sábado, 15 de outubro de 2011

cantoria

PELEJA DE DOIS POETAS
SOBRE HORÁRIO DE VERÃO

Pedro Paulo Paulino

Pedaços de uma peleja
Para o papel eu transponho
E para nossos leitores
Neste momento disponho
O duelo dos poetas
Noite Alta e Céu Risonho

Dois cantadores paidégua
Que no sertão escutei
E trechos de uma peleja
Na mesma hora gravei
Sobre um tema bem moderno
Que no Brasil virou lei

Noite Alta – Companheiro, lhe convido
Para comigo cantar
Um tema que hoje em dia
Ficou muito popular
Pois o homem resolveu
Até o tempo mudar

Céu Risonho – Pois pode se preparar
Que eu cá estou preparado
O tema que você manda
Cantarei desenrolado
Se o tempo me der tempo
Eu canto o tempo ao seu lado

NA – Eu nasci num descascado
Nos cafundós do sertão
Onde não tinha relógio
Nem rádio e televisão
Onde eu nunca ouvi falar
Em horário de verão

CR – Lá também no meu rincão
Não tinha nem calendário
Pelo rincho do jumento
A gente marcava horário
Mas agora está mudado
Sertão é outro cenário

NA – No meu viver temporário
Eu não sei por qual motivo
Quer o homem atacar
O tempo já tão ativo
Se do mesmo tempo o homem
A vida toda é cativo

CR – Eu, que neste mundo vivo
Já contra o tempo correndo
Com medo dele passar
Ligeiro como estou vendo
Queria que ele passasse
De mim quase se esquecendo

NA – Mas o homem tá querendo
Do tempo fazer manobra
Antecipando uma hora
Pra ganhar uma de sobra
Mas a hora que se ganha
Depois o tempo é quem cobra

CR – Se o tempo é uma obra
Do nosso Pai Criador
Como se pode mudar
Do nascer ao sol se pôr
Voltando atrás o ponteiro
Das horas no marcador?

NA – Ruim pro trabalhador
É o horário de verão
Que no Brasil funciona
Nuns estados, noutros não
A gente pensando bem
Causa muito é confusão

CR – Eu não sei por que razão
O Brasil adotou isso
Que lá na cidade grande
Só faz mesmo é rebuliço
Obrigando todo mundo
Ir mais cedo pro serviço

NA – Para quem tem compromisso
Terá que acordar mais cedo
Tem muita gente que vive
Contando o tempo no dedo
Nós temos medo do tempo
Mas o tempo não tem medo

CR – Fica o tempo mais azedo
Se pouco tempo se tem
Uma hora adiantada
Eu creio que não convém
Pois vai encurtar o dia
E encurta a noite também

NA – Quando meio-dia vem
Não será mais meio-dia
Fica mais cedo uma hora
As horas da Ave-Maria
As seis horas vão chegar
Antes de chegar o dia

CR – Desnecessário seria
Aqui nesta região
Adiantar uma hora
Sem a menor precisão
Se sobra sol, não precisa
De horário de verão

CR – Esta nossa cantoria
Vai ganhar mais energia
Sem fugir da sintonia
Do horário de verão
Eu morro e não me acostumo
Com esse horário sem prumo
Que deixa a gente sem rumo
Nos oito pés a quadrão

NA – O tempo não tem resumo
É produto de consumo
Respeito o tempo e assumo
Sempre a minha obrigação
Sul, Sudeste e Centro-Oeste
Tem hora que no Nordeste
Ela não passou no teste
Nos oito pés a quadrão

CR – O mesmo horário celeste
Continua em nosso agreste
Pois aqui não se investe
Em mudar o tempo, não
O Nordeste é protegido
Nosso tempo é garantido
Eu me sinto agradecido
Nos oito pés a quadrão

NA – Sempre tenho repetido
Que nasci e fui crescido
Vendo o tempo parecido
Com um enorme balão
Que pega e carrega a gente
Caminha sempre pra frente
Jamais volta novamente
Nos oito pés a quadrão

