sábado, 3 de setembro de 2011

cordel e folclore


POETAS NO CÉU E NO INFERNO

Pedro Paulo Paulino


Em determinada época, Arievaldo Viana e eu, influenciados pela obra do grande Zé Pacheco, autor de A chegada de Lampião no inferno e Grande debate de Lampião com São Pedro, resolvemos satirizar a obra do poeta paraibano, tornando-nos nós mesmos personagens dos cordéis. Ari fez A chegada de Peter Pan no Inferno, mas, infelizmente perdeu os originais, talvez porque na corte do capiroto a coisa seja mesmo desorganizada. O que restou do trabalho dele foram apenas essas quatro estrofes:

“O Pedro Paulo tomou
Um mingau de araruta
Caiu dentro duma gruta
Com o pifão que tomou
Depois, o gosto tirou
Com um taco de ananás
Danou-se então o rapaz
A chamar pelo ‘Tranjença’
E foi levado à presença
Do Marechal Satanás

Santanás disse: Poeta
Deie de estripulia
Pois não chegou o seu dia
Pode pegar sua reta
Sua vaga aqui é certa
Só depois que se lascar
Mas antes de expirar
O suspiro derradeiro
Deixe de ser presepeiro
E volte pro seu lugar

Quando o PP foi saindo
Rumo ao portão principal
Satanás fe um sinal
Depois lhe falou sorrindo
Antes de ires seguindo
Nessa longa estrada a pé
Prove o meu acarajé
E me forneça em seguida
Informações sobre a vida
Dos bardos do Canindé”

♦♦♦

Em seguida, fiz:

A CHEGADA DE ARIEVALDO NO CÉU

Arievaldo, outro dia,
Me disse Alberto Porfírio
Que ele sofreu um delírio
Durante uma letargia.
Bebeu muito e na folia
Não deu tempo pra rezar,
Capotou mesmo no bar
Em em sonho transcendental
À corte celestial
Foi sua onta prestar.

Recebeu um par de asas
Posto em suas laterais.
- Voa aos mundos siderais
Disse um anjo – e não e atrasas!
E sobrevoando as casas
Foi subindo, foi subindo…
Lá no paraíso lindo
Se pôs à porta a bater
E ouviu alguém dizer:
- Espere, que já vou indo!

São Pedro, nesse momento
Abriu do céu o portão,
Dado o cheiro de alcatrão
Quase teve um passamento.
Disse Ari: - Porteiro bento,
Eu não levo a vida ao léu,
Pro senhor tiro o chapéu,
Trilhei sempre um bom caminho,
Será que tem um cantinho
Para mim aqui no céu?!

São Pedro, tendo um tremor,
Disse: - Pensa que me engana?!
Com esse bafo de cana,
Queres ser merecedor?!
Lhe disse Ari: - Não, senhor,
Às vezes, bebo cerveja.
São Pedro disse: - Ora, veja,
Mesmo assim não tenho pena,
Aqui no céu se condena
Qualquer bebida que seja.

- Devia não ser pecado,
Disse Ari, quem bebe assim.
Não sendo cabra ruim
Que pratique nada errado!
Afinal, fui educado
Vendo o padre beber vinho…
- Porém, só bebe um poquinho
Em louvor do chefe meu,
E nesse caso até eu
Engulo sempre um golinho…

Porém, deixe isso pra lá
Que agora quero saber:
Por que antes de morrer
Tu subiste para cá?
Disse Ari: - Respondo já,
Eu ando meio caipora,
Não vejo chegar a hora
De vir morar por aqui,
Por isso que resolvi
Dar um passeio por fora.

Estou cansado da terra,
Da vida que lá se leva
No meio de tanta treva,
De desordem, peste e guerra.
A vida lá se encerra
Nas mais horrendas querelas.
Eu vivo em meio às procelas
Do tormento e da desgraça
E nunca gozei a graça
Dos carinhos das donzelas.

