terça-feira, 28 de julho de 2015

MEUS SONHOS

Pedro Paulo Paulino

Meus sonhos eram tantos! Lembro-os eu
Tão vivos! tão risonhos! coloridos!
No fundo da minh’alma, reunidos
Ficaram – ninguém mais os conheceu.

Pois, por motivos nunca esclarecidos,
A pouco e pouco, cada sonho meu
Melancolicamente feneceu,
Como enfermos à míngua, desvalidos.

Meus sonhos, que eram tantos, me deixaram.
E se alguns, porventura, ainda ficaram,
Nem mais são coloridos nem risonhos.

Sem eles, nesta altura, eis que me ocorre
Indagar, temeroso, se se morre
De uma falência múltipla dos sonhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RESENHA


A DIVINA ORGIA DE ‘AMADADAMA’

Pedro Paulo Paulino

O mais novo livro de contos do premiado escritor Raymundo Silveira tem como nome “AMADADAMA”. A exemplo de “Lagartas de vidro”, lançado em 2011, este segundo volume chega enriquecido por qualidade literária em primeiro lugar, a escrita cristalina, o lampejo da ideia e a oferta generosa de palavras e de construção textual atraente para o leitor mais insaciável.
“AMADADAMA”, 182 páginas, traz o selo da Editora Premius de Fortaleza, reúne ao todo 42 peças literárias e vem divido em duas partes, ou Livro I e Livro II. No primeiro repertório encontram-se os contos eróticos, não obstante, a meu ver, a adjetivação passe indiferente ao gênero de leitor que, a partir logo do primeiro conto (aliás, nome do livro), mergulha na leitura pelo mero prazer que esta lhe dá, convidando-o a seguir até a última página. O leitor mais pundonoroso poderá por sua vez estranhar o tema e até, com frequência, a linguagem dos contos iniciais; já o leitor, digamos, neutro não verá excessos na abordagem aberta e franca de uma condição tão imperativa a todo ser que vive.
Pois nessa sequência de contos a narrativa é tomada por uma descarga fulminante de erotismo, sem contudo se desgarrar jamais da fineza literária e da elegância de estilo. O autor consegue, de envolta com o arrepio da trama, transmitir para o leitor a volúpia da inspiração, o ardor da chama criativa, em enredos envolventes quase sempre com um final cheio de êxtase, a exemplo do conto “A vizinha” que, duvido, alguém consiga deixar de ler ao começar. E diga-se o mesmo de “A possuída”, “Sarita”, “Carne viva”, “A analista”, assim por diante. A ideia dominante em todas essas narrativas é, não há dúvida, a beleza e a sensualidade femininas, de vez que é a feminilidade a “forma fundamental da vida humana”, como observa o contista, ao tratar da relação carnal por meio de uma linguagem despida e clara.
No segundo repertório de contos de “AMADADAMA”, que soma exatamente 25 peças, o leitor poderá se refestelar com temática variada. Em todos eles, entretanto – eróticos ou não –, são inexistentes as figuras do vilão e do herói. O autor é parcimonioso ainda com descrições paisagísticas, voltando-se com exclusividade e percuciência para o elemento humano e seu vasto e infinito universo interior. Primeira e terceira pessoas coabitam harmoniosamente em todos os enredos, e os diálogos acontecem de maneira espontânea, sem prejuízo do entendimento da obra. Reflexão, considerações filosóficas e um poderoso fundo psicológico são características notáveis também nessa segunda seleção de contos. A começar por “Vaso vazio”, vamos identificar em “Tensão”, “Sacrifício”, “O charcuteiro”, “O fabricante de espelhos”, “O criacionista”, “O mistério de Capitu” e, praticamente em quase todos, a força da subjetividade por trás de argumentos puramente engenhosos e aprofundados.
O segundo livro de contos de Raymundo Silveira é, como foi dito, uma obra literária de fino gosto; por isto mesmo, tem o mérito de superar qualquer tabu. E, por ser lapidado conforme limpidez e garbo de estilo, chega-se à inevitável conclusão de que está, acima de tudo, na Arte e leveza de bem escrever a maior e divina orgia de “AMADADAMA”.