CR – Também digo no repente
Que o tempo manda na gente
O homem não é potente
Pra mudar o tempo, não
Pode até trocar de hora
Mas o tempo vai-se embora
Cutucando a sua espora
Nos oito pés a quadrão

NA – Nós vamos cantar agora
O mote duma senhora
Que chegou em boa hora
Aqui dentro do salão
Inda sobre o mesmo tema
Só muda mesmo o esquema
E o tempo vira poema
Nos oito pés a quadrão

Mote:
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

CR – O tempo vira migalha
Quando uma hora adianta
Pois mais cedo se levanta
O cidadão que trabalha
Quem no batente não falha
Acorda de madrugada
Com a hora adiantada
Vem mais cedo a condução
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

NA – Pra quem assiste novela
Ou pra quem liga a TV
Para ver o BBB
Ou qualquer outra mazela
Que sempre passa na tela
Da rede globalizada
Faz da hora caçoada
Quer seja atrasada ou não
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

CR – Pra quem passa a noite inteira
Ligado no futebol
Não vê quando nasce o sol
E nunca sente canseira
Pra este, vira besteira
Uma hora antecipada
Pra quem vive na jornada
Do trabalho, vira o cão
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

NA – É bom para o vagabundo
Ruim pro trabalhador
É bom para o sonhador
Que não quer nada no mundo
Pra quem não perde um segundo
Na luta desenfreada
A hora modificada
Complica a situação
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

CR – Eu imagino e confesso
Horário modificado
É bom para o deputado
Que nada faz no Congresso
Já quem procura sucesso
Numa cidade agitada
Pra quem rala na calçada
É castigo e punição
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

NA – É muita demagogia
De quem manda no poder
Chegar pro povo e dizer
Que diminuindo o dia
Economiza energia
Numa terra ensolarada
É só conversa fiada
Eu repito, com razão
O horário de verão
É bom pra quem não faz nada

CR – Agradeço a toda gente
O tempo está esgotado
Pois até o próprio tempo
Também tem tempo marcado
Nunca perca um só segundo
Pois tudo enfim, neste mundo
Por ele é determinado

NA – A todos, muito obrigado
O tempo em tudo é quem manda
E fica fora do tempo
Quem só contra o tempo anda
O tempo vale dinheiro
Eu cantei o tempo inteiro
E não ganhei uma banda

Noite Alta e Céu Risonho
Cada qual mais aplaudido
Prometendo outro duelo
Deram este concluído
E por unanimidade
Sem vencedor nem vencido

Por aqui, nós terminamos
A nossa apresentação
Unindo na cantoria
Litoral, serra e sertão
Insisto nesta verdade:
Nos traz contrariedade
O horário de verão


quinta-feira, 13 de outubro de 2011


RESGATE DOS MINEIROS CHILENOS
COMPLETA UM ANO

Operação resgate no Deserto do Atacama, Norte do Chile,
em 13 de outubro de 2010
Pedro Paulo Paulino

