sábado, 13 de agosto de 2011

artigo




TODOS SOMOS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA

Francisco de Assis de Freitas Silva

Então acontece, justamente com você, algo completamente inimaginável. Você se vê diante de um enorme labirinto do qual é muito difícil tentar sair, simplesmente por que parece impossível. Esse labirinto em muito se parece com a situação em que se vive nas grandes cidades. O mundo parece de pernas pro ar e você não consegue ver uma luz no fim do túnel. A situação em que algumas capitais brasileiras se encontram hoje, com o crime rondando a sociedade como um leão à espreita de uma presa, parece uma bola de neve rolando montanha abaixo e a sociedade civil organizada e seus governantes se vêem cada vez mais impotentes para contê-la.        À época em que estas linhas eram traçadas, uma quarta feira, 24 de novembro de 2010, os noticiários de todo o Brasil destacavam ondas de violência desenfreada nas ruas da Cidade Maravilhosa, com os criminosos ateando fogo em ônibus coletivos e veículos particulares, enquanto os especialistas e autoridades em segurança pública davam suas explicações na grande mídia e adotavam providencias; diga-se de passagem, que as providencias adotadas foi colocar reforço policial nas ruas com armas de guerra e veículos blindados, enquanto as reportagens mostravam as conseqüências: dezenas de feridos, prisões e alguns mortos contabilizados ao final do dia.                                                                              
Pelo menos aqui em Canindé os índices de violência estão dentro de padrões civilizados, em parte graças à colaboração da comunidade, auxiliando as equipes de policiais do Ronda e do P.O.G (policiamento ostensivo geral) que trabalham em nosso município, interagindo com informações e denuncias anônimas. Pois ora vejam senhores leitores, neste dia eu estava chegando de mais uma noite de trabalho de uma pacata terça feira, por volta de seis e pouco da manhã e seguindo a rotina de tirar a farda, tomar um banho e café da manhã, dirijo-me então para meu quarto ver as notícias nos telejornais matinais enquanto minha esposa prepara-se para abrir a loja de roupas e acessórios que mantemos embaixo do apartamento onde moramos bem no centro da capital da fé. De repente lembro-me que tenho que ir até a casa lotérica, bem próxima de nosso lar e retorno em seguida devido ao turbilhão de pessoas que ora se acotovelam em desorganizadas filas. Voltarei mais tarde, imagino.                         
Desço novamente para comprar leite e peço que minha filha caçula o ferva. Neste momento minha esposa já está pronta e em pouco abrirá a loja. Fico na Clínica dos Calçados de propriedade de meu amigo Valmir, onde costumo sempre jogar conversa fora e fico observando de vez em quando se não chega alguém no portão do apartamento. Pouco depois minha filha vem até minha pessoa e indaga acerca da bolsa de sua mãe. Respondo que a última vez que a vi foi em cima da cama. Em seguida, minha esposa, com o semblante já abalado, diz que alguém pode ter entrado no apartamento e surrupiado o objeto em questão. Rapidamente vasculhamos os quatro cantos da casa e constatamos, após ligar para os números de telefone que estavam no interior da bolsa, que alguém entrou e a furtou, haja vista os celulares em seu interior estarem desligados ou fora da área de cobertura quando tento ligar para os mesmos. Fora os dois celulares da patroa, ainda havia no interior da bolsa documentos pessoais, cartão de banco e certa quantidade em dinheiro, além de fotografias da família.
