sábado, 7 de dezembro de 2013

"SEDIÇÃO DE JUAZEIRO" – CEM ANOS


A cidade cearense de Juazeiro do Norte inicia no dia nove de dezembro as comemorações em torno do centenário da “Sedição de Juazeiro”, movimento armado que também ficou conhecido como “A Revolta de Juazeiro” ou “A Guerra de 14". A programação consta de alvorada festiva e manifestações culturais, incluindo cortejo de Grupos de Tradição e Comunidade, palestra e exibição de filme.
A “Sedição de Juazeiro” foi um confronto que começou em 1911, entre as oligarquias cearenses – principalmente a família Acioly – e o governo federal, na presidência de Hermes da Fonseca. O desfecho aconteceu em 1914, quando um batalhão de jagunços e romeiros liderados pelo padre Cícero Romão Batista, então prefeito de Juazeiro e vice-governador do Estado, e comandados pelo deputado federal Floro Bartolomeu, enfrentaram as forças estaduais enviadas a Juazeiro pelo governador coronel Marcos Franco Rabelo. “Quando os soldados de Franco Rabelo chegaram em Juazeiro do Norte, se depararam com uma cidade totalmente cercada por um alto muro de pedras, como na época da Idade Média. A construção foi erguida em apenas sete dias e chamada de Círculo da Mãe de Deus”, diz a história.
Em outras etapas do conflito, os combatentes do Padre Cícero vencem de novo, Franco Rabelo é deposto, Benjamim Liberato Barroso é eleito governador, e o líder religioso de Juazeiro é novamente eleito vice-governador. Depois dessa revolta, Padre Cícero foi excomungado pela Igreja Católica, mas continuou sendo venerado como santo e profeta pela população.
Em antigo livro de história, encontramos essa narrativa acerca da “Sedição de Juazeiro”. As informações são intercaladas com quadras em versos populares de autor desconhecido, destacando os principais momentos do confronto, como aquele em que um combatente de Padre Cícero é salvo pelo crucifixo. Nos versos, são marcantes também o fanatismo dos jagunços e a sátira aos soldados “rabelistas”. Como um épico do sertão, o poema enaltece a bravura e o triunfo dos juazeirenses contra as tropas militares que almejavam a captura de Padre Cícero. A narrativa começa com a tomada de Barbalha:

...

“Deu-se a tomada de Barbalha, por um batalhão de romeiros, comandados por Dr. Floro e o destemido Canuto Reis. Houve apenas um pequeno tiroteio, pois felizmente já não encontraram quase resistência. Os rabelistas haviam deserdado, enquanto as famílias haviam se refugiado nos pés das serras. Os romeiros subiram nos telhados atirando e dando vivas ao Padre Cícero, Dr. Floro e a Mãe de Deus. Depois fizeram uma passeata, cantando e dançando o ‘Maneiro Pau’.

Deputado Antonio Pinto
Floro Bartolomeu e Padre Cícero
Ajuntou a sua equipe
E fugiu do meio-fogo
Para a Serra do Araripe.

Teve gente que assistiu
O Tenente Ladislau
Correr vestido de saia
Para não entrar no pau.

Dr. Floro deu o brado
De um adestrado guerreiro,
Os romeiros deram vivas
Ao Padre do Juazeiro.

Rabelistas em Barbalha
Iam se refugiar,
Os romeiros foram atrás
Soltando fogos no ar.

Era os soldados correndo,
Os romeiros atirando,
Viva meu Padrinho Cícero,
Este bendito cantando:

‘Chagas abertas,
Coração ferido,
O sangue de Cristo
Entre eu e o perigo.’

Lá no alto do Leitão,
Bem perto de Juazeiro,
Deu-se outro tiroteio
Da polícia com romeiro.

O campo ficou sangrento,
Galhos de pau estalando,
Como se fosse um roçado
Numa mata se queimando.

O pau ali correu frouxo
No meio do tabuleiro,
Por uma chuva de balas
Levantou-se um nevoeiro.

Tinha o beato Vicente,
De bacamarte na mão,
Atirava sem tabela
E rezando uma oração.

Chegou um soldado raso,
Preto da cor de carvão,
Destes que mata pra ver
Morto, estirado no chão...

Quando avistou o beato,
De raiva rangeu o dente,
Meteu-lhe fogo no peito,
Ele caiu de repente.

Tombou por força do tiro,
Mas a bala não entrou:
Em cima do crucifixo,
Bateu no peito e voou.

Os dois ali se agarraram,
Brigando na faca fria.
‘Valei-me, Nossa Senhora!’
O beato assim dizia.

‘Sem tardar,
Vem doce, ó Maria,
Vem mãe pia
Nos amparar!’

Só pode ser um milagre:
Naquela luta tão forte,
A bala bateu no peito
Entre a cruz e a morte.

O santo daquela guerra
Não é o de qualquer um,
Pra resolver uma bala
De fuzil ou de ‘dum-dum’ .

Com duas horas de fogo,
O rabelista correu,
Os defuntos que ficaram
Nem mesmo o urubu comeu.

O beato ajoelhou-se
Beijando a face da terra,
Rogando a Deus pelas almas
Dos que morreram na guerra.

Depois desta cerimônia,
Houve uma salva de palmas.
Ficou sendo este lugar
Chamado ‘Baixa das Almas’.

Às oito horas do dia,
Vinte e sete de janeiro,
A Barbalha foi tomada
Pela tropa de romeiro.

Cantavam:
‘Maria, valei-nos
Os vossos devotos,
Venha socorrer-nos.’

No dia três de fevereiro de 1914, partia de Juazeiro um batalhão de mil homens armados e comandados pelo Dr. Floro, pelo Coronel Pedro Silvino, por Zé Pedro e pelo deputado José de Borba. Às oito horas do dia, ouviu-se o rufar do tambor e o toque da corneta anunciando a hora da chamada para a guerra.

