sábado, 22 de outubro de 2011

CORDEL


Meus amigos poetas Alfredo Paz e Zé Louro resolveram dar uma volta no passado e revisitaram o sertão de antigamente. O relato desse passeio foi feito em versos pela dupla de poetas. Zé Louro, aliás, é cantador afamado e um dos pioneiros em programa radiofônico de cantoria na cidade de Canindé. Durante muito tempo, formou dupla com Tetéu Paraibano. Alfredo Paz, do Sindicato Rural de Canindé, está revelando seu talento para o cordel e é também grande forrozeiro, apresentando programa de rádio diariamente, fazendo um verdadeiro resgate da nossa música e das coisas do sertão. O cordel abaixo enviado por eles, a meu ver, é nitidamente superior a outro que circula por aí sobre o mesmo assunto.

É O NOVO!

Eu sou do tempo que a gente
Torrava café no caco
Fazia com rapadura
Que ficasse forte ou fraco
E vesti roupa tingida
Feita de pano de saco

Eu sou do tempo que o homem
Que morava no sertão
Vendia algodão na folha
 Pra entregar no verão
E onde morava tinha
Três dias de sujeição

So do tempo do tostão
Da pataca e do vintém
Do cruzeiro e do cruzado
Do conto de réis também
Tempo que pobre comia
Feijão branco com xerém

Morei em casa de taipa
Sem assento, sem cortina
Bem distante da cidade
No claro da lamparina
Meu assento era um pilão
Meu prato era uma tirrina

Me criei sem disciplina
Sem lições e sem tarimba
Matuto chupando o dedo
Botando água em marimba
Tomando banho de cuia
Na beirada da cacimba

Sou do tempo que não era
Do jeito que agora é
Quem morava no sertão
Em Deus tinha tanta fé
Que pensava que chovia
Se roubasse um São José

No meu tmepo de menino
Eu comprei erva de rato
Xarope pra macacoa
Bebi com “pílula do mato”
No tempo que se bebia
Azeite de carrapato

Atirei de baladeira
Armei fojo, armei quixó
Peguei preá, punaré
Cancão, nambu e mocó
E peguei piaba em litro
Muito mais do que socó

Montado em lombo de jegue
Coma a frente para trás
Aprontando peripécias
Que muito menino faz
Que a gente só deixa quando
Vai se tronando rapaz

Puxei roda, imprensei massa
Nas famosas farinhadas
Que começavam cedinho
Ainda na madrugada
Cabra no cabo do rodo
Com a roupa toda suada

Calcei cavalo-de-aço
Sapato do bico chato
Calça da boca de sino
O cabra ficava um gato
Conquistava qualquer moça
Fosse da rua ou do mato

Eu sou do tempo do bumba
Da rebeca e consertina
Do bota pó, tira pó
Da titia vitalina
Do tempo que se usava
No cabelo a brilhantina

Eu sou do tempo em que filhos
Aos pais pediam a benção
Com disciplina e respeito
Até lhes beijavam a mão
E o terço em família era
Rezado por devoção

Sou do tempo da mezinha
Feita por mamãe querida
Do leite do gergelim
Mastruz na água fervida
Que afastava para longe
Doença na nossa vida

Eu sou do tempo que não
Havia cesariana
Mulher morria de parto
No sertão toda semana
E assava toicinho
Pra tira-gosto de cana

Eu sou do tempo da valsa
Da mazurca e do xaxado
Das histórias de trancoso
E do dinheiro enterrado
Que sertanejo arrancava
Em lugar mal-assombrado

Houve um tempo que eu queria
Aprender jogar sueca
Meu irmão tinha um ioiô
Minha irmã tinha boneca
E eu, além de magro e feio
Calça pegando marreca

Alpargata de cabresto
A calça de suspensório
A novena era rezada
Na frente do oratório
No tempo que se falava
Das almas do purgatório

A brincadeira do grilo
De cobra-cega e anel
Roupa engomada no grude
De mescla Santa Isabel
Do tempo do aluá
Chouriço e sarapatel

Era muito bom a gente
À noite brincar na ola
Usando um par de quinaipo
De pneu, tachinha e sola
E comprar pra namorada
Tijonho e mariola

Eu me lembro que cachimbo
Mamãe chamava pitó
Muita gente tinha medo
De alma e de catimbó
E menino, todo dia
Apanhava de cipó

