segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

SAGA DE DOIS CEARENSES NA GRANDE SECA DO QUINZE


Autor: Pedro Paulo Paulino

Na grande seca do Quinze,
O Sebastião Pereira,
O caboclo mais disposto
De toda sua ribeira,
Devido à situação
De faltar chuva no chão,
Perdeu sua roça inteira.

A seca destruidora
Foi se alastrando geral,
Fazendo no Ceará
Um quadro descomunal;
Quanto mais foi aumentando,
Gente foi se retirando
Do Sertão pra Capital.

Mas nem na cidade grande
Havia emprego também.
E Sebastião Pereira
Ajuntou os seus terém
Pra vender e apurar
Dinheiro pra viajar,
Sem pedir nada a ninguém.

Despediu-se da família
No final de fevereiro,
Vendeu até mesmo o galo
Que cantava no poleiro,
 Vendeu jegue, vendeu boi,
Comprou o bilhete e foi
Para o Rio de Janeiro.

Na viagem de navio
Pra capital fluminense,
O Sebastião conhece
Um colega cearense,
Era o Mamede Cordeiro,
Que pro Rio de Janeiro
Vai também, pra ver se vence.

E quando os dois chegam na
Cidade Maravilhosa,
Contentes se agradecem
Pela companhia e prosa.
Um do outro se despede,
Sebastião e Mamede
Seguem sorte tortuosa.

O dia todinho andou
O pobre Sebastião
Pela cidade do Rio
Procurando ocupação.
Andou por toda biboca,
Mas sequer um carioca
Lhe dava nem atenção.

Do dinheiro que levou,
Não restava uma quantia
Nem pra quebrar o jejum,
Pois durante a travessia
Viajando de navio
Do Ceará para o Rio
Gastou toda mixaria.

Bateu perna e percorreu
O Rio por todo lado.
Aquele bom cearense,
Trabalhador e honrado,
Longe do seu aconchego,
Sem dinheiro e sem emprego,
Estava desesperado.

No dia seguinte andou
Por acolá, por ali...
Dentro da cidade grande,
Perdido feito um zumbi,
Foi esbarrar, o coitado,
Num circo que estava armado
Pras bandas do Andaraí.

Morrendo quase de fome,
E sem poder andar mais,
Pediu ao dono do circo,
Soltando profundos ais:
“Emprego, por caridade!
Nem que seja, por bondade,
Pra cuidar dos animais!”

O dono do circo disse:
“Não tem vaga pra ninguém.
Aliás, tem uma vaga,
Se topares, tudo bem!
Já começa a trabalhar
No show que vai começar,
E bastante gente vem”.

E continuou dizendo:
“Morreu o tigre real.
E se o amigo topar
O meu convite, afinal,
De tigre vai se vestir,
Pra de noite divertir
Nosso público leal”.

O Sebastião Pereira
No mesmo instante topou.
Vestiu a pele dum tigre
E tão perfeito ficou,
Que à noite, no picadeiro,
Agradou o público inteiro
E ninguém desconfiou.

Mas quando foi de manhã,
O pobre Sebastião,
Viu-se cercado de bichos
Numa jaula, e viu então,
Perto dele acocorado
Bufando feito um danado,
Um pavoroso leão!

“Valei-me, meu São Francisco
Das Chagas do Canindé!
Me salve desse aperreio,
Que eu juro com toda fé:
Se eu conseguir sair dessa
Pagarei uma promessa,
Voltando daqui a pé!”

Tremendo muito, assim disse,
Perante tanta desgraça.
Mas, para sua surpresa,
Acabou-se a ameaça,
Pois na mesma ocasião
Ele avistou o leão
Se acabando de achar graça.

Em vez de dar um rugido,
Assim falou o leão:
“Tu larga de ser tão besta,
Cumpade Sebastião!
Vou contar o que sucede:
Sou teu amigo, o Mamede,
Colega de arribação.

Eu também vim para o circo,
Procurando me empregar.
E só teve mesmo um jeito,
Foi esta oferta aceitar.
O meu caso é igual ao teu:
O leão também morreu,
E eu fiquei no seu lugar!”

