quarta-feira, 30 de novembro de 2016

TRAGÉDIAS

Pedro Paulo Paulino

A “pátria de chuteiras” veste luto
Às vítimas fatais de Chapecó.
Há pranto, há crepe, desespero e dó,
Em face do sinistro atroz e bruto.

Um clube inteiro e um destino só,
Um sonho rudemente dissoluto
No espaço tão pequeno de um minuto
– E vida e alegria viram pó.

Também na mesma pátria, é madrugada,
Outra tragédia, embora anunciada,
Não menos desastrosa e infeliz,

Ocorre no Congresso às escondidas,
Na forma de propostas e medidas
Contrárias aos destinos do país.

domingo, 20 de novembro de 2016

HISTÓRIA


ZUMBI E A ESCRAVIDÃO

Pedro Paulo Paulino

O dia 20 de julho é dedicado a Zumbi, o mais famoso herói do Quilombo dos Palmares, morto em 1695. O quilombo, situado na região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, Alagoas, resistiu por quase um século e se desfez em 1710. Dessa época até a abolição da escravatura ainda se passaram quase dois séculos, pois o Brasil foi um dos últimos países a libertar os cativos. Não há registro, na história humana, de genocídio maior do que o praticado durante centenas de anos contra os negros traficados da África, principalmente para as colônias imperiais nas Américas. Tratados como bichos – para usar uma comparação grosseira, uma vez que os bichos também devem ser tratados com dignidade – os escravos eram submetidos aos mais cruéis tratos, suplícios e torturas. Eram trancafiados em senzalas, marcados a ferro em brasa e trabalhavam brutalmente sem ganho.
O escritor Laurentino Gomes, em seu excelente livro “1808”, dedicou um capítulo ao tema. Os dados comovem e assustam. “Entre os séculos dezesseis e dezenove, cerca de 10 milhões de escravos africanos foram vendidos para as Américas. O Brasil, maior importador do continente, recebeu quase 40% desse total, algo entre 3,6 milhões e 4 milhões de cativos”, escreve Laurentino. “Na África, cerca de 40% dos negros escravizados morriam no percurso entre as zonas de captura e o litoral. Outros 15% morreriam na travessia do Atlântico, devido às péssimas condições sanitárias nos porões dos navios negreiros. Da costa atlântica, uma viagem até o Brasil durava entre 33 e 43 dias. De cada cem negros capturados na África, só 45 chegavam ao destino final. Significa que, de dez milhões de escravos vendidos nas Américas, quase outro tanto teria morrido no percurso, num dos maiores genocídios da história da humanidade”.
Um lance dramático: “No dia 6 de setembro de 1781, o navio inglês Zong, de Liverpool, saiu da África rumo à Jamaica com excesso de escravos a bordo. Em 29 de novembro, no meio do Atlântico, sessenta negros já haviam morrido por doenças, falta de água e comida. ‘Acorrentados aos pares, perna direita com perna esquerda e mão direita com mão esquerda, cada escravo tinha menos espaço do que um homem dentro de um caixão’. Temendo perder toda a carga antes de chegar ao destino, o capitão Luke Collingwood decidiu jogar ao mar todos os escravos doentes ou desnutridos. Ao longo de três dias, 133 negros foram atirados da amurada, vivos”.
Segundo o autor, no Brasil “os museus coloniais estão repletos de instrumentos pavorosos de punição e suplício dos escravos. A punição mais comum era o açoite, nas costas ou nas nádegas, quando fugia, cometia algum crime ou alguma falta grave no trabalho”. O escravo era amarrado no pelourinho, exposto em praça pública e, conforme a infração cometida, levava de cem a trezentas chibatadas. Pior que os açoites era, talvez, o tratamento aplicado depois. Em carne viva, as costas dos negros punidos eram lavadas com sal e pimenta, para evitar infecção. A morte do escravo, enfim, era prejuízo para o dono.
Tudo isso aconteceu na história contemporânea, há pouco mais de um século e durante os dois mil anos da cristandade. A Igreja Católica, por sinal, calou-se friamente durante todo esse período a respeito da escravidão. Toda a fraseologia e palavreado dos clérigos, pastores, guiadores espirituais dos povos sequer tocou no assunto. Mesmo porque os religiosos também eram senhores de escravos. Escravizar o semelhante foi, por centenas de anos, ou continua sendo, a coisa mais natural do mundo para o homem dito civilizado. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CRÔNICA

