quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

ASTRONOMIA


QUANDO O CÉU ERA DO PROFESSOR FARIAS…

Pedro Paulo Paulino

Observar o céu noturno é um hobby que me acompanha desde a adolescência e, até hoje, ainda sinto um raro prazer em ver as estrelas. Houve mesmo um tempo em que meu interesse pela astronomia despertou-me maior entusiasmo. Em Canindé, entre um grupo de imberbes já deixando o curso secundário, dividíamos horas em comentar assuntos dessa natureza, principalmente influenciados pelo astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan, que na década de 80 virou astro de televisão em grande parte do mundo com seu seriado Cosmos baseado em seu best-seller de mesmo nome. E também motivados pela leitura de Isaac Asimov, Stephen Hawking, George Gamow, John Gribbin e o brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.
Com o telescópio do
Professor Farias, (1988)
A crônica astronômica de Canindé, todavia, merece ser dividida em duas épocas distintas: antes e depois do Professor Farias. Seu prenome Eliúd, somado à cor triguenha e à uma boa estatura, fazia mesmo evocar nele alguma origem judia que lhe dava um aspecto de cientista maluco, predicados que o deixavam ufano. Barba rala, calva proeminente, tinha um olhar inquieto – e nem a lacuna deixada pelos pré-molares inibia em sua boca um sorriso franco. Contava presumíveis 50 anos. Professor Farias desembarcou em Canindé por volta de 1988 e logo sua presença causou impacto na cidade. Astrônomo, articulado e sobraçando invariavelmente um exemplar da revista Times, por outras qualidades mais ganhou a simpatia de todos. Foi acolhido mesmo pelo poder público, quando dirigia a cidade o então prefeito Ivan Magalhães que o mandou hospedar no melhor hotel, vendo nele talvez um guru para a geração de jovens estudantes das escolas municipais.
Lopes observa o céu na Vila Campos
Porém, o que mais ainda fazia chamar atenção no Professor Farias era exatamente um telescópio que ele trouxera consigo e que para todos nós foi motivo de muita curiosidade.
         Instalado à noite em locais estratégicos da cidade, através de suas lentes vimos a primeira vez aspectos maravilhosos do céu, como os quatro satélites interiores de Júpiter, os anéis de Saturno e as crateras da Lua. Imagens vistas pela primeira vez pelo sábio italiano Galileu Galilei, em mil seiscentos e alguma coisa. (O pioneirismo dessa descoberta, aliás, foi reivindicado por um contemporâneo de Galileu, Simon Marius. Mas não vamos entrar no mérito dessa questão secular por eles mesmos mal-resolvida.)
Não tardou para o Professor Farias conquistar nossa admiração. Mário Lira, Maurício Cardoso, Silvio R. Santos, Arievaldo Viana, Flávio Henrique, Lopes (De Vega) e eu o cercamos como a um verdadeiro mestre. Por ele fomos orientados a reconhecer as constelações, distinguir as estrelas por seu nome científico e grandeza; e vimos pelo seu telescópio Andrômeda, a galáxia irmã-gêmea da Via-Láctea, que calculam estar a trilhões de quilômetros da Terra.
         Sua maior concessão, todavia, foi, em algumas ocasiões, deixar seu telescópio a nosso inteiro dispor. Vila Campos, por conta disso, foi estampada em jornal, quando Silvio R. Santos e Arievaldo redigiam o extinto A Voz do Povo, informativo mais destinado aos interesses da municipalidade do que a assuntos celestes. Incluindo-se por conta própria na comunidade astronômica internacional, Professor Farias afirmava seguro ter contato direto com dignitários dessa ciência em todo o mundo. Certa vez na Vila Campos, contemplando um morro nos arredores de minha moradia, como se olhara o Monte Palomar, encontrou ali o local exato para instalação de um grande observatório, cujos equipamentos, segundo ele, mandaria vir da Rússia. Quanto sonho!
A astronomia era seu sacerdócio. O céu inteiro era do Professor Farias. Nessa época de glória, ele foi a vedete nas escolas de Canindé, que o intimavam a participar de eventos os mais diversos. Num desses, desfilou em carro aberto como atração cívica na parada do 7 de Setembro, exibindo a todos seu estimado telescópio. Sentia-se elevado quando o chamavam de astrônomo e diminuído se o chamavam de astrólogo. Uma noite, enquanto subia o alto do Monte com seu aparelho, em busca de uma atmosfera mais favorável a suas observações, ouviu alguém murmurar da calçada: “Ali vai o astrólogo Farias com sua luneta”. Foi o bastante para ele agastar-se e desistir de patrulhar os astros naquela ocasião. Centrado nas coisas do céu, ele pisava descuidoso na terra. A permanência em Canindé foi tornando-o bisonho e desgastado. Uma tentativa ridícula e frustrante à vereança local acabou de aniquilar-lhe os ânimos. A última vez que ressurgiu por aqui, arrastava um filho radicalmente avesso aos gostos do pai. E com este desapareceu de vez, como um cometa, até os dias de hoje. Professor Eliúd Farias nos deixou como herança a tradição de olhar o céu pelo telescópio. E desde então, toda vez que volto os olhos para o Firmamento, é-me impossível não relembrar seus sonhos e ideais loucos que ainda vagueiam, quem sabe, por entre as mesmas estrelas…


Olhar o céu pelo telescópio é tradição
que herdamos do Professor Farias


quarta-feira, 15 de julho de 2020

O MANIFESTO DOS SANTOS POR CAUSA DA PANDEMIA



Autor: Pedro Paulo Paulino

A Folha Celestial,
Que circula todo dia,
Em sua primeira página
Para o mundo noticia
Que os santos, em protesto,
Fizeram seu manifesto
Por causa da pandemia.

