domingo, 10 de março de 2013


GILDA, A BONECA DO MARREIRO


Pedro Paulo Paulino

Gilda nasceu lá pelos idos de 60 do século vinte. Cria do poeta e folclorista canindeense Raimundo Marreiro. Pouca gente sabe, entretanto, que ela teve marido, o Gildo. Mas este teve curta vida. Morreu tragado pela enchente do rio Canindé no memorável inverno de 74.
O poeta Natan Marreiro conta que a morte do Gildo foi uma comoção geral. Muita gente assistiu de cima da ponte Gildo sendo arrastado pela correnteza. Houve até quem, num gesto nítido de bravura, pulasse nágua na tentativa de salvá-lo, pensando mesmo que fosse gente, tão bem vestido estava. É confusa a notícia de como o boneco foi parar no rio. Há relato sobre relato. Pelas próprias pernas, com certeza não foi. É fato notório, porém, que nesse dia a cidade ficou alagada e muita coisa descambou para o rio, inclusive o Gildo. Um fotógrafo de ocasião – continua o Natan – ainda gravou a cena, mas instantes depois deixou fatalmente a Kodak cair no rio. Ou salvaria a máquina ou a garrafa de pinga. Perdeu-se nessa confusão grotesca um registro histórico.
O casal de bonecos, fabricado a base de gesso e madeira, foi vestido caprichosamente com muita graça e originalidade. Desfilando pelas ruas de Canindé, começaram a conquistar seu público. Para dar movimento aos bonecos, jamais faltou voluntário. "Canela" foi um dos mais atuantes. Hoje em dia, Walbim Piolho é o guiador da Gilda.
Sucessivamente, foram chegando convites para festas, do cerimonial ao reisado. E tornaram-se atração fabulosa para romeiros. Para os meninos de então, a Casa Marreiro, habitat do Gildo e da Gilda, era uma espécie de Disneylândia. E é hoje ainda, pois lá está a Gilda, uma loura de estatura acima da média, rosto bem desenhado, olhos claros e elegantemente bem trajada.
Viúva, Gilda continuou carreira artística solo. Era a principal atração do pequeno e curioso circo ambulante montado pelo poeta Raimundo Marreiro. A troupe era composta de um macaco, duas onças, um porco caititu, uma cobra, um bode "leiteiro" e a Gilda.
A boneca era também convidada de honra das torcidas de futebol em passeios a Fortaleza. Excursionou por tudo que é canto. Estranhamente, foi persona non grata na cidade de Mombaça, onde o padre excomungou-a, julgando-a impudica. Era ainda uma balzaquiana quando isso aconteceu. Afora tal incidente, a simpática boneca só tem recebido os melhores encômios. A Casa Marreiro é a vitrine da Gilda. Todo santo dia, não falta gente para apertar-lhe a mão e posar ao seu lado numa foto inesquecível.
O poeta Natan Marreiro jamais deixa faltar um bom estilista para cuidar do figurino da Gilda, que está sempre bem pintada e foi popularmente entronizada como “A Boneca do Marreiro”. O Natan, com ciúmes ou não, lembra: “A Gilda é e continuará sendo bonita, chique e enxuta. Mas não adianta cortejá-la, pois desde que ficou viúva, optou definitivamente pelo celibato”.



2 comentários:

  1. A contribuição da família Marreiro em prol do folclore local é legendária. Lembro-me,bastante jovem, de ir ver o Reizado (papangus) em que o Marreirim, pai do nosso estimado Beto Marreiro, pontificava com todas aquelas evoluções e cantos de cena. Quanto à boneca (não aquela outra, inflável, cantada em verso por aí) será que tem alguma coisa a ver com a mulher do filme: "nunca houve uma mulher como Gilda?"

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