sábado, 17 de dezembro de 2011

EVENTO


ESCOLA HOMENAGEIA CORDELISTA

O Colégio Santa Clara, de Canindé, apresentou ao público, na noite de ontem (16/12), o livro “Mundo da Imaginação”, em sua 4ª edição. A publicação reúne trabalhos de estudantes e tem apresentação da profª. Jaqueline Crisóstomo. Desta vez, o livro homenageia o poeta cordelista Pedro Paulo Paulino, que compareceu ao evento para receber também uma comenda entregue pela diretora do colégio, Socorro Fontenele. O auditório da escola ficou repleto com a presença de pais e alunos e demais convidados. Na ocasião, Pedro Paulo Paulino saudou o público presente e a direção do colégio, com décimas de sua autoria:

AO COLÉGIO SANTA CLARA

Quem semeia educação,
Colhe cultura e progresso.
Um exemplo é o sucesso
Desta instituição.
Eu venho, de coração,
Nesta cerimônia, para,
Nesta noite bela e rara,
Agradecer lá do peito
Este tão honrado preito
Do Colégio Santa Clara.

Uma homenagem que faz
O poeta mais contente,
Neste período envolvente
Do Natal, festa de paz!
Sinto-me grato demais
Por esta nobre homenagem.
Num local de aprendizagem,
Onde nós nos encontramos,
Eu vejo agora que estamos
Falando a mesma linguagem.

Linguagem da poesia,
Do bom gosto e da cultura,
Que a gente em versos mistura
Pra transmitir alegria.
É feliz quem avalia
A importância do artista.
É pra mim uma conquista,
Inestimável colheita,
Esta homengem que é feita
Ao poeta cordelista.

E não é por mim somente,
Que me sinto agradecido,
Mas por ter reconhecido
Os que vieram na frente,
E os que futuramente,
Nesta mesma ocasião,
Reconhecidos serão
Com carinho, por vocês,
Deixo aqui mais uma vez
Meu preito de gratidão. 

Em nome da dinastia,
Dos nossos vates de brilho
Que tem exemplo em Cruz Filho
O Príncipe da Poesia,
E outros que hoje em dia
Fazem da cultura até
Uma profissão de fé,
Eu dedico este momento
Como um reconhecimento
Às artes de Canindé.

Quando a gente se depara
Com incentivo à cultura,
É como encontrar fartura
De água lá no Saara.
O Colégio Santa Clara,
Com esta iniciativa,
Se transforma em chama viva
Que uma multidão conduz,
Trazendo mais brilho e luz
Para a cultura nativa.

Educação e a arte
São patrimônios honrados
E que não são encontrados
Facilmente em qualquer parte.
E aquele que  reparte
O saber, tem privilégio.
Desde educandário egrégio,
Entre crianças e adultos,
Torcemos por grandes vultos
Saídos deste colégio.

Pessoas que dêm renome
Lá fora à nossa cidade
E que honrem de verdade
A nossa terra e seu nome.
O saber não se consome,
Antes disso, se desdobra…
Aprender é a manobra
Que a gente pode encontrar
Para poder transformar
Nossa vida em grande obra.

Quando vocês, estudantes,
Conseguirem ser doutores,
Lembrem-se dos professores,
Esses herois e gigantes!
São eles joias brilhantes
No garimpo do saber.
Outros pais, podemos ter
Nos nossos mestres queridos,
Por eles sempre assistidos
Desde que aprendemos ler.

A partir do abecedário,
Ou antes mesmo, sustento:
A escola é o fundamento
Para um futuro cenário.
Tal como este educandário,
Com o seu corpo docente,
Que nos presta atualmente
Serviços tão importantes,
Ou mesmo de quando antes
Se chamou Pingo de Gente.

Aqui, dentre os professores,
Eu já passei certo dia.
E é com muita alegria
Que agora digo aos senhores.
Novos rumos, novas cores
Este colégio tomou,
Só porque se alicerçou
No progresso itinerário
E num grande educandário
Tão logo se transformou.