O valor em questão não tem lá tanta importância, o que machuca mesmo é saber que até a casa de um policial não é inviolável. O que se dirá então da casa de cidadãos ditos comuns, singelos pais de família, ocupados demais com as contas do mês e outras atribuições domésticas, que não possuem tempo para ficarem à toa nas abandonadas praças de Canindé, observando a vida de quem trabalha e apenas espera um momento de distração para agirem e surrupiarem o fruto do suor do rosto de pessoas honestas; pessoas que só querem um lugar ao sol e que lutam diariamente por um futuro melhor para os filhos e que não sabem de cor e salteado as principais infrações do ultrapassado código penal brasileiro, assim como também não tem conhecimento sobre excessos de prazo e progressão de regime, termos muito usado por advogados nos tribunais quando defendem réus presos por prática de delitos como furto ou assalto à mão armada. Por esse motivo, talvez, é que tantos criminosos reincidam em práticas delituosas. O excesso de prazo e a progressão de regime os colocam em liberdade em menos tempo do que aquele ao qual foram condenados; assim alguém condenado a uma pena de nove anos, por exemplo, cumpre em média, pouco mais de dois anos de reclusão, gerando assim uma sensação de impunidade por parte das vítimas que se surpreendem ao cruzar com os tais nas ruas e avenidas da cidade.
Suponho que alguém tenha observado minha saída até a lotérica e aproveitou esta oportunidade para entrar e consumar seu feito, deixando a casa engomada, como se fala na gíria. Como deve sentir-se então, um médico diagnosticado com uma grave enfermidade? Da mesma forma que eu, talvez, tenha me sentido. Completamente impotente. Conhecedor de sua inferioridade e, às vezes, até culpado ou ainda conivente. Tentei consolar minha esposa, acalmá-la. Falei de pessoas que encontram situações piores, com os bandidos apontando armas para a cabeça de seus filhos e vociferando perguntas do tipo cadê o dinheiro “vagabundo”, pois bandidos e facínoras tem o ultraje de chamar pais de família e trabalhadores de VAGABUNDOS e ainda dizem que vão matar seus filhos. Fui em seguida à delegacia, desta vez como vítima e não como condutor, para prestar queixa e confeccionar o boletim de ocorrencia. Informei o fato aos policiais de serviço, para que se vissem algo fizessem a gentileza de me informar. Mesmo eu não tendo nenhuma descrição de algum suspeito, eles partiram em diligencias, porém sem nenhum êxito.
Um desejo hostil e abominável apoderou-se de mim por um breve instante: pegar a pessoa que praticou esta violência e... Deixa pra lá. São sentimentos partilhados por milhões de vítimas que momentaneamente imaginam uma lei mais severa como a prisão perpétua ou a pena de morte, ou ainda supõem que poderiam agir como super heróis, estarem acima do bem e do mal e fazer justiça com as próprias mãos. Felizmente é apenas uma emoção fútil e passageira, não é digna de quem é um cidadão que cumpre a lei e é, assim como você, uma pessoa de carne e osso, cheia de defeitos e virtudes, que sangra, chora e sorri e que não é impávido como um super homem. E sim, apenas mais um brasileiro, trabalhador, pai de família, gari, empresário ou policial militar, que por conviver diariamente com histórias alheias de violência, se torna tão ou mais vítima como qualquer um pobre e reles mortal.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