Daquele seu linguajar
São Pedro se admirou.
Muito calado escutou
Arievaldo falar.
Bem pertinho do altar
São Paulo tocava um banjo.
São Pedro disse pra um anjo:
- Traga a ficha desse irmão.
Ari, nessa ocasião
Quase sofre um desarranjo.

São Pedro disse: - Tu és
Então aquela pessoa
Que vivia a cantar loa
Nas portas dos cabarés?!
Arreda daqui os pés,
Oh, seguidor de Lusbel.
És um poeta infiel
De quem jamais serei fã,
Tu difamas Peter Pan
Nos teus versos de cordel!

Lembras quando tu fazias,
Com um outro de má fama,
Naquela rádio, um programa
Que era só de anarquias?
A todos tu denegrias
Com tua língua mordaz.
Daqui não venhas atrás,
Que não permite Jesus.
E disse, fazendo a cruz:
- Vai morar com Ferrabrás!

Aquela sentença ouvindo,
Ari ficou bem vermelho.
Então pôs-se de joelho
(Quase até ia caindo).
São Pedro, se prevenindo,
Puxou da porta uma tranca.
Disse: - A nossa lei é franca
E mesmo assim não concede
Penetrar na nossa sede
Cabra da barriga branca.

Ari, coberto de pranto
Ouvindo a justa sentença,
A Pedro pediu licença
E foi dizendo: - Meu santo,
Eu não sou tão mau, garanto,
Da poesia sou réu.
Mas, concertando o chapéu,
Pedro emendou de repente:
- Poeta tem sido o ente
Que mais perturba no céu.

- São Pedro, eu peço perdão
Pra minha alma de artista,
Eu também sou desenhista
Em qualquer ocasião.
Com pincel, pena ou carvão
Eu faço qualquer gravura.
E com muita compostura,
Ari, pra São Pedro olhando,
Num caderno foi riscando
A sua caricatura.

Aí, São Pedro engrossou
Quando viu o tal desenho,
Para o Ari cerrou o cenho,
Muito vermelho ficou.
São benedito chegou
Todo metido a gostoso
E disse a Pedro, raivoso:
- Colega, não dê falsete,
Pode meter o cacete
Nesse precoceituoso!

Foi aumentando o tumulto
No portão do Paraíso.
Disse São Pedro: - Eu preciso
Epulsar esse mau vulto.
Só veio causar insulto
Aqui na santa morada.
Benendo a boca sagrada
Soltou esse palavrório:
- Talve nem no Purgatório
Queiram alma embriagada…

São Pedro, nesse aperreio,
Sofreu uma dor de barriga,
Temendo até haver briga
Com tanto santo no meio.
São Francisco também veio
E falou com a voz perra:
- Pedro, veja se desterra
Daqui esse fariseu,
Que isso é o maior ateu
Que tem lá na minha terra.

Querendo fazer conquista,
Em busca de algum respaldo,
Foi dizendo Arievaldo:
- Eu só tenho amigo artista,
O Chico Walter, o Batista,
Que toca bem violão,
Celso Góis, Sebastião,
Mascote, Silvio Roberto,
Do Natan sempre estou perto
E do Pedro Paulo, então.

- Não quer Jesus que aqui
Se fale nem nesses nomes!
E vê também se te somes,
Que não tem lugar pra ti.
Apontando para o Ari,
São Pedro falaou bem seco:
- Vai procurar outro beco,
Que aqui na Santa Mansão,
Pra causar perturbação
Já nos basta Zé Pacheco!

