quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CORDEL HISTÓRICO

Lendário nos sertões de Canindé, José Antônio de Sousa Uchoa (1824-1918) tornou-se conhecido como capitão Zé Antônio do Fechado e seu nome gravou-se na oralidade sertaneja como um homem bravo e destemido. A fazenda denominada Fechado pertenceu a seu pai, José Bernardo de Sousa Uchoa, um dos homens mais influentes do seu tempo em todos estes sertões, tanto no campo político como econômico. Tinha domínio sobre terras e sobre gente. Seu filho José Antônio era o braço direito do pai nas decisões mais importantes. Uma dessas decisões aconteceu no dia 30 de agosto de 1852, em Canindé, durante eleição de vereadores e juízes de paz. Consta que o pleito transformou-se em conflito que começou dentro da igreja e no qual foi assassinado o tenente-coronel Manoel Mendes da Cruz Guimarães. O acusado do crime foi José Antônio, então com 28 anos. O tribunal de júri o absolveu, como o absolveu pelo julgamento de outros crimes a ele atribuídos. Segundo as narrativas da época, a fazenda do Fechado foi palco de desafios sangrentos, nos quais o capitão Zé Antônio enfrentou até mesmo as forças policiais do regime imperial. Sobre ele, escreveu o cearense Gustavo Barroso (1888-1959) um artigo intitulado “Senhor feudal do Fechado”, publicado na extinta revista O Cruzeiro. “Diziam os amigos que era homem valente, cavalheiresco e generoso, capaz de praticar as mais belas ações.
Acusavam-lhe os inimigos que não passava duma fera e moviam-lhe contínua, implacável perseguição. Refugiado em sua fazenda do Fechado, cercado de acostados fiéis, verdadeiros bravi, ele acabou não se deixando mais citar pela justiça e resistindo à prisão, de armas em punho. Certa vez, um destacamento de mais de cem praças cercou-lhe a casa e foi repelido com muitas perdas, depois de violento assalto.” Sobre o capitão Zé Antônio do Fechado, chegou-me às mãos um folheto de cordel datado de agosto de 1967 e intitulado “Biografia e batalha de José Antônio do Fechado”. O autor, um certo Francisco Justa de Araújo. Não se aproxima em nada de uma biografia e o enredo da “batalha” é por demais impreciso. O trabalho, escrito em linguagem simples e em redondilhas que coxeiam na métrica, apresenta-se em quadras, fugindo à tradição do cordel que prima pela sextilha ou setilha. Porém, é este o único cordel que se conhece sobre o caudilho sertanejo (que morreu com 94 anos), e como tal tem seu indubitável valor histórico. (PPP)

BIOGRAFIA E BATALHA DE
JOSÉ ANTÔNIO DO FECHADO

Capa do folheto de cordel (1967)

Autor: Francisco Justa de Araújo

José Antônio do Fechado
Tinha um porte regular
O homem experimentado
Que nasceu para brigar

Lá na Fazenda Fechado
Um lugar ermo e central
Aonde foi bem desinado
O exército imperial

Cercado pela política
E muitas vezes por cangaceiros
Como a tragédia malícia
Que lhe fez Luiz Monteiro

Sobre o mesmo feiticeiro
Às vezes o feitiço cai
Quatro mortos no terreiro
Ali não houve papai (sic)

Morreu o Simão Monteiro
Que era irmão do agressor
E dois pracinhas, bem ligeiro
E também o cabo Vitor

E saindo para o terreiro
José nunca esmoreceu
Baleou o Luiz Monteiro
Mas foi feliz, não morreu

As façanhas do venturoso
Todas não posso contar
O homem mais corajoso
Que nasceu no Ceará

Quem não conhece a história
Talvez pense que é mentira
Como este contou vitória
No cerco do Sucupira

O capitão Sucupira
O Carolino de Alencar
Disse: «Eu nunca contei mentira
O custo era lhe cercar

Venci dezoito batalhas
Brigando no Paraguai
E hoje, seu torto canalha
Você preso ou morto vai»

Aumentou a discussão
Travou-se o palavreado
José Antonio tinha ação
Não pôde ficar de lado:

«Eu não me assino por torto
Nem assim fui batizado
José Antonio de Sousa Uchoa
Só eu grito no Fechado

Venceu dezoito batalhas
Do jeito que o senhor diz
Hoje, intera dezenove
Talvez não seja feliz»

– «Nunca cerquei valentão
Pra não levar preso ou morto
De onde veio esse leão
Tão desaforado e torto?