crônica


BRINQUEDO NORDESTINO

Gerardo de Melo

Montar num cavalinho de tala de carnaúba, e passar correndo junto à fogueira, queimando as palhas da ponta da cauda do 'cavalo' nas labaredas era uma brincadeira arriscada, mas muito divertida.” (Arievaldo Lima)



Agora que a idade obriga fugir todo dia pela manhã, forçosamente, do sedentarismo, contemplo na margem do asfalto em que caminho quase todos os dias uma carnaubeira, onde vacila, para desprender-se definitivamente, um de seus galhos, que lembra de imediato um cavalo de brinquedo, recordação de distante infância. O poeta citado em epígrafe escreveu, que, contrariando a tradição de plantar no quintal árvores bem diversas, resolveu cultivar perto de sua janela uma carnaubeira. Isto para contrastar com o ambiente urbano onde reside, e sempre preservar a lembrança de seu amado sertão. Para mim essa árvore rendeu mesmo foram cavalos, em que, montado na fantasia, atravessei tantos serões, achando estar na perseguição de índios ou de bandoleiros de uma cultura localizado bem mais ao norte. Conforme R. Magalhães Júnior, a estreia de José de Alencar nas letras deu-se com o ensaio A Carnaúba: “A carnaúba pertence à bela e majestosa família das palmeiras; é linda de ver-se, quando reverdece com as primeiras águas do inverno.” E algo inusitado: “Pouco antes, tinha falado sobre as qualidades alimentícias da carnaúba, de cujo miolo, ralado, fazia-se uma espécie de farinha. Os pobres, além de comerem a polpa dos frutos, semelhante ao da tâmara, ainda torravam o caroço, oleoso, para dele fazer uma bebida, aromática e saborosa, semelhante ao café.” Eram tempos difíceis. Todo menino nordestino, até certa época, cavalgou o cavalinho de carnaúba. Primeiro cortava-se os espinhos do galho, por motivos óbvios. Depois, com certo requinte, eram feitos cortes num das extremidades do artefato, de forma a conformar as orelhas desse rocinante vegetal. Após o que o mesmo era apetrechado com uma espécie de rédea, cujo uso somente a imaginação de uma criança conduzia. Na outra ponta deixava-se a palha a fazer as vezes de cauda. Esse brinquedo, fez parte do mesmo repertório do rebanho feito de ossos. Assim como os bichos feitos de barro que podem ser vistos em Vidas Secas de Graciliano Ramos, autor das mais originais narrativas de infância. Criatividade tornada anacrônica pelo totem cibernético.  Essa árvore também forneceu, durante muitos anos, a matéria-prima para a feitura de gaiolas, hoje, as leis de preservação ambiental também decretaram fim nesse costume. São as mesma carnaúbas vistas por Simone de Beauvoir quando esteve nestes sertões, e as mesmas que se contemplam da janela quando se ruma para o litoral, como a dizer adeus, enquanto chamam de volta, acenando seus leques contra a luz diamantina do sertão cearense.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

evento


CAMPOS FESTEJA S. ROQUE

A festa de S. Roque é uma tradição centenária 
Uma peregrinação com a imagem de S. Roque, entre Campos Novo e Campos Velho, deu início na tarde de ontem aos festejos do padroeiro de Vila Campos. No começo da noite foram hasteadas em frente à capela as bandeiras de S. Roque e do município e celebrada uma missa, com a participação de comunidades vizinhas.
O novenário começa hoje e se estende até o dia 19. No dia 20, pela manhã, será celebrada missa festiva de encerramento. Em seguida, haverá o leilão tradicional no amplo espaço da Casa Paroquial da localidade. Outro ponto alto das festividade acontece no próximo sábado, 13, com a novena dedicada aos vaqueiros da região. Durante todo o dia, como sempre acontece, os vaqueiros chegam à Vila, trajados tipicamente. O encontro de todos ocorre na casa de Cosme Paulino Viana, antigo vaqueiro, mais conhecido como “Prefeito”. A cada ano ele oferece um almoço aos companheiros.
A festa de S. Roque é um evento centenário na Vila Campos. A capelinha do lugar foi a primeira construída na zona rural de Canindé. A festa é sempre motivo para um grande reencontro familiar, haja vista que muitos filhos de Campos residem fora, principalmente em Fortaleza. Após o encerramento da festa religiosa, à noite acontece uma festa dançante na quadra da Casa Paroquial de Campos.

“O CÉU ESTRELADO ACIMA DE MIM
E A LEI MORAL DENTRO DE MIM”

COMO MARCA ESPIRITUAL DE IMMANUEL KANT

Reproduzimos abaixo um texto de Kant, extraído do final  da sua  obra Crítica  da  Razão Prática, que resume o seu pensamento como admirador apaixonado da Natureza e homem extremamente ético que, conquanto filósofo e cientista, não deixou de ser religioso.