São Pedro então já estava
Pra perder de ve a calma,
Mas nisto chega outra alma
Perguntando se entrava.
E vendo o que se passava,
Pra ganhar conceito ali,
Meteu  um soco em Ari,
De modo tão violento,
Que ele nesse momento
Acordou de novo aqui…

Obs.: Publicado originalmente no livro O Baú da Gaiatice, de Arievaldo Viana.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

cantoria


Amor, saudade e sertão são temas bastante recorrentes nas cantorias de viola. Mesmo com a diversificação temática da cantoria e sua urbanização nos tempos atuais, muitos violeiros ainda se voltam apaixonadamente para o tema amor e os sentimentos que dele derivam. Duplas de cantadores sofisticados, como os Nonatos, continuam emplacando sucessos quando o assunto é uma paixão incurável, um amor perdido ou inacessível. Recolhemos do livro Quadra, Quadrado, Quadrão, de Wanderley Pereira, estas décimas de uma cantoria travada entres os cantadores Azulão e Serrador, sobre o mote A medicina não cura / As mágoas de um coração:

CANTORIA EM INGAZEIRA

Azulão:
Na terra curou Jesus
Febre, gripe e garrotia,
Sarampo e disenteria,
Gente tomada por pus.
Depois que morreu na cru
Foi que chegou no sertão
Curador de profissão
Que o povo inteiro procura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Serrador:
Tem a tal de medicina
Com frasco e com injeção
Que cura qualquer cristão
No soro e penicilina.
O doutor sabe da sina
De quem sofre do pulmão
Perna, braço, punho e mão
Quebrando o doutor costura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Azulão:
Quanto mais doença o dono
Da farmácia é quem mais vende,
Mas o doutor não atende
O pobre no abandono.
Dá remédio pra ter sono,
Coragem e disposição,
Contra o mal da congestão,
Lombriga, enfado e tontura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Serrador:
Cura o homem do cansaço,
Cura a mulher do aborto,
Velho que tem olho torto,
Menino que quebra o braço.
Cura dor no espinhaço,
Beiga e amarelão,
Papera e baixa pressão,
Esquecimento e loucura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Azulão:
Tem xarope pra menina
Apressar seu crescimento
E tem até tratamento
Pra homem da fala fina.
Pra velha que não combina
Com moço tem injeção;
Velho faz operação
E vira o diabo em pintura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Serrador:
Se a velhice chegar
Numa mulher, de repente,
Tem o doutor competente
Para outra cara lhe dar:
Tira o queixo do lugar,
Na testa faz lixação,
Dá novo jeito à visão
E faz outra dentadura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Azulão:
Para quem sofre na vida
A perda dum grande amor
Não há no mundo um doutor
Que cure a grande ferida.
Também quem sofre a partida
Do seu querido sertão,
Tem nessa separação
A sua eterna amargura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Serrador:
Eu que deixei minha terra
Em busca doutra cidade,
De lá só sinto é saudade,
Até do vento da serra.
Aqui bezerro não berra,
Falta vaqueiro e gibão,
Não tem cavalo alazão,
Nem feijão com rapadura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

Azulão:
Quem nasce na Ingazeira
E dentro dela se cria,
Partindo dela, algum dia,
Adoece a vida inteira.
Os banhos de cachoeira
E corridas de mourão
São a melhor injeção
Para qualquer criatura:
A medicina não cura
As mágoas de um coração.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