E esta bela homenagem,
Tão sincera, tão decente,
Dedico especialmente
A cada um personagem
Que já fez sua viagem
Eterna do amanhã,
Mas que de ambos sou fã:
Lembro com sentir profundo
Do professor Laurismundo
E do seu Chico Karam.

Dois nomes que não esqueço,
Queridos nesta cidade,
Cuja personalidade
Dentre todos não tem preço.
Aqui vai, com muito apreço,
Minha humilde gratidão,
Pois na minha geração
Vinda dos anos oitenta,
Cada qual mais representa
Para nossa educação.

Grato a todo pessoal,
Me despeço em poesia,
Desejando a primazia
De muita paz no Natal.
Pra terminar, afinal,
O poeta agora vem
Desejar a paz e o bem,
Vida sempre promissora,
Ao Onete e a diretora,
Dona Socorro Belém.

Socorro Fontenele entrega troféu a Pedro Paulo Paulino
]
Com a profª. Jaqueline Crisóstomo







sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


SOB O SIGNO DA POESIA

Para o poeta português Fernando Pessoa,
navegar no zodíaco também é preciso

Pedro Paulo Paulino

A astrologia é uma das pseudociências mais antigas em prática até hoje. No passado, caminhava lado a lado com a Astronomia, a verdadeira ciência que se ocupa dos objetos celestes. Com a revolução e o amadurecimento do pensamento científico, a Astronomia divorciou-se radicalmente da astrologia, sendo esta atualmente desprezada pelos cientistas sérios. Porém, era comum, até por volta da Idade Média, o astrônomo ser também astrólogo. O homem de mente sensata era até então confundido com bruxo, feiticeiros e adivinhos. Mentes privilegiadas, como os astrônomos Kepler, Ticho Brahe e até Isaac Newton e, cogita-se, Galileu Galilei, tinham sério interesse pela astrologia, tanto em proveito próprio como para satisfazer as expectativas de pessoas importantes. Assim, muitos astrônomos defendiam boa parte de sua sobrevivência elaborando horóscopo para as celebridades da época. As decisões governamentais aqui na terra eram traçadas antes de acordo com o governo dos astros. Para isso, em muitas nações o soberano contava com o astrólogo oficial. Enquanto se esforçava para desbancar a Terra do centro do Universo e, no lugar desta, entronizar o Sol, Nicolau Copérnico, por exemplo, fazia cáculos e mais cálculos para mapear o horóscopo do rei. Como se vê, a astrologia já foi exclusividade da nobreza.
“Os astrólogos da corte chinesa, que faziam previsões incorretas, eram executados”, é o que podemos ler no livro Cosmos, do cientista e escritor norte-americano Carl Sagan. Ele diz mais: “A astrologia desenvolveu-se no meio de uma estranha combinação de observações, matemática e uma cuidadosa manutenção de resgistros mesclados de pensamentos confusos e de fraudes piedosas”. No terceiro capítulo de seu livro, Sagan duvida com fortes argumentos da autenticidade da astrologia e põe em xeque a validade da influência dos astros em nossa vida.
