sábado, 28 de abril de 2012


O PIRAMBU

Rogaciano Leite

Pirambu – bairro da fome,
Da nudez, da escuridão;
De mocambos atolados
No lixo, na podridão;
Chaga que a cidade oculta
E a sociedade insulta
Com as tertúlias sociais;
Bairro que Célia Guevara
Não pôde ver cara a cara,
Porque revolta demais.

Bairro dos meninos magros
E de pais no desemprego;
De fogões que não cozinham,
De mães que não têm sossego;
Bairro onde os órfãos da sorte
Travam duelo com a morte
Tentando sobreviver;
Onde o pobre que trabalha
Só tem direito à mortalha
Do filho que vai morrer.

Bairro onde a noite se estende
Com seu enorme capuz
Sem ver no areial imenso
Um poste que tenha luz;
Bairro que chora e soluça
Junto ao mar que se debruça
Para ajudá-lo a chorar;
Recanto onde a verminose
Pediu à tuberculose
Carta-branca pra matar.

Submundo de almas aflitas
Que estrebucham pra viver,
Que vivem quase morrendo
Mas lutam pra não morrer;
Mundo infecto de palhoças
Sem privadas e sem fossas,
Sem jardim e sem quintal;
Sem um canto onde se pise
Sem que o sapato deslize
Nas fezes, no lamaçal.

Mundo que repugna aos olhos
Que faz mal ao coração;
Onde a infância não tem leite
E os adultos não têm pão;
Mundo de miséria extrema,
Cujo difícil problema
O Poder não encampou;
Deus não faz ponto final,
Mas chegou nesse arraial,
Viu a tragédia e parou.

Em cada mocambo infecto
Mora uma prole infeliz,
Sem remédio e sem escola,
Sem água no chafariz;
Esses famintos cristãos
Nunca tiveram nas mãos
Uma carta de ABC;
São nivelados a bicho,
Sobre montanhas de lixo
Que a prefeitura não vê.

Em cada eleição passada
Houve plataforma e esquema
Para redimir o bairro
E acabar esse problema;
Cada candidato ao posto
Passou o lenço no rosto,
Fez um discruso e chorou;
Prometeu, comprometeu-se,
Arranjou voto, elegeu-se,
Ficou rico e não voltou.

Mães de olhos tristes e cavos
Dormem naqueles mocambos
Sob mantos de bacilos,
Sobre montes de molambos;
Descoberto, enregelado,
Tirita o filhinho, ao lado,
Sobre uma esteira de pau,
Onde passa a noite inteira
Chorando por mamadeira
Sem saber o que é mingau.

São choças esburacadas,
Perdidas na noite fria,
Onde a umidade é uma máquina
De fazer pneumonia;
Na fedentina que exala
O micróbio se propala
Na sua fúria assassina;
E no tal bairro-suicida
Não se conhece hidrazida,
Não se vê penicilina.

À noite, o bairro adormece
Sobre a miséria perene;
O escuro, os vermes, a lama,
O mau-cheiro, a anti-higiene;
Bem cedo, em vez de ir à escola,
O menino pede esmola
Nos botequins do arraial;
Sabe que a fome é horrenda…
Mas não soletra a legenda
Do Pavilhão Nacional.

Naquela promiscuidade
De aterradoras vigílias,
Prostitutas proliferam
No recesso das famílias;
Sem pão, sem Deus, sem saúde,
Vendem a honra e a virtude
Por uma oferta qualquer…
A fome quebra o caráter,
Neutraliza o instinto máter,
Reduz a zero a mulher.

Não é o pecado uma fúria
No seu delírio carnal,
Mas seu único recurso
Contra a fome estomacal;
Forçada pela miséria,
A virgem vende a matéria,
E oferta a alma à Santa;
E enquanto até Deus lhe foge,
Aquela que é pura hoje,
Será impura amanhã.

Tantas famílias com fome,
Tanta panela vazia;
Tantas fábricas fechadas
Por escasses de enrgia.
Enquanto falta assistência,
A indústria vai à falência
Em derrocadas fatais;
Só a desgraça do povo
É sempre um motivo novo
Nos “rushes” eleitorais.