___________
Lançamento: 30 de junho, 19h, sede da UNIMED, av. Santos Dumont, 877, Fortaleza.
Disponível na Livraria Cultura. Preço: R$ 24,90.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CORDEL

No Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente,
repriso a publicação desse cordel do poeta Wanderley Pereira.

QUEIXA DE UMA ÁRVORE EM EXTINÇÃO
AO AUTOR DA NATUREZA


 Wanderley Pereira*

Eu vou contar uma história
Que precisa ser ouvida
Por adultos, por crianças,
Por pessoa esclarecida,
Por quem queira refletir
Sobre a beleza da vida.

Aqui na nossa floresta,
Das espécies de primeira,
Tinha uma delas famosa
Que se chamava aroeira;
De tanto ser desmatada,
Sumiu da mata costeira.

Foi para nós planta nobre
Por ter grande utilidade
Para os homens do sertão,
Para os homens da cidade,
Os mesmos que decretaram
Seu fim sem necessidade.

Uma dessas que escaparam
Do desmatamento humano,
Foi levada por um Anjo
Ante o Todo Soberano,
Para pedir providências
Contra esse furor tirano!

Aproveitando essa festa
Das árvores – que beleza!
Vou relatar aos leitores,
Transtornado de tristeza,
A queixa de uma aroeira
Ao Autor da Natureza:

Eu já sofri no Planeta
Tamanha perseguição,
Que os homens me utilizaram
Para fabricar caixão,
Para cepo de moinho,
Pra fazer mão-de-pilão.

Eu já fui pau-de-porteira,
Também mourão-de-curral,
Estaca nas construções,
Já fui cerca de quintal,
Caixão de guardar farinha,
Tábua pra fazer portal.

Fui móvel de casa rica,
Fui linha na cumeeira,
Fui galamarte na roça,
Já fui pau-de-bulandeira,
Fui forquilha de barraca,
Lenha pra fazer fogueira.

Onde houvesse uma aroeira,
Tinha um machado certeiro,
Estava na preferência
De qualquer um fazendeiro
Pra fazer canga de boi
E até banco de terreiro.

Eu tinha que estar presente
Na mais humilde fazenda,
Nos engenhos de madeira
Eu servia de moenda,
E na casa da rendeira
Fui bilro de fazer renda!

Fui Cantareira de pote
E cancela de cercado;
Servi de cunha de enxada
E de cabo de machado,
Fui também tábua de sótão,
Fui estrado de sobrado.

Fui prateleira em bodega,
Fui tablado de armazém,
Onde se lotavam sacos
Desembarcado do trem,
Até poleiro em quintal
De mim fizeram também!

Como cruz de cemitério
Eu fui usada à vontade,
Duro era gravar em mim
Data e a palavra saudade;
Servi também de cruzeiro
Nas entradas de cidade.

Também em torres de igreja
Estive sempre sozinha,
Nunca assisti a uma missa,
Pois sempre foi sorte minha
Servir de pouso a coruja
E à sempre alegre andorinha!

Fizeram de mim porrete
Para bater e matar,
Também grades de cadeia
Para o preso não quebrar;
Gamela pra botar mel,
Mesa em sala de jantar.

Fui trava em carro-de-boi,
Fui  ferrolho de portão,
Torno de pendurar sela,
Fui cepo de caminhão,
Tramela em porta de igreja,
Pau dentro de cacimbão.

Já fui também tecelagem
Para fios de algodão,
Tronco para amarrar bichos,
Dia de feira no sertão,
Muleta para aleijado,
Tora pra fazer pião.

Fui também colher-de-pau,
Fui tamborete e cadeira,
Fui armário de cozinha
E fui espreguiçadeira,
Fui litro de medir milho,
Farinha e feijão na feira.

Muitas vezes me cortaram,
Quando em plena floração,
Só para fazer cangalha,
Ou me queimar pra carvão,
Pra ser torno de armador
Ou madeira pra balcão.

Vivi sempre de servir
A todo ser, a toda hora,
Tive mil utilidades;
Para quem não me ignora,
Servi também de remédio
De medicina da flora.