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

Freitas de Assis*

Escorre por entre os dedos a areia do tempo e tantas pessoas cruzam nossa estrada da mesma forma, que um dia cruzamos a delas. Sem nem mesmo imaginar que figuras de histórias alheias possam um dia estar diante de nossos olhos, passamos a ouvir e supor como esta ou aquela bravata se desenrolou de fato, que fatos apontados são reais e quais são mera licença poética ou mesmo uma lorota de indômita juventude.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

INDULTO DOS PASSARINHOS

Pedro Paulo Paulino

É cruel, sem coração,
Quem por si mesmo condena
Um passarinho à prisão,
Sem crime cumprindo pena.
É triste ver o bichinho
Preso longe do seu ninho,
Sem ninguém para o soltar.
Réu inocente, indefeso,
Que canta quando está preso,
Porque não sabe chorar.

E se soubesse, talvez
Praticava a própria morte,
Para se livrar de vez
De tão miserável sorte!
Porém, não! Seu negro fado
É penar encarcerado
Na detenção que o priva
De curtir a natureza
Em toda a sua grandeza
Tão bela e convidativa.

Quanta angústia não poder
Soltar na mata seu voo
Ou pelos galhos fazer,
De manhãzinha, seu show!...
Cantar como um trovador
Seu belo canto de amor
Ou quem sabe de saudade.
Cantar ao sabor do vento,
E não cantar seu lamento,
Confinado atrás da grade.

Preso, como um malfeitor,
Não se ouve o seu gorjeio,
Porque toda vez que for
Isolado do seu meio,
O passarinho entristece,
Amanhece e anoitece
Em sua rotina aflita.
Pobre ave engaiolada,
Vítima desesperada
De solidão infinita.

Ao redor, a mata amiga,
Seca ou verde, pouco importa,
Não ouve mais a cantiga
Do passarinho – está morta,
Sentindo a falta do dono,
Na primavera, no outono,
No inverno e no verão,
Pois num momento infeliz,
Sem sentença de juiz
Ele foi para a prisão.

Encarcerado e refém
De um calabouço profundo,
Um inferno para quem
Vivia livre em seu mundo;
Sem praticar um delito,
Sem ninguém ouvir seu grito
De protesto a vida inteira!
Passarinho desditoso,
Nem o mais vil criminoso
É preso de tal maneira!

É crueza das mais graves
Alguém se tornar algoz
Ou carcereiro das aves
Que livres cantam pra nós.
Asas querem liberdade!
Tolhê-las é crueldade,
Pois se você pode andar
Por onde e quando quiser,
Passarinho também quer
Ser livre para voar!

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

OBITUÁRIO

LUTO NAS LETRAS CEARENSES


Morreu na manhã de hoje, em Fortaleza, aos 72 anos, o médico e escritor Ray Silveira. Nascido em Massapê, Ceará, autor premiado nacionalmente e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), Silveira destacou-se na crônica e no conto, publicando pelo menos quatro livros, além de diversos artigos e ensaios em jornais, revistas e sites.
Em 2010, ganhou o Prêmio Literário para Autores Cearenses (Secult), com o livro de crônicas “Louca uma Ova”. No ano seguinte, conquistou o Prêmio Concurso Nacional de Poesia – Correio das Artes 60 Anos, promovido pelo Governo da Paraíba, com o livro de contos “Lagartas-de-Vidro”. Em 2015, lançou “Amadadama”, também de contos. Foi bolsista da Funarte/Ministério da Cultura (Bolsa de Criação Literária, 2010), tendo produzido a obra “Medicina Crônica”. Em 2013, recebeu o Prêmio Talentos da Maturidade, promoção bienal do Banco Santander, pelo conto “Gozo Precoce”.
Durante onze anos, Ray Silveira foi membro do Conselho Editorial da Revista Feminina, onde publicou artigos científicos. Tem ainda trabalhos publicados em outras revistas e livros médicos. Sua atividade literária cresceu com o advento da internet. O site italiano DOMIST, por exemplo, traduziu e publicou alguns dos seus textos em inglês, francês, espanhol, alemão e italiano.
Ray Silveira empreendeu também diversas viagens à Europa e Ásia, onde colheu subsídios para diversas crônicas em que descreve suas impressões do Velho Mundo. As crônicas foram publicadas em sua página na internet e em jornais e revistas especializados.