(Adaptado de um conto do escritor maranhense Humberto de Campos – 1886-1934.)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

DÁDIVA

Pedro Paulo Paulino

Havia tempo, a terra estava à espera
Do sopro redentor e benfazejo
Que ao derramar nos ares seu bafejo,
Já sobre o chão o verde recupera.

Úmidos ventos enchem a atmosfera,
Deixando a terra prenhe de desejo;
O raio rasga os céus com seu lampejo,
Logo o trovão com fúria vocifera.

Transforma-se o sertão num paraíso,
Como afirmou Euclides n’Os Sertões.
E o sertanejo, que da seca é réu,

Gratificado mostra o seu sorriso
E os braços abre cheio de emoções,
P’ra receber a dádiva do céu!...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

EU VOU VOTAR NO BANDIDO MAIS QUERIDO DA NAÇÃO

Autor: Pedro Paulo Paulino


Num país de tanta fraude,
De roubo e corrupção,
Onde nem se sabe mais
Quem é santo ou é ladrão,
Eu já estou decidido
Que vou votar no “bandido”
Mais querido da Nação!

Votei nele cinco vezes
E volto a votar de novo!
Pois diante de injustiça
Todo dia eu me comovo.
Já estou determinado:
vou votar no “acusado”
Mais querido pelo povo!

Na gestão desse “bandido”,
Não me sai do pensamento,
Foi que o Brasil conquistou
O seu grau de investimento;
E a pobreza no país
(Pesquisa séria é quem diz)
Caiu cinquenta por cento.

Bateu um recorde histórico
Sua popularidade!
Pois mais de um milhão de pobres
Botou na universidade!
E combateu, no Brasil,
Desnutrição infantil
E a grande mortalidade.

Dezoito universidades,
Esse “bandido” criou.
A quinze milhões de lares
Luz elétrica chegou.
Três milhões de moradias
Em várias periferias
Esse “bandido” entregou!

Através do PRONATEC
–Também sua criação –
Oito milhões de estudantes
Pobres e sem condição
Cursaram gratuitamente,
Aprendendo gentilmente
Uma nova profissão.

E ainda na educação,
De maneira genial,
Setenta e cinco por cento
Dos royalties do pré-sal,
Conseguiu ele aprovar!
Isso para incentivar
O campo educacional.

Convém lembrar que na lista
Dos seus feitos altaneiros,
Criou também o “Mais Médicos”,
Dos profissionais guerreiros
Que atendem com condições
Mais de 50 milhões
De cidadãos brasileiros!

No governo do “bandido”
Mais querido da Nação,
Cisternas para o Nordeste
Contou-se meio milhão.
Sem falar que o “delinquente”
Fez cair sensivelmente
Todos níveis de inflação.

O desemprego caiu
De doze a cinco por cento.
Da saúde e educação,
Triplicou o orçamento.
E também o operário,
No seu mínimo salário
Conquistou um grande aumento.

Além disso, esse “bandido”,
Da maneira mais leal,
Conseguiu pagar a dívida
Chamada internacional.
Fez o quadro reverter
E fez o Brasil crescer
No cenário mundial.

E tem mais: esse “bandido”
Em Pernambuco nasceu.
Fala o sotaque que eu falo,
Nordestino que nem eu!
Esse “bandido” de peso,
Preso ou solto, solto ou preso,
Terá sempre o voto meu!

Nas gestões do “delinquente”
Mais querido da Nação,
Todo pobre, no Brasil,
Teve a nobre condição
De ser gente e ser feliz
E ir ao Sul do país
Viajando de avião!

A ações desse “bandido”
Foram cobertas de glória:
Seus programas sociais
Foram sua trajetória.
Tudo é fato e não é lenda:
A concentração de renda
Foi a menor da história.

Por isso e por muito mais,
Eis minha declaração:
Meu voto pra presidente
Nesta vindoura eleição,
No meio do fogaréu
Vai direto para o réu
Mais querido da Nação!

