sexta-feira, 24 de junho de 2011


LACONISMO NA MÚSICA POPULAR
BRASILEIRA: UM EXEMPLO

Cantor Gilberto Alves
Alguém já disse que “escrever é a arte de cortar palavras”. Se em prosa impera essa lei, na poesia ela se torna igualmente forte e atraente. Não é à toa que o soneto, conhecido há séculos, ainda é a forma de poetar mais elegante e de difícil manejo. Em catorze versos, o poeta deve expressar por inteiro seu pensamento, obedecendo a regras rigorosas se realmente é um bom artífice da arte de Petrarca e Camões.
As letras de música, quando inspiradas e feitas com maestria, estão nessa mesma linha de qualidade em que, via de regra, o laconismo de palavras encanta, junto com uma sequência melódica adequada. Evidentemente, há letras de músicas belíssimas, mesmo extensas, como é o caso de “Luar do Sertão”, do maranhense Catulo da Paixão Cearense, regravada pelas melhores vozes da MPB.
Entre as músicas cuja letra sucinta é de um poder narrativo exemplar, sem dúvida está “Casa de Caboclo”, de Heckel Tavares e Luiz Peixoto, grande sucesso na voz de Gilberto Alves em seu LP de 1962, intitulado “Gilberto Alves de Sempre”.

Os versos iniciais descrevem detalhadamente um cenário, em linguagem coloquial de grande expressividade:

“Vancê tá vendo
Essa casinha simplisinha
Toda branca de sapê
Diz que ela véve do abandono
Não tem dono
E se tem, ninguém não vê

Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E num pé de cambucá
Quando o dia se alevanta
Virgem Santa, fica assim de sabiá


Na estrofe seguinte, o autor passa a falar de um certo habitante da casa e sua reputada fama de cantador:

Deixa falar
Toda essa gente maldizente
Bem que tem um morador
Sabe quem mora dentro dela? Zé Gazela
O maior dos cantador

Agora, a narrativa fala de um encontro casual, um flerte e uma envolvente cena de amor. Atente-se para os modos brejeiros do conquistador e os trejeitos da moça encabulada, de pleno lirismo: 

Quando Gazela
Viu Sinhá Rita, tão bonita
Pôs a mão no coração
Ela pegou., não disse nada, deu risada
Pondo os olhinho no chão

A história evolui para o casamento entre Zé Gazela e Sinhá Rita e para um desfecho dramático, em que um flagrante delito de adultério é a nota máxima da canção:

E se casaram, mas um dia, que agonia
Quando em casa ele voltou
Zé Gazela viu Sinhá Rita muito aflita
Tava lá Mané Sinhô


Sem mais delongas, o autor encerra o poema-canção narrando de modo fantasticamente objetivo um crime passional, deixando ainda uma mensagem de cunho significativo:

Tem duas cruz
Entrelaçada bem na estrada
Escreveram por detrás:
Nma casa de caboclo
Um é pouco, dois é bom
Três é demais”

Obs.: A letra de “Casa de Caboclo”, a meu ver, não é uma apologia ao crime passional, ainda tão comum na sociedade dita moderna. O que se proclama aqui neste pequeno comentário, é unicamente a capacidade de concisão de uma história em poucas linhas, expressivas e impactantes, como bem sabem fazer os grandes letristras e poetas. Não merece nem comparação o besteirol que tomou conta brutalmente da Música Popular Brasileira, principalmente no começo deste século.
A música "Casa de Caboclo" teve várias interpretações, inclusive por Luiz Gonzaga, mas tudo leva a crer que a gravação de Gilberto Alves é a de molde mais apropriado, levando em conta a voz encorpada do cantor, na tonalidade certa para esse estilo musical, bem como a acertiva nos arranjos.
Encontrei este link em que se podem ouvir, além desta faixa, várias outras gravações de Gilberto Alves. “Casa de Caboclo” é a faixa 22:

quinta-feira, 23 de junho de 2011

IRREVERÊNCIA


MAIS PROEZAS DO JOTA
Meu amigo Marcos Lima tem o prazer de receber em sua moradia, na Barra do Ceará, Fortaleza, seus conterrâneos canindeenses que ali sempre aportam. Sou um de seus visitantes, vez por outra. A casa do Marcos respira poesia. A boa música, o bom papo e o bom vinho marcam presença naquele ambiente arejado pela brisa do Atlântico e cercada por coqueirais. Marcos me manda dizer que outro dia anfitrionou o poeta João Batista de Azevedo, o Jota Batista, que por lá passou um adorável fim de semana. E dele recolheu estes versos feitos na ocasião, onde o poeta-cantor-compositor mostra mais uma vez sua irreverência congênita:

REGINA ENTRE O ANJO E O DEMÔNIO

Chega o final de semana
Regina tá pelas festas
Curtindo pelas serestas
Enchendo o bucho de cana
Se veste toda bacana
Bebe uísque com cerveja
Sei que após esta peleja
Segunda pela tardinha
Ela vai toda sonsinha
Fazer média com a igreja

Eu quero e que você veja
O jeito desta menina
Eu penso é que a Regina
Normal ela não esteja
Tem hora que ela deseja 
Se manter na bebedeira
Cai e levanta a poeira
Bate o pé e se espreguiça
Se benze e corre pra missa
Do padre Manoel Ferreira

Já vi ela bem faceira
Bebendo em cima dum banco
Uísque Cavalo Branco
Bebida que é de primeira
Ao beber a saideira
Tirou o gosto com fruta
Correu e fugiu da luta
Dobrou a primeira esquina
E lá se foi a Regina
Rezar o terço na gruta

QUEM PARTE LEVA SAUDADE…

Certa noite minha mãe
Botava eu pra dormir
Entoando uma canção
Gostosa de se ouvir
Em casa papai não tava
Pois o mesmo trabalhava
Pro sustento garantir
  
"Ai ai ai, ai ai ai, ai
Já está chegando a hora
O dia já vem raiando
Eu tenho que ir embora"
Era assim a tal cantiga
Uma letra bem antiga
Que toda pessoa adora

 Era quase meia noite
Papai vinha do trabalho
O vento deu um açoite
Ele foi pelo atalho
Ao ouvir mamãe gasguita
Cantando a canção já dita
Pensou que fosse um chocalho
  
Ouvindo a voz estridente
Papai já imaginava
Será que é alguém doente?
Seu Manoel se interrogava
Esta voz tanto tinia
E papai nem percebia
Que mamãe cantarolava

Mamãe cantava dizendo:
"Ai ai ai, ai ai ai, ai”
“Viche! tem alguém morrendo”
Assim pensou o papai
“Vou correndo só pra ver
Se tem alguém pra morrer
Dessa vez ele se vai”

Quando papai foi chegando
Querendo então conferir
Quem é que tava gritando
Para outra vida partir
Ficou foi feliz da vida
Ao ver minha mãe querida
Botando eu pra dormir...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