Nunca me assustei de gritos
Nem do tamanho da cobra!»
-- «Só depois dos ovos fritos
Vê-se a manteiga que sobra»

Tudo era escuro e sem luz
E os fins-dágua inda chovia
Da serra do Bom Jesus
Passava uma neve fria

E o capitão espreitava
Olhando o que vem e vai
Parece que se lembrava
Dos campos do Paraguai

Às quatro da madruga
Grande silêncio reinava
Toda a tropa preparada
Porém, ninguém conversava

No curral, vacas mugiam
E um novilho gaiteava
Parecia dar sinal
Da cena que se passava

Corria a brisa fagueira
E os gatos amiudavam
Lá na copa da aroeira
Os passarinhos cantavam

Logo veio uma neblina
E o capitão se abrigou
Soldado de disciplina
Mas para o alpendre entrou

Recostou-se na forquilha
E olhava as faces do dia
Fingindo uma maravilha
O coração furioso

Bem assustado batia
Quando detonaram um tiro
Que estremeceu o chão
Esse não perdeu o giro

Atingiu o capitão
E o capitão, baleado
Logo perdeu a firmeza
Abandonando o Fechado

Seguiu para Fortaleza
A força veio escolhida
E tinha um sargento valente
Disse: a ordem será mantida

E vai morrer muita gente
Juntando mais companheiros
Fez o cerco reforçado
Mas lá do fim do terreiro

Pois já estava cismado
José Antonio não deixava a sua espingarda
E prestava toda atenção
Esperando a retaguarda

Dos caboclos do Feijão
E disse para o Alexandre
É coisa que me admiro
Aquele voltar tão grande

E você perdeu esse tiro!
O Dr. Chico Barbosa
Era amigo de José
E eu digo, fora de prosa

Assim é que amigo é
Nenhum esforço ele mede
Pra socorrer o amigo
Este morava na sede

E a viagem foi de perigo
Num cavalo, a toda rédea
Correu até no Fechado
Não tem quem calcule a média

Em que tempo foi tirado
Dez léguas em quatro horas
Causou admiração
Com a curva e as demoras
Porque foi pelo Feijão

Chegando lá no Feijão
A turma conhecia a arte
Zé Pereira, o capitão
Todos tinham bacamarte

O «doutor», com os caboclos
deixou o plano traçado
Vocês vão de pouco a pouco
Se encostando no Fechado

Até que fiquem bem perto
A ponto de atirar
Porque, se o plano der certo
A coisa vai melhorar

Eu vou para o Zé Bernardo
Como quem vai passear
E o sargento vai chamado
Para um particular

Quando o sargento chegar
Cá, eu farei a demora
Não tem por quem esperar
Façam fogo, está na hora

O «doutor» fez um bilhete
De homem muito educado:
«Caro sargento ou cadete
Ficarei muito obrigado

Peço chegar até aqui
Na casa de Zé Bernardo
Pesar que nunca lhe vi
Mas estou bem informado

Ele é pai de Zé Antonio
E está se sentindo mal
De um acordo eu disponho
Conforme nosso ideal

Sei que conhece a razão
E o direito imperial
Zé Bernardo é capitão
Da Guarda Nacional»

O sargento leu o bilhete
Ficou muito satisfeito:
«Sou sargento e não cadete
Vou até lá, é o jeito»

Logo saiu animoso
Ia pensando consigo:
«Querem entregar o criminoso
Conheceram que há perigo»

Quando o sargento chegou
Na casa do capitão
Ali, os dois encontrou
E teve boa saudação

O sargento entro na sala
E não deu tempo conversar
Ouviu o pipoco de bala
E fumaça levantar

Os caboclos atiraram
Zé Antonio respondeu
Muitas balas se cruzaram
Só escapou quem correu

Cada um conhecia a arte
Se deitava sobre o chão
Disparava o bacamarte
Parecia ser canhão

O rugido de fumaça
Parecia fogo em broca
Ali, não havia graça
Nem se contava fofoca

Quando findou o tiroteiro
Não se viu mais um soldado
Nem o sargento, mas veio
De lá fugiu assombrado

Quando limpou a fumaça
Zé Antonio saiu fora
Olhando e achando graça
Disse: «É tempo, eu vou embora

Lembrança ao Dr. Chico
E aos Pereira do Feijão
Não me assombro com fuxico
Mas pode haver traição

Vou passar uns dias fora
Não sei quando dou notícia
Quero ver que fazem agora
O exército e a polícia»

Levava o plano consigo
Já tinha toda certeza
Para a casa de um amigo
Que morava em Fortaleza

Aonde passou dois anos
Na Capital do Estado
Fazendo todos seus planos
E lembrando do Fechado

O «doutor» chefe de político
Veio até Canindé
Trouxe dez policiais
Para seguir o José

Com muitas tropas valentes
No nosso Estado
Por todos sertões distantes
Caçando o homem encantado

Mas nada se decidia
Foi todo o tempo perdido
A polícia nada viu
Tudo mudou de sentido

Dr. Chico, o seu amigo
Um homem de muita fé
Enfrentou grande perigo
Mas deu a fuga a José

Esse foi muito acusado
Pelo caso do Fechado
Foi preso e foi processado
E respondeu o jurado

Mas nunca botou franqueza
Chamou um advogado
Não conseguiu a defesa
Mas logo foi apelado

Foi no tempo do Império
A justiça não se vendia
O tribunal era sério
E não como hoje em dia