SOB O LUAR DE SEVILHA

Ray Silveira

Escrevo, tendo diante de mim uma velha foto esmaecida de meu avô materno, a  quem, infelizmente, não conheci em pessoa. Conheço, sim, nossa genealogia – desde o primeiro ancestral lusitano que aportou terra brasileira, de nome Manoel Ferreira Fonteles, nascido no século XVII no lugarejo Fontelo, próximo a Meixomil, situada na região de Entre D'Ouro e Minho –, até a geração atual. Se William Shakespeare tivesse visto a fotografia do meu avô, estou quase ciente de que seria nela que ele teria se inspirado para descrever o seu Otelo. Apesar da descoloração advinda do fluir dos anos, os traços do pai de minha mãe não deixam dúvidas: o negro brilhante dos olhos; o olhar alerta, viril, como se estivesse a espreitar virtual inimigo; a tez trigueira; o formato da testa e do rosto; a coloração dos cabelos, enfim tudo, me leva a suspeitar fortemente de que naquelas veias correu muito pouco sangue fenício, celta e menos ainda grego ou romano.
Estive em Sevilha por duas vezes. Em nenhum instante me senti no continente europeu. Como até então não conhecia o mundo árabe, não conseguia relacionar aquela cidade a nada que me fosse familiar, exceto à fotografia do meu avô, cujo "facies" percebia reproduzido nos sevilhanos. Mesmo assim sentia no ar, além da morna brisa quase mediterrânea, um não sei quê de passado; de sonhos da infância; de histórias lidas e relidas das “Mil e Uma Noites”. Com efeito, os sarracenos colonizaram a Península Ibérica durante mais de setecentos anos. Sete séculos! Quantas gerações! Se considerarmos somente a Andaluzia, onde a presença moura foi muito mais efetiva, não deveriam restar dúvidas: aquela região espanhola não tem nada da Europa. A fim de ser mais objetivo, devo lembrar certos fatos, lugares e costumes que presenciei.
Em diversos bares, restaurantes e outras casas noturnas, por exemplo, pude constatar uma estranhíssima mixórdia melódica. De um lado, uma máquina de som a reproduzir a todo volume, canções da música pop ocidental. No mesmo recinto, um segundo aparelho a emitir o som plangente, gutural, arrastado, misterioso, característico da música árabe. Mas a marca definitiva da presença daquele povo na Andaluzia está na arquitetura. Os próprios vilarejos à margem das estradas já denotam que se está a transpor fronteiras. Todas as habitações, por exemplo, são invariavelmente pintadas, cuidadosamente, de branco. O genial poeta e mártir andaluz Frederico Garcia Lorca tem um lindo verso sobre sua terra natal que sintetiza bem o que quero dizer: “Oh blanco muro de España”.
Estive naquela cidade em duas ocasiões e o inesperado, o fortuito, o surpreendente foi que me senti ali como se estivesse retornando à terra dos meus antepassados. Minhas primeiras impressões do lugar vieram dos aspectos arquitetônicos, como sucede todas as vezes que visito uma cidade de origem mourisca. Ainda não atinei bem com este meu antigo “namoro”; em outras palavras, não consigo uma explicação lógica para o motivo pelo qual a arquitetura árabe me fascina tanto. Não quero emitir neste texto conceitos ou opiniões volúveis, mas existe um “não sei quê” na cultura sarracena que me atrai, além do que seria razoável. Partindo da área comercial – no centro de Sevilha – e correndo em direção aos prédios governamentais, há uma estreita viela onde não transitam veículos mas que é uma importante via de pedestres. É conhecida simplesmente como “Sierpes” e lá estão situadas as lojas mais deslumbrantes da cidade e os restaurantes mais famosos.
Outra atividade prazerosa do lugar é desfilar de carruagem alugada pelas ruas principais. Tem-se a sensação de se estar a passear na Sevilha do século passado. O hotel onde fiquei, em tudo me trazia à memória as cenas mais surreais de “Este Obscuro Objeto do Desejo” de Luís Buñuel. Mas o que mais me encantam em Sevilha são três magníficas construções: a Catedral, a Giralda e o Alcázar . A primeira fica no centro da cidade, pode ser avistada a alguns quilômetros de distância e é o segundo ou terceiro maior templo da Europa. Basta dizer que comportaria, em seu interior, Notre Dame inteira. Suas naves são tão largas que, durante as procissões da Semana Santa, andores que normalmente evitam certas ruas da cidade – como a Sierpes, por exemplo – passam tranquilamente através delas.
“La Giralda” (cata-vento) é o símbolo da cidade! Fica ao lado da Catedral e trata-se de gracioso minarete mourisco que foi construído juntamente com a mesquita original a qual foi demolida para dar lugar ao templo católico, quando da expulsão dos mouros. Os amoádas – dinastia de origem berbere que dominou o sul da Espanha e o norte da África entre os séculos XII e XV – foram os construtores da Giralda. É curioso observar como os historiadores espanhóis intentam omitir a participação deste povo – os bérberes – na dominação da Península Ibérica durante todo aquele período. É um preconceito! Mas não há como fugir da verdade.
Ironicamente, o exemplar mais belo, mais portentoso, mais majestoso da arquitetura mourisca que vi em Sevilha, é obra de um Rei Espanhol. Em 1366, Pedro I de Castela, respeitando o quanto pôde as ruínas que encontrou do antigo domínio mouro, erigiu a maravilha que é o Alcázar sevilhano. Na suntuosa fachada do edifício pode-se ler reiteradas oito vezes a sentença: “...no vencedor sino Alá”. Ao redor do grande Pátio da Donzelas estão os três salões de recepção: à frente, o dos Embaixadores, em cujas portas e em caracteres africanos cantam-se as glórias de “nosso senhor o Sultão” engrandecido e mui elevado dom Pedro, rei de Castela e de León; à direita, o Dormitório dos Reis Mouros, no qual se lê: “Glória a nosso senhor, o Sultão Dom Pedro, que Alá o ajude e proteja”; à esquerda, o Salão de Carlos V, porque nos tempos do Imperador se lavrou seu artesanato magnífico.
É assombroso pensar como um povo – hoje aparentemente tão afastado da Península Ibérica – pôde dominar aquela região por tanto tempo. Sua expulsão somente foi possível após décadas de lutas renhidas. Por esta época, Córdova já era uma grande metrópole enquanto Londres ainda marcava passos como uma quase insignificante província. Enquanto Colombo chegava ao Novo Mundo, Granada ainda resistia nas mãos daquela gente que só se rendeu exatamente no ano do descobrimento das Américas.
23/09/15

