sexta-feira, 29 de abril de 2011

CRÔNICA


SERTÃO BRANCO E EM FLOR

Pedro Paulo Paulino

Um fenômeno típico de maio é a névoa seca. Nos anos invernosos, quase todo este mês se distingue por esse feito atmosférico que torna as manhãs sertanejas mais longas e atraentes. A bruma encobre a caatinga e só as árvores mais altivas deixam vislumbrar o desenho de sua copa. A turvação engole os serrotes. Uma brancura absorvente cerca a paisagem por todos os lados, como se a natureza inteira mergulhasse numa noite branca. Os passarinhos do amanhecer, em seu anonimato, parecem cantar dentro de uma caixa acústica misteriosa.
Um certo colorido, mesmo assim, é notado, aqui acolá, no meio da névoa: são as flores da caatinga, singelos ornamentos que animam e dão vida ao cenário morto do semi-árido. Como numa passarela, as plantas rasteiras de nossas matas fazem questão de mostrar o que têm de mais bonito neste período: suas flores. Por onde quer que se passe, cada plantinha, mesmo a mais modesta, exibe seu encanto. Não resta dúvida que os pés de Pau-branco roubam a cena, afigurando-se senhores encanecidos, porém alegres e em grande número…
Nem por isso deixa de chamar a atenção, por suas flores alaranjadas, a Catingueira que também sabe produzir um aroma dos mais atraentes. O Umbuzeiro, o Juazeiro e o Angico disputam entre si o quesito elegância. O Mofumbo e o Marmeleiro não ficam atrás. Já o dourado dos campos abertos fica por conta dos pés de Vassourinha com seu romantismo ingênuo. Nossa bromélia, a Macambira, dá conta do verde-escuro da flora rasa. E um toque europeu cai sob medida para os pés de Violeta, com suas flores isoladas e cheias de sedução. Menos em quantidade e mais em beleza é a Chanana de flores alvas e miúdas. Até o sisudo Mandacaru, com flores de pétalas generosas em fileiras protegidas por um exército de espinhos, tem classe para competir com qualquer outra planta ornamental das mais requintadas de além-trópico.
E ainda nestas vésperas de junho, quem vai debutar em grande estilo na passarela sertaneja são os pés de Jurema, quando passam a ostentar a brancura de suas flores de fragrância incomparável. Mas depois do inverno, vem mais gente bonita, digo melhor, floração bonita por aí. Pelo mês de agosto, ninguém supera na sua imponência o majestoso Ipê, também conhecido como Pau d’arco, cuja copa transforma-se num imenso ramalhete de flores roxas, enchendo de magnetismo a mata já ressequida a seu tempo. (Sou capaz de jurar, que um dos melhores presentes que recebi por ora foi um arranjo de flores da caatinga, que me ofertou uma amiga.)
Além de embelezar nossos olhos, todo esse glamour natural do sertão tem uma clientela certa além dos beija-flores: as abelhas. Por sorte, estão voltando à sociedade da nossa flora a Jandaíra e a Moça-branca, produtoras de mel por excelência. É possível ver passar enxames e enxames quase todos os dias, em busca do néctar do Olimpo sertanejo.
E já que falei das flores, quero fechar com a névoa seca do início desta conversa. Observando com atenção, torna-se um véu tão tênue e denso a um só tempo que consegue intimidar os raios solares, até à hora que bem entende. Mais charmosa que o fog dos londrinos. Estendendo-se sobre a terra, abraçando largamente a natureza, a bruma da manhã parece mesmo uma gigantesca bandeira da paz reivindicando à poluição um instante de trégua.



quinta-feira, 28 de abril de 2011

FOLCLORE


NO DIA DA SOGRA


 

Não resta dúvida que, para muito cônjuge, a sogra representa uma segunda mãe. Também não resta dúvida que, para muitos homens e mulheres, a sogra é uma figura repelente. Pesando ambas as coisas na balança, o que resta de tudo isso é a sogra como personagem que comparece no nosso folclore com larga bagagem, seja no universo da piada, da sátira, do cordel e outras vertentes da imaginação popular. Neste dia dedicado à Sogra, publicamos aqui um soneto de gracejo muito interessante, que recolhi do livro CORDEL – MITO E UTOPIA, do saudoso escritor Ribamar Lopes. O soneto é uma paródia do célebre soneto do poeta português Luiz Vaz de Camões (c.1524-1580), Alma minha. Segundo informa Ribamar em seu livro, a paródia vem assinada por Petrarca Maranhão. 