Há exatamente um ano, o melhor comentário sobre o resgate dos 33 meneiros chilenos soterrados, eu ouvi do jornalista da rede Globo, Alexandre Garcia. Ele disse: “Uma vitória da solidariedade e do engenho humano”. Dito e feito. Foi um dos mais espetaculares exemplos de solidariedade humana mostrado ao mundo inteiro naquele 13 de outubro de 2010, quando a sonda Fênix trouxe à superfície os 33 homens confinados dentro da terra por 69 dias, na mina de San José, no Deserto do Atacama, Norte do Chile.
A megaoperação, que se tornou um fenômeno midiático, alcançou êxito bem antes do previsto, para sorte dos mineiros e felicidade de seus familiares. A perfuração de um túnel de 700 metros e a construção de uma sonda própria para o resgate comprovam a capacidade do homem para contornar desafios e situações delicadas. O nome dado a sonda foi o mais feliz possível: Fênix, o pássaro fabuloso que renasce das cinzas.
Um enorme exército de pessoas, de diversas áreas profissionais e de vários países, uniu-se generosamente para salvar os 33 trabalhadores. E um bocado de toda a soma de recursos tecnológicos desenvolvidos até hoje foi aproveitado na operação. Da corda ao telefone celular, da roda ao computador, tudo foi empregado caprichosa e calculadamente na execução dos trabalhos de resgate.
Mas o exemplo de solidariedade maior não veio somente dos que estavam fora do subterrâneo. Veio também deles, os mineiros soterrados, que durante 69 dias aprenderam a enfrentar o drama, gerando um verdadeiro insight para momentos de dificuldade extrema. O modo como evitaram o desespero geral entre eles e até mesmo o suicídio coletivo em potencial, só pode ter sido alcançado por meio de um espírito forte de solidariedade que os contagiou, reforçando neles o auto-controle, a esperança de sobrevivência e de resgate.
É quase impossível, suponho, que no meio de 33 pessoas não haja alguém acometido de claustrofobia, o medo mórbido de lugares fechados, uma das fobias mais comumente encontradas. E se tal pessoa havia entre os 33 mineiros, certamente a coragem e a firmeza dos outros companheiros anularam esse pavor. Porém, tão ou mais estressante, creio, que passar 69 dias confinado num buraco, foram os cerca de doze minutos fechado e amarrado dentro de um cubículo de 53 centímetros, por um túnel de 700 metros. Dentro da mina, pelo menos, a sensação de não estar só devia amenizar a angústia. Mas ali, naquele espaço reduzidíssimo da sonda… Não calculo o tamanho da ansiedade e da expectativa desses viajantes da Fênix para ver o mundo aqui fora!
Em todos os detalhes, o exemplo dos mineiros soterrados pode ser entendido como é grandioso e importante o conjunto de mentes sintonizadas com um objetivo comum. E mais fundamenal ainda, quando essa aliança cerebral acontece em favor da vida.
No caso dos mineiros chilenos, uma verdadeira operação de guerra foi montada para salvá-los. A mesma tecnologia empregada para destruir, viu-se ali utilizada para salvaguardar. O mundo inteiro viu pela televisão, naquela madrugada de 13 de outubro, o quanto podemos fazer por nós mesmos quando o espírito de solidariedade, aliado à inteligência, vence.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

VILA CAMPOS NO CINEMA

Pedro Paulo Paulino

Casarão: cenário das filmagens
Recebo das mãos do meu amigo Itami de Morais, uma cópia do filme “Incelença da Perseguida”, que foi rodado na região de Canindé em julho de 2007. O curta-metragem, com duração de 14 minutos, foi produzido e dirigido por Silvio Gurjão, que também é responsável pelo roteiro. Desde que foi lançado em 2009, o curta já ganhou várias premiações no Ceará, Bahia, Maranhão e também no Norte e no Sudeste do País. No papel principal, estão as atrizes Erotilde Honório e Mirela Roza, além do ator Raffael Barroso.
As gravações na região de Canindé somaram um total de cinco dias e a maior parte foi feita na Vila Campos. O antigo casarão de Pedro Paulino Ferreira abriu suas portas para a equipe e em seu interior foi feita boa parte das tomadas . Já a capela de S. Roque e cercanias da Vila foram os locais escolhidos para o set das filmagens externas. Depois de 16 anos da presença de uma equipe da Rede Globo nesta povoação, onde em 1991 foi gravado o filme “Os Homens Querem Paz”, populares voltaram a atuar como figurantes. Mas o destaque mesmo foi para os atores canindeenses que participaram do filme “Incelença da Perseguida”.
Produção
Celso Góis Almeida, que já acumula experiência no teatro, atuou no papel do coronel. Nelsinho Lourenço estreou na sétima arte encarnando a figura de um venerando padre. Também o papel de um religioso coube a Itami de Morais, que tem uma longa história nas artes cênicas e hoje trabalha como diretor e produtor de teatro em Fortaleza. Ainda no elenco, o canindeense Osamilca de Abreu (Baru). O curta-metragem “Incelença da Perseguida” teve apoio da Secretaria Estadual da Cultura, baseado em lei aprovada em 2006.