Pois em muitos povoados,
Vilas, distritos, cidades,
Devido ao coronavírus
E suas calamidades,
Com tanta gente morrendo,
Os santos não estão tendo
As suas festividades.

Alegam também os santos,
Que estão sobrecarregados
Com milhares de pedidos
Que são da Terra enviados
Direto à Corte Celeste,
Suplicando o fim da peste
Que já fez tantos finados.

São Jorge não tem mais conta
Dos rogos já recebidos;
Santo Expedito, também,
É um dos mais recorridos;
E São Francisco somente
Recebeu recentemente
Mais de um milhão de pedidos!

Dessa forma, tendo em vista
Essa ocorrência infeliz,
Vários santos, liderados
Por São Francisco de Assis,
A Deus foram recorrer.
Com detalhes, vamos ver
O que a notícia nos diz:

 “Céu, julho, 2020,
Atenção, muita atenção!
Para um fato inusitado,
De larga repercussão,
Que por sua envergadura,
Balançou a estrutura
Desta Sagrada Mansão!

Vários santos reunidos,
Com São Francisco na frente,
Foram juntos à presença
De Deus Pai Onipotente,
Para explicar que a Terra
Trava uma terrível guerra
Contra um vírus resistente.

São Francisco disse: – Venho,
Em nome de Jesus Cristo,
De quem sou imitador,
Só para vos dizer isto:
A humanidade vos clama,
Pois a Terra vive um drama
Que nunca se tinha visto.

Imaginai, Senhor Deus,
Canindé, minha cidade,
Conhecida em todo o mundo
Na religiosidade
E pela gente sofrida,
Passar o ano batida,
Sem minha festividade!...

Já vários colegas meus,
Convém o Senhor saber,
Não tiveram suas festas,
Pois não se pode fazer.
E do jeito que estou vendo,
Com esse desastre horrendo,
Nem minha festa vai ter.

São José pediu a vez
E disse: – no Ceará,
Onde sou o padroeiro,
Eu passei ao deus-dará,
Pois de diversos lugares,
O vírus mandou milhares
De suas almas pra cá.

Foi lamentável demais
A Capital Fortaleza
Não fazer a minha festa,
Foi a data uma tristeza!
São Roque, santo francês,
Pediu nesse instante a vez,
Para falar com clareza:

– Senhor Deus, a Vila Campos,
Que há cem anos me festeja,
Uma festa concorrida,
Muita bela e benfazeja,
Este ano está fadada
A não ter festa nem nada
Lá dentro da minha igreja.

Logo eu, que sempre fui,
Pelos devotos chamado
Pra combater peste e guerra
Desde o antigo passado,
Sem nada poder fazer,
Eu venho ao Senhor dizer
Que me sinto envergonhado!...

Santo Antônio disse: – Em nome
Dos colegas Pedro e João,
Venho dizer ao Senhor
Nossa grande frustração:
Devido à covid má,
Não tivemos arraiá
Nem fogueira nem balão...

Minha grandiosa festa
Na cidade de Barbalha,
Que todo ano acontece
Normalmente, nunca falha,
Em branca nuvem passou,
Pois a cidade enfrentou
E enfrenta essa batalha.

Padre Cícero falou:
– Senhor Deus, meu Juazeiro
Tem milhares de doentes,
E o Cariri inteiro.
Eu vos peço proteção
Para aquela região
De devoto e de romeiro.

Pronunciou-se também
Pela região Nordeste,
E Senhora Aparecida
Suplicou pelo Sudeste.
Várias representações
De estados e nações
Pediram o fim da peste.

E diversos outros santos
Falaram por sua vez,
Nossa Senhora do Carmo,
Santa Isabel, Santa Inês,
E até São Cipriano,
Perante o Deus Soberano
O seu desabafo fez.

Cofiando a longa barba,
Em silêncio Deus ouvia
O que a comissão de santos
Perante a Ele dizia.
Depois que a todos ouviu,
A palavra então pediu
E assim se pronuncia:

– Ouvi de vós vossas súplicas
E pedidos de clemência,
Porém sabeis todos vós
Que eu tenho total ciência
Do que na Terra se passa,
Seja vitória ou desgraça,
Eu sei de toda ocorrência.

Dei à Terra o dom da vida,
E ao homem, sabedoria,
De tal modo, que ele mesmo
Vai descobrir qualquer dia,
Através da medicina,
Definitiva vacina
Pra vencer a pandemia.

Sabe o homem fazer guerra
E fazer mísseis possantes,
Várias armas nucleares
Pra matar seus semelhantes,
Por que não sabe fazer
Armas para combater
Essas moléstias constantes?!...

Além disso, eu já lavei
As mãos pela humanidade.
Deixei água, ar e terra
Pra sua comodidade.
Mas foi o homem tentado,
E até eu fui vitimado
Por sua infidelidade.

