sábado, 8 de outubro de 2016



MAGIA E DEVOÇÃO NO PARQUE

Há 31 anos o Parque do Airton é atração nos festejos de Canindé.
E o dono, um romeiro fervoroso de São Francisco.

Pedro Paulo Paulino

José Airton de Sousa tinha apenas nove anos quando a primeira vez veio a Canindé como romeiro de São Francisco. Desde então ele assumiu um compromisso pelo resto da vida: nunca mais perder a festa do padroeiro dessa cidade do Sertão Central cearense que abriga o maior santuário franciscano das Américas e recebe por ano cerca de um milhão e meio de peregrinos. Ele conta, no entanto, que já nessa época trabalhava como ajudante de parque – e esse foi um fator determinante na sua caminhada profissional.

Dito assim completo, o seu nome não seria reconhecido por ninguém na cidade. Mas é muito provável que o nome Airton do Parque seja familiar a quase todo canindeense. Afinal, já por três décadas ininterruptas o Centro de Diversões São Francisco instala-se em Canindé durante os festejos do santo. Dito assim também, o nome da empresa perde longe para o popular Parque do Airton, conhecido de gerações de canindeenses e romeiros e que se tornou um emblema da festa de São Francisco.
A instalação do Parque do Airton, junto à praça Nossa Senhora das Dores, dias antes do começo da festa e modificando a paisagem urbana com seu colorido, é o aceno de que a cidade já respira um clima diferente. Segundo o proprietário, em todo esse tempo o parque foi instalado em vários pontos, mas se estabeleceu em definitivo na praça. “No começo, me instalei no local da antiga feira livre onde hoje existe um quarteirão de prédios comerciais”, relembra, trazendo de envolta a lembrança de vultos antigos como o barbeiro “Brilhante” e o ex-prefeito Chico Campos. “Alcancei Canindé iluminado pela energia do gerador do convento e depois pela usina de General Sampaio. Continuo vindo para cá muito pais pela devoção do que visando lucros financeiros”, assegura Airton. Mesmo assim, ele enfatiza que leva a capricho manter a empresa em dia com os compromissos e taxas municipais, gerando pelo menos 18 empregos diretos na cidade nesse período.
O público freqüentador, em sua maioria, está na faixa etária dos 12 aos 20 anos e uma das atrações preferidas ainda é a roda gigante. No passado, recorda, a música do momento oferecida pelo serviço de alto-falante era o glamour das diversões. “Essa tradição acabou”, diz num tom nostálgico, chamando a atenção para a concorrência desleal dos meios eletrônicos.

PROMESSA

Hoje com 62 anos de idade, José Airton de Sousa, nascido em Pentecoste, Ceará, cumpre à risca a promessa que fez aos nove anos e conserva uma tradição: trajar marrom durante a festa de São Francisco. Tornou-se um apaixonado pela romaria, acompanha todas as procissões ajudando a conduzir o painel e assiste a todas as novenas na Praça do Romeiro. Bonachão e conversador, é um devoto fervoroso que vibra no meio da multidão de fiéis. Guarda com orgulho uma coleção completa de todos os livros de cânticos editados a cada ano e autografados por frades franciscanos.
Outra coleção que ele tem orgulho de apresentar são os amigos que fez durante todo esse tempo em Canindé. “Graças a Deus tenho muitas amizades aqui. Sou de Pentecoste, mas meu coração é canindeense”, afirma sem esconder a emoção. O reconhecimento a esse seu bairrismo tornou-se oficial em 2013, quando recebeu da Câmara Municipal o título de cidadão canindeense. “Foi uma das maiores alegrias que tive. O que possuo, na verdade, é de São Francisco, sou apenas um pastorador”, diz.
Anacrônico mas sem perder a autenticidade, o Parque do Airton tem a magia de somar o moderno com o passado romântico, resultando numa equação de sucesso até agora. Emoção e fé passeiam por aquele labirinto de atrações lúdicas e simples, graças à simpatia que o centro de diversões conquistou do público canindeense em especial, tornando-se uma característica dos festejos na cidade. Apontando para a basílica, Airton agradece ao padroeiro por não contabilizar até hoje um só acidente em seu parque, nem em Canindé nem nas outras cidades onde também se instala. “E nunca vai acontecer, porque o parque é abençoado por São Francisco”, finaliza.


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