 

O soneto de Camões:


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


A paródia:


“Sogra minha ‘gentil’ que te partiste,
Tão tarde desta vida descontente,
Repousa lá no inferno eternamente
E viva eu cá na terra nunca triste.


“Se lá no escuro Averno onde caíste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele agravo ardente
Que já nos olhos meus tão fero viste.


“E se achares que pode merecer-te
Alguma coisa o bem que me ficou
Da graça sublimada de perder-te,


“Roga ao Demo que os anos te alongou
Que tão tarde de cá me leve a ver-te
Quão tarde de meus olhos te levou…”

quarta-feira, 27 de abril de 2011


O BOLÃO DO SEU ORLANDO X PRINCESA DOS JERIMUNS


O charme dos ônibus não condiz com o
desrespeito e o mau atendimento

A queixa mais frequente dos usuários de ônibus que fazem a linha Fortaleza-Boa Viagem, via Canindé, pela BR-020, é contra a empresa de transportes coletivos denominada Viação Princesa dos Inhamuns. Querendo abarcar o mundo com as pernas, os que comandam a empresa não têm o menor respeito pelos passageiros que, via de regra, ficam de mãos abanando, sem transporte para viajar. A desatenção pelo usuário faz parte da rotina dos funcionários da Princesa dos Inhamuns, principalmente motoristas e cobradores que costumam tratar os passageiros a patadas. O mesmo tom abusivo e grosseiro é praticado pelos agentes da empresa, notadamente no box do terminal rodoviário de Canindé.

Como a Viação Princesa dos Inhamuns monopoliza essa extensa rota da região do Sertão Central, seus dirigentes talvez pensam que estão fazendo um favor à população, quando na verdade trata-se de um serviço privado notoriamente rendoso para seus empresários. O resultado desse fato absurdo é que todos os dias passageiros ficam sem transporte, uma vez que são barrados ou no guichê de venda de passagens da empresa, nas diversas cidades abrangidas pela linha, ou mesmo na porta dos ônibus. O problema se torna mais grave nos feriados, já que a empresa não reforça a frota para atender à demanda. Nos terminais, a cada instante são flagrados atritos entre passageiros e os agentes da empresa, que visivelmente parecem ser treinados para tratar mal. Nessa onda de indiferença e desrespeito, não são respeitados nem mesmo os mais velhos, as mulheres e crianças.
Mediante tanto aborrecimento, os passageiros sentem-se saudosos da Empresa Canindé, que mesmo com uma frota limitada conseguia atender a contento e de modo humanizado, já que os empresários e funcionários conheciam certas particularidades da região. Já os mais antigos afirmam que “o Pau de Arara do João Bosco, o ônibus do Zé Afonso e a empresa de ônibus do ‘Antonio Doido’ prestam um serviço com muito mais excelência do que a Viação Princesa dos Inhamuns”. Devido à péssima qualidade do serviço oferecido à população, a empresa já ganhou o apelido de “Princesa dos Jerimuns”. Seus carros luxuosos e confortáveis não condizem com a grosseria e o desconforto no atendimento.
A esse respeito, resgato aqui um cordel que fiz em 1994, saudando um velho ônibus que diariamente fazia a linha Vila Campos-Canindé. Trata-se do “Bolão do seu Orlando”, um antiquado modelo Ciferal que ganhou esse epíteto devido suas formas arredondadas. Mesmo velho, ronceiro e desajeitado, era comprovadamente mais útil do que os luxuosos carros da Viação Princesa dos Inhamuns. As qualidades do Bolão estão descritas nos versos abaixo:

O BOLÃO DO SEU ORLANDO

Pedro Paulo Paulino

Desenho: Arievaldo
 Se você, logo cedinho
Se põe na beira da estrada
Esperando por transporte
Que não lhe faça maçada
Amigo, não fique aflito
Quando escutar o apito
De carro se aproximando
Não perca essa condução
Com certeza é o Bolão
Que por aí vem chegando

Esse Bolão tão falado
Não é bonde, não é trem
Não é topic nem kombi
Não é caminhão também
Bolão é um ônibus velho
Que bem antes do evangelho
Já rodava neste chão
Mesmo apesar dessa idade
Aqui na localidade
Ele é nossa condução

Devido esse coletivo
Ter formato arredondado
Pelo povo logo foi
De Bolão apelidado
E por ser também cargueiro
Carrega em seu bagageiro
Feijão, fava e jerimum
Comparo o velho Bolão
Tal qual de mãe, coração
Que sempre cabe mais um

Seus passageiros de sempre
Durante a semana inteira
É o seu Julinho Gomes
É o seu Pedro Ferreira
A família dos Barrins
Mundoca, Pedro Martins
Chico Avelino e o Braz
(Só não transporta o Davi
Pois toda vez que entra ali
U’a confusão logo faz)

O povo da Vila Campos
De classe mais reservada
Pra viajar no Bolão
Tem poltrona separada
Da família de Paulino
À família Secundino
O Bolão todos conduz
Com destino a Canindé
Além do Manel André
E o Roque Teixeira Cruz

Se acaso for estudante
No Bolão tem livre passe
De modo que todo dia
Vai gente de toda classe
Seu Orlando tem razão
Não deixa haver confusão
Pois se der na sua vista
Ele agarra na canela
E joga pela janela
Do outro lado da pista

Na traseira do Bolão
Onde se bota bagagem
A gente sentando lá
Não dá fé nem da viagem
A moçada conversando
O Bolão velho rodando
Encurtando seu destino
E para quem vai na frente
Viaja muito contente
Ouvindo Chico Justino

A sua velocidade
A ninguém causa pavor
Para ele não tem pressa
Seja que momento for
Na frente de todo horário
Pra fazer itinerário
O Bolão parte primeiro
Seu Orlando empurra o pé
Mas o Bolão sempre é
Quem chega por derradeiro

E no tempo de eleição
O Bolão é servidor
É mesmo o melhor transporte
Pra conduzir eleitor
Para votar leva o povo
E traz de volta de novo
Na subida e na banguela
O Bolão tem liberdade
Pois já passou da idade
De ser preso na cancela

Parabéns para o Bolão
O transporte do lugar
Tomara que seu Orlando
Não o queira aposentar
Pois se isto acontecer
Eu sou capaz de dizer
Todo cheio de razão
Que, pra ir a Canindé
Prefiro mesmo ir a pé
Se não passar mais Bolão