Mesmo assim, são muitas as pessoas que, diariamente, só tomam alguma decisão, até mesmo a de sair de casa, depois que ouvem no rádio ou leem no jornal as “previsões” zodiacais. Desconheço uma emissora de rádio que não tenha uma vinheta do tipo “horóscopo do dia” ou “os astros em sua vida”. E sou um ouvinte de rádio contumaz. O costume do horóscopo pessoal é tão antigo quanto a própria astrologia e deve ter surgido há mais de dois mil anos no Egito e daí passado para a Grécia e o restante do mundo. Nicolau Copérnico, já citado aqui, foi um dos pioneiros na prática de fazer horóscopo pessoal.
Que a astrologia tenha contagiado o espírito dos astrônomos antigos, nada de extraordinário. Particularmente, causou-me admiração um livro lançado em Portugal este ano: “Fernando Pessoa, Cartas Astrológicas – Como a astrologia foi determinante na vida e na obra de um dos maiores escritores portugueses”, 280 pgs., da Bertrand Editora de Lisboa. Segundo os autores, Paulo Cardoso e Jenónimo Pizarro, Pessoa deixou em seus acervos mais de 300 cartas astrológicas. Nesse livro, são reproduzidas nada menos que 34 cartas astrológicas elaboradas por Fernando Pessoa para personalidades famosas no mundo todo, a começar por ele próprio. Mas no elenco estão ainda, dentre outros, Goethe, Robespierre, Napoleão, D. Manuel II e D. Luís Filipe, Chopin, Baudelaire…
Até mesmo para os três principais heterônimos criados pelo poeta – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – Fernando Pessoa fez cartas astrológicas, de modo a acomodar a personalidade de cada um deles com o estilo de sua escrita.
Pelo que se lê no início do Livro, Fernando Pessoa valia-se da astrologia em quase todos os atos de sua vida diária. “A astrologia fez parte do cotidiano do escritor, que lidava com ela de manhã, à tarde e pela noite dentro, como atestam os diversos cálculos e estudos realizados, com indicação precisa da data e da hora em que foram feitos.” E há que se considerar que na época em que Fernando Pessoa exercia a astrologia, as cartas zodiacais exigiam, além de muita perspicácia e paciência, uma boa dose de conhecimento matemático.
Para o seu amigo Raul de Leal, Pessoa fez vários mapas astrológicos. Num deles, o poeta-astrólogo previu um aspecto maléfico para Leal no ano de 1964, ou seja, 29 anos depois da morte do poeta, ocorrida em 1935. Ocorre que em 1964 Raul Leal Morreu. De acordo com os autores do livro – um é astrólogo, o outro professor de literatura – a astrologia teve bastante ligação com a obra de Fernando Pessoa e até mesmo com o “Futurismo”, o movimento literário que teve o poeta de “Mensagem” como o seu personagem mais expressivo. Fernando Pessoa, nascido em Lisboa em 1888, levou uma vida modesta como tradutor e correspondente estrangeiro. Com a confecção de horóscopos sob encomenda, encontrava meios para complementar seu orçamento. Nos dias atuais, certamente o poeta iria buscar em outra atividade que não fosse a astrologia um aditivo para o seu sustento, uma vez que já existem programas de computador capazes de elaborar um mapa astral em segundos.

