TONICO E SEUS AMIGOS
Pedro Paulo Paulino
Afirma-se, e creio que isto faz sentido, que os melhores momentos acontecem por acaso, quando não se programa. Comigo ficou mais uma vez comprovada essa teoria. O fato é que esta semana recebi por aqui meu amigo Tonico Marreiro. De uma hora para outra, ele pegou a mão da sua mulher Patrícia e das três filhas, as “Três Poderosas”, arrumou os trens, enfiou tudo no seu fusca côr-de-rosa e rumou para a Vila Campos. Há muito eu o insultava para vir por cá. Mas, verdadeiramente, o momento certo foi este. E eu, como modesto anfitrião, não tive contratempo em acomodar o Tonico e sua trupe. Tanto ele quanto elas amoldam-se sem qualquer embaraço onde estão, como deixaram provado pela espontaneidade em tudo.
Aqui, quem não o reconheceu em pessoa o reconheceu pela voz, uma voz que há quase quatro décadas atravessa esses ares pelas ondas do rádio, pois a história do Tonico e a história da nossa radiofonia se enroscam. Proseando com ele, tive a sensação recorrente de que estava ouvindo o seu programa radiofônico, tal a naturalidade com que seu espírito se manifesta, tanto aqui quanto lá. Tonico, sem dúvida, é um homem típico do sertão. Nada aqui lhe pareceu avesso à sua convivência com sertanejos simples, seus costumes e maneira de bater um bom papo sem pressa.
Mas devo lembrar que o Tonico trouxe muito mais gente consigo, muito mais. Trouxe essa gente e sua bagagem também. À noite, ele abriu um baú de causos que não tem mais fim. Formamos uma roda perto dele, ao ar livre, como nos velhos tempos. E ele foi desfiando um rosário de acontecidos jocosos, principalmente do Canindé boêmio do seu tempo. (Tonico participa de uma roda boêmia, como se ainda reverenciasse o deus Baco, coisa que não faz há quase trinta anos.) Pois bem, do seu baú de anedotas, ele nos apresentou o Toinho da Gunda, personagem ímpar do Canindé de outrora; o Mário Pessoa com suas traquinagens; o velho Bunaco, com suas tiradas geniais; o multifacetado barbeiro Isaías; o mágico Nogueira e seu ilusionismo mambembe; o irreverente João Vieira; o "impossível" Antonio Walberto... O elenco é vasto e muitos deles já se foram. Claro que Tonico não esqueceu suas presepadas junto com o Homerim, que àquela altura devia estar com as orelhas fervendo.
Tonico não é uma enciclopédia – ele é uma espécie de Google da história, da cultura e do folclore de Canindé. Mal pronunciamos o nome de alguém, e ele abre um leque de historietas engraçadas e interessantes, gerando vários links em sua prosa, num autêntico contexto de coisas e situações. Com ele passeamos pelo Canindé dos anos 60 e visitamos locais hoje extintos, como a Mansão dos Inocentes, o reduto da rapaziada boêmia da cidade. Segundo ele, a turma lá era assistida pelo Toinho da Gunda, ao qual chamavam de mordomo. Certa feita, diz o Tonico, Homerim resolveu dar uma promoção ao da Gunda, pelo seu serviço impecável na Mansão, e o promoveu a “pederasta-mor”. Sem saber do que se tratava, o da Gunda saía ufano pela cidade, alegando o título.
Um momento grandioso da visita do Tonico por aqui, foi o encontro com o Grilo, um tipo sacramentado do folclore da Vila. A prosa do Tonico é avivada pelos gestos e por um tom de voz admirável. Ele sozinho é um teatro. E de todos os causos que nos contou, um me parece de uma pureza e graça impagável. O barbeiro Isaías, disse o Tonico, em Canindé fazia a vez de tudo: de profeta, de poeta, de médico… e era barbeiro. Certa feita, fazia a barba de um cliente, um romeiro, e enquanto isso conversava e conversava com os demais no seu pequeno salão. A navalha, jamais afiada, corria solta. A brancura da espuma na cara do cliente revelava filetes de sangue. Terminado o serviço, o freguês pagou e, meio atônito, disse:
- Mestre Isaías, me dê um copo dágua.
O barbeiro apontou para um pote detrás da porta, de onde o seu cliente retirou um caneco dágua, entornou na boca e segurou o líquido enchendo as bochechas. Já meio encolerizado, Mestre Isaías pergunta:
- Por que você tá fazendo isso? O cliente, cuspindo a água, responde:
- Mestre Isaías, é pra saber onde tá vazando…
Tonico Marreiro, aonde vai, leva esse presente para seus amigos: boa prosa e alegria. E nem falei aqui na verve poética do Tonico. Mas, como ele assegurou, outra visita está prometida. Então, fica para a próxima.
| Tonico, Patrícia, Grilo e Raimunda (sentada) |
| PPP e Tonico |
| Tonico e d. Maria (mãe do PPP) |
| As "Três Poderosas" |
| Patrícia |
| Fusca do Tonico em frente à casa do PPP |