Bolão: conforto e bom atendimento a toda prova






terça-feira, 26 de abril de 2011

ARTIGO


DA DIETA DAS TRAÇAS

Silvio R. Santos

Aqueles que leram por certo lembrarão: nos idos de 80/90, as revistas de divulgação científica (Superinteressante e outras) traziam, vez ou outra, algum artigo sobre o que foi chamado então de hipertexto. Segundo o que se dizia, entre outras coisas, no futuro (onde estamos) acabaria a figura do livro tradicional e passaríamos a degustar nossas histórias preferidas na tela de cristal líquido de um pequeno computador. Isso propiciaria, de imediato, imensas vantagens. O dano ecológico resultante da produção do papel seria reduzido. Seria imensa a biblioteca que poderia ser armazenada numa memória eletrônica, poupando um espaço doméstico nada desprezível, geralmente, mas nem sempre, ocupado por uma biblioteca. Em todo esse processo, a rede mundial de computadores teria um papel capital. Estava-se nos primórdios da Internet.
Creio ter aprendido com Carl Sagan, o gênio da astrofísica, que o melhor tempo é o presente e a melhor época a que estamos vivendo. Pode-se, nos dias de hoje, ver a que chegaram tais previsões. De fato, ao evoluir, a automação dos mais diversos dados só aumentou a demanda de papel. E hoje, os grandes usineiros da celulose suprem satisfatoriamente sua necessidade de novas árvores, através do plantio de florestas dedicadas a esse fim, como é por demais sabido. Também não resta dúvida sobre a realidade dos computadores de palma da mão, em muitos casos, menores do que um livro. Então, a quantas anda o livro eletrônico?
Vai bem. Não como se previu. Não aprisionado em maquinetas, infinitamente mais usadas para games sangrentos, mas multifacetado, na Web. Escritores como João Ubaldo Ribeiro foram pioneiros em vender histórias por capítulo aos internautas. Mais recentemente, a livraria virtual Amazon permite que se tenha acesso a uma percentagem do conteúdo do livro pelo qual há interesse. Saindo do âmbito do livro, pode-se, mediante o pagamento de uma taxa, ter acesso ao imenso arquivo do New York Times.
Tornou-se quase uma aporia a frase do bardo: “quem lê tanta notícia?” Ao contemplar a variedade de publicações numa banca de revista. Para quem já pode acessar, há muito mais informação circulando na Rede Mundial do que poderia assimilar toda uma existência. Um verdadeiro labirinto de Borges. Enquanto isso, a figura do livro tradicional permanece. Diria até que sofre um reforço por parte do texto eletrônico, tendo como suporte o benefício do domínio público.
O caso é que há inúmeros sites oferecendo textos de autores consagrados nessa condição. Fica como exemplo o endereço www.terra.com.br/virtualbooks , onde é possível, entre outros, encontrar e copiar gratuitamente o “Diário Íntimo”, de Lima Barreto. Obra compilada com textos esparsos do escritor que apresenta um panorama fiel dos impasses de uma vítima do racismo e da história do Rio de Janeiro no início do século passado.
Por certo existe um certo desleixo na revisão dessas obras disponíveis. Mas o que importa mesmo é a sua disponibilidade. O que poderá tornar positivo um aspecto deselegante da brasilidade. Existe um certo interesse em ler. Nunca em comprar livros. A argumentação é que custam muito caro. Alguns tanto quanto uma rodada de cerveja. À medida que se massificar o acesso aos terminais poderá haver a inversão de leitores que partirão do texto eletrônico para o livro tradicional. Afinal de contas ainda não deixou de ser mais agradável ler o texto impresso, sentindo o perfume e a textura das páginas. Para não dizer que quase sempre se imprime o que julgamos ver de importante no monitor.

MAIS UM CAUSO DO ZÉ FREIRE


DOUTÔ, ME EMPRESTE SEU REVÓLVER...