crônica


A TERCEIRA COISA MAIS
INDISPENSÁVEL NA MINHA VIDA

Raymundo Silveira*

Cronista arranja cada tema! Vejam em que fui pensar quando me sentei a este computador para escrever, mas ainda não sabia sobre o quê! Depois do ar e dos alimentos, qual seria a terceira coisa sem a qual eu não sobreviveria? Uma prosaica caneta esferográfica – podem acreditar.
O mais surpreeendente é que as recebo – de laboratórios farmacêuticos – quase todos os dias, de graça e às dezenas. Mas elas costumam faltar nos momentos mais necessários.
Vamos imaginar a vida sem uma caneta. Às vezes até me desespero pela falta de uma delas, creiam. Tenho o costume de usar o vaso sanitário, lendo ou escrevendo. É uma dependência pior que a da heroína, pois a carência do objeto do meu vício, além da síndrome de abstinência, causa-me outros efeitos colaterais, inclusive o de não cumprir o ato fisiológico pretendido.
Vez em quando estou lá, lendo tranquilamente, quando surge a necessidade imperiosa de anotar alguma coisa. Entro em pânico! Em se tratando de algo que precise ser assinalado no próprio texto, passo a unha mordo cuspo rasgo molho, todavia o máximo que consigo é danificar a palavra ou a frase impressa. Quando não acontece o mesmo com o livro, a revista ou  com a folha de papel onde acabei de imprimir um trabalho.
Quem, como eu, ainda frequenta filas repletas de gente estressada e precisou de uma caneta para preencher um cheque, uma guia de depósito ou um jogo da Mega-Sena, sabe muito bem do que estou falando. Alguns semblantes são tão patibulares que não me atrevo a pedir uma emprestada. Às vezes, espero que o caixa me faça este favor ou saio da fila para apanhar com um funcionário, mas tremendo de medo que não me deixem voltar para onde eu estava.
Em junho de 1989, faltavam seis meses para o Color tomar posse (e a poupança do povo), quando tive uma premonição. Balancei as cumbucas, raspei o que havia em dinheiro e abalei para a Europa viajando de primeira classe por uma companhia aérea ingelsa. Costumo viajar de jeans, tênis e essa coisa toda de malandro brasileiro. Pois me assentaram vizinho a um lorde inglês, parecido com aquele proprietário rural que aparece no filme Vestígios do dia. Só uma das mangas do paletó do anglicano devia ter custado mais do que toda a minha bagagem. O gringo parecia achar que ao lado dele jazia a mochila de um jeca, e não uma pessoa. Não se dignava nem a olhar para mim. Fiquei na minha, claro. Quando estávamos prestes a aterrissar em Heatrhow, a tripulação distribuiu aquelas papeletas chatíssimas para serem preenchidas sobe pena de não permitirem o desembarque.
Procurei uma caneta nos bolsos e na minha bagagem de mão como quem procura ar quando está sem fôlego. Nada! Estava disposto a pagar o preço que não paguei – para economizar – por uma garrafa de uísque oferecida pelo serviço de bordo, e que eu quase arrebatei das mãos da comissária.
O gringo fingia que não estava vendo.
“Do you have a pen, Sir?”. Consegui balbuciar como se estivesse a solicitar um vultoso empréstimo ao gerente de um determinado Banco onde nunca tive conta e evito até passar pela calçada. O súdito da Elizabeth II esboçou um leve sorriso e me emprestou a caneta, sem uma palavra.
Para não dizer que não “conversou” nada comigo, quando a aeronave parou no pátio de estacionamento arrisquei: quem sabe agora. “We just arrived, sir”, e obtive esta resposta: “Yies, we arrived”. E só! Foram as únicas palavras que o ouvi pronunciar em dez horas de harmonioso convívio aéreo.
Mas estou fugindo do assunto que não é a viagem, e sim, caneta – como já disse, a terceira coisa sem a qual eu não sobreviveria.
Tenho agora mesmo aqui na minha escrivaninha (esperem, deixem-me contar), só na primeira gaveta, oito canetas. E mais uma dúzia na sua vizinha de baixo. Não precisava de nenhuma. Enquanto escrevia este texto tive necessidade de ir ao banheiro e levei parte dele já impresso para fazer algumas emendas. Claro que não poderia esquecer de levar uma delas. Juro que estou falando a verdade: precisamente naquela que levei, não havia uma única molécula de tinta.