Até meu fruto vermelho
Também se prestava à cura
De doenças que levavam
Muita gente à sepultura;
Era empregada também
Pelos índios na tintura.

A minha casca era usada
Em tratamentos com banho,
Em infusões para cura
De mal de todo tamanho,
Sobretudo inflamações
De algum ferimento estranho.

O mel da minha florada
Curava tosse e bronquite,
E o chá para inalação
Era bom pra sinusite,
Como também a infusão
Curava tumor, gastrite!

O poder cicatrizante
Que a minha seiva detinha
Era igual ao do mastruz
Que emenda pé-de-galinha;
Só que o mastruz tem efeitos
Que a minha seiva não tinha.

Um condimento de folhas
Aplicado em animal,
Era igual a um laxativo
Pra limpeza estomacal,
E o bicho no mesmo instante
Se libertava do mal!

Meu miolo era tão duro
Que havia fazendeiro
Que não tendo perto um banco,
Contratava um carpinteiro
Que de mim fazia um cofre
Para guardar seu dinheiro.

Assim, nunca tive paz,
Era sempre procurada,
Mesmo sem necessidade,
Na mata eu era cortada
E levada pra fazenda,
Ficando lá encostada.

Com a chegada do progresso,
Eu fui poste de energia,
Antes, transportei os fios
Da velha telegrafia;
Servi de lastro pra pontes,
Fui base de ferrovia!

Tive tanta serventia
Que muitas delas nem sei,
Só sei que fui perseguida
Como madeira-de-lei,
E outras da minha família
Se tem, não mais encontrei!

Entre as espécies extintas
Eu sei que estou na fileira,
Porque não fui replantada
Nem poupada na fogueira,
Sou conhecida hoje em dia
Só pelo nome: aroeira!

*Poeta e jornalista.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

EVENTO


'ACLAME' JÁ TEM 26 ACADÊMICOS

Com a posse de mais quatro aclamados, a Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória (ACLAME) conta agora com 26 imortais, restando 14 cadeiras vagas.
A quarta sessão ordinária da academia fundada em 14 de março deste ano aconteceu na sexta-feira, 29/05, no auditório do Complexo Jardineira Parque.
Compuseram a mesa o presidente da ACLAME, Silvio R. Santos, prefeito de Canindé Celso Crisóstomo, coordenador da Crede 7, Paulo Alexandre Queiroz e empresários José Ivan Magalhães, José Messias Filomeno e Raimundo Carlos Ferreira.
Após o ritual de posse dos novos aclamados, o primeiro secretário da academia, Tonico Marreiro, fez a entrega de diploma de Membro Benemérito da ACLAME às seguintes personalidades: prefeito Francisco Celso Crisóstomo Secundino, Antônio Pereira Alves (CDL), Francisco Plínio Gomes (Turismo), José Anastácio Pereira (produtor fonográfico), Simone Barroso Amorim (executiva), Paulo Alexandre Queiroz (Crede 7) e Raimundo Carlos Ferreira (gráfica Encaixe).
Desta vez a solenidade teve um toque especial. Dentre os mais novos integrantes da ACLAME estão os músicos Chico Walter e Jota Batista, que após a solenidade, presentearam confrades e convidados com música ao vivo.
O poeta Celso Góis saudou com versos a chegada dos novos aclamados e recebeu de um deles, o poeta Arlando Marques, um poema de agradecimento, ambos aqui reproduzidos:

SAUDAÇÃO

Celso Góis


Eu saúdo e dou boas vindas
A este quarteto artista
Composto por Chico Walter,
Junto com Jota Batista;
Arlando Marques completa
Com o Klévison poeta
A paisagem cordelista.

É arte a perder de vista
De inimitável valor,
Expoentes da canção,
Do cordel e do humor.
Magos de traços sutis
Trazem pra Aclame o matiz
De aquarela multicor.

Vem músico, vem escritor,
Vem arte da nossa gente.
A Academia se orgulha
De receber de presente
Os artistas com seus dons,
Cultura de vários tons
De uma canção diferente. 

Vejo agora em minha frente
Várias faces da poesia:
Nas letras, desenho e humor,
Tanta arte, que extasia!
Enquanto a gente aclamava,
O quarteto completava
Os quadros da Academia.