Vós esqueceis, meus senhores,
Do caso de Adão e Eva?
Podem até esquecer,
Mas minha lei não releva.
Ambos, faltando juízo,
Deixaram meu paraíso,
Para mergulhar na treva!

São os homens, meus senhores,
Desse casal descendentes,
Minha criação primeira,
Minhas primeiras sementes.
Dei ao homem condição
De viver em união
Consigo e todos viventes.

Porém, o homem na Terra,
Com seu gênio de Caim,
Matou o meu próprio Filho,
Provando o quanto é ruim!
Escravo da hipocrisia,
Em caso de pandemia,
É que se lembra de mim!

O homem, ao próprio homem,
Para sempre está entregue.
E a despeito de tudo,
A Terra o seu curso segue.
Deve o homem procurar
Por si mesmo se livrar
De todo o mal que o persegue.

Para toda a humanidade,
Não mando o bem nem o mal.
Enquanto o homem constrói
Armas de poder mortal,
Devia era construir
Armas pra se prevenir
De tanto vírus letal.

Essa foi a informação
Bem transparente e precisa.
Deus recolheu-se ao seu trono,
Envolvido em leve brisa.
Em seguida, cada santo
Retornou para seu canto",
A notícia finaliza.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

CENAS DA TERCEIRA GUERRA, ACENOS DO FIM DO MUNDO


















Autor: Pedro Paulo Paulino

Até o ano dois mil,
Ouviu-se muito falar
Que o mundo, mais uma vez,
Por certo iria acabar
Por qualquer fatalidade,
E que o fim da humanidade
Perto estava de chegar.

Chegou-se a marcar o dia,
Hora, mês e tudo enfim,
Pois para o final do mundo
Foi aceso o estopim.
O mundo em sua jornada
Viu do milênio a virada,
Contudo, não teve fim.

A Terra continuou
O seu giro normalmente,
E na sua superfície
Os humanos, simplesmente,
Para frente foram indo,
Sempre se reproduzindo
E aumentando enormemente!

Dizia-se que o fim do mundo
Desta vez ia se dar
Pelo fogo, em vez da água,
Ou por guerra nuclear;
Em vírus, nem se falava…
O certo é que o mundo estava
Muito perto de acabar.

Não se sabe se o mundo
Renovou o seu convênio.
Mas vinte anos depois
Da passagem do milênio
(Quem diria jamais quando!)
O mundo está se acabando
Por faltar oxigênio.

Não que o gás tão nobre à vida,
Deixasse a Terra faltar.
Mas por causa de uma peste
De ação letal pulmonar,
No cenário mais horrendo,
Milhões hoje estão morrendo
Por não poder respirar.

Quando a humanidade vive
Seu momento mais fecundo,
Se torna refém de um vírus
E seu poder furibundo,
Por que não dizer, sensato,
Que a pandemia é, de fato,
Para nós o fim do mundo?!

Milhões de enfermos nos leitos,
Em casa ou no hospital;
Cenas bárbaras, quais cenas
De uma guerra mundial,
Têm a mesma cor e o tom
Da guerra do Armagedom
E da Batalha Final.

Cenas que foram descritas
No Apocalipse de João,
O qual também é chamado
Livro da Revelação;
O choro, o ranger de dente,
Um cenário hoje presente
Perante a nossa visão.

A pandemia ceifando
Sem dó milhares de vidas.
Famílias desesperadas,
Emergências entupidas.
Grandes cidades desertas,
Todas parecendo certas
Babilônias decaídas.

Até parece que a Terra
Parou e não mais se move.
O trabalho dos heróis
Da saúde nos comove,
Correndo o risco, coitados,
De serem contaminados
Por Covid-19.

Dezenas de corpos juntos
Numa só vala enterrados,
Entes queridos que foram
Pela peste dizimados,
São o cenário brutal
De uma guerra mundial,
Com milhões prejudicados.

Não se trata de uma guerra
De Portugal contra Espanha,
Nem França contra Inglaterra,
Nem Brasil contra Alemanha,
Mas contra um bicho invisível
Que com seu poder terrível
Na batalha sempre ganha.

Será o coronavírus
O tal Terceiro Anticristo,
O Grande Rei do Terror,
Por Nostradamus previsto?
Com tanta modernidade,
Será que a humanidade
Esperava tudo isto?

O Grande Rei do Terror,
Se Nostradamus não erra,
Teria origem na China
E tanta maldade encerra,
Que seria com estrondo
O monstro mais hediondo
Que veio à face da terra.

Que tenha ou não procedência
A chamada profecia,
Hoje infelizmente a terra
Vive o pânico e agonia,
Todo mundo em seus retiros,
Tudo por causa de um vírus
Causador da pandemia.

Será que de outro planeta
O vírus é oriundo?
Não se sabe. O que se sabe
É que a cada segundo
Estamos vendo na terra
Cenas da Terceira Guerra
E acenos do fim de mundo!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

RECADO EM CATORZE VERSOS

Pedro Paulo Paulino 

Em casa, no momento, permaneça,
Enquanto a peste assola a terra inteira,
Com rapidez, sem freio, sem barreira,
Sem que a ciência a cura então conheça.

