quinta-feira, 8 de março de 2012

REPORTAGEM

ELA TEM 107 ANOS...


História de vida de uma sertaneja que ultrapassou um século, cheia de muita alegria, saúde e disposição

Pedro Paulo Paulino
Colaboração: Márcia Daniel Viana

Hoje é o aniversário de uma habitante muito especial de Vila Campos. D. Maria dos Santos está completando 107 anos de idade. Nascida no dia 25 de dezembro de 1904, ela foi uma das primeiras crianças batizadas na capela de S. Roque, erguida na localidade em 1905. Lúcida e sempre com um astral em alta, D. Maria dos Santos não perde oportunidade para uma boa conversa alternada a todo momento por uma gostosa risada. Não se queixa de nenhuma doença nem de dores físicas. “Nem mesmo reumatismo eu sinto”, garante ela, que lamenta apenas o desgaste da visão. Apontando para o filho mais velho sentado à sua frente, brinca: “O joão parece que tá mais velho do que eu”. Desde que ficou viúva, há 18 anos, reside com um dos filhos, o José, e está sempre cercada de netos. “Graças a Deus e S. Roque, minha família está sempre perto de mim.” D. Maria dos Santos, num bom sentido, é toda prosa.

Morada Nova, onde reside D. Maria dos Santos, é uma das pequenas localidades adjacentes que compõem a povoação de Vila Campos. O caminho até lá é uma estrada vicinal, cortada pelo riacho dos Campos. Às margens dele D. Maria nasceu, no dia de Natal de 1904, no sítio Jatobá. A sua existência em tudo tem a marca da mulher sertaneja resistente: nos relevos da pela, na cor tostada, no jeito de falar e, principalmente, nas lembranças que guarda de sua mocidade. Dentre elas, recorda com saudade as festas puxadas a oito baixos na fazenda Canjari, distrito de Targinos. “Naquele tempo era muito diferente. As moças só iam pra festa na companhia de pessoas da confiança dos pais”, explica comparando com a liberdade de hoje. “Os rapazes aqui dos Campos eram os que dançavam melhor”, relembra. A conversa dela é empolgante e envolvente, acompanhada sempre de gestos carinhosos. Enquanto conversa, aproveita para perguntar por pessoas do seu conhecimento. Muitos, é claro, já se foram. Mas ela garante nunca se sentir sozinha. “Aqui não falta gente pra conversar comigo. Tem o povo da casa e os que vêm me ver.”
Márcia: conversa animada
com D. Maria
Quando nos recebeu, na manhã da última quinta-feira, ela exibiu no rosto aquela satisfação comumente notada na hospitalidade do sertanejo. Depois de nos cumprimentar com entusiasmo, convidou para sentar na saleta da casa, uma habitação típica da zona rural e fincada numa chapada de onde se avistam lá embaixo os pés de manga frondosos. Logo, o espaço pequeno mas aconchegante da saleta ficou cheio da criançada – os netos de D. Maria. Enquanto eu fotografava o ambiente, Márcia Daniel Viana, que me acompanhou nesse roteiro, puxou uma animada conversa com ela. Para conversar com a nossa entrevistada não é preciso levantar a voz, pois ela escuta tudo muito bem e com muita atenção.
D. Maria dos Santos está entre os mais de 17 mil habitantes centenários no Brasil, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse total, a grande maioria é de mulheres. Levando uma vida em constante atividade, D. Maria destaca que trabalhar na roça, cuidar da casa e da família foram seus principais interesses todo esse tempo. “Eu ainda tenho coragem de trabalhar no roçado”, diz achando graça. Ela própria perdeu a conta do número de seus descendentes. Dos sete filhos – uma morreu ainda jovem – estima hoje em torno de 40 netos. Quanto aos bisnetos… ela realmente não faz ideia. “É tanta gente que nem sei contar”, diz, recompondo o cabelo atiçado pelo vento insistente. Indagada por que não procurou novo companheiro quando enviuvou, ela responde perguntando: “Pra quê?” Todos riem com ela.
AMPARO
João, o mais velho
João Sabino, o filho mais velho, tem 77 anos, é solteirão e também foi adotado pelo irmão, o José Sabino, ou Zé Sabino, uma espécie de esteio da família. “ O sobrenome vem do pai. Eu me sinto feliz em ter minha mãe nessa idade e amparar ela e meu irmão”, diz com segurança, enquanto nos serve água fresca da cacimba. Os outros filhos de D. Maria moram nos arredores, vivendo basicamente da agricultura, com uma renda adicional na base dos programas assistenciais do governo. “Estamos todos sempre perto uns dos outros”, explica, aproveitando a deixa para dizer que este ano fez uma boa safra de milho e feijão. No alpendre detrás da casa, um jumento com dois caçuás está preparado para transportar as mangas coité, em abundância neste período do ano. “Não vendo nenhuma manga, é pra gente mesmo e pros amigos”, diz radiante. Na parede de tijolos sem reboco, os quadros com imagens de santos e retratos da família convivem com o aparelho de TV e o de DVD, atração da garotada da casa. Mas, segundo ele, a mãe centenária não gosta de ver televisão nem de ouvir rádio. “O que ela gosta mesmo é de conversar, achar graça e rezar nas horas certas.” E o santo da devoção dela, claro, é São Roque, o padroeiro do lugar. “Até hoje ainda não perdi uma missa de São Roque”, diz ela, referindo-se aos festejos do santo realizados em Vila Campos cada mês de agosto, há mais de século. E ela afirma confiante que está preparada para a ir à missa de Natal na capela de Campos na noite do dia 24. “Você vem me buscar pra missa?”, pergunta olhando fixamente para a Márcia.
        D. Maria dos Santos, 107 anos de idade, leva assim um estilo de vida natural em tudo. Não toma remédio, desconhece o que é estresse, dor de cabeça e a doença da moda, a depressão. Diz que não perde uma noite de bom sono, não vai ao posto do PSF do lugar e dispensa a assistência do SUS. Alegre, brincalhonha, tem a própria longevidade como uma missão. Não tem queixas e sustenta uma fé inabalável. Nota-se em seu estado de espírito uma satisfação constante. “Só acho ruim não poder mais fumar meu cachimbo e tomar uma pinga”, diz, denunciando o Zé como o autor da proibição. O riso é geral. Na nossa despedia, abraçou-nos com boas recomendações e bênçãos. E ainda ensaiou na sala os passos de alguma dança. No meio dos netos, além de rainha do lar, D. Maria dos Santos é uma criança a mais para fazer a alegria da casa.