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

SONETO

PARAGEM FINAL

Pedro Paulo Paulino

No Bonde da existência, em que viajamos,
Existe uma parada obrigatória:
Epílogo da nossa trajetória,
É para lá que nos encaminhamos.

E pouco importa o infortúnio ou glória,
Lauréis que porventura conquistamos,
Pois fatalmente ali nos despojamos
Das ilusões da vida transitória.

Mais cedo ou tarde, do fugaz transporte
Nós desceremos, um por um, sem trégua,
Nesse endereço e última morada.

Ao passo que no Bonde, a mão da Morte
Segue apontando com a sua régua
Quem descerá na próxima parada.

CRÔNICA

O CEMITÉRIO SECULAR DE CAMPOS


Pedro Paulo Paulino

O cemitério de Vila Campos tem um século e alguns anos mais de existência. Durante decênios funcionou como destino último quase exclusivo da gente do lugar e só de tempos a tempos testemunhava um funeral. Reduzido e muito simples, foi construído em terras de Júlio Paulino Gomes, coração dos mais humanitários que já vieram a este mundo e hoje ali ‘descansa dessa longa vida’. A conservação da velha necrópole ficava também sob seu encargo filantrópico, afora outras ações próprias de um benfeitor.
Mas o tempo rege também a cidade dos mortos. Com o correr dos anos o cemitério de Vila Campos ganhou status de necrópole regional, as paredes que o cercam foram empurradas de um canto para outro em busca de mais espaço e agora se vê ali a realização de enterros com uma frequência inusitada. Mais de uma vez já sucederam até dois ou três sepultamentos num só dia. Em contrapartida, o mutirão de limpeza do campo-santo ajunta sempre dezenas de mãos solidárias.
Outro sinal do crescimento é visto nas fileiras de jazigos de concreto, alguns tão vistosos que parecem moradia dos vivos. O que era há poucos anos um amontoado de covas humildes e cruzes toscas transformou-se num labirinto de construções fúnebres. Até a cal dos sepulcros singelos deu lugar à cor viva do mármore.
Na multiplicidade de túmulos que compartilham aquele território encontram-se os jazigos dos Paulino, dos Secundino, dos Ferreira, dos Sousa... Ali repousam meus avós e bisavós. Gerações e gerações, no meio das quais – o fato é tanto curioso quanto lastimável – ninguém gravou até hoje um único epitáfio!
 Anexa ao cemitério ergueu-se próximo do portão a capelinha de Nossa Senhora da Piedade, uma conquista recente que também demarca o grau de progresso do patrimônio. Antes de sua existência, a missa de corpo presente era oficiada na capela de São Roque, em cuja nave o esquife era colocado sob o olhar vidrado do padroeiro. Porém, com a concorrência do novo templo convencionou-se de bom grado que em Vila Campos São Roque cuida dos vivos e Nossa Senhora da Piedade responde pelas almas.
No Dia de Finados o cemitério de Vila Campos acolhe visitação constante. De lugares diferentes o povo aflui para cumprimentar com rezas as suas almas queridas. Da minha janela, à pouca distância avisto o vaivém. E contra a brancura da amurada lúgubre vejo bater a luz alegre da manhã, revelando que ali dentro, nesse instante, há mais sinal de vida do que fora.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DIA DE FINADOS