Se for sair, contudo, não esqueça
A máscara que é sua companheira.
Isolar-se tornou-se uma bandeira.
Atente para as regras e obedeça!

Aquele abraço amigo entre nós dois
Não é possível já, ficando assim
Guardado calmamente p’ra depois.

Diz-se: “formiga quando cria asa,
Ou quer perder-se ou busca o próprio fim”.
Portanto, mais que nunca, fique em casa!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

QUANDO O DIA DA MENTIRA SE TRANSFORMAR EM VERDADE


Hoje é Dia da Mentira,
Se não lembra, então anote.
Por isso, por brincadeira,
Vamos pegar esse mote,
E para suavizar,
Vamos a datar chamar
De simples Dia do Trote.

Hoje é dia da potoca,
E pra festejar o dia,
Vamos mentir um pouquinho,
Porém, mentira sadia.
Começando então agora
Com a notícia da hora:
Acabou-se a pandemia.

Depois de longa batalha,
Foi feliz o arremate
Da ciência contra o vírus
Que nesse duro combate
Perdeu seu poder de fogo,
A ciência vira o jogo
E lhe dá um xeque-mate.

O vírus não mata mais,
Foi erradicado o mal,
Através de uma vacina
Contra o contágio letal.
Felizmente o ser humano
Retoma o cotidiano
E o mundo volta ao normal.

Na manchete do jornal
Lê-se em letras garrafais:
O fim do coronavírus
– Já matou, não mata mais!
Pois finalmente a ciência
Deu cabo da virulência
E o mundo respira em paz.

Nas colunas dos jornais
Lê-se também a notícia:
O Brasil, pra se viver,
Está mesmo uma delícia,
Com trabalho e com decência,
Não tem mais nem violência
E nem caso de polícia.

Acabou-se o desemprego,
Todos têm ocupação.
O país está nos trinques
E sem risco de inflação.
Ministro da economia
Só deseja hoje em dia
O bem da população.

Bozo, com educação,
Fala com os jornalistas.
Não é mais o presidente
Totalitário e fascista.
E pra melhor governar,
Pretende se filiar
Ao Partido Comunista.

O “gado” não veste mais
O terno verde amarelo.
Estão todos de vermelho,
Calçando apenas chinelo;
Modificou a divisa
E a marca na camisa
São a foice e o martelo.

Cunha, Temer e Aécio
Não são mais os salafrários
Nem golpistas descarados
Nem bandidos ordinários.
E a classe trabalhadora
Terá da classe opressora
Triplicados seus salários.

Reforma da Prefidência
Mudou em todos sentidos,
Os seus pontos já não são
Nem sequer mais parecidos,
Porque vai daqui pra frente
Beneficiar somente
Os mais desfavorecidos.

Donald Trump resolve
Pedir paz à terra inteira.
Não é mais rival do México,
Acabou toda fronteira.
Fez as pazes com Iraque
E não mais fará ataque
Contra a terra petroleira.

A paz será a bandeira
Para toda a humanidade.
Não há mais desunião,
Só amor, fraternidade.
Tudo isso está na mira
Quando o Dia da Mentira
Se transformar em verdade!...

quinta-feira, 26 de março de 2020

CRÔNICA DOS DIAS DE INSULAMENTO


Pedro Paulo Paulino

A cidade amanhece e anoitece vazia. Os dias, de domingo a domingo, assumiram rosto de grande feriado como a Sexta-feira Santa. A paz e o silêncio, de mãos dadas (esses podem dar-se as mãos!) passeiam nas vielas, ruas e avenidas; sentam na praça, embora nada conversem, pois o silêncio e a paz entendem-se telepaticamente. O vento, a luz, as borboletas também se locomovem livres nos labirintos desses vários mundos a que chamamos cidades e que são ordinariamente território estrondoso da agitação, do vozerio e dos decibéis invasivos da parafernália humana.

Nesses dias incomuns e longos, quem por força das circunstâncias não deve transitar em plena liberdade são os verdadeiros donos desses habitats: os humanos, tolhidos repentinamente em seu vaivém eterno em busca do tudo e do nada num só tempo. Um inimigo que de tão pequeno é invisível nos manietou. E nos enjaulou em nossos tugúrios de pedra e nos fez reféns da espada diabólica de uma peste mundial, eufemisticamente chamada de pandemia.
A humanidade, em seu tumulto incessante, em sua atividade formidável, não contava decerto com a astúcia de um serzinho a princípio insignificante e sua invasão insidiosa nos domínios do fenômeno humano.

De repente, um verme inconcebivelmente mau agarra o mundo e o bota de ponta-cabeça. Um profeta apocalíptico que estaciona o sol do trabalho, do progresso e da dinâmica da vida dos homens. Um intruso que altera comportamentos, regras, etiquetas e dita novas ordens contrárias mesmo ao bom senso. Ser solidário agora, por incrível que possa, é não estender a mão, é se afastar um do outro e se enclausurar dia e noite. Ser bonzinho agora é ficar distante do próximo, por contraditória que seja esta afirmação.

Em meio ao dilúvio pandêmico, convertemos nossos lares em arcas salvadoras, e dentro delas não sabemos ainda quando pisaremos terra firme, se em quarenta dias ou menos ou mais. Insulados, estamos testando nosso estoicismo, nossos princípios e crenças hipoteticamente inabaláveis.

