domingo, 28 de agosto de 2011

crônica


XICO LUIZ

Augusto Cesar Magalhães Pinto*



Outro dia, exercendo minhas funções de Oficial de Justiça na sede do Distrito de Campos Belos, em Caridade, ao terminar a pauta programada para aquele dia, me desloquei até a fazenda Alto Alegre, bucólico retiro do confrade Francisco Luiz de Oliveira Nepomuceno, a quem todos chamam de Xico Luiz.
 Lá estava ele no alpendre acomodado numa fornida cadeira que mandou confeccionar, compatível com suas dimensões e peso avantajado, com uma máquina fotográfica sobre um tripé, à espreita de um galo campina que todo dia vem cantar pra ele numa pequena árvore no terreiro da casa.
 Trata-se de singularíssima figura, dotado de uma cultura fabulosa graças aos milhares de livros que já leu. Um disciplinado amante da boa leitura, razão pela qual não há assunto que ele não domine ou pelo menos tenha um considerável conhecimento.
 Sua memória é fabulosa; fala tudo de maneira didática e com entusiasmo, nunca se dissociando do tom professoral que dá mesmo para explicações mais amenas. Apesar de viver em retiro voluntário, apreciando a natureza dos sertões, tem um grande ciclo de amizades, notadamente entre pessoas de destaque e de reconhecida cultura.
 Excêntrico, de tempos em tempos muda o foco de seus interesses, de forma compatível com a efervescência da sua natureza de curioso e entusiasmo de pesquisador inquieto. Houve uma época em que ele colecionava moedas e, dedicado ao assunto, adquiriu grande conhecimento de numismática.  Desta feita fomos convidados a apreciar um viveiro que mandou construir onde há dezenas de plantas exóticas dos maiores desertos do mundo. Ele conseguiu as sementes e produziu as mudas com sucesso e de forma empírica vem fazendo testes para descobrir a forma mais eficaz de fazê-las desenvolver. Ditas plantas são por ele irrigadas a conta-gotas em períodos que ele vai controlando e buscando a melhor eficácia, um interessante jogo de paciência e amor à pesquisa.
 De outra, estava colecionando relógios de algibeira e estudou com afinco o assunto e em pouco tempo se tornou notável conhecedor das grandes marcas. Ultimamente seu foco é uma avantaja da coleção de antigos relógios de parede espalhados em vários compartimentos da casa, além de alguns modelos que ficam sobre móveis. Ele descreve o funcionamento, nacionalidade, ano de fabricação e as características de cada um, com desenvoltura e entusiasmo.
 Veterinário por formação, também entusiasma-se pela criação de carneiros “Somalis”, aqui popularmente chamados de cabeça preta e exibe, com orgulho, um reprodutor puro sangue, que foi campeão em feiras nacionais.
 Duvido que alguém conheça como ele a ocupação do nordeste e especialmente do Ceará, além dos conflitos de terra na região dos Inhamuns, bem como do fenômeno do “cangaço”. Lê tudo sobre  Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, de quem é admirador e profundo conhecedor da sua epopéia. É bom que se registre que sua admiração pelo rei do cangaço não é aquela ditada pelo censo comum, em que o banditismo foi glamorizado por questões ideológicas relativas à maneira destemida com que ousou desafiar o Estado. Na verdade ele o admira pela “competência”, um autêntico general caboclo que dominava com mão de ferro um bando de fascínoras, que o respeitavam pelo terror que impunha, pela valentia, forte temperamento e coragem inquestionável.
 Afora tudo isso, Xico Luiz é um sensível apreciador de música e dotado de uma autêntica veneração por Lupicínio Rodrigues, além de um observador das coisas do cotidiano que vão de uma simples conversa a uma notícia pelo rádio ou mesmo uma propaganda televisiva  enquanto assiste o Jornal Nacional.
Ele conta que há quase duas décadas assistia o noticioso quando surgiu uma propaganda dos Correios onde um carteiro entregava correspondência cantando uma música de Aldo Cabral e Cicero Nunes, cuja gravação original foi realizada em 1946 por Isaura Garcia e foi sucesso absoluto, que na letra dizia: “Quando o carteiro chegou/ e meu nome gritou coma carta na mão/ ante surpresa tão rude...”. Referida propaganda, que lembro com toda nitidez, era muito interessante e chamava atenção numa época em que a respeitável instituição se fazia representar por um carteiro que trabalhava com todo entusiasmo, aproximando pessoas, ungindo acontecências e dignificando o nome da empresa que era a mais querida da população, imagem que está se restabelecendo na época pós Maurício Marinho, vassalo do ex-deputado Roberto Jefferson e outros agatunados forasteiros que arranharam a marca  registrada de eficiência e honestidade, mas aí já é outra história.
O Xico tem uma enorme paixão pelos Correios, ele que sempre gostou de viver em exílio voluntário utiliza em demasia os serviços da instituição para adquirir livros, mercadorias diversas e até sementes de plantas exóticas de outros países, além é claro, de comunicar-se com amigos, tarefa que hoje o faz através da internet.
Naquele tempo ao ouvir a propaganda dos Correios, ele tinha há pouco escutado uma musica de Lupicínio Rodrigues, intitulada “O carteiro” que é bem elaborada, mas pouco conhecida. Ato contínuo, escreveu uma carta à própria Empresa de Correios, dizendo da sua relação afetiva com a instituição, sugerindo que a música da propaganda fosse substituída pela música “O carteiro”, e de quebra que se instalasse uma agência em Campos Belos, cujos moradores locais ousavam dizer que o Distrito é maior do que a própria sede e finalizou sugerindo que a agência tivesse o nome de “Lupicínio Rodrigues”.
Passaram-se aproximadamente cinco anos e ele nem lembrava mais da carta, quando foi avisado por um amigo, que soube através de uma pessoa que exercia uma função de chefia nos Correios, que seria inaugurada uma agência em Campos Belos e que o documento número “1” do processo que deu origem a nova agência, foi justamente a carta que ele enviou.
Pouco tempo depois, num final de campanha política, foi anunciada para um dia de sábado, através de uma emissora de rádio de Canindé, a inauguração da agência Lupicinio Rodrigues na sede do Distrito de Campos Belos. O Chico, que foi o pivô de tudo, foi esquecido e somente foi convidado pelo seu antigo morador e amigo, Sr. Vicente Ricardo que era vereador de Caridade. Assim, sem ressentimentos e extremamente feliz com a vinda da sonhada agência, compareceu à solenidade.
Chegado o dia e hora lá estavam todos, com direito a banda de música, autoridades locais, deputados, representantes dos Correios e pessoas gradas da sociedade. Ocorreram os discursos de praxe, foi apresentado o carimbo da agência e  exatamente sete selos foram autenticados, dando por inaugurada a unidade.  O Xico foi aquinhoado com um selo que colado a uma folha de papel ofício e devidamente autenticado, ele fez um singelo cabeçalho sobre a efeméride e colheu as  assinaturas das pessoas proeminentes que se achavam presente, na realidade dando vida e forma a um documento histórico, avalizado por testemunhas.
Na segunda-feira seguinte, o Xico foi bem cedo para a agência e havia preparado algumas correspondências a serem enviadas, crente de que seriam as primeiras a ser postadas e que consequentemente ele seria de fato o primeiro cliente. Na hora presumível do início do funcionamento não apareceu ninguém para abri-la e ele ali aguardou por um par de horas conversando com conhecidos até que finalmente desistiu. Pra melhor dizer agência nunca mais abriu, poderia até fazer parte do Guinnes como a Agência dos Correios que teve a existência mais efêmera do mundo. Ainda hoje, o Xico reclama do fato em tom de gozação, da Agência restou apenas o documento que, conforme foi dito, ele lavrou. Ao Xico restou  a imorredoura paixão pela obra do Lupicínio Rodrigues.