HISTÓRIA


INVERNO 2009: RETROSPECTIVA

Ontem foi o primeiro dia de inverno no hemisfério sul. Como aqui não temos as quatro estações, o mês de junho para nós assinala o fim do inverno, ou fins dágua. Embora tenha chovido suficiente, e as chuvas continuem a cair, o inverno deste ano anda longe da estatística registrada há dois anos. Em 2009, segundo dados da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), choveu no Estado do Ceará 1.003mm, uma das maiores médias pluviométricas dos últimos 30 anos, perdendo só para o ano de 1985 quando foram registrados 1.239mm. Nos sertões de Canindé, as chuvas, em 2009, começaram a ganhar força no mês de março. No dia 18, véspera de São José, caiu uma chuva que se prolongou por toda a noite e provocou a sangria do açude São Mateus.
As chuvas fortes tiveram continuidade, ocasionando arrombamento de pequenos açudes e cortes nas estradas de chão na zona rural do município. No dia 25 de abril, aconteceu a primeira grande enchente, transbordando rios, arrastando lavouras e causando o arrombamento de várias represas, inclusive o açude do distrito de Esperança, construído há cerca de meio século e com capacidade em torno dos oito milhões de metros cúbicos. Na localidade de São Miguel, muitas casas caíram por causa da enchente.
A segunda grande cheia do ano aconteceu no dia 1º de maio, surpreendendo a todos os canindeenses com a sangria do açude Sousa, construído em 1998 e com capacidade para acumular 33 milhões de metros cúbicos. Segundo análise de técnicos, a sangria do reservatório estava prevista para acontecer cerca de vinte anos após a sua construção, considerando a média pluviométrica da região e a vazão do rio Sousa e seus afluentes.
As enchentes se sucederam nos dias 5, 12 e 27 de maio. O mês de junho também foi de chuvas intensas, a maior delas no dia 3. Embora com menor intensidade, o mês de julho continuou banhando todo o Estado com boas chuvas. No dia 23, por exemplo, o aguaceiro não deu trégua da manhã até a noite, reforçando a sangria da maioria dos açudes do município. Ainda chovendo fora da época normal da estação invernosa, no final do mês de agosto, 26, assistimos a mais um dia de chuva ininterrupta e de grande abrangência no Ceará.
O ano de 2009, portanto, entrou para os anais da meteorologia como um dos mais rigorosos do Ceará. Por causa das chuvas intensas, a safra de culturas típicas da região - feijão e milho - foi prejudicada, deixando a grande maioria dos pequenos agricultores no prejuízo. O forte inverno causou ainda diversos problemas de ordem social: famílias desabrigadas, mortes por afogamento, acidentes automobilísticos e epidemias. Em várias cidades foi declarado estado de emergência pública, principalmente nas regiões Norte e Sul do Estado.
Durante quase todo o ano, a flora nativa manteve-se exuberante e o verde foi a cor que predominou no cenário que compõe a mata sertaneja. A abundância das chuvas também trouxe de volta várias espécies de aves quase em extinção na caatinga. Além do arrombamento de muitas represas, nenhum reservatório deixou de sangrar, entre eles o maior açude construído no Estado, o Castanhão, que teve suas comportas abertas para banhar em toda largura o rio Jaguaribe, tido como o maior rio seco do mundo.
A espantosa intensidade pluviométrica registrada no Ceará, em 2009, contrastou assustadoramente com a seca de 2010, que por sua vez, foi considerada uma das maiores estiagens que assolaram nosso Estado desde 1993 quando a média pluviométrica não ultrapassou a faixa dos 255mm.
Alternando anos de aguaceiros com anos secos, o Ceará continua um estado cuja atividade agrícola, mesmo em regime de economia familiar, é insustentável para a auto-suficiência. Quer chova ou faça sol, o sertanejo permanece o mesmo homem dependente do auxílio tardio e minguado do governo.


terça-feira, 21 de junho de 2011

DENÚNCIA

APAGÃO E DESCASO


Blog é também espaço para denúncia. Desta vez, minha denúncia é contra a COELCE, a Companhia Energética do Ceará, pelo péssimo atendimento ao usuário. Ficamos aqui na Vila Campos, cerca de 48 horas sem eletricidade, desde o último domingo, devido à ineficiência, descaso e incompetência dos dirigentes dessa empresa que foi privatizada com promessas de melhor assistência ao consumidor. Depois de várias ligações telefônicas e enfrentando uma "burrocracia", botando mesmo a gente "pra andar", é que foi enviada uma equipe de técnicos para resolver o problema. Enquanto isso, os prejuízos domiciliares, por conta da falta de luz, deveriam ser responsabilizados pela COELCE. Porém, é preciso muita paciência da parte do consumidor para ganhar uma causa dessa, enfrentando outra vez a "burrocracia" dos órgãos competentes. A Companhia devia entender que o fornecimento de energia elétrica é um serviço de primeira ordem, tal como água e outros produtos indispensáveis no dia a dia. Contudo, não há respeito e atendimento eficaz nessas horas. Eficácia mesmo, só para cortar a luz do consumidor e cobrar taxa de iluminação pública. (Pedro Paulo Paulino)

POEMA MATUTO


DO LIVRO ‘CANTIGAS QUE VÊM DA TERRA’,*
EU E MARIA

Nasci no sítio Belém
Lá nasci e me criei
E desde novo eu jurei
De num casar com ninguém
Por arte num sei de quem
Com Maria me encrontei
Quebrei tudo que jurei
Passei dois mês namorano
Passei três me ajeitano
Com quatro mês me casei

Me casei com muita fé
Mas pro pintura do diacho
Lá perto morava um macho
Inludidô de muié
Um tal de Joca Romeu
E esse um dia apareceu
No rancho que nós vivia
Com um jeitão muito estranho
Um oiá desse tamanho
Reparando pra Maria

Depois de um mês de casado
Eu notei que tinha um sócio
Ela inventou um negócio
De nós drumir apartado
Inventava um bucho inchado
Dô de cabeça e de ouvido
Um tal de corpo doído
Umas fireira no pé…
Essas manha de muié
Que quer dexá o marido