No epicentro do pandemônio, adaptação tornou-se a palavra de ordem. E assim, usos e costumes e coisas vêm-se amoldando a esses dias tão incertos. Nos estádios esportivos transformados em emergência, entra em campo o time operoso a serviço da saúde pública, numa partida nervosa contra o adversário sinistro. Nas arquibancadas, somente o tempo e a esperança assistem de camarote ao duelo dos exércitos da salvação contra o gladiador virulento, numa batalha singular.

segunda-feira, 23 de março de 2020

CORONAVÍRUS TORNOU-SE A PIOR CELEBRIDADE!


















Autor: Pedro Paulo Paulino

O nome mais conhecido
Neste mundo, atualmente,
Não é papa nem artista,
Não é rei nem presidente.
É um bichinho invisível
Que com seu poder incrível
Vem matando muita gente!

Embarca pra todo canto,
Sem nunca pagar passagem.
Em tudo quanto é veículo,
Ele faz sua viagem,
Sem precisar passaporte,
Com a companheira morte
Na sua cruel bagagem.

Surgiu no mês de dezembro,
Lá pelos confins da China.
Seja qualquer território
Onde ele passa domina.
Não teme calor nem frio
E tornou-se um desafio
Pra moderna medicina.

Descobrir uma vacina
Contra o bicho, eis o problema
De difícil solução
Nessa conjuntura extrema!
Com a fúria de um demônio,
Não se viu tal pandemônio
Nem nas telas do cinema.

Qual Besta do Apocalipse
Velozmente galopando,
Por todos os continentes
Ligeiro foi se espalhando.
Contamina até no vento,
Por isso a cada momento
Vai-se o mal multiplicando...

Coronavírus não tira
Um momento de descanso.
Nada no mundo detém
Seu assustador avanço.
E no ponto a que chegou,
A pandemia fechou
O mundo para balanço.

Já invadiu toda a Itália
Da famosa Mona Lisa,
Foi à Praça de São Pedro
Subiu a Torre de Pisa.
Até o Papa Francisco
Está no grupo de risco,
Pois o vírus não alisa.

Detesta a terceira idade,
Com quem é mais violento.
Tornou-se um grande flagelo
Num mundo já virulento,
Com os seus terríveis danos
Provocando entre os humanos
Muito mais isolamento.

Opera feito um danado,
Não sabe o que é preguiça.
Como embaixador do mal,
Seu tempo não desperdiça.
Por causa dele, nem mais
Tem o abraço da paz
Na hora da santa missa!

Com seu poder diabólico
O Atlântico atravessou,
Até com a comitiva
Do Planalto viajou,
E em dada ocasião,
De mala e cuia na mão
No Brasil desembarcou.

No país que um arrogante
No poder fala mais alto,
Coronavírus chegou
E foi logo dando um salto.
Só faltou salva de tiros
Para receber o vírus
No Palácio do Planalto.

Pois o presidente então,
Com toda a sua arrogância,
Fez foi manifestação
Na mais grave circunstância,
Como um louco que, afinal,
Não dá ao terrível mal
Sua devida importância!

Se lá nos países ricos
Causa tanto prejuízo,
Imagine em um país
Onde um biltre sem juízo
Governa arbitrariamente;
O corona, certamente,
Encontrou seu paraíso.

De que valem das nações
Seus poderes militares,
E dos Estados Unidos
As ogivas nucleares,
Se o mundo fica refém
De um vírus que apenas tem
As funções rudimentares?...

O corona não distingue
Primeiro e terceiro mundo.
Igualou a humanidade
Num desespero profundo,
Velozmente se espalhando,
Multidões contaminando
A cada simples segundo.

Colabore na campanha
Que por ora se promove.
O vírus se espalha mais,
Se o povo se locomove.
Fique em casa enquanto passa
A temível ameaça
Da covid-19.

E que sirva de lição
Para toda a humanidade,
Escrava do capital,
Longe da fraternidade.
Basta um vírus, simplesmente,
Pra desbancar de repente
A nossa pobre vaidade!...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UM GRILO QUE HOJE PÁRA DE CANTAR