FAMOSOS SEM SEPULTURA

Pedro Paulo Paulino

No dia consagrado aos mortos, vem-me à reflexão aqueles que se foram e não tiveram o abrigo digno de uma sepultura. Isto vale tanto para os anônimos quanto para as celebridades. No primeiro grupo, existe uma numerosa quantidade de pessoas, incluindo as vítimas de epidemias, acidentes aéreos de grande proporção e os mortos na guerra, por exemplo. No grupo das pessoas famosas, dentre outros, pelos menos dois grandes vultos universais não deixaram seu endereço final.
De Camões, lê-se que: “Entre 1579 e 1581 grassa em Lisboa, mais uma vez, violenta peste. A morte sobrevém em quatro ou cinco dias. No meio do caos reinante, com a acumulação de cadáveres para ser inumados, o corpo de Camões é apenas envolvido numa mortalha e lançado, com os de outras numerosas vítimas da epidemia, na cripta da Igreja de Santa Ana. Um terremoto em 1755 destrói o templo e mistura ainda mais as ossadas que sob ele jazem. Em 1880 todos os despojos que ali se encontram são levados para o Panteão dos Jerônimos, onde ficam sepultados, na esperança de que entre eles estivessem os restos do maior poeta português”. No dia da morte do autor de Os Lusíadas, 10 de junho de 1580, O historiador Diogo do Couto limitou-se a esse necrológio: “Em Portugal morreu este excelente poeta em pura pobreza”.
Wolfgang Amadeus Mozart, morto aos 35 anos, também foi enterrado numa vala comum no Cemitério São Marx em Viena. O túmulo do músico genial é apenas um cenotáfio – monumento erigido à memória do morto, sem conter seus restos mortais. Sua morte, pelo que se sabe, também não foi motivo de comoção coletiva. O rival Salieri e apenas mais quatro pessoas acompanharam o cortejo fúnebre de Mozart, mas voltaram da porta do cemitério devido ao mau tempo.
Já Albert Einstein, que conviveu com a imortalidade do seu nome, pediu para que seu corpo fosse cremado e as cinzas jogadas em lugar ignorado. O gênio da Relatividade temia que seu túmulo virasse lugar de peregrinação.
Um caso diferente foi o do político e intelectual Thomas Paine, tido como um dos “pais fundadores dos Estados Unidos da América”. Paine morreu em 1809, aos 72 anos, e seu corpo foi enterrado em Nova York. Tempos depois, seus restos mortais foram para sempre perdidos durante traslado para a Inglaterra, seu país de origem. O mais recente caso de uma celebridade mundial nessa categoria dos sem-túmulo é o terrorista Osama Bin Laden, que teve o mar como sepultura – pelo que dizem.
No Brasil, também, personalidades da história não tiveram a honra de ser enterrados dignamente. Deles, o mais contemporâneo nosso, Ulisses Guimarães, nome de relevo na luta pela redemocratização nacional, morreu num acidente aéreo e seu corpo perdeu-se no mar. Lampião foi morto, decepado e sua cabeça exposta ao público na calçada duma igreja. Antes dele, Antônio Conselheiro, o quase invencível líder sertanejo, desapareceu nos últimos dias de Canudos. Um corpo tido como o dele foi desenterrado dias depois e o crânio examinado pelo professor Nina Rodrigues.
Transitar da vida para a morte sem deixar vestígios do próprio corpo parece ter um charme especial. Por outro lado, o defunto célebre deixa de oferecer a oportunidade de muita gente visitar seu túmulo, sabendo que ali estariam os despojos físicos de um vulto imortal.