Eu vesti roupa de cáqui
Usei perfume tabu
Calcei sapato polar
Sandálias de couro cru
Alpargata de pneu
E joguei rifa no lu

Armei mundé, peguei peba
Atirei de lazarina
Peguei cancão de arapuca
Botei gás em lamparina
E joguei bola de meia
No tempo da vaselina

Quem é que não tem saudade
Do tempo da bulandeira?
Do “Xote da Carolina”
Do cordel cantado em feira
Do velho engenho de pau
Da canção “Mulher Rendeira”

Eu me criei no sertão
Com batata e jerimum
Maga verde, melancia
Rapadura e canapum
Hoje estou bom e bonito
Sem ter problema nenhum

Papai, com roupa de cáqui
Mamãe, com saia godê
Meu cigarro era “Princesa”
“Globo”, “Eldorado” e “BB”
No tempo de “seu menino”
“Seu fulano” e “vosmincê”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CRÔNICA


UMA PEGADINHA DA NATUREZA?

Pedro Paulo Paulino

Leio no jornal que nos sertões de Crateús, em pleno outubro, choveu cerca de 60mm. A região é conhecida como uma das mais secas do Estado. Na mentalidade popular, quando o inverno é farto no Ceará e sobra alguma chuva, São Pedro resolve mandar a sobra para aquelas bandas. Fico meio tonto com essa notícia. Será isso uma pegadinha da natureza? Deste período do ano em que estamos, até chegar nosso bom tempo de inverno, ainda falta é coisa. E logo agora, o estágio do ano mais seco do nosso clima, de repente começa a chover, inclusive com direito a relâmpago e trovão, como se estívessemos em janeiro.
 Mas ouço no rádio que a mudança climática se deve a uma frente fria estacionada sobre a Bahia. O restante da mídia confirma. Sem dar azo às explicações da meteorologia, o certo é que essas chuvas tão fora de época chegam como uma visita que de tão inesperada torna-se mais ilustre e bem-vinda. A trégua que a natureza deu a prolongados dias de sol impiedoso, num átimo fez acordar a própria natureza que hibernava triste e monótona sob o calor inumano. O sertão ganha ares de baile, e tudo que vive animou-se mais. Um cheiro de terra molhada nos traz uma lembrança grata, uma sensação diferente. O contraste da terra seca, a caatinga depenada, com o céu turvo e a chuva repentina produz um efeito fantástico aos nossos olhos. A alegria manifesta dos pássaros colabora com a transformação.
Mas não nos enganemos. Logo, o verão voltará para concluir o seu ciclo. Logo, as árvores acabarão de ficar mais nuas, livrando-se da responsabilidade de sustentar suas folhas. E os pássaros ficarão calados novamente. Esse oásis atmosférico é um paliativo até que a verdadeira cura aconteça. O sertanejo experiente sabe disso, principalmente nós do Sertão Central cearense. Mesmo assim, ficamos gratos pela chuva inusitada. Chega como um armistício, dando a entender que a guerra vai voltar.
Enquanto o ar torna-se ameno e apetitoso, é motivo para se refletir o quanto somos adaptados aos extremos climáticos em que vivemos. Conhecemos apenas o inverno e o verão, que na verdade não são uma coisa nem outra na real concepção de estações do ano. O outono e a primavera não acontecem aqui. Ou é tudo ou nada. Cavalgamos no espinhaço do planeta e tudo para nós é extremamente bilateral. O próprio Sol, como cavaleiro desequilibrado, fica sempre mais para uma banda ou para outra, gerando os equinócios. Com isso, estamos na corda bamba em disparada pelo espaço sideral.
Por estas e outras, sempre julguei impossível na prática uma relação simbiótica com nossos patrícios das outras regiões. O clima molda nosso temperamento. Até mesmo entre o sertanejo, o serrano e o habitante do litoral, já há diferença. São aspectos há muito notados e de natureza indiscutível. Não esperamos mais nem menos da natureza, somente a quantidade ideal, seja de sol e de chuva. Excessos numa e noutra coisa também não nos causa muito estranheza. Acostumamo-nos. Vivemos assim, o sertanejo, numa situação de quase empate nesse jogo muita vez arbitário. A tal ponto que o próprio homem do sertão chega a desculpar-se dos caprichos da natureza. Conversando com um deles sobre as chuvaradas recentes, ele deu de ombros e me disse: “Isso é chuva do caju!” Eis esta uma estação do ano exclusivamente nossa.