Nestes versos de cordel,
Não pretendo ser afoito,
Mas injustiça na cara,
Eu morro e jamais acoito.
Pra voltar a ser feliz,
O Brasil inteiro diz:
LULA DOIS MIL E DEZOITO!

domingo, 28 de janeiro de 2018

NOTA CULTURAL

UNIÃO BRASILEIRA DOS TROVADORES
INSTALA SECÇÃO EM CANINDÉ

O segmento cultural de Canindé viveu neste fim de semana um momento marcante. Na manhã de ontem, foi instalada na cidade uma Secção da União Brasileira dos Trovadores (UBT). O evento aconteceu no auditório do Jardineira Park e reuniu artistas locais e convidados. Para proceder à instalação, compareceu o presidente da UBT-Ceará e vice-presidente do Conselho de UBTs do Ceará, Francisco José Moreira Lopes.
A cerimonia foi comandada pelo presidente da Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória (ACLAME), Tonico Marreiro. Na ocasião, foi eleita e empossada a diretoria da Secção da União Brasileira de Trovadores de Canindé – Ceará, tendo como presidente Pedro Paulo Paulino. Trovadores e cordelistas de Maranguape, Maracanaú e Ocara também abrilhantaram o acontecimento, num autêntico intercâmbio cultural.
A solenidade foi aberta com os presentes entoando a oração de São Francisco, patrono dos trovadores, e o Hino dos Trovadores, composto pelo fundador da UBT.
A União Brasileira dos Trovadores foi criada em 1966, pelo poeta Luiz Otávio (nome literário de Gilson de Castro), nascido no Rio de Janeiro em 1916. A entidade é dividida em seções e delegacias municipais, conforme o número de membros no município e em seções estaduais, conforme o número de cidades representadas no estado. O Dia do Trovador é comemorado em 18 de julho.

Prof. Zé Parecido, sec. de educ. de Canindé, Arleyse Matos,
Erivaldo Costa (IBGE), presidente da ACLAME, Tonico
Marreiro, presidente da UBT-CE, Francisco Lopes e PPP

Auditório Jardineira Park 

Tonico Marreiro e PPP

Francisco Lopes, trovador Artemiza Silva (Ocara) e PPP

Tonico Marreiro, Artemiza Silva, Francisco Lopes, PPP,
trovador Luiz Carlos (Maranguape) e cantor Chico Walter


Arleyse Matos, PPP e Artemiza Silva


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A LIÇÃO DO RATO E O GOLPE DA PREVIDÊNCIA

Autor: Pedro Paulo Paulino

Certo dia, um fazendeiro,
Ao retornar da cidade,
Trouxe um pacote na mão,
E por curiosidade,
Lá do telhado espiando,
Um rato ficou brechando
Qual seria a novidade.

 “Deve ser comida boa!”,
Calculou dessa maneira.
Mas quando viu o que era
Quase cai da cumeeira,
Pois o dono da fazenda
Trazia uma coisa horrenda
Que se chama ratoeira.

Aflito, o rato correu
Direto pro galinheiro,
Avisando da intenção
Do perverso fazendeiro.
Mas vendo o rato alarmar,
A galinha, sem pensar,
Disse lá do seu poleiro:

 “Senhor rato, eu só lhe digo:
Isso nunca traz temor
Para mim, que sou galinha.
Me desculpe, por favor,
Mas pra isso eu bato é asa,
Que ratoeira na casa
Só prejudica o senhor!

Mais aflito ainda, o rato,
Foi ao porco na carreira,
Uma carreira tão grande
Que levantava poeira,
E ao porco falou, então:
“Por favor, preste atenção!
Na casa tem ratoeira!”

O porco, tranquilamente,
E até com certa ironia,
Disse ao rato: “Companheiro,
Lamento a sua agonia,
Se conforme e tenha calma,
Que em favor de sua alma
Eu rezarei todo dia”.

Já quase desenganado,
Vendo o seu triste fadário,
Sem um colega sequer
Que lhe fosse solidário,
O rato foi apressado
Direto ao curral do gado,
No seu louco itinerário.

E perante a vaca, disse:
“Amiga, preste atenção,
Tem ratoeira na casa!
Quem trouxe foi seu patrão,
Que não me deixa mentir,
Por isso eu vim lhe pedir
O seu apoio de irmão!”

A vaca, que degustava
Um saboroso capim,
Sem fazer conta do caso,
Disse desse jeito assim:
“Pois se vire e se defenda,
Que essa coisa, na fazenda,
Jamais prejudica a mim!”