(…)

Que é feito de mil promessas
Que jamais foram cumpridas;
Em vez de casas decentes,
Lá só tem tenhas caídas.
Nesses exíguos casebres
Há paralisia e febres,
Câncer nos seios das mães;
Mocinhas tossindo fundo,
Sífilies, doenças do mundo,
Gafieira como os cães.

É tempo, já, meus senhores,
De extinguir esse problema;
De acabar com essa mancha
Sobre a Terra de Iracema;
Crehces, hospitais, lactários,
Maternidades, berçários
No bairro do Pirambu;
Enquanto os clubes dão festa,
Cada palhoça modesta
Sepulta um menino nu.

Dedicai um dia, ao menos,
Um dia de cada mês,
Para um bingo contra a fome,
O desabrigo e a nudez.
Olhai o bairro-problema
Na sua miséria extrema
E o povo a chorar nas ruas…
Com um só vestido de miss,
Talvez um clube cobrisse
Mil mocinhas que andam nuas.

Tende orgulho dos mais ricos,
Clubes que há neste País;
Mas tende também vergonha
Daquele bairro infeliz.
Fortaleza é uma cidade,
Cuja flor da sociedade
Faz Monte Carlo tremer;
E enquanto a society impera,
A miséria prolifera
Em ritmo de estarrecer.

Pirambu, bairro dos tristes
Que a desventura cobriu;
Praia que as ondas não lavam,
Recanto que Deus não viu;
Cidade de mortos-vivos
Que nem os negros cativos
Viveram tragédia igual;
Que na era dos foguetes
Mostram no rosto os sinetes
Da escravidão social.

Rogaciano Leite (1920-1969)


domingo, 22 de abril de 2012


14 ANOS SEM NELSON GONÇALVES


No dia 18/04/2012 fez 14 anos que o cantor e compositor NELSON GONÇALVES nos deixou. Nasceu em Santana do Livramento (RS) e mudou-se logo em seguida para São Paulo, onde foi morar no bairro do Brás. Foi jornaleiro, mecânico, engraxate e garçom, além de lutador de boxe na categoria peso-médio. Mesmo com o apelido de "Metralha", por causa da gagueira, decidiu ser cantor. Foi reprovado duas vezes no programa de calouros de Aurélio Campos. Finalmente foi admitido na rádio, mas dispensado logo depois. Seguiu para o Rio de Janeiro em 1939, onde trilhou mais uma vez o caminho dos programas de calouros, sendo reprovado novamente na maioria deles, inclusive no de Ary Barroso, que o aconselhou a desistir. Finalmente em 1941 conseguiu gravar um 78 rotações, que foi bem recebido pelo público. Passou a crooner do Cassino Copacabana Palace e assinou contrato com a Rádio Mayrink Veiga, iniciando uma carreira de ídolo do rádio nas décadas de 40 e 50, da escola dos grandes, discípulo de Orlando Silva e Francisco Alves. Alguns de seus grandes sucessos dos anos 40 foram "Maria Bethânia" (Capiba), "Normalista" (Benedito Lacerda e Davi Nasser) "Caminhemos" (Herivelto Martins), "Renúncia" (Roberto Martins e Mário Rossi) e muitos outros. Maiores ainda foram os êxitos na década de 50, que incluem "Última seresta" (Adelino Moreira e Sebastião Santana), "Meu vício é você" e a emblemática "A volta do boêmio" (ambas de Adelino Moreira). No final da década de 50 envolveu-se com cocaína, chegando a ser preso em flagrante em 1965, o que lhe trouxe problemas pessoais e profissionais. Superada a crise, lança o disco "A volta do boêmio nº 1", um grande sucesso. Continuou gravando regularmente nos anos 70, 80 e 90, reafirmado a posição entre os recordistas nacionais de vendas de discos.

Via Site COLLECTOR'S: http://www.collectors.com.br/