quinta-feira, 18 de agosto de 2011

literatura


INÉDITO DE JORGE LUIS BORGES

Nosso colaborador Gerardo de Melo envia um curioso soneto cuja autoria é atribuída ao escritor argentino Jorge Luis Borges. O trabalho está inserido no livro A Ausência que Seremos, que é, “antes de mais nada, a ‘biografia’ escrita pelo filho do médico sanitarista colombiano Héctor Abad Gómez (1921-87), defensor de causas sociais e dos direitos humanos executado pelos esquadrões da morte que golpearam seu país nos anos 1980.
O título do livro provém do primeiro verso do soneto “Epitáfio”, atribuído a Jorge Luis Borges, que Héctor Abad filho encontrou no bolso do pai, pouco depois de seu assassinato.”

Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
Y que fue el rojo Adán y que es ahora
Todos los hombres y los que seremos.

Ya somos en la tumba las dos fechas
Sel principio y el fin, la caja,
La obscena corrupción y la mortaja,
Los ritos de la muerte y las endechas.

No soy el insensato que se aferra
Al mágico sonido de su nombre;
Pienso con esperanza en aquel hombre

Que no sabrá quien fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo,
Esta meditación es un consuelo.

Tradução: Gerardo de Melo

EPITÁFIO

Já somos o esquecido que seremos.
O barro primordial que nos ignora
De que foi feito Adão e mesmo agora
Todos os homens e os que então seremos.

Já somos no sepulcro os dois momentos
Do princípio e do término, o caixão,
A mortalha e a nojenta abjeção,
Os ritos de morrer e seus lamentos.

Não tenho a insensatez do que se aferra
Ao mágico chamado de seu nome;
A esperança de alguém já me consome

Não saberá quem fui por sobre a terra.
Sob este imune azul do firmamento,
Nesta meditação consolo tento

quarta-feira, 17 de agosto de 2011


UM TEXTO DE THOREAU* SOBRE O  LIVRO

“(...) Não admira que, em suas expedições, Alexandre levasse a Ilíada dentro de um  estojo precioso. Uma palavra escrita é a mais valiosa relíquia. É algo ao mesmo tempo mais íntimo e mais universal do que qualquer outra obra de arte. É a obra de arte mais próxima da própria vida. Pode ser traduzida para todas as línguas, e não só lida, mas  realmente soprada por todos os lábios humanos - representada não só na tela ou no mármore, mas esculpida no próprio sopro da vida. O símbolo do pensamento de um antigo se torna a fala de um moderno. Dois mil verões conferiram aos monumentos da literatura grega, como se fossem de mármore, apenas um tom dourado e outonal mais maduro, pois levaram sua atmosfera serena e celestial a todas as terras, para protegê-los contra a corrosão do tempo.  Os livros são o tesouro do mundo e a digna herança de gerações e nações. Livros, os melhores e mais antigos, podem ocupar, com todo o direito e naturalidade, as prateleiras de qualquer morada. Nada pleiteiam para si, mas, na medida em que esclarecem e sustentam o leitor, o  bom senso dele não os recusará. Seus autores são uma aristocracia natural e irresistível em toda sociedade, e exercem, mais do que reis ou imperadores, influência sobre toda a humanidade. Quando o comerciante iletrado e talvez desdenhoso conquista pelo trabalho e iniciativa própria seu cobiçado lazer e independência, e é admitido nos círculos da elegância e da riqueza, inevitavelmente acaba se voltando para aqueles círculos ainda mais altos do intelecto e do gênio, porém ainda inacessíveis, e é sensível apenas à imperfeição de sua cultura e à vaidade e insuficiência de todas as suas riquezas, e demonstra ainda mais seu bom senso preocupando-se em garantir  aos filhos aquela cultura intelectual de que sente tão aguda falta; e é assim que ele se torna o fundador de uma família.”
[THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Tradução de Denise Bottmann. 1ª ed. Porto Alegre, L&PM, 2010 - p. 106]

*H. D. Thoreau (Concord, Massachusetts, EUA, 1817 – 1862), ensaísta, poeta, amante da natureza, foi um homem especial, autêntico, originalíssimo. Conquanto graduado em Harvard e tivesse uma inteligência e cultura notáveis, preferiu levar uma vida simples, trabalhando apenas para garantir as suas necessidades básicas,  como  agrimensor. O livro Walden é o relato das experiências vividas por Thoreau nos dois anos que passou em uma cabana nas margens do lago Walden,  juntamente com os seus livros, os animais e as plantas, sem deixar de manter  contatos ocasionais com agricultores que moravam perto de sua casa. Foi discípulo e amigo do grande filósofo transcendentalista Ralph Waldo Emerson (1803-1882), que, tal como Thoreau, era também ensaísta e poeta.


(Colaboração: Flávio Henrique M. F. Lima)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

poesia


RAUL DE LEONI: “LUZ MEDITERRÂNEA”

Tenho em mãos uma rara edição do livro Luz Mediterrânea, do poeta Raul de Leoni. A primeira edição publicada em vida pelo autor, é de 1922, o mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Mas Leoni era parnasianista e seu trabalho poético vem cifrado nos moldes clássicos da métrica rigorosa e da rima. “Para o título geral da collectanea se conservou o da obra capital, Luz Mediterranea, nome caro ao poeta e tão expressivo de sua clara e agil sensibilidade”, adverte uma pequena nota introdutória.