*Autor de: Viagem pela História de Canindé e Histórias de Nossa Terra e de Nossa Gente.



6 comentários:

  1. Fico maravilhado com figuras assim como o Xico Luiz. Cesar trouxe a público um verdadeiro achado. Creio que muita gente, a exemplo de mim, depois que leu esta crônica ficou com uma vontade danada de conhecer pessoalmente o Xico Luiz.

    PEDRO PAULO PAULINO

    ResponderExcluir
  2. Beijos pro Xico Luiz, meu pai que amo.
    Sua filha, Laura

    ResponderExcluir
  3. Parabéns César, pela crônica, pela acuidade, pelo conhecimento dos fatos, pelas palavras de apreço e amizade, pela boa caricatura e a verossímia resenha que fez de meu Pae, Xico Luiz.

    Daniel de Góes Nepomuceno

    ResponderExcluir
  4. Marcus Roberto Góes5 de setembro de 2011 15:53

    Gostaria aqui de explicitar minha enorme admiração por meu parinho de batismo, a quem por muitos anos carinhosamente chamei por TiXico Luiz. Parabéns ao autor dessa estimada crônica sobre essa pessoa singular na vida de quem um dia teve o privilegio de, se quer por alguns segundos, ouviu e deleitou-se com suas histórias e istórias, proferidas com inigualável didática, que em meus, quase dez anos inserido na academias das Ciências Agrárias nunca vi igual.
    Grande abraço meu querido e admirado Tio.

    ResponderExcluir
  5. Roma, Itália, 06/09/2011
    "Concordo em gênero, nùmero e caso com a crônica
    de Augusto Cesar.
    Eu conheci o Xico Luis, no Sítio São Luis, em Pacotientre 1989 e 1991 e posso corroborar as afirmações da crônica e até adiconar as incursões do Xico Luis pelo radioamadorismo, naquela época, com algunsserviços prestados, por desse meio, a desconhecidosem situação de emergência e de perigo.
    Isso amplia a "faceta multiativista" do Xico Luis."

    Frei Hermínio Bezerra
    Tradutor, em Roma, Itália.

    ResponderExcluir
  6. Achei sensacional a crônica do Cesar. É tudo
    isso q. escreveu, e muito mais. Conheço de perto
    essa figura inoxidavel.Faltou escrever q. Chico
    Luis, é quem mais entende de gado JERSEY no Brasil.Chico,um grande abraço, e a vontade de
    conversar com você. Edi.

    ResponderExcluir