Eu só vivia dizeno:
Talvez nunca me acostume
Eu morrendo de ciúme
E os amô dela cresceno
Sempre aquelas coisa, eu veno
Ela toda diferente
Ele metido a valente
E pra terminar a novela
Tratou de vim buscá ela
Na outra noite da frente

Inda vi eles sainno
Ele perguntou por mim
Ela arrespondeu assim:
O bestaião tá drumino
Eu aquelas coisa ouvino
Fui me levantei também
Ela dizia: Ele vem
Mas num vá temê acocho
Que aquele meu véi é frôxo
Nunca brigou com ninguém

Isso era de madrugada
Quaje amanheceno o dia
Quando eu oiei, eles ia
Já descambando a chapada
Larguei os pés na estrada
Pra ver se ela me atendia
Gritava: Vem cá, Maria
Vorta pronde tu morava!
Mas quato mais eu gritava
Mais a danada corria

Mas sabe o que aconteceu
Com a vida de nós dois?
Com uns dez anos depois
Maria me apareceu
Deixou o Joca Romeu
Voltou toda diferente
Com oito fios na frente
Uns com tosse, outros com gogo
E eu tenho comido é fogo
Pra sustentar tanta gente

*Lançado em 2002 por Geraldo Amâncio e Wanderley Pereira.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CORDEL A QUATRO MÃOS


A BASÍLICA *

Celso Góis Almeida e
Pedro Paulo Paulino


CG - São Francisco, perdoai,
Com a permissão de Deus,
Virem estes filhos teus
Frente a Casa do teu Pai,
Quando de suas verves sai
Um cordel feito matriz,
De pintura sem verniz
Numa aquarela de fé,
Pra falar de Canindé,
Com sua bela Matrizx.

PP – Embora esteja fechada
Com o portão da esperança,
Há gente que te alcança
Como a eterna morada…
A tua bela fachada
A nossa terra enobrece,
O romeiro que padece,
Em ti encontra guarida:
És energia pra vida,
Para o coração és prece.

CG – São tantos pés calejados
Sobre esse teu patamar
E o coração a orar
Pelos filhos desprezados;
De tantos abandonados
Por esses sertão arisco
E sempre correndo risco
Nas mais diversas pelejas,
Mesmo com tantas igrejas,
Amam a de S. Francisco.

PP – Templo de nova visão,
Casa da fraternidade,
S. Francisco, na cidade,
É todo de devoção.
A sua meiga lição
Jamais será esquecida.
S. Francisco deu a vida
Pelo bem, tal qual Jesus
Representa aquela cruz
A paz que foi esquecida.

CG – Quando o pão foge da mesa
Porque a safra não vem,
Quando a panela não tem
O quinhão da sobremesa,
A vida vira tristeza
E torna o homem infeliz,
Mas o pensamento diz:
- Em Francisco eu tenho fé
E vou lá pra Canindé
Rezar na sua Matriz.

PP – Seja noite, seja dia,
O seu brilho é envolvente,
Confunde-se ao sol nascente
Com a pura poesia.
Toda pureza irradia,
De toda cor tem matiz…
Nem a “torre de Paris”
Jamais foi como esta é.
Viva o nosso Canindé,
Com sua bela Matriz.

CG – São Francisco, tua igreja,
Com tantos traços sutis
Torna a alma mais feliz
De todo homem que a veja.
Sua imponência despeja
Sobre as agruras da vida
As bonanças divididas
Nomeio que mais carece
E faz da dor uma prece
Sob essas torres erguidas.

PP – Recebe em seu leito aberto
Tanto o ateu como o crente.
É um perfeito ambiente
Para quem se encontra incerto.
O coração  mais deserto
Ali encontra conforto.
É superior ao “Horto”
Por suas propriedades,
Em meio às desigualdades
Equilibra o era torto.

CG – Às vezes o pregoeiro
Altera tua lição
Ofendendo a devoção
Do nativo e do romeiro.
Até nosso padroeiro
Com isto se desencanta,
Da sua morada santa
Nos manda a repreeensão:
Francisco, a tua mansão
A nossa visão encanta!

PP – È lindo o teu campanário,
Sinal das horas sagradas,
Tuas torres afinadas
Até parecem rosário…
A porta é um breviário
A todos dando perdão,
O centro é um coração
Que acolhe o infeliz;
É com certeza a Matriz
a beleza do sertão.