Nas grandes cidades do mundo, os cemitérios são verdadeiros pontos turísticos, a exemplo do cemitério Père Lachaise, em Paris, onde estão sepultados, no meio de mais de 70 mil túmulos, os escritores Molière, Balzac, Oscar Wilde, o músico Chopin e Alan Kardec. Aqui mais perto de nós, o túmulo do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, atrai milhares de pessoas no dia de Finados, numa calorosa romaria ao santo nordestino.
Nas necrópoles, desenvolveu-se até um outro tipo de arte, a arte tumular, que transforma o cenário pesaroso dos cemitérios em locais atrativos aos olhos. São monumentos e esculturas em grande estilo ornamentando as lápides e embelezando a cidade dos mortos. Além das artes plásticas, os cemitérios das grandes cidades guardam ainda outro tipo de cultura: os epitáfios.
Em essência, o epitáfio é a última palavra de quem se foi. Deve ser lacônico como a vida e feito para sempre como a morte. Há dois epitáfios famosos que, a meu ver, são os mais belos. O primeiro é o do poeta Álvares de Azevedo, em cujo túmulo está escrito: “Foi poeta, sonhou e amou na vida”. O segundo é o do escritor Fernando Sabino, composto por ele mesmo: “Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino”. Brás Cubas, personagem fictício de Machado de Assis, faz uma dedicatória em tom de epitáfio: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas memórias póstumas”. Enfim, quem não escreve seu epitáfio, cala-se mais.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DATA


ERA UMA VEZ O SACI PERERÊ…

Pedro Paulo Paulino

Qual o menino de hoje que conhece o Saci Pererê? Qual o adulto que se lembra dele? Pois hoje, 31 de outubro, é o dia dedicado ao Saci, um dos personagens mais populares do folclore brasileiro. Para infelicidade do negrinho de uma perna só, hoje também é o Dia das Bruxas, ou Halloween, uma festa típica do folclore dos países anglo-saxônicos, mais especialmente dos Estados Unidos.
No Brasil, de algum tempo para cá, celebrar o Dia das Bruxas vem se tornando um costume, principalmente nas escolas. Eu mesmo não sei por que nem entendo como esse costume adaptou-se ao nosso calendário. Já temos de quase tudo enlatado em nossa cultura, da música à moda, do cinema à gastronomia. Até falamos uma língua enlatada, o inglês, que nos é empurrado de goela abaixo, e com mais força ainda pelas garras da informática. Neste momento, suponho que no campo da eletrônica, a única palavra que falamos em português é computador; todo o resto da nomenclatura eletrônica vem do inglês.
Acontece que por último estamos também importando folclore. Um vez mais não sei por quê, haja vista a rica variedade de folclore tipicamente brasileiro, com suas representações em cada região e em cada estado. A riqueza de costumes e lendas no Brasil é incontável, com raízes seculares. A lenda do Saci, por exemplo, data de fins do século dezoito e seu nome tem origem no Tupi Guarani, que, aliás, deveria ser essa a nossa língua oficial. O nome Pererê tem ainda uma grande variação, como Cererê, Saçurá, Matimpererê e outros. “Diz a lenda que, se alguém jogar dentro do redemoinho um rosário de mato bento ou uma peneira, pode capturá-lo, e se conseguir sua carapuça, será recompensado com a realização de um desejo.”