Por: Pedro Paulo Paulino

Andar motorizado ainda é um problema para os sertanejos que até há algum tempo tinham como meio de transporte o cavalo, o burro e o velho jegue. Embora o interior esteja formigando de carros e motocicletas, os condutores desses veículos, em sua maioria, são limitados pela legislação de trânsito por não estar devidamente habilitados. E tirar carteira de motorista hoje em dia, diga-se de passagem, é uma verdadeira prova de fôlego.
Ademais, muitos veículos são adquiridos de segunda mão, em situação irregular para trafegarem nas estradas fiscalizadas.
Mesmo assim, o cavalo bom de sela ou o burro estradeiro foram de súbito trocados pela Honda Titan, que também superou nessa desleal concorrência a salutar bicicleta. Foi-se o tempo em que o roceiro vendia a safra para comprar uma Monark ou uma Calói.
A proprósito, não tenho a menor idéia de como Euclides da Cunha faria hoje a descrição do sertanejo, pois todo matuto tem agora sua moto, e até já se vê o nosso herói vaqueiro em plena catinga campeando sobre duas rodas, trocando o aboio dolente pela buzina irritante e o chapéu de couro pelo capacete. Caminhando pelas veredas do sertão, é mais fácil hoje, numa encruzilhada, dar de cara com uma motocicleta do que com uma raposa ou ouvir o ronco dum motor do que o esturro de uma suçuarana em cima dum lajedo.
E como todas as regiões do estado estão cortadas de rodovias do governo, muitos proprietários de carros na zona rural trafegam na marra, se desviando das blitze de trânsito.
Vários são os ‘causos’ do Zé Freire como motorista, mesmo sendo ele um bom chofer e não tenha nunca se envolvido em acidente. Porém, antes de comprar sua caminhonete, ele recebeu, por força de negócio, um Corcel 73, sem a menor documentação, sem extintor, sem cinto de segurança, cego de guia, os pneus assustados com ponta de cigarro... uma bomba. Pretendia utilizar o que fora um carro, apenas para as pequenas viagens e passeios nas redondezas da Esperança.
Mas, para chegar até lá, era preciso enfrentar a BR-020 e um possível patrulhamento da PRF. Mesmo assim arriscou. Saiu de Canindé, escorregando por aqui, por ali, colhendo informação dos outros motoristas, se apegando com São Francisco para chegar são e salvo na Vila Campos e a partir daí continuar viagem tranqüila...
Para sua infelicidade, no meio do caminho Zé Freire avista uma viatura da Polícia Rodoviária, fazendo tocaia. Instintivamente, ele tentou diminuir a marcha, fazer retorno ou pegar algum atalho. Porém, os freios gastos do carro velho não ajudaram.
De carona com ele, viajava corajosamente o João Joel, antigo morador de Esperança. Este conta que Zé Freire, virando-se rápido, disse:
– João, se os ‘home’ mandar nós parar, eu tou pensado que nunca mais nós sai da cadêa.
Era tanto o vexame, que Zé Freire ainda virou-se novamente para o companheiro e perguntou se este portava algum documento de carro, qualquer que fosse! Sinalizado para estacionar, com muito esforço foi parar o carro velho a uma boa distância do patrulheiro, que se aproximou da porta e exigiu os documentos de praxe. Vendo o embrulho em que estava metido, Zé Freire soltou a direção, levantou as mãos ao céu, olhou para a cintura do guarda e apelou para o desespero:
– Doutô, me empreste logo esse seu revólver pra eu me suicidar, pois eu ando muito mais enrolado do que namoro de cobra! Recebi este carro velho numa conta, pra não dar fim num desgraçado que me devia. Garanto ao sr., que seu eu chegar com vida na Esperança, nunca mais as roda dele pisa em cima de asfalto, que carro véi e muié fêia, a gente pissui escondido. Tou levando esse Corcel velho pra servir o povo do meu lugar: pra socorrer mulher barriguda, menino com caganeira, cabra que leva facada, eleitor pra votar, aposentado, doido, tirar os outros do prego...
João Joel conta que ele fez um verdadeiro teatro, a tal ponto que o próprio patrulheiro nem sequer exigiu a infame propina. Tomando-o como doido, deixou passar. E ainda, para desobstruir o acostamento, ajudou a empurrar o ferro velho...

SONETO


SONETO 234 CONFESSIONAL 

Glauco Mattoso

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.

Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.

Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.

Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...

