quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O ÓRGÃO QUE SOFRE MAIS
HOJE EM DIA É NOSSO OUVIDO


Pedro Paulo Paulino

Eu sou capaz de jurar
Que não é o coração,
Fígado, rim ou pulmão
Que sofrem pra se acabar.
Quem mais sofre sem cessar,
Todo dia é agredido,
O tempo inteiro ferido,
Com conseqüências letais:
O órgão que sofre mais
Hoje em dia é nosso ouvido.

No momento em que a criança
Vem chegando neste mundo,
Logo um barulho infecundo
Os seus tímpanos alcança.
E na medida em que avança,
Mesmo nessa tenra idade,
Tem a infelicidade
De ser vítima induzida
Da zoada desmedida
Que a nossa cabeça invade.

Na rua, tem paredão
De som a todo momento,
Estremece calçamento
Por causa da vibração.
Tornou-se o maior vilão
Da barulheira infernal
Que com certeza faz mal
Para o delicado ouvido,
Mas é troço preferido
Da geração digital.

Aparelho celular
Vibra, toca, grita e berra...
E tudo em cima da terra
Contribui para aumentar
O barulho de matar
Que tira o nosso sentido
E que agora está metido
Em quase todos locais:
O órgão que sofre mais
Hoje em dia é nosso ouvido.

No terreno musical,
Há muito, está comprovado:
Quem tem ouvido afinado
É quem mais se sente mal.
Pois se vive o ritual
De tudo quanto não presta,
Não existe mais seresta,
O bom gosto teve fim,
E as bandas de forró ruim
Invadem tudo que é festa.

Sertanejo sem raiz
Roda em tudo que é bodega.
Até mesmo a canção brega
Vive um momento infeliz.
Só doido não se maldiz
Com tanta imbecilidade.
Do chique à sociedade,
Quase não há distinção,
E o nosso ouvido então
É quem paga a crueldade.

Eu não defendo a surdez
Para alguém melhor passar
Nem silêncio tumular
Defendo por minha vez.
Porém, Beethoven, talvez
Se retornasse hoje em dia,
Por força que ele haveria
De ser surdo novamente,
Pra compor genialmente
Cada grande sinfonia.

“Mas é o mundo moderno”,
Há quem diga com orgulho,
Envolvido no barulho
Que torna a vida um inferno.
Pois o nosso ouvido interno
Sofre as angústias cruéis!
Até nossos menestréis
Estão desaparecidos,
Foram todos engolidos
Na fúria dos decibéis.

E não é só barulheira
Que vem do mundo eletrônico.
Tem outro problema crônico
Nesse império da besteira.
A pessoa farofeira,
Com assunto sem sentido,
Mal detalhado e comprido,
Debulhado ao bel-prazer,
Também provoca sofrer
No nosso indefeso ouvido.

Do tal tipo que começa
História que não tem fim,
Que não interessa a mim
Nem a você interessa;
Pessoa que não tem pressa
E já tem na língua, pronta,
Sem graça, história que conta
Sem pausa, à toa e perdido,
E cada drama escondido
No nosso ouvido desconta.

Ouvir conversa fiada
De político gatuno,
Um salafrário tribuno
Que só fala e não faz nada.
Notícia mal costurada
Dando conta de bandido
Diariamente exibido
Em quase todos canais:
O órgão que sofre mais
Hoje em dia é nosso ouvido.

Ouvir na televisão
Ou no radinho de pilha
Notícia só de quadrilha,
De crime e corrupção.
Pastor com bíblia na mão
E microfone empunhado,
Falando contra o pecado,
Praticando a hipocrisia...
O nosso ouvido hoje em dia
É quem mais sofre, coitado!

Ouvir cantor estrangeiro
Que nada tem de cantor,
Exaltado com fervor
Pelo povo brasileiro.
Ouvir grupo pagodeiro
De ritmo desenxabido,
Repertório repetido,
Mesmo assim sucesso faz:
O órgão que sofre mais
Hoje em dia é nosso ouvido.

O barulho hoje é quem manda
No mundo de todo jeito,
Passando um falso conceito
Com engodo e propaganda.
Também é coisa nefanda
Ouvir um espertalhão
Profetizando um tufão
Pra destruir Fortaleza,
E a mídia, com certeza,
Dando espaço ao charlatão!

O barulho é inimigo
Da paz e tranqüilidade,
Porém, na atualidade
Todo canto é seu abrigo.
Tornou-se um grande castigo
Para um ouvido sensível.
Ameaçador terrível
Que rouba a concentração.
Até nosso coração
Já se tornou inaudível.

O mundo vive confuso
Uma torre de babel.
Quando aumenta um decibel,
Mais aperta o parafuso.
E, como perdeu seu uso,
Silêncio não faz sentido.
E por ele ter morrido,
E porque somos mortais,
O órgão que sofre mais
Hoje em dia é nosso ouvido.


Campos, 21/11/13

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