NOSSA LÍNGUA
Ir para o engenho do Pestana Dormir, pegar no sono.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011


O Rei do Baião estaria completando hoje 99 anos. Como homenagem do blog, repriso o texto abaixo, publicado há algum tempo neste espaço.

O MEU ENCONTRO COM LUIZ GONZAGA

Pedro Paulo Paulino



Sempre fui ouvinte de rádio, de preferência AM. O rádio sempre esteve presente no meu dia a dia. Mesmo com a profusão de músicas disponíveis hoje na internet, meu prazer é maior quando ouço no rádio uma música de minha preferência, principalmente Luiz Gonzaga. Parece exagero, mas devia ser obrigatório toda emissora do Nordeste tocar pelo menos uma vez ao dia qualquer coisa do Gonzagão. Embora sem essa obrigatoriedade, felizmente ainda se escuta muito o Rei do Baião no rádio.
Este comentário vem a propósito da data de hoje, aniversário de nascimento de Luiz Gonzaga, que veio ao mundo no dia 13 de dezembro de 1912.
Tudo já se disse de Luiz Gonzaga. O repertório de metáforas e comparações em torno do seu nome parece ter-se exaurido até a última gota. Não estou aqui para criar nenhum novo epíteto para designá-lo, até porque estou certo que seu título mais justo é mesmo o de “Rei do Baião”. Entretanto, aliada ao talento, sempre vi na coragem outro dos dons natos do velho “Lua”. Imagine um sanfoneiro nordestino no Rio de Janeiro dos anos 40, onde a música predominante tinha toda uma influência europeia. As vozes que se ouviam eram as dos já consagrados Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Francisco Alves e outros. Gonzagão cavou seu espaço e, corajosamente, impôs seu ritmo e, aos poucos, a sua voz. Dos cabarés da lapa, migrou para os salões requintados e tornou-se astro na RCA, a maior gravadora daquela época. Em nada ele negou sua origem nordestina, dos sertões de Pernambuco: no modo de falar, notadamente. O detalhe, porém, mais fantástico de Luiz Gonzaga foi o seu característico chapéu de couro, complementado pelo gibão, à moda de um vaqueiro bravio nos meios mais chiques do Sudeste, ou mesmo um cangaceiro que trocara o rifle pela sanfona.
Luiz Gonzaga foi um monstro, um mestre no rastro do qual uma legião de artistas conseguiu brilhar e galgar fama. Eu guardo na memória uma imagem da minha meninice, como se guarda um joia preciosa a quatro chaves. Esta cena está gravada na minha mente, como um quadro adorado fixadado na parede do cômodo mais nobre e íntimo da casa. Foi num dia qualquer do começo dos anos 80. Eu estava na bodeguinha do meu pai, à beira da estrada na Vila Campos, quando em frente estacionou um automóvel e dele desceram dois homens. O primeiro adentrou o pequeno salão e, ao dar bom dia, logo um cidadão que estava sentado indagou:
- Que mal pergunte, o sr. é o Luiz Gonzaga? Ele respondeu:
- Seu criado.
Pronto, ali estava, em carne e osso, o “Rei do Baião”, na sua suprema simplicidade, tomando café junto ao balcão do meu pai. Num átimo, uma vistosa roda de pessoas achegou-se para vê-lo. A meninada de um colégio próximo abandonou a sala de aula e correu para ver de perto o Gonzagão, descaracterizado sem a sua indumentária de vaqueiro. Ele abraçou a todos, conversou com roceiros, indagou do inverno, perguntou sobre o lugar e qual o santo do nosso povo… Meu pai, com quem aprendi a gostar mais do Gonzagão, parecia não acretidar que ali, no seu estabelecimento, estava o dono daquela voz que ele tanto escutava no rádio. De mim, parecia que sonhava. Luiz Gonzaga admirou um velho banco de aroeira que havia no salão, já polido pelo uso. E, ao pedir um palito de dente, meu pai, para provocá-lo, partiu o palito em dois e deu uma ponta ao motorista e a outra ao Luiz Gonzaga. Ele pegou o pedaço de palito e exclamou, com riso irônico: “Cearense, sempre fazendo economia…” Em compensação, meu pai não aceitou o pagamento da despesa. A parte detrás do seu carro estava pendurada de peso: era o porta-malas cheio de LPs. Depois de uma meia-hora de prosa, Gonzagão despediu-se e partiu rumo aos Inhamuns.
Foi assim, por obra do acaso, que vi na minha frente o grande astro que sempre adorei desde criança. E por conta disso, passei a me sentir um dos cristãos mais privilegiados deste mundo. E com razão. 

NOSSA LÍNGUA
O maior estouro A maior sorte, a maior cagada do mundo: "Não sei o que aconteceu, dei o maior estouro e fui premiado na loteria."

domingo, 11 de dezembro de 2011

DATA


ANIVERSÁRIO DE NOEL ROSA



Hoje faz 101 anos do nascimento do maior sambista brasileiro. Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11 de dezembro de 1910, no bairro carioca de Vila Isabel, e ali morreu em 4 de maio de 1937.