Com filhos, netos e bisnetos
Contando histórias
Zé Sabino: esteio da família
Com a amiga Enide Daniel

Com PPP





quarta-feira, 7 de março de 2012


O MAIOR PORRE  É A MISÉRIA

 Maria Luisa Vaz Costa

O alcoolismo é um dos graves problemas por que passa a sociedade brasileira. Dados estatísticos comprovam que em cada família existe pelo menos uma pessoa viciada em bebidas alcoólicas.
Desagregando a família e aumentando a legião de marginais, prossegue o álcool no rol das divisas brasileiras a cumprir o seu triste papel criminoso. Bebida alcoólica é um comércio próspero que atrai milhares de pessoas ávidas de lucros. A prova disso é a proliferação, cada vez mais crescente, de bares, botequins e casas do gênero. O alcoólatra não precisa andar mais de um quarteirão para encontrar o álcool – geralmente movido a música de mau gosto.
Na minha opinião, bêbado é bêbado, não importando a sua origem. Porém, no contexto social o que vai determinar o julgamento do viciado é a sua posição sócio-econômica.
O endinheirado coleciona uísque importado e nos fins de semana faz grupinhos de amigos em sua casa de praia ou sítio. Em meio a papos variados, de política a mulheres, ultapassam os limites da moderação no beber. Não vejo nesta categoria tantos problemas quanto os que observo no operário de construção civil e em outras classes já esmagadas pela própria natureza do trabalho que exercem.
Para as classes abastadas existem muitas atenuantes. Uma delas é o fato de serem uma minoria formada por pessoas com empregos importantes. Preocupados em evitar escândalos que envolvam seus nomes, bebem reservados e, se perdem a razão e fazem bobagem, os comentários não ultrapassam a muralha que os separa das classes inferiores. Sem causar nenhum dano aos seus bolsos, curtem a ressaca com toda a dignidade. Bem alimentados, repõem logo as energias e regressam ao trabalho que os compensa com altos salários.
Em torno do bêbado rico cria-se uma espécie de admiração e incentivo por parte da imprensa e do povo em geral, seja relatando suas “façanhas” ou tecendo comentários semelhantes àqueles que são feitos diante das travessuras de uma criança mimada.
O grande problema social é causado pelas classes pobres, já decadentes nos seus valores de pessoas. Massacrados por um salário que não lhes permite nenhuma dignidade, ingressam no submundo do alcoolismo – quem sabe, buscando uma fuga para os seus problemas. Sem acesso à educação e sem nenhuma perspectiva de melhora, acompanham, à margem da vida, os progressos de um mundo cada vez mais desumano.
A revolta, que ele aprendeu a conter, está muito presente nas cenas de embriaguez. No boteco em que bebe, provoca uma briga, fere e é agredido, parando na cadeia. Curte a ressaca com os ingredientes normais das delegacias brasileiras, a chateação da família e o olhar de desprezo dos vizinhos e conhecidos. No dia seguinte, volta ao trabalho, deprimido e trêmulo. Os poucos tostões que seriam empregados em uma sub-alimentação foram gastos ou tomados por aproveitadores. Faminto, ele aguarda uma semana para, incompreensivelmente, reiniciar o ciclo de autodestruição.
Enquanto tem o ilusório emprego, o homem não se degenera por completo. Porém dentro de pouco tempo estará enfraquecido e totalmente dominado pelo vício. Não trabalha mais. Sem o mínimo necessário à sobrevivência, a família se desagrega. Sem trabalho e sem família restou o marginal.