COMENTÁRIO – A fotografia do curta-metragem é pura arte. Já o enredo do filme é do tipo decifra-me ou devoro-te. Mas nosso colaborador Silvio R. Santos resolveu mergulhar na intimidade dessa história, e por isto nos envia uma interpretação feita por ele:

AMBIGUIDADES DO SERTÃO EM
INCELENÇA DA PERSEGUIDA

Silvio R. Santos
                                                                                             
Nunca se saberá se não fosse devido à presença de vários não-atores canindeenses (no dizer do diretor Silvio Gurjão) e o fato de ter sido gravado em apenas cinco dias na Vila Campos, em 2007, o curta-metragem Incelença da Perseguida causaria o interesse que na verdade provoca.  Diz a resenha oficial posta na capa do DVD: “Num sertão de desmandos, a injustiça encontra na inocência sensual de Maria das Graças, vida que custa a morte da mãe e a dor do pai, a cura para o machismo, homens-genitália eternamente na linha da perseguida. Sua paixão santa pelo maior pecador arrebata-o sexualmente, convertendo-o a uma vida de sagrado prazer”. Donde destacam-se óbvios sentimentos opostos: inocência sensual, paixão santa e sagrado prazer, que vão dominar a história no decorrer dos seus 14 minutos. Provinda de antigas tradições ibéricas do sincretismo católico-mourisco, a incelença ou incelência seria um canto utilizado nas cerimônias fúnebres do Nordeste brasileiro. No filme a personagem central vivida pela bailarina Mirela Roza e interpretada na velhice por Erotilde Honório entoa, o que seria a “incelença da perseguida”, num rito de pesar pela sacrificada inocência de meninas violadas por um “rabo-de-burro”, indivíduo tarado, estuprador, no antigo linguajar sertanejo, tema que para ser tratado de forma adequada, se fez necessário seu deslocamento para o passado, devido à, supõe-se, justa severidade com que é punido tal crime no presente. Inocência que não pode ser redimida pelas 30 moedas do personagem interpretado pelo poeta Celso Gois Almeida, sob a sanção dos olhares da religião instituída (Itami de Morais) e garantia de não rebelião das vítimas pela força policial.  Uma hipótese técnica para a narrativa quase sem falas, em que se explora o poder de comunicação das imagens, razão de ser da arte cinematográfica, seria a utilização de amadores (termo aqui não citado de forma depreciativa, mas apenas para diferenciação dos atores profissionais), além dos dois canindeenses já citados, Antonio Osamilca de Abreu, Manoel Leandro Lourenço (Nelzinho), Salvino Lobo e mais algum outro, outra suposição seria a de simples economia de tempo.  Para não entrar em detalhes em que a linguagem do filme contamina a sua própria narrativa, talvez a questão, quase herética, ali proposta fosse: pode um pecador ser libertado por um ato não sagrado, antes pecaminoso? Pode um amor puro ser ofertado de forma pecaminosa? Resposta talvez contida no personagem de Raffael Barroso, que parte para o seminário logo após uma noite de epifania com Maria das Graças (Mirela Roza).  Não teria sido o mesmo castrado ainda nessa noite com a ajuda do louco (Silvio Gurjão)? Mas não há sangue nesta cena crucial. Há um simbolismo definitivo no crucifixo que é usado pelo pecador já padre. Essa esfinge ainda espera pelo seu próximo espectador. Mas há certa evocação em versos de Balada de Santa Maria Egipcíaca, de Manuel Bandeira:

“E fêz um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
a santidade da sua nudez”.