NOSSA LÍNGUA

PROCOTÓ "Bicho de pé, / Inchaço e moléstia ruim." Lubim é lobinho, um tipo de quisto ou calombo subcutâneo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

CRÔNICA


ESTE POVO ACREDITA EM CADA UMA!

Raymundo Silveira*

Desde o dia em que nasci, todas as pessoas, inclusive os meus pais, já sabiam que um dia eu haveria também de morrer. Naquela época – assim também como acontece até hoje – o Sol nascia e se punha todos os dias. Aliás, tendo em vista a teoria recentemente desenvolvida do heliocentrismo, não é propriamente o Sol que se põe, uma vez que é a Terra que gira em torno dele e, portanto, é esta quem deveria nascer e se pôr ou se opor ao Sol a cada vinte e quatro horas; ou seriam os dias nada mais do que giro completo dela, Terra, em torno de si mesma? Sei não, para mim é a mesma coisa que discutir o sexo dos anjos; talvez jamais saberemos disto. Trata-se, portanto, de um mistério a ser esclarecido e não parece que o será tão cedo. Existem até visionários cientistas que ousam dizer que um ano não passa de uma volta competa da Terra em torno do Sol e um mês, o tempo médio que leva a Lua para arrodear a Terra. Não se de onde esta gente tira estas ideias tão esquisitas.
Imagimem, que há poucos dias, uma destas pessoas que acredita, sem questionar, em tudo quanto lê e vê na TV me abordou durante a minha caminhada matinal para me contar uma ideia maluca que, segundo ela, se trata da mais pura verdade. Disse-me, como se estivesse falando sobre plantio de milho – aliás, chegou a insinuar também que até algodão nasce do cultivo da terra – que este nosso planeta é esférico. Como alguém pode saber um fenômeno tão difícil de ser comprovado, meu Deus do Céu? Segundo ela, a simples sombra da Terra na Lua por ocasião de um eclipse e o desaparecimento progressivo dos mastros de uma embarcação à medida que se afasta da costa são mais do que suficientes para confirmar esta ideia tão estapafúrdia.
Outra concepção abasurda – esta me deixa de queixo caído quando vejo alguém acreditar nela – é a de que a Terra permanece sempre envolvida por camadas de gases, compostas de boa parte de oxigênio. Será que esta gente não tem cabeça pra pensar? Será que ainda não descobriram que este gás é altamente comburente e há muito tempo já teríamos virado churrasco se alguém ousasse acender um simples palito de fósforo?
Este povo ainda acredita em Papai Noel bruxas gnomos e outras abusões. Nem vou falar daqueles que dizem que este nosso planeta está sempre girando porque aí seria um insulto à inteligência dos leitores, mas já ouvi falarem coisas quase tão absurdas quanto esta. Ouvi com estes ouvidos que a terra há de vomitar que enquanto aqui é dia, no Japão é noite. Esta gente só tem cabeça para separar os buracos dos narizes.
Parece que só os poetas sabem dizer coisa com coisa como comprova a epígrafe deste texto: “Hojé é hoje e ontem se foi, não há dúvida”. Nunca uma só pessoa disse tanta verdadce numa única e insofismável frase.

*Raymundo Silveira é membro da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores). Esta crônica foi extraído de seu livro Louca Uma Ova (SECULT - CE, 2010).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

MEMÓRIA


CHIQUINHA GONZAGA – 164 ANOS


Este ano transcorre os 164 anos de nascimento da compositora Chiquinha Gonzaga. Talento genial, enfrentou as dificuldades típicas de sua época para, na condição de mulher, firmar-se como compositora, regente e instrumentista brasileira. Foi uma das mais fecundas compositoras do Brasil, tendo criado em quase todos os gêneros. Nasceu no Rio de Janeiro a 17 de outubro de 1847 e ali morreu a 28 de fevereiro de 1935.