“Duas coisas enchem-me o espírito de admiração e reverência sempre novas e crescentes, quanto mais frequente e longamente o pensamento nelas se detém: o céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim. Não tenho que buscar essas duas coisas fora do alcance da minha vista, envolvidas em obscuridade, ou no transcendente. Nem devo, simplesmente, presumi-las. Eu as vejo diante de mim e as vinculo imediatamente à consciência da minha existência. A primeira começa do lugar que ocupo no  mundo sensível externo e estende a conexão em que me encontro a grandezas imensuráveis, com mundos sobre mundos e sistemas de sistemas e, além disso, aos tempos sem fronteiras do seu movimento periódico, do seu início e da sua duração. A segunda parte do meu Eu invisível, da minha personalidade, representando-me em um mundo que tem uma infinitude verdadeira, mas que só é perceptível pelo intelecto, com o qual (mas, por isso e ao mesmo tempo, com todos aqueles mundos visíveis) me reconheço em uma conexão não simplesmente acidental, como no primeiro caso, mas universal e necessária. A primeira visão, de um conjunto inumerável de mundos, aniquila, por assim dizer, a minha importância de criatura animal, que  deverá restituir a matéria  de que é feita ao  planeta (um simples ponto no universo), depois de ter sido dotada por breve tempo (não se sabe como) de força vital. A segunda, ao contrário, eleva infinitamente o meu  valor, como valor  de uma inteligência, graças à minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível, pelo menos por aquilo que se pode deduzir da destinação final de minha existência em virtude dessa lei, destinação que não se limita às condições e às fronteiras desta vida, mas que vai  até o infinito.”

(Colaboração: Flávio Henrique M. F. Lima)

[KANT, Immanuel. In Crítica da Razão Prática. Passagem citada por Giovanni  Reale e Dario Antiseri, in História da Filosofia. 2ª ed. Vol. 2: Do Humanismo a Kant. São Paulo, Paulus, 1990; págs. 931-2.]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

crônica


O LIVRO DE CRÔNICA DE
RAYMUNDO SILVEIRA

Pedro Paulo Paulino


Creio que foi o escritor argentino Jorge Luis Borges quem afirmou que, a certa altura da vida, estava mais relendo que lendo. Essa opção um tanto estacionária parece também ter-me contagiado. Faz tempo que apenas releio. Mas não escondo que eu andava mesmo à cata de um novo livro, algo diferente, um autor desconhecido, pelo menos para mim. Essa minha busca foi interrompida no dado momento em que recebi das mãos de uma amiga um ótimo presente: o livro “Louca uma ova”, do escritor sobralense Raymundo Silveira.
Reunindo 29 crônicas, o volume é desses que se lê duma sentada. A naturalidade do estilo e o matiz de assuntos trabalhados vão puxando o leitor automaticamente página por página. Aliás, lê-se o livro de Raymundo Silveira independente da ordem do índice. Abre-se em qualquer fólio, e lá temos uma ótima crônica. O fôlego com que foi escrito provoca também no leitor aquela euforia própria da inspiração. Para começar, seu livro foi premiado no concurso “Prêmio Literário para Autores Cearenses” promovido pela SECULT-CE em 2010. Raymundo Silveira é da SOBRAMES, a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
Com trabalhos traduzidos em várias línguas, o escritor sobralense já tem assento firme nas letras cearenses e nacional. Homem, como se diz, lido e viajado, suas crônicas têm como base justamente sua farta cultura de livros e viagens. Por isso, com muita habilidade remete ele cenas vistas no Velho Mundo aos livros de sua predileção. E com a mesma habilidade, faz ele também o inverso.
Afora tudo isso, encontra-se em seu estilo próprio, o gosto puramente literário da escrita caprichada, da palavra pronta no lugar certo, a elegância da sintaxe, o requinte do pensamento e o vocabulário agradibilíssimo. Há em sua leitura odor e som, o singelo e o épico, o sagrado e o profano. Fatos da sua vida de médico são narrados com um humor formidável, com intercalação de períodos tão harmoniosos como as próprias articulações do corpo humano. Memórias da sua infância, do seminário, dos primeiros amores, resgatadas sem o menor pejo e pieguismo. Tudo muito franco. Lembranças de suas excursões pelo mundo foram trazidas por ele como despojos preciosos dessas viages. E são narradas com a mais explícita boa-fé. “Paris nem sempre é uma festa”, “Essa essa é do Eça” são crônicas de viagem simplesmente impagáveis. Pessoas, fatos, aspectos, impressões, o mundo enfim visto por um cronista de conceitos conclusivos. E cada crônica é fragorosamente fechada com nada mais que uma frase ou duas palavras certeiras. “Enteado de Deus, nasci-me. Ninguém me pariu. Só não encontrei minha mãe porque, em realidade, ela nunca foi. Todavia, me lembro mais dela e sinto mais saudades do que se ela tivesse sido…” Com esse período cheio de originalidade, Raymundo Silveira fecha seu livro de crônicas.
Já falei aqui da minha inércia para ler coisas novas. O único livro novo que li nestes dias, repito, foi este de Raymundo Silveira. E já vou voltar às minhas releituras, começando por ele.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