CURIOSIDADE ASTRONÔMICA


TUDO POR CAUSA DA LUA
Você sabe por que o Carnaval e a Sexta-Feira Santa mudam de data a cada ano? Como regra básica, a Páscoa tem de cair no primeiro domingo após a lua cheia que seguir ao equinócio de primavera, geralmente em 21 de março. Este ano, por exemplo, a lua cheia de março foi no dia 19 (dia de São José), o que fez retardar a Semana Santa.
No entanto, a Igreja católica se baseia em projeções sobre a lua feitas no início da Idade Média, que já não coincidem com o ciclo lunar real. Assim a Páscoa depende da chamada "lua cheia eclesiástica". Durante muitos séculos, os fiéis e os próprios representantes da Igreja católica encontraram muitas dificuldades para entender e explicar a fixação do calendário da Páscoa e do próprio carnaval porque havia uma discrepância muito grande entre as datas. Somente com a entrada em vigor do atual calendário, o gregoriano, criado pelo papa Gregório XIII (1502-1585), no século 16, é que o domingo de Páscoa passou a cair obrigatoriamente entre 22 de março e 25 de abril.
A partir destas duas referências, os responsáveis pela organização do carnaval podem programar a festa com muita antecedência. A instituição do calendário gregoriano aconteceu em 1582. Alertado por astrônomos sobre algumas imprecisões no calendário juliano, a Igreja católica suprimiu dez dias (de 5 a 14 de outubro) daquele ano para efetuar o ajuste no tempo. Ou seja: as pessoas foram dormir no dia 4 de outubro e acordaram no dia 15.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

UM TEXTO DE UMBERTO ECO

Lamentamos comunicar-lhe que seu livro...

Umberto Eco


UMBERTO ECO
 propõe aqui uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em "fichas de leitura", são, finalmente, recusadas. Esta é uma experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito amável assinada pelo editor. Nessa carta. ele é informado de que certamente seu livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que infelizmente seu livro não será publicado. 
ANÔNIMO

A BíBLIA
Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.
O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada... Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuve bem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.
Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.
O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.
Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.

HOMERO - A ODISSEIA
Pessoalmente,  o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento "lolitico", na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.
Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.
Talento demais, seria o caso de dizer... Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.
Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?

DANTE - A DIVINA COMÉDIA
O trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente, certo talento técnico e notável "alento" narrativo. A obra (em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro "canto", o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.

DIDEROT - A RELIGIOSA
Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.

SADE - JUSTlNE
O manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três  lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.
Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo... Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.

CERVANTES - DOM QUIXOTE
O livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.
Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de GaulaA Lenda do GraalO Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho deBarberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.

PROUST - EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
Trata-se,sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.
Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo. 

KAFKA - O PROCESSO
Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.
Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer "poesia",  pois dizem "um homem", em vez de dizer "o senhor tal, a tal hora, em tal lugar".
Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os origInais.

JOYCE - FINNEGANS WAKE
Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo de idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.

UMBERTO ECO (1932), escritor, filósofo e lingüista italiano,  nasceu em Alessandria, região de Piemonte, Itália. Como professor na Universidade de Bolonha, desenvolveu uma sólido conhecimento na área de semiótica, sendo hoje o titular dessa cadeira.  É, também, diretor da Escola Superior de Ciências Humanas daquela universidade.  Ensaísta de renome mundial, dedicou-se também a temas como estética, filosofia da linguagem, teoria da literatura e da arte e sociologia da cultura, é considerado por muitos o maior intelectual vivo do planeta. Autor de artigos de opinião nos jornais Espresso e La Repubblica, estreou como romancista com "O Nome da Rosa", em 1980.
Depois do imenso sucesso colhido na Itália e em todo o mundo, escreveu "O Pêndulo de Foucault" (1988), "A Ilha do Dia Anterior" (1994) e "Baudolino" (2000).
Entre suas obras ensaísticas destacam-se "Obra Aberta" (1962), "Apocalípticos e Integrados" (1964), "A Estrutura Ausente" (1968), "As Formas do Conteúdo" (1971), "Tratado Geral de Semiótica" (1975), "Seis Passeios pelos Bosques da Ficção" (1994) e "Sobre a Literatura" (2003).
Seus textos jornalísticos estão reunidos em "Diário Mínimo" (1963), "O Segundo Diário Mínimo" (1990) e "A Coruja de Minerva" (2000).

Texto extraído da Revista Status, nº 1, de 1975, pág. 88, uma gentileza de João Antônio Bührer, o grande amigo do Releituras.