Hoje é especial o dia
Pra cultura da cidade
Que recebe de uma vez
Quatro artistas de verdade,
Cada um traz o valor
De um estilo criador
Da mais alta qualidade.

Chega em grande quantidade
Essa verve multiarte.
A Aclame se engalana
Por cada um que faz parte
Deste celeiro de fé
Que brotou em Canindé
Em grande explosão de arte.

A Aclame hoje reparte
Valores selecionados
Com toda a população
Abrigando os aclamados.
Bem-vindo quem aqui veio
Pra se alimentar no seio
Da casa dos renomados.

Parabéns aos aclamados
Artistas de tantos sóis!
Na iluminação das artes
São mais perfeitos faróis.
Parabéns pra poesia!
Parabéns pra Academia!
Um abraço: Celso Gois.

AGRADECENDO A CELSO GÓIS

Arlando Marques


Obrigado, Celso Góis,
Pela receptividade!
Desejo na Academia
Novos laços de amizade.
Fico feliz, lhe confesso,
Ao receber nos seus versos
Tanta generosidade.

Vejo criatividade
Nessa escolha tão seleta.
Você, com suas palavras,
Constrói versos e arquiteta
Com toda sua presteza,
"Inda" faz a gentileza
De me chamar de poeta.

Atingi mais uma meta
Ocupando um dos assentos.
Herdei de Silá Rabelo,
Garbosa, noutros momentos.
E hoje me sinto honrado
De poder sentar ao lado
De renomados talentos.

Formulam meus sentimentos
Satisfação, alegria,
Um ar de contentamento,
Amor pela poesia,
Meu respeito pela arte,
Agora fazendo parte
Dessa honrosa Academia.

Que eu não sinta afasia
Com tamanha emoção,
Possa falar o que sinto
Do fundo do coração.
"Ousadamente" me atrevo
Deixar nos versos que escrevo
Minha eterna gratidão!

Eu, sujeito do sertão,
Homem da lida de gado,
Matuto por vocação,
Trabalhador de roçado,
Alcançando esta conquista
Por essa gleba de artistas
Sendo homenageado.

Meu nome "imortalizado"
Me traz alegria pura.
Mas eterno é Celso Góis
Porque se porta à altura,
Nos brinda com poesias,
Composições, melodias,
No limiar da cultura.

A paz que não se mensura,
Eu peço que Deus derrame
Nos campos da poesia,
Inspiração de enxame,
Para andarmos nesses parques.
Abraço do Arlando Marques,
Seu companheiro da ACLAME.


POEMA


CÉU NOTURNO

Pedro Paulo Paulino

A tarde agora cai. Empalidece.
Surge outro céu de súbito. Anoitece.
Do Sol que morre, os raios são acenos
De adeus. Os astros rútilos, pequenos,
Por sua vez começam a brilhar.
É também uma noite de luar.
Noite de baile no vasto Firmamento.
A Estrela Vésper fulge. Em seu assento,
A tudo assiste Júpiter, calado.
Mercúrio, nesse instante, mais ao lado
Passa discreto em sua pequenez.
É Órion a constelação da vez,
Enquanto Escorpião, na madrugada
Desponta enorme e belo na calada
Da noite linda que no céu revela
Canopus, Vega, Fomalhaut, Capella;
De Aldebarã, seu cálido esplendor
Concorrendo em lampejo com Castor
Ou Sírius (das estrelas, a rainha).
Ao mesmo tempo, pelo céu caminha
Tranquilamente a Lua quase cheia,
Qual formidável, lépida candeia
Guiando os outros astros no infinito.
A visão que se tem é quase um mito,
Meu pensamento pelo céu viaja...
A Via-Láctea estende-se qual naja
Carregando as estrelas no seu dorso.
Constelações navegam como um corso.
É meu desejo para sempre tê-las,
Sendo eu também viajante entre as estrelas...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

EVENTO

No aniversário de minha mãe, Maria Uchoa Paulino,
que completou 67 anos no dia 25 de abril.


PARABÉNS!