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HISTÓRIAS

Francisco de Assis de Freitas Silva*

Nos muitos capítulos da História recente do Brasil, alguns, talvez, necessitem ser reescritos por encontrar-se envoltos em denso nevoeiro ou sob as brumas das lendas. Um desses capítulos faz referencias à Guerrilha do Araguaia, que entre seus membros estava o atual deputado federal por São Paulo, José Genoíno, cearense de Quixeramobim.  Esta começou mais ou menos em 1967, no sul do Pará e foi dizimada entre os anos de 72 e 74 pelas forças armadas durante a ditadura militar nos governos de Médici e Geisel. Entre os mortos e desaparecidos pertencentes ao movimento, encontra-se a lendária figura de Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa), negro, mineiro de Passa Quatro, engenheiro de minas, ex- militar, com quase dois metros de estatura e de liderança nata; até hoje se cogita apenas o local de seu sepultamento, sendo que seus restos mortais jamais foram encontrados. Outro capítulo diz respeito aos fatos que conduziram a capital carioca, de antiga capital federal e ainda hoje conhecida como a Cidade Maravilhosa, destino de turistas do mundo inteiro, reduto de boêmios e palco dos grandes carnavais, a se transformar em ninho de bandidos e traficantes de drogas, armados de fuzis, granadas e pistolas automáticas vindas dos mais poderosos exércitos do mundo.
Que conjunto de fatos culminou para transformá-la numa cidade em constante ‘’guerra civil’’? Onde as tropas policiais usam armas de guerra e veículos blindados para enfrentar o crime organizado, onde as forças policiais estão entre as mais desacreditadas do país por culpa da corrupção e outro dia, um juiz federal, vendo uma barreira da polícia civil, pensando tratar-se de bandidos, empreendeu marcha à ré e foi alvejado pelos policiais, juntamente com duas crianças, só escapando por milagre de Deus? Muitos culpam a ditadura militar, que transformou as forças públicas em aparelho de tortura e repressão a serviço do Estado, que ainda hoje existem resquícios dessa servidão e que em determinado momento juntou, em um mesmo recinto, presos políticos com criminosos comuns na prisão da Ilha Grande, tendo nascido aí o embrião do chamado crime organizado no Brasil, o Comando Vermelho. A verdade é que em algum momento da história algum governante não cumpriu seu papel, não observou o que se passava a sua volta e não imaginou em que se transformaria a cidade maravilhosa, que entre outros aspectos que ajudam o crime a se desenvolver está a sua particular geografia.
O que de comum existe nestas peculiares histórias é que elas ocorreram em regiões com pouca ou nenhuma assistência do Estado, em locais de difícil acesso e com seus moradores vindos, desde muito cedo, das camadas sociais menos favorecidas; ex-escravos e mestiços nos morros cariocas e, posteriormente, nordestinos fugindo da seca, enquanto que no Pará a grande massa era formada, sobretudo, por índios, mestiços, nordestinos e seus descendentes que vieram trabalhar nos seringais durante o ciclo da borracha, muitos deles forçados ou enganados. E todos tinham em comum, além da origem humilde, a pouca instrução.