Realizou seus primeiros estudos no Colégio São Bento. Em 1930, ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, abandonando os estudos em 1932. Em 1927, começou a tocar no conjunto Flor do Tempo e, em 1929, no conjunto Bando dos Tangarás, onde conheceu Almirante, João de Barro, Alvinho e Henrique Brito. Ainda em 1929 Noel compõe suas primeiras composições de sucesso: Minha Viola, Festa no Céu e Com que Roupa? A partir de então começou a participar dos programas de rádio. Em 1932, com a morte de Nilton Bastos, passa a tomar parte do trio Bambas do Estácio, juntamente com Ismael Silva e Francisco Alves. Nesse mesmo ano realiza uma excursão pelo Rio Grande do Sul com o conjunto Ases do Samba, do qual faziam parte Francisco Alves, Mário Reis e Nonô. Em 1934, entra para o grupo Gente do Morro, juntamente com Benedito Lacerda, Russo do Pandeiro e Canhoto. Ainda nesse ano aparecem os primeiros sintomas da tuberculose que o obriga a ir para Belo Horizonte para se tratar. Em 1936, começa a trabalhar na Rádio Clube do Brasil. Era chamado o Filósofo do Samba e Poeta da Vila Isabel, bairro em que nasceu e morreu. Deixou aproximadamente 207 composições musicais, muitas em parceria com Vadico. (Fonte: Dicionário Biográfico Universal)

♦♦♦

A biografia mais eficaz do grande sambista é sem dúvida “No Tempo de Noel Rosa”, escrita por Almirante e publicada em 1963. Almirante (Henrique Foréis Domingues) era cantor e radialista, apresentando programas de grande audiência nas décadas de 40 e 50, em emissoras de rádio do Rio de Janeiro. Conviveu com Noel e foi um dos intérpretes do genial compositor. Nesse livro, cujo título era o nome de um programa de rádio de Almirante, o autor desmistifica um mundo de lendas que se criou em torno de Noel, e mostra o Poeta de Vila Isabel em carne e osso, numa breve e produtiva existência muito mais fantástica do que a que se formou no imaginário popular. Ali vemos o Noel boêmio, compositor, cantor, cronista do samba, o gozador da vida carioca e o acadêmico de medicina que abandou o curso no segundo ano. No livro de Almirante, há também um destaque especial para os amores de Noel, que o inspiraram a compor sambas imortais. Do livro, recolhemos esta passagem:

“Noel Rosa teve contato e amizade com motoristas de praça. Cinco merecem ser registrados com fatos relacionados à sua vida pitoresca.
Serafim Vieira da Cunha desde cedo tornou-se conhecido como Malhado, devido às inúmeras manchas na sua pele. Nasceu no Rio, a 25 de setembro de 1895. Em 1929 possuía seu Studebaker nº 6761.
Ao conhecê-lo, Noel logo observou a total ignorância de Malhado sobre episódios ligados a seus familiares e, em 1930, compôs a marcha “Dona Araci”, com quadrinhas incluídas nos versos de carnaval:

Como vai o seu Malhado?
Seu marido em certidão
Inda está desconfiado
Que é lesado pelo irmão.

Como vai a sua filha
Que namora no portão?
Se a senhora não estrila
Quero uma apresentação.

Como vão as suas joias?
Tão bonitas, eu não nego,
Não passavam de pinoias,
Davam dez tostões no prego.

Que foi feito do Renato
Que malvado que troféu
Que pisava em meu sapato
E cuspia em meu chapéu?

Com sua ingenuidade, Malhado sonhava ser cantor. No entanto, não possuía a menor capacidade musical, sendo dolorosamente desafinado e sem ritmo. Supondo ser um êmulo de Chico Vila, exibia-se em serenatas de Cândido das Neves, Uriel Lourival e doutros. Para acompanhá-lo nas ruas, Noel ajoelhava-se com a perna direita no chão, dobrando a outra e ali apoiando seu violão, enquanto realizava as mais atrevidas proezas musicais, solando os mais diferentes tons e acordes, incluindo trechos da ‘Cumparsita’, ‘Marselhesa’, ‘Meu Boi Morreu’ etc, com os ritmos mais exóticos. Companheiros que assistiam às cenas, com risotas, exaltavam o motorista que exclamava com felicidade:
– Esse Noel é o maior acompanhador do mundo! Com Noel eu canto o que quiser e se quiser posso ir ao Teatro Municipal, numa ópera.
Gozador, malicioso e irônico, Noel compôs uma seresta especial para o Malhado, de versos picantes e impudicos, com expressões que o motorista desconhecia. Seriamente Noel as explicava, dando-lhes significações falsas, aceitas de imediato pelo ingênuo, que cantava em voz alta:

Eu saí da tua alcova
Com prepúcio dolorido
Deixando o teu clitóris gotejante
Com volúpia emurchecido…”

Nas últimas páginas de seu livro, Almirante narra o drama de Noel Rosa atacado por tuberculose, enfermidade até então sem cura e que matou o genial compositor aos 27 anos, no dia 4 de maio de 1937. “Por volta das 21h30m, enquanto Dona Marta e Lindaura, no portão, se despediam de amigos da família, seu irmão Hélio, vigilante à cabeceira,  notou que o doente abria os olhos, esgazeadamente. Parecia querer dizer algo. E como Hélio lhe indagasse o que sentia, Noel respondeu em voz quase imperceptível:
– Estou me sentindo mal. Quero virar para o outro lado…
O irmão o ajudou. Ao fazer um movimento, a mão de Noel se estendeu para a mesinha de cabeceira, em cujo tampo, como que obedecendo a um tique nervoso, ficou batendo pancadas surdas, ritmadas, esmorecendo, ralentando. Por fim, a mão de Noel quedou imóvel.
Estava morto o maior compositor de samba do Brasil.”
E continua Almirante:
“No dia seguinte, na aglomeração que se verificou na pequena residência do compositor, deu-se um fato deplorável: Dona Marta recebeu uma doação de 400 mil réis da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, destinada a custear os funerais de Noel. Aturdida com a morte do filho, atirou a quantia numa gaveta, de onde foi furtada instantes depois.”

Noel Rosa sonetista:

“O QUE É UM VIOLÃO

O violão, meu amigo e conselheiro,
Que sempre partilhou da minha dor,
Na serenata sempre foi bom companheiro
Numa modinha o meu melhor inspirador.

Nem bandolim, nem violino bem tocado,
Nem mesmo um cavaquinho em boa mão,
Me fizeram ficar tão inspirado
Quanto fiquei com o som de meu violão.

Ele quem me ditou o canto e a rima
Ele quem a vibrar se acostumou,
Soluça no bordão, geme na prima…

É ele quem me anima e me seduz.
Juro deixar o mundo alegremente,
Desde que eu tenha um violão por cruz.”
♦♦♦

HOJE FAZ 101 ANOS
DO SAMBISTA NOEL ROSA

Lá no Rio de Janeiro
No Bairro Vila Isabel
Foi onde nasceu Noel
Rei do samba brasileiro
Foi boêmio, seresteiro
De inspiração fabulosa
Viveu sempre todo prosa
Dele, nós somos ufanos
Hoje faz 101 anos
Do sambista Noel Rosa

Do grande compositor
Autor de “Fita Amarela”
Foi curta a vida, mas bela
No samba foi professor
E cantou a própria dor
De maneira harmoniosa
Uma pedra preciosa
Foi Noel entre os humanos
Hoje faz 101 anos
Do sambista Noel Rosa

Outro samba especial
É “Silêncio de Um Minuto”
Onde a saudade é o luto
Em tirada genial
Já tão perto do Natal
Naquela data famosa
Vila Isabel, orgulhosa
Viu mudar todos seus planos
Hoje faz 101 anos
Do sambista Noel Rosa

Hoje está na dimensão
Onde está Nelson Gonçalves
Aracy e Chico Alves
Grandes nomes da canção
Mas em nosso coração
A lembrança carinhosa
Permanece vigorosa
Em novos e veteranos
Hoje faz 101 anos
Do sambista Noel Rosa

(PPP)


NOSSA LÍNGUA
Siribolo Confusão, latomia, turundundum, no PI.