*Membro da SOMBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores). Crônica extraída de seu livro Louca Uma Ova, Ed. Premius, 2010.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

literatura

A ALEGORIA POÉTICA 

Maurício Cardoso*

Uma alegoria é uma narrativa ficcional, um diálogo ou uma cena a qual funciona em dois níveis paralelos de significação em sincronia no interior de um recorte temporal. Os personagens, a fala, a ação, o tempo e o espaço contribuem para um sentido coerente, mas há usualmente sinais patentes no texto de que o leitor precisa traduzir cada detalhe em sua narrativa de superfície para outra história igualmente coerente. Frequentemente, esses sinais fornecem também um tipo de código implícito que prescreve a forma com que devemos transpor cada detalhe para uma história paralela.
Para Abrams só há dois tipos de alegoria: a histórica, ou política, que requer uma leitura da narrativa de superfície como uma versão transposta de personagens e eventos históricos ou políticos; e a alegoria de idéias, na qual os personagens literais representam conceitos abstratos e o enredo deve espelhar uma doutrina ou tese.
O poema de Christina Rossetti, Up-Hill (que traduziremos como Montanha Acima), é um exemplo refinado de uma alegoria espiritual na forma de um diálogo entre um enunciador e seu interlocutor não-identificado. Após o texto original, segue uma tradução nossa: 

UP-HILL


Does the road wind up-hill all the way?
Yes, to the very end.
Will the day’s journey take the whole long day?
From morn to night, my friend.

But is there for the night a resting-place?
A roof for when the slow dark hours begin.
May not the darkness hide it from my face?
You cannot miss that inn. 

Shall I meet other wayfarers at night?
Those who have gone before.
Then must I knock, or call when just in sight?
They will not keep you standing at that door.

Shall I find comfort, travel-sore and weak?
Of labour you shall find the sum.
Will there be beds for me and all who seek?
Yea, beds for all who come.

Tradução:

MONTANHA ACIMA

Esta estrada segue montanha acima o percurso todo?
Sim, até o finalzinho. 
A jornada levará um dia inteiro?
Do amanhecer até a noite, meu amigo. 

Mas para a noite há um lugar de descanso?
Um teto para quando as lentas horas de escuro se iniciam.
A escuridão não o esconderá de minha visão?
Impossível não enxergar aquela estalagem.

Poderei encontrar outros caminhantes ao anoitecer?
Todos os que partiram à frente. 
Devo bater à porta, ou chamar quando à vista?
Eles não o deixarão a espera.

Encontrarei conforto, as dores da viagem e fraqueza? 
Encontrarás a recompensa do trabalho. 
Haverá camas para mim e para os que necessitarem? 
Sim, camas para todos que chegarem. 

Superficialmente, este diálogo consiste de uma enunciadora poetisa indagando acerca de uma jornada a qual ela contempla, ou está prestes a fazer. Como tal, cada detalhe invoca um sentido objetivo, literal, e a totalidade estabelece sentido para o que soa como uma troca casual de informação entre um viajante potencial e alguém que conhece o caminho. Ainda assim, há pistas que ao longo do poema que nos guiam a lê-lo como uma alegoria religiosa acerca da jornada da vida para a morte. Tais pistas incluem o fato de que a jornada é montanha acima e o percurso completo leva um dia inteiro, o que invoca noções de valor cristãs. A jornada começa ao alvorecer e termina ao anoitecer (invocando, assim, associações culturais gerais entre as partes do dia e os períodos da vida). O final da jornada trará um fim ao trabalho em um lugar de descanso, o qual será impossível não encontrar e no qual terá leitos para todos que chegarem. 

O poema em análise é considerado uma alegoria porque os dois significados correm proximamente em paralelo; cada detalhe de superfície pode ser transferido para o seu significado correspondente, e o segundo significado não é meramente sugestivo ou de uma compreensão aberta, mas contundentemente preciso. Embora as jornadas possam ser usadas metafórica ou simbolicamente, o fato é que o poema limita os significados possíveis para a correspondência de um para um entre jornada real e jornada implícita que nos permite classificá-lo como alegórico. 