Criminoso e insolente
Vive a palestrar na rua
Quero ver quem me desmente
A verdade nua e crua

José Antonio esperava
Melhorar sua política
Porque de baixo estava
Lhe faziam muita crítica

Logo a política subiu
E ele desencantou-se
Para o Canindé seguiu
Entrou no júri e livrou-se

Dr. Chico, o bom amigo
Também tinha se livrado
Depois de tanto perigo
Que este havia enfrentado

Capitão José Bernardo
Tinha grande posição
Um fazendeiro abastado
Residente no sertão

Da política ele era um testa
E passou a perseguição
E deu uma grande festa
Que fez admiração

Veio gente da Capital
Também de Baturité
Da cidade de Sobral
E da vila do Coité

Zé Antonio do Fechado
Não foi só um valentão
Foi um criador de gado
E agricultor do sertão

Naquele arsenal de guerra
Era tudo preparado
Tinha um açude de terra
E engenho de ferro montado

Grande plantio de cana
Fabricação de aguardente
Às vezes, a gente se engana
Ou a sorte engana a gente

Seus bens foram destruídos
Devido à perseguição
Os homens mal-entendidos
Fizeram a destruição

Com a péssima atitude
A política imperial
Arrombaram o açude
Mataram o canavial

José Antonio foi vítima
De grande perseguição
Contrária à sua política
Que estava na oposição

Os dissabores sentiu
O golpe ia ser fatal
Porém, um dia subiu
Seu Partido Liberal

Foram essas condições
Que ele soube aproveitar
Das muitas acusações
Também pôde se livrar

Não poupava o inimigo
Porém, não dava emboscada
Mas esse tinha o perigo
De a conta ser ajustada

Mas qual ferro, o delegado
Lá da vila do Jacu
Esse foi bem açoitado
A corda de couro cru

Zé Antonio tinha escala
A quem falava a vida alheia
O grande era na bala
O pequeno era na peia

Neste sertão desolado
José Antonio viveu
Nunca foi acovardado
A um inimigo seu

Até da longa existência
Zé Antonio teve sorte
Caiu a grande demência
Para Deus lhe dar a morte

Com noventa e quatro anos
José Antonio morreu
Não havendo mais tirano
Que foram inimigos seus

Essas histórias narradas
São coisas que muito sei
Bem pertinho do Fechado
Eu nasci e me criei

Meu nome é Francisco Justa
Não gosto de anarquia
Com verdade enfrento a luta
No campo da poesia

............

Com a colaboração de Francisco de Assis de Freitas.

6 comentários:

  1. Registro oportuno. O perfil, digamos, mais lírico, que pode ser encontrado desse cidadão, senhor feudal do Fechado, é de Gustavo Barroso in À Margem da História do Ceará... Soube que também há traços em Heróis e Bandidos e Almas de Lama e Aço,recém relançados, mas ainda não pude conferir... Deve ter no empório do Geraldo, poeta.

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  2. O Sr. Francisco Justa de Araújo, nunca frequentou a nenhuma escola, porém era portador de uma sabedoria que nem todos os graduados possuem,
    Sou supeita para elogiar por se tratar do meu avô paterno mas o que é bom tem que ser comentado. Este autodidata lavrava uma escritura pública que era aprovada por qualquer tabelião. As questões de terra ou problemas entre famílias ele sempre era procurado como conciliador e no final tudo era resolvido na Paz os fazendeiros da região sempre procuravam usar dos seus conselhos porque na época nem se quer conheciam um advogado.
    Agradeço as pessoas do blog, principalmente ao
    Pedro Paulo por divulgar o trabalho de uma pessoa que fez parte da minha vida e que os seu ensinamentos continuam na minha memória.
    Auri Uchoa.

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    1. Minha amiga e parenta Auri Uchoa. Para mim, foi gratificante saber que o autor desse cordel, Francisco Justa de Araújo era seu avô; bem como é muito gratificante saber que sua avó era irmã do meu avô Salviano de Sousa Uchoa. A família Uchoa tem tradicionalmente a arte no sangue. Segundo averiguei, o repórter Marcos Uchoa, da Rede Globo, tem parentesco conosco não muito distante. Obrigado por visitar e comentar nosso blog. Grande abraço!

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  3. Poeta dos tres P. faça um poema como so voce sabe fazer sobre esta tragedia que tocou nossos camelos e da vergonha desse lixaral no meio das rua. na minha rua ninguem aguenta mais, è galinha morta, è peixe podre uma coisa terrivel.

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  4. Amigos, o local Fechado fica as margens do açude General Sampaio, próximo a comunidade de Riacho do Meio, passa a maioria do tempo submerso, nesse período de seca é possível ver vestígios do antigo casarão, Zé Antonio filho de José Bernardo Uchoa, suas terras iniciavam onde hoje esta a parede do Açude General Sampaio.
    Jorginaldo Moreira
    General Sampaio-CE

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    1. Caro Jorginaldo, obrigado pela sua elucidação acerca do local exato da fazenda Fechado.
      Abçs,

      PPP

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