CG – Dessa Basílica tão
Perfeita como a fizeram,
Tantas coisas já disseram
Sobre a sua construção.
Nesse templo de oração
Onde refloresce a fé,
Os seus devotos a pé
Ruamando ao templo sagrado
Choram emocionados
Na Matriz de Canindé.

PP – Evoca a própria grandeza
Que inspirou o Padroeiro.
Olhando-a, nosso romeiro
Demonstra ter mais firmeza
E quando ela está acesa
É belíssimo o painel.
À noite parece um véu
Que só nos faz deslumbrar,
Quem sobe o seu patamar
Já sobe um degrau do céu.

CG – Gigantesco monumento
De torres olhando o céu
Perguram belas o véu
Que envolve o firmamento.
Sente-se por um momento
Num ato de contrição
Ser necessário oração
E entra no templo sagrado,
Para deixar o pecado
E de lá levar perdão.

PP – Lá, entram almas impuras
Buscando ter um conforto,
O coração quase morto
Repleto só de amarguras.
No teto, belas pinturas
Encantam nossa visão.
Toda vez sinto emoção
Se tenho pra ela olhado:
Pois ali deixam pecado
E dali levam perdão.

CG – Os estilo diferentes
Que dão forma a escultura
Reperesentam a mistura
De vida dos penitentes.
Tantas faces sorridentes
Sobre corpos maltratados
Que rezam ajoelhados
Na mais contrita emoção
Vêm ali pedir perdão
Por achar que tem pecados.

PP – De joelhos, no altar,
Quantos já não se renderam?
Aqueles que se perderam
Vieram te procurar.
Do teu sino, o badalar
É por todos escutado.
Quem fica emocionado
Demonstra fé de cristão
Por achar que tem pecado.

CG – É como se fosse o lar
De quem não possui um teto.
Talvez o seu arquiteto
Inspirou-a pra abrigar
O homem que a trabalhar
Passa a vida sem viver,
Sem ter nada pra comer
Nesse caminhar eterno,
Fugindo do próprio inferno
Planta e não pode colher.

PP - Com a estátua de pé
Brevemente na cidade
Teremos uma trindade
De monumentos da fé.
Dessa forma, Canindé
Ingressa o novo milênio,
Com bem mais oxigênio,
Acenando ao mundo inteiro
Que a cidade do romeiro
Carece de mais convênio.

CG – Monumento coletivo
Da fé de todo cristão,
Firmamento de emoção
Do nosso ser primitivo
Que no peito traz cativo
O amor pelo celeste;
Todo povo do agreste,
Qual ave de arribação,
Vem beber sua oração
No doce mar do Nordeste.

PP – Pedindo à Matriz perdão,
Exposta aos raios divinos,
Dois poetas peregrinos
Rumam numa procissão…
Os versos em oração,
CG – Concentrados num só culto,
Elevam soberbo vulto
Lá pros convins do Universo,
Somente atravé do verso
O bem não se faz oculto.

*Este folheto de Cordel, publicado em 2002, integra o Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, realizado pelo poeta Arievaldo Viana. Também faz parte do livro São Francisco na Literatura de Cordel, de Arievaldo. Celso Góis Almeida é autor do livro Concerto de Poemas sem Conserto, lançado nesse mesmo período em Canindé.

domingo, 19 de junho de 2011

ALMANAQUE DE DOMINGO


UM FATO

O fato que chamou mais a atenção nesta semana que passou, talvez não tenha acontecido na terra, mas no céu. O eclipse da Lua no dia 15 tornou-se um espetáculo que atraiu a curiosidade de milhares de brasileiros, principalmente no Nordeste onde o evento foi plenamente visto. Em grande parte do Ceará, o céu aberto propiciou a visibilidade do fenômeno astronômico. A previsão de eclipses, do Sol e da Lua, faz parte do conhecimento dos astrônomos desde a antiguidade. Já deve ter sido mesmo mais preciso esse tipo de estudo, do que o dos primórdios da Meteorologia. Um dos eclipses que entrou para a história ocorreu em 1919, quando cientistas ingleses se deslocaram até à cidade de Sobral, no Ceará, oportunamente durante um raro eclipse do Sol verificado no dia 29 de maio desse ano. Na ocasião, foi testado um dos aspectos fundamentais da Teoria da Relatividade, do cientista alemão naturalizado norte-americano, Albert Einstein. A importância desse feito científico ganhou repercussão em todo o mundo. Como homenagem, foi criado em Sobral o Museu do Eclipse. Sobre o assunto, é interessante visitar o site Einstein e o Eclipse de 1919, acessando o link: http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol6/Num1/eclipse.pdf