“O seu ritmo peculiar e admirável de versificação, o conjunto de ideias sublimes de suas palavras, são os aspectos mais fortes que envolvem a magnífica harmonia da unidade de pensamento que existe em toda sua obra. Raul de Leoni é poeta de grandeza solitária, unindo a uma filosofia panteística um espírito helênico de poesia ligada ao canto e a música. Apesar de apontarem em seus versos Pascal e Platão, sua poesia nada tem de filosófica. É espontânea, colorida, sensual. Sua estética à maneira platônica leva-o a uma vizinhança extraordinária com o Simbolismo, sendo, tanto quanto Guimarães Passos um grande poeta de transição.
A sua poesia, embora contenha formas antigas e clássicas, é caracterizada por um imperecível espírito de modernidade, o que lhe assegura compreensão ilimitada e aperiódica, e o introduz na seleta plêiade dos poetas imortais.”

Raul de Leoni nasceu em Petrópolis, em 31 de outubro de 1895. Concluiu os cursos primário e secundário no Rio de Janeiro, viajando ainda adolescente pela Europa. Tornou-se diplomata em 1917. Com Ode a um poeta morto, 1919, conquistou fama nos meios literários. Pouco depois de eleito deputado fluminense, retirou-se para Itaipava, onde pretendia curar-se da tuberculose que o vitimou. Antes, publicou Luz Mediterrânea, 1922.
“Expirou serenamente, na sua casa de Itaipava, aos 21 de novembro de 1926. Tinha 31 anos e deixava uma das obras mais consideraveis da nossa poesia, pela unidade de pensamento e pela formosura dos rythmos”, informa Rodrigo M. F. de Andrade, no prefácio do livro. (Mantida a ortografia da época.)
Tenho diante de mim, na tela do computador, um pouco da biobibliografia de Raul de Leoni na Wikipédia. No entanto, é um prazer sem comparação ler os versos do grande poeta numa publicação tão rara quanto esta. A última página do livro informa que foi “COMPOSTO E IMPRESSO NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL. R. D. Manoel, 62 – Rio de Janeiro. EM JUNHO DE 1928”. Portanto, há 83 anos. O volume de páginas amareladas está em perfeito estado e chegou até a mim através do meu amigo o poeta e jornalista Wanderley Pereira. Sobre a mesa do meu computador, o livro octogenário de Raul de Leoni e a tela de cristal líquido tratando do mesmo assunto formam um conjunto singular. E essa simbiose faz lembrar que não importa muito o meio que comunica: o importante mesmo é o conteúdo que ambos os meios de comunicação – livro e internet – oferecem.
Dois dos sonetos bastante conhecidos de Raul de Leoni estão transcritos abaixo:

“IGRATIDÃO

Nunca mais me esqueci!... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança.

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio…”

“HISTÓRIA ANTIGA

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...”





segunda-feira, 15 de agosto de 2011

artigo


UM TEXTO DE COMÊNIO* SOBRE A
ETERNA INSATISFAÇÃO DO HOMEM

“(...) Com efeito, nesta vida, nunca se consegue encontrar o fim, nem dos nossos desejos nem das nossas tentativas. Para qualquer parte que alguém se volte, conhecerá esta verdade por experiência. Se alguém ama o poder e as riquezas, não encontrará onde saciar a sua fome, ainda que chegue a possuir todo o mundo, o  que é evidente pelo exemplo de Alexandre Magno. Se alguém arde com sede de honras, não poderá ter paz ainda que seja adorado por todo o mundo. Se alguém se entrega aos prazeres, embora todos os seus sentidos nadem num mar de delícias, todas as coisas lhe parecem gastas e o seu apetite corre de um objeto para outro. Se alguém aplica a mente ao estudo da sabedoria, nunca encontra o fim, pois, quanto mais coisas uma pessoa sabe, tanto melhor compreende que lhe restam mais para saber. Efetivamente, com toda a razão, Salomão disse: ‘Os olhos não se saciam de ver e os ouvidos têm sempre desejo de escutar.’ (Eclesiastes, I, 8)
[In: Didáctica Magna.Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos. João Amós Coménio. 4.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1966 – pág. 85.]

*Jan Amos Komensky (em latim, Comenius; em português, Comênio) – 1592-1670 – Professor, cientista e escritor checo, considerado o fundador da Didática Moderna.

Colaboração: Flávio Henrique M. F. Lima


domingo, 14 de agosto de 2011

homenagem


ADORADO PAI...

...Um mês é passado do teu longo e doloroso adeus; ainda sinto tuas mãos trementes acariciando as minhas e teu semblante umtempo ignorado me sugerindo um sorriso e um afeto quase implorado.Quando senti teu corpo inerte, gelado, meu coração foi tomado por uma onda de calor inexplicável; diz o poeta que as estrelas são buracos nocéu por onde passa o infinito. Eu, o infinito estou vendo nas horasque não passam, na saudade que persiste e na terrificante paz de umdia depois. Estou esperando a chuva para não chorar sozinha, enquantoisso Senhor, me permite ainda uma oração: acolhe em Teus braços o meupapai e derrame sobre nós um mundo de alegria e de cor. Parabénsa todos os papais, muita saúde e vida longa. (Marcia Paulino)