Pedro Paulo Paulino

Enterrou-se esta manhã, no cemitério de Vila Campos, o corpo de Francisco Edilson Uchoa Cruz. Por este nome completo, poucos, até mesmo entre seus conterrâneos, o identificam. “Grilo”, na verdade, foi seu nome de guerra, desde que nasceu. O apelido, reconheça-se, foi um dos mais premonitórios. Pois durante toda a sua vida, Grilo justificou com absoluta espontaneidade a alcunha que recebera ainda no berço e com a qual se tornou um tipo bastante popular.
Tagarela, seu barulho era inversamente proporcional à sua estatura de homem pequeno. Porém, agigantava-se interiormente quando tocado pelos eflúvios etílicos – aos quais se entregou de vez. Inebriado, fazia barulho por todos os grilos do mundo, em especial quando era provocado. Seu tipo jocoso, extrovertido e agradável o fez conhecido na parada de Vila Campos, interior de Canindé. Tornou-se o mascote da beira da estrada, no local onde pontuou por tantos anos.
Fazendo incontáveis amizades com transeuntes habituais, Grilo era querido por todos, visto que se tornou uma atração, incorporando-se à rotina do vilarejo. De modo generoso, fazia o papel também de cicerone, informando caminhos e distâncias, com uma gentileza amável. As gorjetas que ia acumulando durante o dia subsidiavam a sua “tequila”. No quente da carraspana, mentalizava-se um hércules, vigoroso, bravo, o que só o tornava ainda mais cômico. Satisfazia-se em fazer rir, como um saltimbanco rústico, cujo palco era a vida livre. Instigado pela gaiatice geral, sucediam-se, nessas circunstâncias, cenas e lances da mais pura e boa molecagem cearense. Ganhou fama também na cidade, citado como foi em programas rádio.
Grilo tinha seu mundo, seus amigos, suas paixões e convicções; exaltava-se, mas era nobre, leal e puro. Abdicou de tudo em troca de uma existência erradia, que durou seis décadas, num combate sem trégua consigo próprio, feito mesmo cantiga de grilo. Seu cricri agora é saudade. Capitulou sem se lastimar; do contrário, agradeceu aos que o assistiram, pois em seus últimos dias, não lhe faltaram a bondade e o carinho de familiares e amigos. Seu enterro, na manhã bucólica de hoje, realizou-se enquanto chovia – talvez uma última saudação da natureza ao Grilo humano que já não canta mais...


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

SONETO PREMIADO


Em outubro deste ano, inscrevi-me no Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. Em sua 28ª edição, o certame teve mais de 500 obras inscritas, entre poesias e sonetos. O evento para divulgação oficial dos nomes dos ganhadores aconteceu na noite de 29 de novembro. Meu soneto intitulado 𝑸𝒖𝒊𝒙𝒐𝒕𝒊𝒔𝒎𝒐 obteve o segundo lugar entre os cinco melhores, segundo a comissão julgadora. Além de certificação, os vencedores receberam uma premiação em dinheiro. A mim, particularmente, o que mais me honra é ganhar um prêmio com o nome de um gênio da poesia que leio e releio desde minha puberdade. 

𝑷𝒐𝒓 𝒒𝒖𝒆 𝑳𝒆𝒐𝒑𝒐𝒍𝒅𝒊𝒏𝒂? Augusto dos Anjos nasceu na Paraíba em 1884, bacharelou-se em Direito em Recife e transferiu-se para o Rio de Janeiro para exercer o magistério. Em 1914, mudou-se para Leopoldina, indicado para dirigir o colégio estadual daquela cidade. Nesse mesmo ano, contraiu tuberculose e morreu, com apenas 30 anos. Em homenagem ao habitante ilustre, a cidade de Leopoldina mantém o Museu Espaço dos Anjos, que inclui objetos pessoais do poeta, e realiza anualmente o Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos. Aos idealizadores e organizadores do certame, sinceros parabéns pela iniciativa cultural em memória de um dos maiores poetas brasileiros! (Pedro Paulo Paulino)

QUIXOTISMO

Quisera ser às vezes Dom Quixote,
De escudo e lança e rígida armadura,
Ir pelo mundo à cata de aventura,
Montado em Rocinante a todo trote;

Velar por minha amada em noite escura,
Fazer de alguma estrela o meu archote,
E ter da fantasia o extremo dote,
Como o da triste, singular figura.

Mas para ser Quixote verdadeiro,
Se por um lado tenho Rocinante,
Por outro lado falta-me escudeiro.

E ainda tendo-os, abandono a ideia
Por falta do não menos importante
Fundamental amor de Dulcineia.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019


