O
TEMPO E SEUS PARADOXOS
Freitas
Diassis*
Na
medida em que o tempo escoa por entre nossos dedos e suas marcas vão se
evidenciando em nosso corpo, mais e mais percebemos que este inexorável senhor
nos é cada vez mais escasso. É como se sua velocidade fosse inversamente
proporcional à idade que temos. Já foram comuns para mim, em tempos idos, as
horas de marasmo e tédio, sem ter muito que fazer. Acontece que a vida passa. Hoje
os tempos são diferentes e surgiram outras atribuições domésticas e familiares,
alheias ao trabalho; este mesmo, de certa forma ficou mais complicado. E se o
termo complicado não é a palavra correta, diria então que no trabalho surgiram
mais cobranças e algumas mudanças.
A
secular corporação a que pertenço sofreu perceptíveis metamorfoses de pouco
tempo para cá. Óbvio que se fosse possível a você perguntar para um senhor de
160 anos como era na sua juventude, ele diria que era muito diferente da de
hoje e que a sociedade em que vivemos mudou muito. Mudou mas não evoluiu. Na
verdade “involuiu”, diria nosso hipotético Matusalém. E seriam necessárias
muitas páginas deste periódico para dissecar item por item as razões desta
involução.
Dentre
os motivos principais da percepção de retrocesso social está a escalada
desenfreada da violência debatida diariamente em botequins, centros acadêmicos,
rádios e telejornais por este Brasil enorme de meu Deus. A própria violência em
si tem outros inúmeros fatores que a fomentam. Entre tais, a corrupção que
aflora todos os dias, como a “Operação Lava-jato” e os desmandos da Petrobras, uma
pequena ponta do iceberg, e a impunidade, com os criminosos sendo condenados e
não cumprindo a pena, e quando a cumprem, é apenas uma proporção do tempo
previsto.
Vivemos,
na realidade, um tempo paradoxal. Antigamente existia o respeito aos mais
velhos, o respeito às instituições e também o medo e a vergonha de ser exposto
caso alguém viesse a infringir alguma lei. Mas parece que os valores estão
mudando. Ter alguma mácula na ficha policial virou em certos casos, sinal de
status. No domingo 07 de dezembro de 2014, no programa Fantástico da TV Globo,
uma reportagem sobre crime organizado mostrava a gravação de uma conversa ao
telefone de dois criminosos em cadeias distantes, onde um destes era candidato
a membro de certa organização criminosa. Na conversa, entre advertências e
ameaças de uma parte, indagaram ao calouro quais as três últimas faculdades que
ele frequentara. Faculdade era um eufemismo para prisão usado pelos bandidos. E
parece que é isso o que a maioria da sociedade pensa sobre nossas cadeias. São
instituições que não ressocializam ninguém. Na verdade, pensa a sociedade, são
escolas de pós-graduação em outros tipos de crime. O cara entra traficando e
aprende a roubar e extorquir. São reduzidas as cadeias e prisões que têm algum
programa de inclusão social ou de profissionalização. A maioria dos infratores,
quando sai, ou reincide no crime ou é marginalizado pela sociedade. E como
exemplo de marginalização de ex-detentos, outro dia passando pela área do “pré-sal”,
como uns e outros que conheço se referem com certa ironia e sarcasmo ao centro
de Canindé por razões que desconheço totalmente, vi sentado na calçada da Casa
Campos um mendigo novo no “pedaço”. Seu rosto me era familiar e iniciamos um
diálogo:
– Eu
te conheço de algum lugar.
– E,
aí Freitão, tá lembrado não? Sou o Cigano lá de Santa Quitéria.
– O
que houve contigo?
– Ora,
puxei minha cadeia, respondia por tráfico, né? Mas a mulher me deixou, não
arrumei emprego e resolvi pedir esmolas para não morrer de fome. Pra cadeia não
quero mais voltar não. “Me arruma” uma moeda aí pelos velhos tempos?
Vasculhei
nos bolsos e lhe dei um real. Desejei boa sorte e segui meu destino. Pela
convivência com o detento na cadeia, devido ao nosso trabalho e sua dinâmica, algumas
vezes, involuntariamente é verdade, o policial cria com alguns poucos infratores
um laço de afinidade, de intimidade, não uma relação de amizade, mas de
respeito. Outro fato que chama a atenção nos últimos tempos vividos por nós é o
aumento de crimes relacionados ao tráfico de drogas. Este sem dúvida, o grande
incentivador da violência. Os viciados cometem inúmeros crimes motivados pelo
efeito das drogas ou porque querem usá-la. E ainda existem aquelas pessoas que
se dizem honestos cidadãos pagadores de impostos, críticos vorazes da ação
policial, mas aos fins de semana e durante seus momentos de diversão mundana, fornecem
combustível e alimentam o poder financeiro dos traficantes quando compram e
usam apenas por “esporte”, uma dose, uma pedra ou um baseadinho pra digestão,
como outro dia foi flagrado um funcionário de conceituada instituição
financeira em nosso município. E relacionado ao aumento da violência, além do
tráfico e da sensação de impunidade, está o grande número de menores enveredando
pelo mundo do crime, apoiados pelas frágeis leis do nosso CPB e ECA. Hoje em
dia com a informação na velocidade da luz e na ponta dos dedos, existe a
gritante necessidade do policial usar de técnica, perícia, bom senso e muito
cuidado no atendimento de ocorrências, haja vista inúmeros “Especialistas em
Segurança Pública” tecerem ferozes comentários relacionados à ação policial
nesta ou naquela ocorrência.
Agora
em fins de novembro, eu e o soldado Hildo fomos solicitados para o bairro
Campinas, onde uma jovem senhora teve sua motocicleta apedrejada com uma
“baladeira” por um menor de uns quinze anos, seu enteado. No local, por volta
de treze horas sob o sol saariano, ouvindo o choro da vítima e de sua jovem
criança, tomamos conhecimento da verdade dos fatos. Após arrolarmos testemunhas
e providenciar que a própria vítima colhesse provas do delito tirando
fotografias dos danos, fomos com ela até a casa do suposto autor, onde este
estava despreocupadamente deitado em uma rede na sala da casa ao lado de sua
mãe e outra senhora. Por estarmos em flagrante e a porta encontrar-se aberta,
adentramos o recinto, informando sobre a situação e o que ocorreria em seguida.
Inutilmente um jovem franzino tenta reagir à condução e se desvencilhar de dois
policiais de grande força física e muito mais fortes que ele, tendo os
milicianos que lutar também com as parentas do acusado, quando sua mãe foi convidada
para acompanhar a situação até a delegacia. Tudo isso em meio a uma pequena
discussão entre nós e as partes envolvidas. Dias depois, em uma famigerada rede
social, alguém publica inverdades e comentários relacionados com nossa ação.
Bobagens, nada que valha a pena comentar ou que mereça maior preocupação. E na
delegacia, após a confecção de competente Boletim de Ocorrência
Circunstanciado, o infrator, com um sarcástico sorriso de impunidade estampado na
face, saiu bem antes de nós e da vítima. Resta então a esperança de 2015, com
novos governantes e legisladores eleitos, que mudem um pouco as leis, que deem
ao povo sofrido resposta aos seus clamores de tempos melhores.
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*Cabo PM, colaborador do Blog.
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