela todos os morador de Barra das Lage, do Bom Princípio, da Fazenda Nova e ainda se adiquere lugar para mais de cem vivente. O povo daqui tem um sestro muito engraçado: não diz ‘ô de casa’, não! Quando chegam nas casa aleia, batem palma como quem estuma cachorro mode acuar tatu em buraco.
Mamãe, a luz daqui é feita num tal de gazome; não precisa pavio nem trucida de algodão mode acender: é só distrocer uma torneira como quem tira cachaça de ancoreta e riscar um fósco que a luz acente biatamente e tão culara que faz é gosto! Se o cristão não acender mais que depressa, espaia um cheiro de cebola podre danado, diz que pru via dum tal de carboreto.
Mamãe, aqui tem um jogo chamado biá que não hái diabo que entenda, mas porém só joga nele gente de famia: é arredo duma mesa grande, forrada c’um pano, como baú de pregaria, e os jogador segurando umas vara mode empurrar umas bola que é ver ovo de ema. Quando estão jogando, dê por visto dois mexedor de farinha num forno de barro, ajeitando os rodo, mode não desmanchar os beiju.
Mamãe, aqui tem também um latejo invisive que é um tal de cinema. É só a musga tocar, aparece figura de gente, de animal e de rua, tudo prefeito, mesminho como se estivesse vivo e bulindo. O cinema é um pano esticado, parecido com vela de embarcação e é a coisa mais bonita e mais encantada que eu já vi.
Mamãe, cheguei onte da Tutoia. Fui nas barca da Companhia Busse mode trabaiá num vapor inguilês, ganhando dois minréis por dia e quatro por noite. Na Tutoia a gente vê o mar inté onde ele encosta nas parede do Céu. As barca sacode a gente chega faz dor de istambo e vontade de gumitar que nem urubu novo, tudo isso pru via do desassossego do mar. O vapor inguilês é um paidégua de grande, maior do que a vasante de fumo do compadre Domingo Preto e mais alto que o pé de tamarina da porta lá de casa. Os porão de botar carga são tão fundo que escurece a vista do cristão que espia. O pessoal que mora no vapor são tudo branco rozalgá, ôio azu e cabelo vermeio. A fala deles só pro diabo, não hái quem entenda: é uma embruiada como de piriquito em roça de milho novo. São danado por papagaio e por cachaça: dão inté roupa de gazimira novinha por um papagaio ou por uma garrafa de geribita. Quando os inguilês falam uns cós outro é uma trapaiada direitinha a de tia Damiana, adispois que teve a molesta do ar. Outra coisa engraçada que eu acho é os inguilês do vapor tudo se chamar piloto: mode coisa que os Padres da terra deles não batizam ninguém com outro nome.
Mamãe, pr’eu lhe contar tudo direitamente não hái papel que chegue. Vou acabar porque já me dói as boneca dos dedo de eu tanto escrever.”

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