HUMBERTO DE CAMPOS – 133 ANOS

Pedro Paulo Paulino

Obra escolhida de Humberto de Campos,
lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda
No dia 25 de outubro de 1886 nascia Humberto de Campos Veras, na então cidade maranhense de Miritiba. Autodidata, foi poeta, contista e crítico literário. Mas se destacou como o cronista mais lido na década de 1920 e começo dos anos 30, na imprensa do Rio de Janeiro, para onde mudou-se depois de trabalhar como caixeiro na bodega de um tio, na Parnaíba, Piauí. Menino pobre, órfão de pai aos seis anos, descobriu o talento literário ainda em sua pequena Miritiba que hoje se chama Humberto de Campos. Sua obra completa inclui crônicas, contos, poesia e memórias. Aos 33 anos entrou para Academia Brasileira de Letras. Também com o pseudônimo de Conselheiro XX, assinou escritos que atraíram grande público. Humberto de Campos foi um dos escritores brasileiros mais lidos em seu tempo e suas obras tornaram-se presentes nas bibliotecas de todo o País, algumas sendo adotadas em escolas públicas. Sua notável popularidade e identificação com o espírito nacionalista consagraram-no também na política, elegendo-se deputado federal pelo Maranhão. O estilo conservador de escrever, embora numa linguagem bem acessível e dinâmica, entrou em confronto com os ditames da Semana de Arte Moderna de 1922; mesmo assim, conseguiu romper a fronteira entre o velho e o novo na literatura feita no Brasil, e por isso seu nome ainda hoje encontra visibilidade. Segundo Humberto de Campos Filho, que a exemplo do pai seguiu a carreira jornalística, ele foi um homem que sempre viveu modestamente e inteiramente dedicado à vida literária. Essa revelação está na obra escolhida de Humberto de Campos, lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda., composta de dez dos 40 volumes da bibliografia completa do escritor maranhense. No primeiro volume, Poesias completas, Humberto de Campos Filho relata detalhes da vida do pai, reconhecido largamente em seu tempo, pelo público e pela crítica, mas em constante preocupação com a notoriedade no futuro. “Eu queria a vida para consagrá-la principalmente às minhas letras; à realização de uma obra que trazia no pensamento. Isso tornou-se impossível. E minhas horas são consumidas, todas, na conquista do pão de cada dia”, desabafa Humberto de Campos em seu Diário secreto. Em 1986, foi lançado pela Universidade Federal Fluminense – EDUFF, o livro O miolo e o pão, em homenagem ao centenário de Humberto de Campos, com estudo crítico e antologia do autor de O monstro e outros contos e um dos artistas nordestinos mais populares da literatura brasileira. O título do livro alude a outra citação de Humberto: “Passou a vida a insistir no comércio mais idiota deste mundo: vendia miolo da cabeça para comprar miolo de pão” (Os Párias). Humberto de Campos morreu no dia cinco de dezembro de 1934, aos 48 anos, deixando mulher e três filhos. Durante muito tempo lutou contra uma doença rara chamada acromegalia, um distúrbio na glândula hipófise. Problemas relacionados a cálculos na bexiga, no entanto, foram a causa de sua morte. Depois de uma operação para retirada dos cálculos, Humberto de Campos passou cerca de um ano urinando através de uma sonda implantada abaixo do umbigo. Depois desse período, uma nova cirurgia foi necessária para retirada da sonda. O pavor da anestesia raquidiana, que o já  traumatizara, fê-lo exigir do médico uma anestesia geral, a despeito dos riscos que corria. Morreu de um ataque do coração enquanto eram feitos os pontos da última sutura. Enxergou com profunda sensibilidade a vida, sendo-lhe poupado ver a própria morte.

CURIOSIDADES DE HUMBERTO DE CAMPOS

♦ Ainda existe na cidade piauiense de Parnaíba o cajueiro centenário plantado por Humberto de Campos e que inspirou uma de suas crônicas mais conhecidas.

♦ A biblioteca de Humberto de Campos, com alguns milhares de volumes, foi vendida pela família do escritor para o governo do Estado do Maranhão, por 40 contos.

♦ Ainda depois de morto, Humberto de Campos foi motivo de grande polêmica. Por volta de 1941, novas publicações assinadas por ele, como “psicografadas” por Chico Xavier e editadas pela Federação Espírita do Rio de Janeiro, ganharam grande popularidade em todo o Brasil, fazendo com que a família do escritor movesse uma ação judicial reivindicando direitos autorais. A família perdeu a causa.

♦ No final dos anos 50, o nome de Humberto de Campos é estampado novamente na imprensa. O anúncio da publicação do seu Diário secreto causa alvoroço no meio intelectual brasileiro. Mesmo assim, seu diário é publicado em fascículos pela revista O Cruzeiro e depois editado em dois volumes.

♦ Na edição de 3 de setembro de 2008, a revista Veja trazia em sua coluna “Radar”, assinada pelo jornalista Lauro Jardim, a seguinte nota: “VENDE-SE UM FARDÃO - Serão leiloados nos próximos dias no Rio de Janeiro o fardão e o espadim da Academia Brasileira de Letras usados pelo escritor maranhense Humberto de Campos. O lance mínimo é de 30. 000 reais – aliás, o mesmo preço de um fardão novinho em folha. A vestimenta tem quase noventa anos e estava guardada desde 1934, quando Campos morreu. Quem tiver a intenção de desfilar por aí fantasiado de imortal não deve perder a oportunidade. Não é todo dia que se consegue um fardão original, até porque a maioria dos acadêmicos é enterrada com seus trajes de gala”.