Pedro Paulo Paulino

A minha mãe completa neste dia,
Sessenta e sete auroras de uma vida
Que pode muito bem ser resumida
Como a mais espontânea biografia.

É sertaneja. Chama-se Maria.
No campo, como tantas, foi nascida.
Por devoção, apenas tem a lida
Bastante e simples do seu dia a dia.

Ao cansaço, se o tem, jamais se curva.
Estende a cada neto e a cada filho
O mesmo amor e oferta a mesma mão.

E se, portanto, a vista já se turva,
Nada porém no mundo tira o brilho
Dos olhos que ela traz no coração.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

SEXTA-FEIRA SANTA

Pedro Paulo Paulino

Relembro bem, na mente está retida
Cada impressão que eu tenho desse dia:
Havia reverência -- e regra havia
Que só por todos era obedecida.

O jejum, que tornava mais comprida
A manhã consagrada de harmonia,
E ao chegar pontualmente o meio-dia,
Família em torno à mesa reunida.

A tarde vagarosa se passava
Na mesma paz. E a ordem era tanta
Que até não se vendia nem comprava…

De noite a ceia no lugar da janta,
E logo após, o terço se rezava.
Já foi assim a Sexta-Feira Santa…

sexta-feira, 27 de março de 2015

SONETO DE BENDIZER

Pedro Paulo Paulino

Bendigo a chuva que na terra espalha
O verde e a água que de cima veio,
Que abranda o sol e torna o solo cheio
De vida para quem nele trabalha.

Bendigo a névoa matinal que orvalha
A mata fresca, transformando o meio,
E envolve a serra inteira no seu seio
Cobrindo-a como alvíssima toalha.

Bendigo a chuva, porque dela vem
Nova esperança, como traz também
Recordações antigas dos meus Campos:

Manhãs de infância, tardes tão serenas
E a noite calma entrecortada apenas
Pelos relâmpagos e os pirilampos.

terça-feira, 24 de março de 2015

INVERNO


O SERTÃO RENASCE

Pedro Paulo Paulino

A chuva alegra o Sertão,
Que se mostra transformado.
A seca já nem parece
Que por cá tenha passado.
O relâmpago provoca,
O trovão responde em troca,
E a nuvem dá seu recado.

Tem-se notícia de chuva
Do Sertão ao Litoral.
A natureza, festiva,
Muda todo o visual.
E, de repente, este chão
Se mostra em nova versão,
Cheio de vida, afinal...

O céu tingido de nuvens
Parece enorme tecido
Nos quatro cantos do mundo
Sobre o Sertão estendido;
O sol, que tão forte ardia,
Passa atrás da nuvem fria
Estranhamente escondido.
  
A chuva vitaminada
Despejada pela nuvem,
De um momento para o outro
Fez germinar a babugem.
Da terra então ressequida,
Pequenas formas de vida
Feito um milagre ressurgem.

A fauna se movimenta
Com mais determinação.
As incontáveis formigas
Passam como em procissão...
Certamente deve ser
Um modo de agradecer
Pelas chuvas no Sertão.

Mais cheio de inspiração
Canta o galo-de-campina,
Que havia tempo calava
Ou cantava na surdina.
Só ele sabe, no entanto,
Que com a chuva , seu canto
Perfeitamente combina.

Na correnteza das grotas
Passa todo triunfal
Um cururu desfilando,
Que, se comparando mal,
Parece alegre palhaço
Dentro da lama e bagaço,
Em baile de carnaval.

A flora toda se anima:
O Pau-branco, o Marmeleiro,
A Catingueira, a Jurema,
Num milagre verdadeiro,
Juntam-se para acenar,
Verdejantes, de invejar
O verde do Juazeiro.

Foi tanto sol, tanta seca,
Que o nosso alegre Sertão
Ficou triste, pesaroso,
Mas esses dias se vão...
O céu tornou-se bravio,
Viu-se acender um pavio,
Era o raio, era o trovão.

Era a chuva que chegava,
Como nota alvissareira.
De noite, deu seu sinal
Cantando pela biqueira.
Agora, sim, meu Sertão
Pode afirmar com razão
Ser a terra hospitaleira.