‘Chora a mãe pelos seus filhos,
Mulheres por seus maridos,
As manas pelos seus manos
E as damas por seus queridos.’

O batalhão de mil homens seguiu para os combates que deveriam travar em Fortaleza com a polícia rabelista, sendo o Dr. Floro o comandante geral.
Antes, no dia dois de fevereiro, partia de Fortaleza um reforço de 230 soldados com destino ao Cariri, para se incorporar às forças ali sediadas, tendo as forças rabelistas como comandante o capitão do Exército, Jota da Penha.
No dia quatro de fevereiro, os dois reforços se encontraram entre os municípios de Parelhas e S. Matheus [hoje Jucás].

A cada um dos romeiros
Entregaram munições,
Dividiram as equipes
E formaram batalhões.

Eram mil homens de guerra,
Dr. Floro dividiu
Cem homens pra cada grupo,
Foi assim que dirigiu.

Os comandantes eram:
Coronel Pedro Silvino,
Zé de Borba, Zé Pinheiro,
Canutos Reis e Quintino;

Mané Chiquinho e Zé Terto,
José Pedro e seu irmão.
Manoel Calixto, na frente,
Comandava o batalhão.

Dr. Floro sendo o chefe,
Entregou a cada um
As armas e munições:
Rifle, fuzil e ‘dum-dum’.

Currupaché, manulixa,
Espingarda e mosquetão,
Bacamarte e garrucha,
Fogo central, anagão.

Máquinas enchendo casca
De balas pra munição,
Espingardas de dois canos,
Punhal ‘três quinas’, facão.

Cada um romeiro tinha
Para a sua companhia,
Rosário com a medalha
Da sempre Virgem Maria.

Viajavam uns a cavalo,
Outros a pé, na jornada.
Bem perto de S. Matheus
Houve uma luta pesada.

Com quatrocentos soldados
Acampados nesse ‘forte’,
O comandante no grito:
‘Ou a vitória ou a morte!’

Nestas vozes, Dr. Floro
Mandou seu grupo avançar:
‘Metam fogo sem demora,
Quero ver o pau quebrar!’

Nessa hora choveu bala,
Que o sol escureceu,
A fumaceira cobriu,
O sangue no chão correu.

Foi a maior bagaceira,
Tomaram a munição,
Sitiaram Iguatu
Nessa mesma ocasião.

Foram pra Miguel Calmom,
Houve um um tiroteio sério,
Fechou-se a porta da vida,
Abriu-se a do cemitério.

Com cinco léguas se ouvia
O ronco do mosquetão,
Como se fosse um festejo
Na noite de São João.

Depois desse tiroteio
Tiveram logo a notícia,
Que o trem vinha lotado
Com munição e polícia.

Zé Terto e Manoel Calixto
Formaram plano acertado:
Foram atacar o trem,
Deixá-lo todo arrasado.

Cada chefe comandava
Uma tropa de romeiro,
Tudo alegre dando vivas
Ao Padre do Juazeiro.

Deu-se esse acontecimento
A 22 de fevereiro.
Amanheceu Jota da Penha
De ‘dente pro tabuleiro’.

Esta notícia deu forças
Ao batalhão de defesa.
Dr. Floro disse: ‘Avança!
Vamos tomar Fortaleza!’

No dia 22 de fevereiro de 1914, enquanto Zé Terto e Manoel Calixto foram atacar o trem, no amanhecer do dia 23, no quilômetro 337, próximo a Miguel Calmon [hoje Acopiara], era encontrado crivado de bala o corpo do capitão Jota da Penha. Dali Dr. Floro deu ordens aos seus comandados, que seguiram sem nenhum impedimento, transpondo os municípios de Quixeramobim, Quixadá, Baturité, Redenção, Maranguape, Messejana, sitiando a Capital Fortaleza. Cortaram todas as comunicações, enfrentando um batalhão de 1.500 soldados, inclusive dois navios de guerra.

Dr. Floro disse: ‘Avança,
Vamos tomar Fortaleza!
Uns fiquem na retaguarda,
Que eu sigo na defesa.

Vocês alvejem primeiro,
Onde existe munição.
Tomem o aquartelamento,
Onde está a guarnição.

Formaram linha de fogo
Pra cercar a Capital.
E não houve intervenção
Do Governo Federal.

Mesmo o Federal queria
Ver o Rabelo arrasado,
Que já havia rompido
Com o Pinheiro Machado.

Os romeiros sitiaram
A Capital do Estado.
No dia quatro de março,
Romperam de lado a lado.

Meu Padrinho telegrafou
A todos dando uma ordem,
Dizendo pra respeitarem,
Não praticarem desordem.

Ficou em estado de sítio,
Rabelo foi deportado,
E José Plácido da Luz
Seguiu para outro estado.

Foi no navio Tupy
Que o Rabelo embarcou.
Abandonou a cidade
E a guerra terminou.


Às três horas da tarde do dia 15 de março de 1914, desceu as escadas do Palácio, o Coronel Marcos Franco Rabelo, assumindo o seu posto, como interventor, o Coronel Fernando Setembrino de Carvalho. Os romeiros deram vivas ao Padre Cícero, Nossa Senhora das Dores e o Dr. Floro, defensor da causa.”

Um comentário:

  1. Nossa História é muito rica, cheia de fatos pouco conhecidos e envoltos em lendas. Acredito não ter visto em nenhum livro de História menção sobre o fato, com exceção de um livro do Major da PM cearense João Xavier de Holanda, e mesmo assim ele é tendencioso, já que fala sobre a História da corporação alencarina. Parabéns PPP pelo artigo.
    Freitas.

    ResponderExcluir