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RODOLFO TEÓFILO

Humberto de Campos

QUANDO eu conheci Rodolfo Teófilo, em 1906, tinha ele já sua grande barba toda grisalha. Era um homem alto, magro, de rosto fino, que a barba tornava mais longo, e que vivia enrolado em uma sobrecasaca negra, abotoada de cima a baixo. Fantasiado assim de guarda-chuva, trazia, para evitar equívocos, outro guarda-chuva na mão. E eu confesso que, desde que o vi pela primeira vez, senti uma comovida simpatia por aquele homem, ao mesmo tempo que recebia uma impressão funda, e segura, da sua capacidade de sonho e de fé. Um homem que anda de guarda-chuva no Ceará, dispõe, necessariamente, de uma grande força de imaginação.
Era isso nos dias mais ingratos da existência do romancista. Dividido em dois agrupamentos políticos, o Ceará fervia, desde as praias do mar até às chapadas do Cariri, de entusiasmo e de indignação partidárias. As penas dos jornalistas ciscavam, no papel branco dos jornais, pondo à superfície dele, com as paixões próprias, os vícios ou defeitos dos adversários. Sem descer às discussões pela imprensa, Rodolfo Teófilo havia ficado, como eleitor, em oposição ao governo do Estado. O melhor governo é, sempre, no Brasil, o do partido que vai subir. E Rodolfo Teófilo era brasileiro e possuía, como todo brasileiro, espírito messiânico.
Essa definição de atitude custou, todavia, caro, ao velho sonhador. Lente de História no Liceu Cearense, foi removido imediatamente, como castigo, para a cadeira de grego. Debalde protestou ele contra essa confusão, alegando, como coautor da “Bo­tânica Amorosa”, que as raízes gregas nada têm com as dos vegetais. O governo manteve o ato. E Rodolfo Teófilo, que não sabia grego, foi demitido por abandono do cargo, exposto a todas as conseqüências de uma pobreza honrada, corajosa e inflexível.
Para viver, foi fabricar, então, na sua chácara de Cauípe, vinho de caju, cuja fermentação e filtragem aperfeiçoou, e que tomou, no comércio, a denominação de “néctar”. Aquela abelha não fabricava senão mel. Doce de alma e doce de coração, escolheu, para explorar, a mais doce e amável das indústrias. Não sabia grego, mas era um irmão de Aristeu, isto é, do primeiro grego que domesticou abelhas.
Não foi, todavia, na sua indústria, mas no seu apostolado, que o governo cearense passou a atacar o venerando e suave trabalhador. Toda a vez que a seca se manifesta­va no sertão, a companheira da fome era, sempre, a varíola. Farmacêutico, Rodolfo Teófilo chamou a atenção das autoridades sanitárias para a vacinação intensa. A ciência provinciana não admite, porém, insinuações. Só os oposicionistas fazem observações públicas ao governo ou aos seus auxiliares. E Rodolfo Teófilo passou a figurar no índex governamental.
Seu coração não se conformava, entretanto, com a devastação que a varíola fazia no Ceará. Menos para afrontar o governo do que para substituí-lo no exercício de um dever caprichoso, passou a vacinar, por conta própria, nas vizinhanças da capital. Adquiria vitelos, e fabricava uma das melhores vacinas do Brasil, a qual era distribuída gratuitamente pelos médicos locais que a pediam, ou enviada, independente de remuneração, para os Estados vizinhos. O governo do Estado multou-lhe o laboratório. E como se isso não bastasse, o órgão oficial do partido governista fazia contra a vacina utilizada pelo filantropo a mais terrível e desumana das guerras, aconselhando a população que a não aceitasse, porque era venenosa e causava a morte!
Não obstante essa campanha, Rodolfo Teófilo não esmorecia. Com a sua voz mansa, os seus olhos bons, e a sua derramada barba de apóstolo, andava de casa em casa, pedindo licença para premunir a família contra a epidemia reinante. Vacinada a maior parte da população da capital, passou ele, com a mesma dedicação, a exercer o sacerdócio entre a gente do interior. Escanchado em um burro, e levando como bagagem científica apenas a caixa de soro e alguns remédios suplementares, atirou-se para os municípios mais próximos solicitando, de choça em choça, de fazenda em fazenda, de povoado em povoado, permissão para vacinar as pessoas que ali moravam. Os caboclos o recebiam, quase sempre, com acentuada desconfiança, quase com hostilidade. E foi, então, quando, segundo se contava no sertão, Rodolfo Teófilo inventou uma linda história cristã, que teria repetido mil vezes, nos terreiros das cabanas e nos alpendres das casas de campo. Mais tarde, ele contestou, em carta que me escreveu, a paternidade do conto. A defesa foi, porém, tão frágil que me pareceu uma confirmação.
“Há muitos anos, — começava, foi uma grande cidade, capital de um grande reino, atacada pelas bexigas, que mataram quase toda a população. Dentro de pouco tempo estava a cidade quase deserta. Quem não morreu, fugiu, abandonando casa, fazenda, riquezas, tudo. Havia, entretanto, entre o povo, um homem muito bom, que, tendo perdido já todos os parentes, resolveu deixar a terra empestada. Arrumou a sua roupa, e partiu. Assim, porém, que chegou fora da cidade, encontrou-se com uma mulher muito formosa, que puxava uma vaca toda preta, seguida de um bezerrinho, alvo como o algodão. A mulher, ao vê-lo, perguntou-lhe por que fugia. Como ele lhe explicasse, ela lhe pôs a mão no ombro, e disse: ‘Não tenhas medo, meu filho. Volta à cidade com esta vaca e este bezerrinho. Quando chegares lá, tira uma gota do seu leite e, com ele, faze três cruzes em cada braço, em todas as pessoas que se quiserem salvar. Toda aquela em quem fizeres isso não será atacada pela peste’. Aí, a mulher, que não era outra senão Nossa Senhora, desapareceu, enquanto que o fugitivo regressava ao ponto de partida, onde fez o que ela lhe havia dito, e salvou todo o resto do povo. Essa vaquinha — acrescentava o narrador, — teve depois outras crias, e é do sangue e do leite delas que eu trago algumas gotas, para salvar das bexigas os que são filhos de Nossa Senhora.”
O sertanejo, ainda desconfiado do homem, mas confiando em Deus, entregava prontamente o braço, e o braço dos filhos, e o da mulher. E foi por esse meio que Rodolfo Teófilo, sozinho, extinguiu a varíola, até hoje, no interior do Ceará.
E esse benemérito acaba de morrer... Há um homem de menos na terra. Mas há, a esta hora, — se o céu existe, — mais um justo entre os justos. (Destinos)

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