Em seus primeiros anos, a jovem República do Brasil, viveu momentos tensos e nervosos, por exemplo, durante o Estado Novo de Vargas (1937 a 1945), sendo que na maior parte desses períodos, o governo preferia que seu povo fosse uma massa inculta e sem educação para melhor dominá-la e manipulá-la. Ainda falando sobre história, lembremos o que houve no Japão no final da segunda Guerra Mundial (1939 a 1945): os aliados, liderados pelos americanos, já haviam derrotado os alemães, enquanto que os guerrilheiros italianos haviam fuzilado o ditador Mussolini e sua esposa; faltava, portanto, derrotar o terceiro país do Eixo, o Japão. Os japoneses eram governados por um imperador e seu exército vivia sob uma rígida disciplina militar, com moldes no código de honra dos samurais japoneses; portanto, a rendição seria uma desonra. Não tendo mais paciência para lutar e querendo mesmo demonstrar aos aliados que detinha um grande poder de fogo, os americanos detonaram duas bombas atômicas nos dias seis e nove de agosto de 1945, sob as cidades de Hiroshima e Nagasaki respectivamente, matando milhares de japoneses e deixando seqüelas em outros milhares por gerações devido à radiação nuclear.
Em 15 de agosto do mesmo ano, o imperador Hiroito enfim aceita a rendição incondicional; porém, em pronunciamento ao povo e ao exército japonês por rádio, ele apela ao exército que cesse a luta, que concordou com o acordo proposto e que seu coração está partido com a morte e o sofrimento de tantos súditos. Em nenhum momento usou a palavra derrota ou rendição perante seu povo. O imperador Hiroito ficou no poder até o fim de sua vida em 1989. Mesmo arrasado, durante o pós-guerra, o Japão investiu pesadamente em educação e conseguiu se recuperar. Seu povo hoje honra as tradições do passado ao mesmo tempo em que convive com a modernidade; também é uma grande potencia econômica, estando entre os que mais investem em tecnologia, sobretudo eletrônicos e robótica.  Os japoneses, ao que tudo indica saíram fortalecidos da guerra com a opção de investir em educação e o imperador japonês soube usar bem a oratória ao não falar em seu pronunciamento as palavras derrota ou rendição. O Brasil, que tem grandes riquezas minerais, biológicas, culturais e está numa região pouco suscetível a desastres naturais, embora eles aconteçam, tem tudo para ser uma grande potencia mundial, sobretudo se investir em educação.
O resultado das últimas eleições mostrou um pouco da decepção do povo em relação aos seus representantes, que elegeu novos políticos para a câmara e o senado que jamais haviam se candidatado a qualquer cargo público e eram apenas artistas ou atletas famosos, deixando para trás velhas raposas. Independente destes políticos terem barrado projetos para o seu Estado de origem apenas por oposição ao governador, sem pensar nos benefícios para o povo e de não terem conseguido se reeleger, sabemos que a pouca experiência política ou ainda a falta de instrução de determinado político, podem não pesar no momento dele propor algum projeto inovador e, quem sabe, revolucionar o ensino no país. A exemplo disso, o ex presidente Lula só cursou o ensino médio e por essa razão sempre foi severamente criticado por seus opositores durante suas campanhas políticas e ainda é alvo fácil de humoristas por conta de suas declarações e modo peculiar de falar. É considerado um dos melhores presidentes que este país já teve. Como ele mesmo costuma dizer: nunca na história deste país... Independente da origem ou do grau de instrução que tenha, o que podemos esperar de um político é que ele tenha zelo pelo dinheiro público, que  saiba que antes de senador, deputado, governador ou vereador, ele é um servidor público colocado ali para melhorar e administrar a vida dos que apostaram nele, que todos eles valorizem mais a educação, com projetos, recursos e melhor acesso aos cursos superiores, para que num futuro próximo, tenhamos um povo desenvolvido e feliz, que ame suas tradições e valorize seu presente e ainda que episódios como a Guerrilha do Araguaia e os tiroteios nos morros cariocas entre policiais e bandidos sejam apenas páginas da nossa História.