FRANCISCA EWIGES NEVES era seu verdadeiro nome, filha de José Basileu Gonzaga, general do Exército Imperial Brasileiro e de Rosa Maria Neves de Lima, uma negra muito humilde. Chiquinha Gonzaga foi educada numa família de pretensões aristocráticas (seu padrinho era Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias). Aos 11 anos de idade já escrevia sua primeira composição, Canção dos pastores. Após dois casamentos malogrados, tornou-se professora de piano e conseguiu participar de conjuntos orquestrais que animavam as festas da época. Em 1877, lançou sua primeira composição de sucesso, a polca Atraente. Musicou um libreto de Artur Azevedo, Viagem ao Parnaso, recusado pelos diretores teatrais pelo fato de ter sido composto por uma mulher. Lutando contra os preconceitos, conseguiu finalmente em 1885 musicar uma opereta de costumes, A corte na roça, na qual ficaria famoso o cateretê Menina faceira. A relação de suas obras é vasta, incluindo 87 partituras de peças teatrais e cerca de duas mil composições. Participou da campanha abolicionista, dedicando a renda da venda de suas músicas a associações em prol da abolição da escravatura; também lutou pela implantação da República. Em 1899, procurada por uma comissão do cordão Rosa de Ouro, escreveu Ó abre alas. Musicou vários libretos para peças portuguesas. Em 1911 compôs a modinha Lua branca, conquistando novos triunfos em 1915, com Sertaneja, peça de Viriato Correia por ela musicada. Seu último trabalho teatral (música para Maria, também peça de Viriato Correia) data de 1933.

No vídeo abaixo, Maria Bethania canta "Lua Branca", uma das mais inspiradas composições de Chiquinha Gonzaga:



NOSSA LÍNGUA

CANGONCHA No CE é santo de madeira malfeito, mal acabado.

domingo, 16 de outubro de 2011

MEMÓRIA

RELEMBRANDO ANTONIO MARIA

Ontem, 15/10, fez 47 anos da morte do compositor e jornalista ANTÔNIO MARIA. Nasceu em Recife, no dia 17/3/1921 em uma família de posses. Teve aulas de piano e francês na infância, como era comum às crianças da classe alta. Na adolescência, porém, uma crise econômica afetou a indústria usineira e levou a família à bancarrota. Arranjou o primeiro emprego aos 17 anos, como apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. Por essa época já frequentava a boêmia de Recife. Em 1940 resolveu ir para o Rio de Janeiro, de navio. Na então capital federal foi morar com o jornalista Fernando Lobo, antigo amigo de farras pernambucanas, e com Abelardo Barbosa, que mais tarde se tornaria Chacrinha. A primeira estadia carioca não foi bem-sucedida. Apesar de ter conseguido trabalho como radialista, a vida era difícil e em 1944 voltou para Recife, e por lá se casou. Trabalhou em emissoras de rádio em Fortaleza e na Bahia, onde fez amizade com Dorival Caymmi e Jorge Amado. A segunda e definitiva tentativa de viver no Rio de Janeiro foi em 1947, desta vez com a mulher e os dois filhos. Foi diretor artístico da Rádio Tupi e da TV Tupi, participando ativamente do primeiro programa de televisão transmitido no Brasil, em 1951. Sua atuação como jornalista - e principalmente cronista - é destacada. Escreveu crônicas diárias durante mais de 15 anos, nas colunas "A noite é grande", "O jornal de Antônio Maria", "Mesa de pista" e "Romance policial de Copacabana". Como compositor, começou criando jingles, e em 1951 seu samba "Querer bem" (com Fernando Lobo) foi gravado por Aracy de Almeida. No ano seguinte, depois de sua transferência da Tupi para a Mayrink Veiga (quando passou a ganhar o maior salário do rádio na época), atuou como locutor esportivo, além de apresentador de programas de grande audiência. Nesse mesmo ano (1952) a então estreante cantora Nora Ney realizou as gravações de "Menino grande" e "Ninguém me ama", esta última o maior sucesso de Antônio Maria, e um verdadeiro clássico da dor-de-cotovelo. Figura boêmia, freqüentador assíduo de noitadas intermináveis em boates, compôs grandes sucessos com diferentes parceiros, como "Valsa de uma Cidade", com Ismael Neto, de Os Cariocas, "Manhã de Carnaval", com Luiz Bonfá, "Suas mãos", com Pernambuco e "Quando tu passas por mim", com Vinicius de Moraes. Era cardiopata e se autodefinia como "cardisplicente: homem que desdenha o próprio coração". Morreu fulminado por um infarto em 1964.


NOSSA LÍNGUA

PRESEPEIRO Além da acepção nacional de fanfarrão e escandaloso, em PE e na PB também serve para designar as pessoas que não cumprem compromisso, que chegam atrasadas, que são farrapeiras, furonas.