Frustrado, sem ter apoio,
Bastante desiludido,
O rato voltou pra casa,
Cansado e muito abatido.
Mergulhado na tristeza,
Viu que com toda certeza
O seu caso era perdido.

À noite, no casarão,
No seu silêncio pacato,
Ouviu-se então um barulho
Ligeiro que nem um jato,
Uma pancada certeira,
Do jeito de ratoeira
Na hora em que pega o rato.

O fazendeiro se achava
Já no seu sono absorto.
Porém, a sua mulher
Levantou do seu conforto,
E mesmo na escuridão
Percorreu o casarão,
Para ver o rato morto.

Assim mesmo, no escuro,
A patroa curiosa
Chegou junto à ratoeira,
Mas a mulher desditosa
No momento não notou
Que a ratoeira pegou
Uma cobra venenosa.

Presa a cauda na armadilha,
A perigosa serpente
Picou então a mulher,
Que caiu muito doente.
Quando foi de manhãzinha
Mataram logo a galinha,
Para fazer canja quente.

Dia seguinte, a mulher
Corria risco de vida.
Toda a vizinhança veio
Visitá-la, comovida.
Com tanta gente a chegar,
O patrão mandou matar
O porco e fazer comida.

O doutor, lá da cidade,
Para a fazenda correu,
Tentou de toda maneira,
Contudo não socorreu.
Sentindo grave piora,
Naquele dia a senhora
Do fazendeiro morreu.

Uma multidão de gente
Veio para o funeral.
Com tanto povo na casa,
O dono foi ao curral,
A vaca sacrificou
E em pouco tempo mandou
Dar comida ao pessoal.

Eis a moral dessa fábula:
Assim como a ratoeira,
Nesta pátria de golpistas
Da mais torpe bandalheira,
O golpe na Previdência
Vai atingir sem clemência
Toda a gente brasileira!...

domingo, 21 de janeiro de 2018

MAR DA VIDA

Pedro Paulo Paulino

Eu neste mundo vou passando ao largo
Do mar tempestuoso de ambições
Que cegamente afoga os corações,
Como o torpor horrível de um letargo.

Tendo a missão da vida por encargo,
Meu mundo é concebido de porções
De algumas qualidades e senões
Que em mim convivem sem nenhum embargo.

Feliz ou não, jamais eu saberei,
Pois não se sabe onde há felicidade:
Se mora no vassalo ou se no rei...

Nisto, porém, eu nunca me confundo:
Do mar das ambições em tempestade,
Eu vou passando ao largo neste mundo...


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O ADEUS DE LOURO BRANCO

Autor: Pedro Paulo Paulino


A viola está de luto,
O repente emudeceu,
O brilho da cantoria
Neste dia esmaeceu:
Corre a notícia no mundo,
Que Louro Branco Morreu.

Setenta e quatro viveu
E sessenta e três cantou,
Porque foi com doze anos
Que na viola pegou
E durante a vida inteira
Muito verso improvisou.

Muita graça provocou
Com o seu humor preciso,
Que sempre ilustrava mais
Seu genial improviso,
Por isso é que Louro Branco
Morreu no Dia do Riso.

Fez da terra um paraíso
Da mais pura poesia.
Seu improviso veloz
No palco da cantoria
Era como um carro novo
Correndo na rodovia.

Cantava durante um dia
Inteiro, sem lhe faltar
O verso feito na hora
E a rima pra completar,
Pois o seu forte era mesmo
A arte de improvisar.

Quem o quisesse topar,
Devia estar preparado,
Pois Louro, de todo jeito,
Dava conta do recado,
Foi sempre fera terrível
No seu verso improvisado.

Deixou um grande legado
De poemas e canções
Que somam juntas, talvez,
Seiscentas composições,
Todas bastantes poéticas
E cheias de emoções.

Diversas premiações
Louro Branco conquistou.
Os melhores cantadores,
Em desafio enfrentou,
E em mais de vinte estados
Do Brasil ele cantou.

Sua viola calou,
Nós lamentamos perder
Um dos maiores poetas
Que o Nordeste pôde ter.
E sobre sua própria morte,
É Louro quem vai dizer:

“No dia em que eu morrer,
Deixo a mulher sem conforto,
Roupas em malas guardadas,
O chapéu num prego torto,
E a viola com saudade
Dos dedos do dono morto”.

domingo, 31 de dezembro de 2017

ADEUS, ANO VELHO!