*Canindeense, cabo PM.

domingo, 7 de agosto de 2011

artigo


O blog estreia hoje um novo colaborador,
o articulista Gerardo de Melo.


ALGUNS LIMITES DA DEMOCRACIA
                                                                      
Gerardo de Melo*

Em livro totalmente isento de pudores chamado As 48 Leis do Poder, os autores Robert Greene e Joost Elffers, no capítulo DIGA SEMPRE MENOS DO QUE É NECESSÁRIO, narram a história de Kondrati Rileiev, um revolucionário russo que, em 1825, após participar de uma conjura contra o czar Nicolau I é condenado à forca. No dia de sua execução, por mero acaso, na hora fatídica, a corda se rompeu. Ao invés de atribuir o fato a alguma intervenção divina, como era obrigatório à época, o condenado se saiu com esta: “Estão vendo, na Rússia não sabem fazer nada direito, nem uma corda!”.  Ora, nada faltou para que um araponga de plantão fosse relatar à corte o dito do prisioneiro, de forma que uma corda mais resistente fosse providenciada para que a intervenção divina não fosse posta a prova novamente. O recente imbróglio do ministro Nelson Jobim leva diretamente a uma aporia, termo filosófico que no velho Aurélio significa conflito entre opiniões, contrárias e igualmente concludentes, em resposta a uma mesma questão. Assim, quais seriam os limites da democracia no terreno da liberdade de expressão? De pronto, vemos que não é a exposição da verdade o que vai demarcar esses limites. Deixando de lado a definição exata do que seria a verdade, nota-se no seu bojo sempre um conteúdo fundamental que é o inevitável posicionamento crítico, que ocasiona de imediato uma reação cerceadora, tanto mais eficaz quanto é o alcance do poder de onde emana. Consequentemente outra dúvida deveria surgir, se a adoção contínua do politicamente correto não seria uma forma de doutrinar a opinião pública a permanecer eternamente dormente, no sentido em que um membro do corpo se torna parcialmente insensível pela má circulação, logo desprovida, cada vez mais, dos seus mais básicos aparatos críticos, contribuindo na constituição de um monstruoso mecanismo condicionador da sociedade que se retroalimenta. A tentativa bem sucedida de suspender o olhar crítico pode ser observada, por exemplo, no apoio geral  que é dado à forma como são feitos investimentos nababescos em eventos esportivos, nos países não desenvolvidos, hipotecando o futuro, em detrimento de necessidades fundamentais que são totalmente negligenciadas.  Obviamente nada se cobra aqui da sociedade na amplitude do seu conjunto, mas da vanguarda intelectual que deveria representá-la. Na maioria dos casos, essa vanguarda se expressa em volume acústico bem reduzido, pois se acha devidamente cooptada financeiramente em seus estamentos pelo Estado dono da razão. Finalmente esse modelo da superestrutura social é reproduzido nos relacionamentos interpessoais.  Diz o filósofo Luiz Felipe Pondé que “tem uma dimensão na vida que precisa ficar meio sombria. Falar a verdade o tempo inteiro é insuportável e contar para outra pessoa o que você pensa no dia a dia no âmbito das relações também é insuportável”. Mas não haveria, assim,  em contrapartida, um comprometimento no que diz respeito à evolução da pessoa? Deve-se deixar apenas para mártires como Sócrates ou Jesus a tentativa de superação desse marasmo? A vantagem do posicionamento crítico é que ele é capaz de voltar-se sobre si mesmo e providenciar correções nos pontos danificados de sua malha cognitiva, mas em contrapartida exige modificações sem sempre confortáveis, e ainda há a urgência do cotidiano que atropela as mais ínfimas decisões, que dizer daquelas que dizem respeito à própria personalidade e à interação com o semelhante, que podem ser adiadas. Em suma a ideologia opera de forma muito sutil, e faz parte dela mesma nunca mostrar a cara na janela, deve ser devassada,  sob pena de se deixar consumir pelo simulacro da realidade que se quer.

*Gerardo de Melo é advogado e articulista do jornal Folha do Sul de Iguatu.