UMA ANEDOTA

Do seu livro CEARÁLEGRE, Plautus Cunha nos conta essa de Paula Ney, o poeta cearense que chamou a cidade de Fortaleza de “A loura desposada do sol”:

“O parto selou o fim de suas atividades acadêmicas na Faculdade de Medicina do Rio. Foi rerprovado nos exames finais ao 4º ano fracassando no ponto sorteado: obstetrícia.
A alguém que lhe perguntou se deixava a Faculdade, Paula Ney respondeu:
- Sim, meus amigos, saí pela porta da vida. Foi a minha derrota: morri de parto.
Doutra feita, o professor lhe pergunta:
- Como o senhor realizaria o curativo numa lesão aberta na cabeça de um paciente?
- Procedo à assepsia local, aplico iodo e uma gase na superfície.
- Errou, diz o lente. Em primeiro lugar, o senhor tem que proceder à raspagem do couro cabeludo.
- No meu caso, professor, o paciente é careca.

UM SONETO

OS ROLAMENTOS DO JUÍZO

(Arievaldo Viana)
O juízo do poeta é assentado
Sobre eixo, com esfera e rolamentos
Fabricando e polindo pensamentos
Nos poemas que sempre tem versado.

Tal processo depende do estado
Das marés dessa vida e até dos ventos
Se o atacam mazelas e tormentos
Tais problemas o deixam emperrado...

Tem poeta que corre para igrejas
Se o bolso, porventura, encontra liso
Ou talvez está farto das pelejas...

Sou Cristão e de Deus também preciso
Para não ocupá-lo, só cervejas
Me azeitam as esferas do juízo.

UM REPENTE

O cantador Luís Campos se encontrava numa cantoria de bar com outro parceiro, quando uma mulher entra pedindo esmola à assistência e aos cantadores. O poeta não perdeu o ritmo da cantoria e aproveitou o cenário para construir esta sextilha:

Ô coisa pra não dar certo
É esta que estou ouvindo:
Você vem pedir dinheiro,
Mas, por favor, vá saindo,
Vá pedir noutro lugar,
Que aqui já tem dois pedindo.

(Do livro “Gênios da Cantoria”, de Geraldo Amancio e Wanderley Pereira.)

UMA CURIOSIDADE

A primeira ambulância foi projetada em 1792 pelo barão Dominique Jean Larrey, médico de Napoleão Bonaparte, para retirar os soldados feridos do campo da batalha, sem aumentar os seus ferimentos. Larrey tinha a fama de ser um cirurgião muito eficiente. Certa vez, durante uma pequena batalha, ele amputou 200 braços e pernas de soldados sozinho. Juntamente com o médico-chefe do exército francês, Pierre François Percy, Larrey estabeleceu uma equipa de motoristas de ambulâncias com cirurgiões de campo e carregadores de maca. Cada divisão era equipada com 12 ambulâncias com molas de suspensão. Foram usadas pela primeira vez durante a invasão de Napoleão a Itália, em 1796-1797.

UMA FRASE

“Banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.” (Barão de Itararé)

UM CAUSO

Sobre postagem do blog na semana que passou, Arievaldo manda essa sobre o Prof. Farias:

“Tem uma ótima anedota do professor Eliúd Farias. Ele chegou a Canindé, salvo engano, trazido pelo nosso amigo Silvio Leite e teve que viajar ‘a trabalho’ para o vizinho município de Santa Quitéria. Na hora do almoço foi levado a um restaurante chamado URANO. Muito lhe encantou que o nome de um dos planetas do Sistema Solar fosse emprestado a uma casa de repasto nos confins do hinterland cearense. Após a refeição, procurou o proprietário do estabelecimento para parabenizá-lo:
- O senhor gosta de Astronomia? Percebi que botou o nome de um planeta no seu estabelecimento.
O homenzinho, limpando a mesa e recolhendo os pratos, não entendeu a princípio aquela abordagem repentina, mas saiu-se com esta:
- Num é pranêta, não, dotô... é pru causa de uma mina de ‘urano’ que tem aqui na região!”

UMA HOMENAGEM

Ao radialista, poeta e jornalista Tonico Marreiro, aniversariante do dia 17 de junho.



UMA IMAGEM

Ipê em floração na Vila Campos