sexta-feira, 8 de julho de 2011

poesia

LAMENTO DE UM CANTADOR

João Siqueira de Amorim, grande poeta cearense natural de Barbalha, Ceará (913), foi também fenomenal cantador. Filho de pais humildes, não teve sequer o curso primário.Começou a cantar em 1928. Formou dupla com o violeiro Domingos Fonseca. Exerceu o jornalismo. Funcionário público aposentado. Chegou em Fortaleza no ano de 1935 onde foi colaborador nos jornais "Gazeta de Notícias", "O Estado", "O Povo" e "Correio do Ceará", no qual manteve a secção "Poesia Popular" de parceria com DomingosFonseca. Sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa, desde 1950. Siqueira de Amorim fundou em Fortaleza, em 1956, um jornalzinho com o nome "A Voz do Cantador", órgão da Associação dos Cantadores do Nordeste, saindo seu primeiro número em 1/1/1956. Autor do livro "Ecos da Juventude" (1949). A certa altura da existência, perdeu totalmente a voz. Seu desabafo em versos é de um lirismo instigante:

Passarinho lavandeira,
Canta e diz para a cidade
Que a viola do Siqueira
Emudeceu de saudade!...

Qual a razão, quais o males
Que fiz aos meus semelhantes
Para perder minha voz
No curso de alguns instantes?
Às vezes, sonho cantando,
Mas é o sonho enganando
As minhas cordas vocais;
De alegria me transbordo,
Porém depois quando acordo
Tudo é mudez… nada mais.

Quanta tristeza me invade
Quando a manhã vem raiando:
Eu ouço o concerto alegre
Da passarada cantando…
Acordes da melodia
Trazem aquela alegria
Da aurora que surge além,
Enquanto eu, mudo, enlutado,
Me lembro que no passado
Já fui cantador também.

Em certas horas soluço
Qual um órfão pela rua;
Chora comigo a saudade
Nas noites claras de lua…
Meus tempos de cantorias,
Meus “quadrões”, minhas porfias,
No litoral, nos sertões.
O sabiá sem gaiola
Perdeu a voz, a viola,
O sonho, a rima, as canções…

Nesses momentos divinos
Sob estranhos pesadelos,
Chegam-me versos e rimas,
Mas eu não posso dizê-los:
Minha viola querida
Lá num canto emudecida,
Como quem tudo perdeu.
Quero cantar, como outrora,
Procuro a voz, foi embora,
Minhalma também morreu!...

Fonte: O Dossiê do Fonseca
Colaboração: Arievaldo Viana

Nenhum comentário:

Postar um comentário