sábado, 8 de outubro de 2016



MAGIA E DEVOÇÃO NO PARQUE

Há 31 anos o Parque do Airton é atração nos festejos de Canindé.
E o dono, um romeiro fervoroso de São Francisco.

Pedro Paulo Paulino

José Airton de Sousa tinha apenas nove anos quando a primeira vez veio a Canindé como romeiro de São Francisco. Desde então ele assumiu um compromisso pelo resto da vida: nunca mais perder a festa do padroeiro dessa cidade do Sertão Central cearense que abriga o maior santuário franciscano das Américas e recebe por ano cerca de um milhão e meio de peregrinos. Ele conta, no entanto, que já nessa época trabalhava como ajudante de parque – e esse foi um fator determinante na sua caminhada profissional.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

SONETO

HISTÓRIA DE FRANCISCO

Pedro Paulo Paulino

O jovem que nascera em berço nobre,
Do mundo tinha tudo o que queria:
Conforto, amigos, festa, regalia...
No bolso nunca lhe faltava o cobre.

Mas, de repente, o moço se descobre
Tomado de um fervor que o mudaria.
Despoja-se dos bens que possuía
E com molambos o seu corpo cobre.

Reúne-se aos mendigos e aos enfermos,
Pratica penitência pelos ermos,
Falando às irmãs aves no caminho.

Toma a pobreza como companheira,
E quando o corpo abraça-se à poeira,
Nasce em Assis o Santo Pobrezinho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

LIVRO

Lançamento: 09/09/16, às 20h, no BNB Clube de Canindé, Ceará


HUMOR NOSSO DE CADA DIA

Pedro Paulo Paulino

Certa vez, a companheira do Jota Batista sofreu um acidente provinciano: foi atropelada na rua por um cavalo em disparada guiado por um cavaleiro bêbado.
À noite, numa roda de amigos, o Jota nos detalhava o fato, dizendo que a vítima tivera fratura no braço e resolvera queixar-se na polícia contra o dono do cavalo.
Um silêncio, e alguém pergunta:

domingo, 21 de agosto de 2016

CRÔNICA


O ENTERRO DE UMA TRADIÇÃO

Pedro Paulo Paulino

Há mais de cem anos que em Vila Campos, interior de Canindé, no mês de agosto realiza-se a festa de São Roque, padroeiro da povoação. Nesse período, o lugarejo engalana-se, feliz, acima de tudo, por acolher seus filhos que, por circunstâncias da vida, separam-se a maior parte do tempo. É o momento de alta estação na vida do lugar. Hora do reencontro fervoroso de familiares e de amigos. Hora de festejar tradições e honrar costumes, homenagear entes queridos e rememorar coisas que vão ficando na esteira do tempo. A maioria de nossos parentes mora em Fortaleza ou fora do estado. Mas não há distância nem dificuldade que os impeça de comparecer ao encerramento dos festejos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CORDEL


AS DESVENTURAS DE UM JOVEM
CAÇADOR DE POKEMON

Pedro Paulo Paulino

Tem cada coisa na terra
De arrepiar o cabelo.
O mundo vive hoje em dia
Em tão grande desmantelo,
Que parece estar no fim.
Foi aceso o estopim
E não resta mais apelo.

Depois do ano 2000,
Três lustros atravessamos,
E cada coisa absurda
Hoje nós testemunhamos,
Cada coisa sem razão,
Que fugiu da previsão
Do profeta Nostradamus.

É grande e maravilhosa
Nossa tecnologia.
Mas em vez de conquistar
Juízo e sabedoria,
O homem se banaliza,
Degrada e desvaloriza
O que o próprio homem cria.

