sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

POESIA


SE

Rudyard Kipling

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas por que deste a vida estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda exista,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: ‘Persiste!’;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que é mais, tu serás um homem, meu filho!

(Tradução de Guilherme de Almeida)

Colaboração: Flávio Henrique

Rudyard Kipling (1865-1936) foi um contista, poeta e romancista de origem inglesa nascido em Bombaim (hoje denominada Mumbai), na Índia, no auge do império britânico nesse país. Foi educado na Inglaterra, mas retornou em 1880 para a Índia, a fim de trabalhar como jornalista. Em 1894 e 1895 lança os dois volumes de O Livro da Selva, um dos clássicos da literatura infanto-juvenil, com histórias de animais e personagens como Mogli, o Menino-Lobo. O grande reconhecimento internacional da sua obra veio em 1907, quando lhe foi dado o Prêmio Nobel da Literatura.

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