Queira-se ver:        
http://pt.wikipedia.org/wiki/Incelen%C3%A7a

Veja algumas cenas do filme:


Fotos dos bastidores:

Atriz Mirela Roza
Cineasta Silvio Gurjão
Celso Góis e Itami de Morais
Ator Raffael Barroso e PPP
Carro antigo utilizado nas gravações
Nelsinho Lourenço

NOSSA LÍNGUA

INCELENÇA / INCELÊNCIA / INSELÊNCIA Canto religioso, composto de doze versos rituais, sem acompanhamento musical, frequente durante as últimas horas de um moribundo ou nos velórios. Câmara Cascudo, no Dicionário do folclore brasileiro, cita Aluísio Alves (Angicos): "'Acreditava-se que a inselência tinha o poder de despertar no moribundo o horror ao pecado, incitando-o ao arrependimento'. (...) Aluísio Alves informa que não são unicamente cantadas aos doentes e aos defuntos, mas pertencem às rogativas contra o perigo da peste e tempestade." Dicionário do Nordeste - Fred Navarro.

terça-feira, 11 de outubro de 2011


A FOME FALANDO AO MUNDO

Poeta Zé Moura*


Todo mundo já conhece
Minha verdadeira origem
Deixo reflexo onde passo
De fraqueza e de vertigem
Eu mato qualquer robusto
E suporto a todo custo
Ofensas que me dirigem

O rico não  me conhece
O pobre não quer me ver
Quem se obriga a me aceitar
É certeza enfraquecer
Nunca hei de me acabar
Porque se alguém me matar
Torno a reaparecer

Sou pior que o remorso
Porque sou mais extensiva
Sou amarga, sou cruel
Sou péssima, sou agressiva
Sou sombra repudiada
Da criança abandonada
Que da miséria é cativa

Uns me chamam de infeliz
Outros me chamam maldita
Eu só não posso passar
Por onde burguês habita
Odeio a casa do nobre
Gosto da casa do pobre
Que lá me sinto infinita

Vivo mais na Etiópia
Parecendo maldição
Em cada menino magro
Que está caído no chão
Encostado à mãe doente
Eu estou ali presente
Causando desnutrição

Me enchem de sobrenome
Bem poucos me fazem teste
Neste país, o Brasil
Eu vivo mais no Nordeste
Lá, meu nome é mais lembrado
Lugar que o desventurado
Me chama fome da peste

Da casa que tem fartura
Eu passo me desviando
Na casa que nada tem
Eu estou sempre morando
Tem dia que sou enorme
Quem está comigo não dorme
Fica acordado pensando

Quem mais me valorizou
Foi um burguês avarento
Que tinha muito dinheiro
Mas não comprava alimento
Com ele eu me abracei
Só saí quando o deixei
Morto no seu aposento

Gosto da casa do povo
Que vive varrendo a rua
E da pobre mãe doente
Que mantém a filha sua
Lavando roupa sozinha
Pedindo a Deus que a filhinha
Sofra e não se prostitua

Demoro mais na favela
Na casa do operário
Onde mora uma família
Vivendo de um sallário
Comendo uma vez por dia
Nesta triste moradia
Eu estou em todo horário

Até mesmo o presidente
Quem mais dinheiro consome
Já prometeu me matar
A fim de mudar meu nome
Pode matar-me, eu mereço
Mas depois reapareço
Porque eu me chamo FOME

Doutor, se quiser saber
Do que é que eu sou capaz
Passe na periferia
Onde o senhor nada faz
Que me verá triunfando
Pais de família chorando
E os filhos chorando atrás

Vá na humilde choupana
Se não for muito empecilho
Para ver mãe de família
Triste, de olhar sem brilho
Coberta de aperreios
Sem ter leite nem nos seios
Para alimentar os filhos

Sou a fome e fui gerada
Pra definhar muita gente
Ando pelo mundo inteiro
Vou pra todo continente
Se quem governa quisesse
Eu, talvez, não estivesse
Matando tanto inocente

*Zé Moura é do Município da Prata, Paraíba.

NOSSA LÍNGUA

EMPRIQUITAR (-se) Irritar-se ao extremo, emputecer-se, romper as baetas: "Aí eu me empriquitei: perdido por um, perdido por mil." Grande enciclopédia internacional de piauiês, Paulo José Cunha. É de âmbito nacional o sentido de se aprontar, de se enfeitar com exagero, derivado de emperiquitar-se. Dicionário do Nordeste - Fred Navarro.