Adeus, dois mil e dezessete, adeus!
Com as tuas verdades e utopias;
Com as tuas tristezas e alegrias;
Com minhas emoções e sonhos meus!

Eu agradeço ter vivido os teus
Trezentos e sessenta e cinco dias,
Embora em meio a mil hipocrisias
De um mundo corrompido por sandeus.

De um Ano Novo, a luz já se revela!
O mundo não tem férias e não para,
Girando como eterno caracol...

E a Terra, com a vida a bordo dela,
Está completamente pronta para
Um novo périplo ao redor do Sol.

PPP
31/12/17 

sábado, 30 de dezembro de 2017

O ANO QUE MORRE

Autor: Pedro Paulo Paulino

“Eu sou o Ano que morre
Nas mãos do Tempo que corre,
Morro e ninguém me socorre,
Nem mesmo adianta mais.
Contra as ordens naturais
É sempre em vão insistir;
Não deixem, pois, de assistir
Aos meus instantes finais.

Já vejo meu sucessor
Nascendo qual uma flor,
Cheio de luz e vigor,
Cercado de muita gente.
Vem chegando alegremente
Numa noite barulhenta,
Com trezentos e sessenta
E cinco dias na frente.

Cada dia é como um filho,
Cada ano um andarilho
Que passa através do trilho
Do Tempo eterno e profundo.
Todo ano é oriundo
Da noite e nunca do dia,
Igualmente à maioria
Das criaturas do mundo.

Mas enquanto me despeço,
Neste implacável processo,
Aos homens da Terra peço
Um instante de atenção.
Eu não tenho culpa então
De tudo o que aconteceu,
De quem nasceu ou morreu,
De quem foi feliz ou não.

Fui apenas referência
Num instante da existência
E não tenho consciência
Do que é bom ou ruim.
Uns não gostaram de mim,
Noutros deixarei saudade,
Pois eu sei que a humanidade
Toda a vida foi assim.

Mas vejam que insensatez
Culpar o ano, talvez,
Pelos erros de vocês,
Desse modo assim dizendo:
– O Ano que está morrendo
Foi de perda e agonia,
De crise na economia
E de desmantelo horrendo.

Foi um Ano pessimista
Que matou bastante artista,
Esse Ano entrou pra lista
Dos mais cheios de horrores!
Então direi: – Não, senhores!
Os anos, somos iguais;
Não somos causa, jamais,
Das alegrias ou dores!

Eu não tenho culpa não
De guerra e destruição,
De tanta poluição
Por falta de consciência!
Eu juro em minha inocência,
Que também não sou culpado
De o crime ter aumentado
Por conta da violência!

Sou passageiro fatal
Desta nave sideral
Chamada Terra, na qual
O Tempo é senhor de tudo.
E dito assim, fico mudo,
Pois nessa eterna viagem
O ano é nova embalagem
Para o mesmo conteúdo.

‘Adeus, Ano Velho’, cantam;
Luzes no céu se levantam,
As ilusões se agigantam,
O Ano Bom aí vem
Novinho em folha; porém,
Será velho logo mais
Como eu que um ano atrás
Fui Ano Novo também!”

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Uma cena original
É um jumento com sela
Parado em frente à cancela
Da moradia rural;
Com estribo e peitoral,
Esperando paciente
O dono seguir em frente
Montado no seu “gangão”:
Ainda existe sertão
Como havia antigamente.

PPP
26/12/17

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O JUMENTO E O NATAL


Autor: Pedro Paulo Paulino

Personagem esquecido
Nos festejos de Natal,
Não é homem nem mulher,
Mas um singelo animal
Que conduziu o menino
Jesus Cristo pequenino
Num sagrado ritual.

O jumento, todos sabem,
Transportou com segurança
A Santa Virgem Maria
Que deu à luz a criança
Jesus Cristo iluminado,
Símbolo divinizado
De bondade e de esperança.

Nesse pequeno animal,
A Santa Virgem Maria
E seu esposo José
Passaram na travessia
Que São Lucas descreveu,
E Jesus Cristo nasceu
Dentro de uma estrebaria.

