SERTÃO E INVERNO
Pedro Paulo Paulino
Quem viu de perto o cenário assustador do sertão ressequido, olhando-o do mesmo ângulo agora é capaz de jurar que houve uma transformação mágica na paisagem. De uma hora para outra, a grama verde se estendeu sobre a terra, os riachos se empanzinaram com os aguaceiros, os pássaros voltaram a cantar festivos e a natureza envolvente exibe um cartão-postal espetacular. Nos poços e córregos, palco da saparia, veem-se os montes de espuma branca deixados pelo sapo-boi, o tenor que, orgulhosamente, só se apresenta nos bons invernos.
Se o sertão está em festa, o sertanejo é quem mais comemora.
Numa dessas manhãs de inverno, tive o prazer de conversar com um sertanejo autêntico, já contando seus 70 anos, de gestos expressivos e cheio de bonomia. Fala quase cantando, sem dar pausa na conversa, entrecortando as palavras com um riso ingênuo que ajuda a realçar as rugas na face murcha, marcas do sol inclemente do sertão. Enquanto conversa comigo, remonta um trecho de cerca derribado pela cheia.
Ele então me participa o desafio que topou durante o esticado verão, na tentativa heróica para “escapar” da fome o seu rebanho de gado, dez cabeças. E me detalha a luta intensa do dia a dia naquela estação rude do ano, ele e o filho mais moço cortando cacto que, depois de assado, vira forragem. “Trabalho de doido”, me disse. “A gente não tinha folga, acordava de madrugada e ia cortar mandacaru, pra depois assar e botar pras vacas.” Nos relevos da sua pele ficaram bem crimbados os estigmas da luta: pele cavada pelos espinhos e garranchos, tostada pela soalheira e pelo fogo; mãos áperas e ressequidas.
O mandacaru, planta da caatinga, é a derradeira alternativa de salvação do gado na seca.
Agora, pisando a terra ensopada e olhando o verde triunfante da mata fresca por todos os lados, o sertanejo prefere ficar esquecido dos dias recentes de secura e incerteza. Ao mesmo tempo em que me diz que o pasto está a toda, que há fartura dágua e que os pés de jerimum, de milho e de feijão crescem a olhos vistos, ele dá sempre um graças a Deus reverente, tirando o chapéu e olhando para o alto. E não esconte a alegria de ver o seu minguado rebanho de boi mais robusto, de pêlo luzido, solto na manga.
Conversar com essa gente nos deixa enlevado. Chega-se a estabelecer um parâmetro para a suposta felicidade. Para um homem simples como esse, a quem a dimensão das coisas está reduzida ao seu mundo, a felicidade existe em pormenores que para muitos mortais passam despercebidos. Desligado de outros interesses, para o sertanejo autêntico tudo vai bem, obrigado… No seu dizer, “basta saúde e coragem pra trabalhar, que o resto Deus resolve”.
Mas não há que negar que o sertão também está pervertido, pois, junto com a sofisticação que importamos da cidade, vieram os males e as chagas sociais próprios do mundo urbano. Nessa maré de modismo, observa-se uma promiscuidade de ideias no sertanejo, bombardeado pelo noticiário da tevê, com suas imagens que chegam pelas enormes antenas parabólicas dominando hoje o telhado mais encardido do casebre mais humilde. E até já nos comunicamos com São Paulo – onde ainda teimam muitos dos nossos – através do telefone celular.
Nos alpendres, o ritmo em voga tomou o lugar do baião do Gonzagão e da cantoria de viola. O microssistem aposentou o velho rádio Semp. A nudez das atrizes de novela e das cantoras de banda de forró que aparecem na tela já é vista sem censura pelo matuto mais recatado. Tudo muito normal.
Assim está o sertão, vacilando entre o jeca e o chique.