A nossa modernidade
Produziu a geração
Escrava do forró ruim,
Sertanejo assombração,
E só curte tal estrume
No derradeiro volume
De um nojento paredão.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TRADIÇÃO


PROCISSÃO DOS VAQUEIROS MARCA
INÍCIO DA FESTA DE SÃO ROQUE 

Uma procissão com cerca de cem vaqueiros montados a cavalo marcou na tarde desta quarta-feira a abertura da festa de São Roque em Vila Campos, zona rural de Canindé. O percurso de um quilômetro entre Campos Novo (BR 020) e Campos Velho encerrou-se com uma missa campal em frente à capela da localidade. Peregrinos também acompanharam a procissão, entoando cânticos e conduzindo o painel com a imagem do padroeiro.
Durante o dia, os vaqueiros participaram de uma confraternização na casa de Cosme Paulino Viana, que aos 88 anos é um dos vaqueiros mais antigos dos sertões de Canindé. Conhecido pelo apelido de “Prefeito”, Cosme Paulino é um dos símbolos vivos da festa de São Roque, evento religioso que tem mais de um século de tradição. “Desde menino que acompanho nossa festa. Por isso, faço questão de receber em minha casa meus colegas vaqueiros e amigos”, afirma.
Durante o novenário, comunidades circunvizinhas participam da programação festiva, que este ano tem como tema “São Roque acolhe os doentes com misericórdia”. Segundo os organizadores, o calendário de realização da festa sofre alteração anualmente, permitindo que o encerramento aconteça num fim de semana. “Quem incrementa nossa festa são nossos familiares que moram fora e só podem participar nos fins de semana. Portanto, convencionamos em adaptar a data”, explica Verônica Paulino, uma das organizadoras. O dia de São Roque é celebrado pela igreja católica em dia 16 de agosto.
As festividades em Vila Campos encerram-se no próximo dia 20, com missa festiva às nove da manhã, seguida de procissão com o painel de São Roque no pátio da localidade e leilão beneficente na quadra da Casa Paroquial.

Texto/fotos: Pedro Paulo Paulino




segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SALVE AGOSTO!

Pedro Paulo Paulino

Quem foi que disse: “agosto é mês do azar”?
Se não há nele diferença alguma.
O mesmo Sol rompendo a treva e a bruma
Renasce a cada dia sem cessar.

As coisas acontecem, uma a uma,
Em qualquer tempo ou em qualquer lugar;
A mesma estrada vamos palmilhar,
Sem nada novo sob o Sol, em suma.

Agosto de quem nasce e de quem morre,
Do riso e da tristeza; pois suposto
Ser mês de mau presságio, tudo ocorre

Como nos outros meses. Isso posto,
Abaixo o preconceito que decorre
Da sem-razão, e salve o mês de agosto!

quarta-feira, 20 de julho de 2016

RITO CELESTIAL

Pedro Paulo Paulino

Nos céus repete-se adorável rito:
É noite de mais uma Lua cheia.
Somente alguma estrela no infinito
Timidamente ante o luar vagueia.

Resto de nuvem que desliza aflito
Recorda vagamente uma sereia.
O dobre do silêncio é quase um grito,
Nos ermos ao redor da minha aldeia.

A noite cresce ingênua e compassiva,
E quanto mais a noite se condensa,
Mais vai ficando bela a Lua altiva.

Por fim, na paz do seu clarão enorme,
– Que todo o afã do dia recompensa –
Descansa a terra e a própria noite dorme.

domingo, 17 de julho de 2016

FILOSOFIAS

Pedro Paulo Paulino

Desde as remotas eras tem-se visto
A busca infinda da filosofia
Definitiva, e tudo é utopia
Sofismadora – nada mais que isto.

Desde os filósofos de Alexandria;
De Sócrates, Platão a Jesus Cristo;
Ou do sucinto “Penso, logo existo”
Aos profundos conceitos de hoje em dia,

Jamais se chega ao marco decisivo.
Nada liberta o homem da dramática
Angústia de se ver no mundo a esmo.

E sábio, sim! é quem, por lenitivo,
Dentre as filosofias põe em prática
A de viver em paz consigo mesmo.