*O autor é professor universitário.





segunda-feira, 29 de agosto de 2011

artigo


PRIVATIZAÇÃO E APAGÃO

Por Heitor Scalambrini Costa*

No âmbito do que se denominou Reforma do Estado, FHC privatizou muitas estatais. Administradas por políticos, sem dúvida em muitos casos, eram sugadoras de dinheiro público, com crônicos e eternos prejuízos causados justamente pelo uso político. Usinas siderúrgicas, ferrovias, telefônicas, bancos estaduais e distribuidoras elétricas, passaram para a iniciativa privada com argumentos de que o Estado não tinha condições de investir, e que haveria melhoria na eficiência da gestão destas empresas.
A justificativa era de que o mundo havia mudado, e era necessário redefinir o papel do Estado, e se desfazer assim de estatais ineficientes e eliminar a corrupção, pelo menos onde o estatal virou privado. No caso particular do setor elétrico, os defensores do processo de privatização acenavam a população com promessas de melhoria dos serviços prestados e com o barateamento das tarifas. Lembram disso?
Hoje, passados 20 anos, os apagões têm se tornado rotina em algumas regiões do país, não por falta de produção de energia, desabastecimento como ocorreu há 10 anos, mas por deficiências, tanto no sistema de transmissão quanto de distribuição, principalmente devido a falta de investimentos. Com relação aos reajustes tarifários estes não param de aumentar, sempre acima dos índices de inflação que reajustam os salários, mesmo com os serviços prestados deficientes e em crescente deterioração, não cumprindo com as obrigações contratuais com os consumidores.
Por outro lado, os governos estaduais e federal também têm responsabilidades. As agências reguladoras, de ambas as esferas, são coniventes com as empresas não atuando mais efetivamente e fazendo cumprir a lei. A falta de fiscalização das agências reguladoras é o grande problema, tendo uma relação direta com os constantes apagões. Quanto à questão das multas eventualmente aplicadas, ocorre que as concessionárias recorrem à justiça da punição, arrastando a decisão por anos, e continuam a operar sem nenhuma restrição.
Logo, se a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e as agências estaduais não fiscalizam direito as concessionárias, e o serviço entregue ao consumidor é ineficiente, por lógica os apagões que ocorrem são de responsabilidades também da agência reguladora.  Afinal, se o serviço é ruim a tarifa não pode ser alta.
O cidadão constata que o fornecimento de energia está sendo interrompido com uma freqüência cada vez maior, e as empresas privadas não conseguem estancar o processo de deterioração dos serviços.  As razões dadas pelas concessionárias para os blecautes não conseguem convencer ninguém. Muitas vezes, as simplicidades das explicações nos deixam atônitos. E a pergunta que não quer calar é se são tão simples assim, por que as empresas não têm mecanismos de prevenção para tais acidentes?
Nos últimos três anos, o índice de interrupções do Brasil subiu de 16 horas para cerca de 20 horas. A região Nordeste está entre as mais prejudicadas, tendo a média se elevado de 18 para 27 horas. Situação de descaso foi verificada em Sergipe, onde o volume de apagões dobrou, de 22 para 44 horas. A Bahia também teve uma piora significativa: subiu de 14 para 20 horas. No Maranhão e no Piauí os indicadores são altos, respectivamente 22 e 52 horas.
De fato, o setor privado não está fazendo os investimentos necessários e adequados nas redes existentes de distribuição e transmissão, desrespeitando as metas comprometidas com a ANEEL.  A qualidade dos serviços de energia elétrica entregue ao consumidor brasileiro entrou num processo de deterioração crescente resultando que o número de apagões só tem aumentado.
Baseiam-se em fatos auto evidentes, que as reformas do setor elétrico com as privatizações das distribuidoras frustraram as expectativas, e as esperanças dos que acreditaram na propaganda governamental de um serviço mais eficiente e mais barato.
O poder público precisa agir, pois não tem cumprido seu papel, e a população cobrar. Do lado do consumidor nos últimos meses as reclamações junto aos órgãos de defesa têm aumentado muito. O que se espera é outra postura dos gestores do setor elétrico, e não a relação promíscua que tem se aprofundado com as empresas privadas.

*Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco. Artigo extraído da revista Caros Amigos.

domingo, 28 de agosto de 2011

crônica


XICO LUIZ

Augusto Cesar Magalhães Pinto*



Outro dia, exercendo minhas funções de Oficial de Justiça na sede do Distrito de Campos Belos, em Caridade, ao terminar a pauta programada para aquele dia, me desloquei até a fazenda Alto Alegre, bucólico retiro do confrade Francisco Luiz de Oliveira Nepomuceno, a quem todos chamam de Xico Luiz.
 Lá estava ele no alpendre acomodado numa fornida cadeira que mandou confeccionar, compatível com suas dimensões e peso avantajado, com uma máquina fotográfica sobre um tripé, à espreita de um galo campina que todo dia vem cantar pra ele numa pequena árvore no terreiro da casa.
 Trata-se de singularíssima figura, dotado de uma cultura fabulosa graças aos milhares de livros que já leu. Um disciplinado amante da boa leitura, razão pela qual não há assunto que ele não domine ou pelo menos tenha um considerável conhecimento.
 Sua memória é fabulosa; fala tudo de maneira didática e com entusiasmo, nunca se dissociando do tom professoral que dá mesmo para explicações mais amenas. Apesar de viver em retiro voluntário, apreciando a natureza dos sertões, tem um grande ciclo de amizades, notadamente entre pessoas de destaque e de reconhecida cultura.
 Excêntrico, de tempos em tempos muda o foco de seus interesses, de forma compatível com a efervescência da sua natureza de curioso e entusiasmo de pesquisador inquieto. Houve uma época em que ele colecionava moedas e, dedicado ao assunto, adquiriu grande conhecimento de numismática.  Desta feita fomos convidados a apreciar um viveiro que mandou construir onde há dezenas de plantas exóticas dos maiores desertos do mundo. Ele conseguiu as sementes e produziu as mudas com sucesso e de forma empírica vem fazendo testes para descobrir a forma mais eficaz de fazê-las desenvolver. Ditas plantas são por ele irrigadas a conta-gotas em períodos que ele vai controlando e buscando a melhor eficácia, um interessante jogo de paciência e amor à pesquisa.
 De outra, estava colecionando relógios de algibeira e estudou com afinco o assunto e em pouco tempo se tornou notável conhecedor das grandes marcas. Ultimamente seu foco é uma avantaja da coleção de antigos relógios de parede espalhados em vários compartimentos da casa, além de alguns modelos que ficam sobre móveis. Ele descreve o funcionamento, nacionalidade, ano de fabricação e as características de cada um, com desenvoltura e entusiasmo.
 Veterinário por formação, também entusiasma-se pela criação de carneiros “Somalis”, aqui popularmente chamados de cabeça preta e exibe, com orgulho, um reprodutor puro sangue, que foi campeão em feiras nacionais.
 Duvido que alguém conheça como ele a ocupação do nordeste e especialmente do Ceará, além dos conflitos de terra na região dos Inhamuns, bem como do fenômeno do “cangaço”. Lê tudo sobre  Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, de quem é admirador e profundo conhecedor da sua epopéia. É bom que se registre que sua admiração pelo rei do cangaço não é aquela ditada pelo censo comum, em que o banditismo foi glamorizado por questões ideológicas relativas à maneira destemida com que ousou desafiar o Estado. Na verdade ele o admira pela “competência”, um autêntico general caboclo que dominava com mão de ferro um bando de fascínoras, que o respeitavam pelo terror que impunha, pela valentia, forte temperamento e coragem inquestionável.
 Afora tudo isso, Xico Luiz é um sensível apreciador de música e dotado de uma autêntica veneração por Lupicínio Rodrigues, além de um observador das coisas do cotidiano que vão de uma simples conversa a uma notícia pelo rádio ou mesmo uma propaganda televisiva  enquanto assiste o Jornal Nacional.