O jumentinho ficou
Na espera do casal,
Pra chegarem na viagem
Ao seu destino final.
Sem nunca os deixar a pé,
O jumento também é
Um emblema do Natal.

Seu lombo tem um sinal
Que alguma coisa traduz,
Um desenho muito claro
No formato de uma cruz
Que segundo Gonzagão,
Não foi outra coisa não,
Foi o pipi de Jesus.

Por ter conduzido Cristo
Em notável trajetória,
O jumento nunca deve
Sair da nossa memória
Nem tampouco dos anais,
Porque dentre os animais
O jumento tem história.

Infelizmente, o jumento
Também é injustiçado,
Por não ter mais serventia
Vive à toa abandonado.
Sem dono e sem proteção,
Muito jegue no sertão
Morre sempre atropelado.

É que da terra distante
Onde o Salvador nasceu,
O jumento servidor
No Nordeste apareceu,
E à custa do seu suor
O sertão ficou melhor
Porque se desenvolveu.

Fez a vez de caminhão
E fez a vez de trator,
De transporte do matuto,
De parteira condutor,
Fez açude e fez estrada...
Jumento, em sua jornada,
Foi bastante servidor.

Como disse Gonzagão,
Fez também até a feira,
Usando em cima das costas
A cangalha e a esteira,
Em escravo convertido;
Também não foi esquecido
Por padre Antônio Vieira.

Se Jesus Cristo voltar,
Como diz o Testamento,
Talvez daqui a mil anos
Ou mesmo a qualquer momento,
A certeza podem ter
Que ele vai aparecer
Escanchado num jumento.

E quem sabe, novamente,
O Nazareno arrebanha
A multidão para ouvir
Novo sermão da montanha,
E ali, mesmo ao relento,
Faça em favor do jumento
Uma bonita campanha.

E talvez discurse assim:
“Meus irmãos, neste Natal
E em todo tempo do ano
Não esqueçam do animal
Que uma vez me transportou
E para sempre ficou
No seu lombo o meu sinal.

O jumento é nosso irmão,
Leal, amigo e fiel,
Seja lá pelo sertão,
Seja lá por Israel...
Deixo aqui aconselhado
Que ele seja mais lembrado
Do que o Papai Noel!”

Portanto, digamos viva!
Ao jumento nosso irmão.
Já disse padre Vieira,
Também disse Gonzagão.
Um deles foi escritor,
O segundo foi cantor,
Porta-vozes do sertão!

O jumento sempre foi
O servidor mais leal,
Auxiliar do matuto
No seu trabalho braçal.
Ao leitor sempre fiel,
Desejo neste cordel
Votos de Feliz Natal!

sábado, 23 de dezembro de 2017

PAPAI NOEL DO MATUTO


Autor: Pedro Paulo Paulino

Doutô, se o sinhô puder
Dar um pouco de atenção,
Cum seu aparêi ligado
Na palma da sua mão,
Escute por dois minuto
Essa fala dum matuto
Do sertão do Ceará,
Pru mode o sinhô sabê
O que eu resolvi fazê
Nessa festa de Natá.

Meu nome é João Pajeú,
Trabaiadô da mão grossa.
Minha vida toda foi
Socado dento da roça,
Trabaiando dia a dia
Junto cum minha famia
Pras banda do Canindé.
Dos setenta já passei
E nunca eu acriditei
Que ixiste Papai Noé!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


13 de dezembro, aniversário de Luiz Gonzaga. Em homenagem,
reproduzo as décimas que escrevi no centenário do Rei do Baião, em 2012.

GONZAGÃO CENTENÁRIO

Pedro Paulo Paulino

Salve Sua Majestade,
Gonzaga, Rei do Baião.
Salve treze de dezembro,
Data Magna do Sertão.
Salve Exu tão venerado.
Salve doze, ano sagrado.
Salve, ó dia que trouxeste
Para o povo brasileiro
Gonzagão, o verdadeiro
Embaixador do Nordeste.

Salve o Baião, salve o Xote,
Salve o Coco e o Xaxado.
Salve o fole de oito baixos
Pelo velho pai tocado.
Salve o povo nordestino,
Conselheiro e Virgulino,
Santana e Seu Januário,
O Padim Ciço Romão,
Salve, salve Gonzagão,
Por este seu centenário.