Ele conta que há quase duas décadas assistia o noticioso quando surgiu uma propaganda dos Correios onde um carteiro entregava correspondência cantando uma música de Aldo Cabral e Cicero Nunes, cuja gravação original foi realizada em 1946 por Isaura Garcia e foi sucesso absoluto, que na letra dizia: “Quando o carteiro chegou/ e meu nome gritou coma carta na mão/ ante surpresa tão rude...”. Referida propaganda, que lembro com toda nitidez, era muito interessante e chamava atenção numa época em que a respeitável instituição se fazia representar por um carteiro que trabalhava com todo entusiasmo, aproximando pessoas, ungindo acontecências e dignificando o nome da empresa que era a mais querida da população, imagem que está se restabelecendo na época pós Maurício Marinho, vassalo do ex-deputado Roberto Jefferson e outros agatunados forasteiros que arranharam a marca  registrada de eficiência e honestidade, mas aí já é outra história.
O Xico tem uma enorme paixão pelos Correios, ele que sempre gostou de viver em exílio voluntário utiliza em demasia os serviços da instituição para adquirir livros, mercadorias diversas e até sementes de plantas exóticas de outros países, além é claro, de comunicar-se com amigos, tarefa que hoje o faz através da internet.
Naquele tempo ao ouvir a propaganda dos Correios, ele tinha há pouco escutado uma musica de Lupicínio Rodrigues, intitulada “O carteiro” que é bem elaborada, mas pouco conhecida. Ato contínuo, escreveu uma carta à própria Empresa de Correios, dizendo da sua relação afetiva com a instituição, sugerindo que a música da propaganda fosse substituída pela música “O carteiro”, e de quebra que se instalasse uma agência em Campos Belos, cujos moradores locais ousavam dizer que o Distrito é maior do que a própria sede e finalizou sugerindo que a agência tivesse o nome de “Lupicínio Rodrigues”.
Passaram-se aproximadamente cinco anos e ele nem lembrava mais da carta, quando foi avisado por um amigo, que soube através de uma pessoa que exercia uma função de chefia nos Correios, que seria inaugurada uma agência em Campos Belos e que o documento número “1” do processo que deu origem a nova agência, foi justamente a carta que ele enviou.
Pouco tempo depois, num final de campanha política, foi anunciada para um dia de sábado, através de uma emissora de rádio de Canindé, a inauguração da agência Lupicinio Rodrigues na sede do Distrito de Campos Belos. O Chico, que foi o pivô de tudo, foi esquecido e somente foi convidado pelo seu antigo morador e amigo, Sr. Vicente Ricardo que era vereador de Caridade. Assim, sem ressentimentos e extremamente feliz com a vinda da sonhada agência, compareceu à solenidade.
Chegado o dia e hora lá estavam todos, com direito a banda de música, autoridades locais, deputados, representantes dos Correios e pessoas gradas da sociedade. Ocorreram os discursos de praxe, foi apresentado o carimbo da agência e  exatamente sete selos foram autenticados, dando por inaugurada a unidade.  O Xico foi aquinhoado com um selo que colado a uma folha de papel ofício e devidamente autenticado, ele fez um singelo cabeçalho sobre a efeméride e colheu as  assinaturas das pessoas proeminentes que se achavam presente, na realidade dando vida e forma a um documento histórico, avalizado por testemunhas.
Na segunda-feira seguinte, o Xico foi bem cedo para a agência e havia preparado algumas correspondências a serem enviadas, crente de que seriam as primeiras a ser postadas e que consequentemente ele seria de fato o primeiro cliente. Na hora presumível do início do funcionamento não apareceu ninguém para abri-la e ele ali aguardou por um par de horas conversando com conhecidos até que finalmente desistiu. Pra melhor dizer agência nunca mais abriu, poderia até fazer parte do Guinnes como a Agência dos Correios que teve a existência mais efêmera do mundo. Ainda hoje, o Xico reclama do fato em tom de gozação, da Agência restou apenas o documento que, conforme foi dito, ele lavrou. Ao Xico restou  a imorredoura paixão pela obra do Lupicínio Rodrigues.

*Autor de: Viagem pela História de Canindé e Histórias de Nossa Terra e de Nossa Gente.