Obs.: Artigo publicado na página 8 do jornal "Santuário de São Francisco", ed. 1.260, novembro de 1981, Canindé, Ceará.

segunda-feira, 5 de março de 2012


ANIVERSÁRIO DE PATATIVA DO ASSARÉ


Hoje é o aniversário do poeta Patativa do Assaré, que completaria 110 anos. Seu nome ganhou larga projeção em todo o território nacional e até no exterior. Poeta de bancada e também cantador de viola, Patativa é um dos mais conhecidos seguidores da escola de Catulo da Paixão Cearense e de Juvenal Galeno. Embora a mídia tenha explorado o lado humilde do cidadão Antonio Gonçalves da Silva – seu nome de batismo – retratando-o como um poeta sofrido e combativo com a causa do homem do campo, o que é fato, Patativa foi claramente um homem de leitura eclética. Muitos de seus versos têm uma certa cadência de Castro Alves, de Rogaciano Leite e até de clássicos, como Camões, para quem fez uma ode. Como sonetista, Patativa confirma mais uma vez seu contato com os eruditos.
Seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, de 1956, é seu trabalho mais puro e genuíno. Após este livro, escreveu outros que também tiveram repercussão, tendo já como cerne uma temática mais abrangente, inclusive, focalizando aspectos da vida urbana. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras. Atraído por políticos, é possível que tenha se contradito em seu ponto de vista crítico, mas o carinho e o respeito do público por ele não foram abalados. Sua grande popularidade tornou-o também alvo fácil dos pesquisadores e acadêmicos. Há um sem-número de publicações, teses, monografias, ensaios e artigos na imprensa sobre o vate cuja fama deu um grande salto através de Luiz Gonzaga, que da autoria de Patativa gravou A Triste Partida e Boi Fubá, esta última sucesso também nas vozes de Fagner e de Rolando Boldrin.


TRAÇO BIOGRÁFICO

Antonio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, poeta, agricultor, nasceu a 5 de março de 1909 no pequeno sítio chamado de Serra de Santana, distante três léguas do município de Assaré, no Sul do Ceará, e faleceu com 93 anos em 8 de julho de 2002 no mesmo município.
Em Autobiografia refere que (...) “quando completei oito anos fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito (...) com a idade de doze anos, frequentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses (...) daquele tempo pra cá não frequentei mais escola nenhuma, porém, sempre lidando com as letras quando dispunha de tempo para este fim. (...) De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: Brincadeiras da noite de São João, testamento do Judas, ataque aos preguiçosos que deixavam o mato estragar os plantios das roças etc. Com 16 anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso (...) Perdi a vista direita, no período da dentição, em consequência da moléstia (...) conhecida por dor-d’olhos.”

INGÉM DE FERRO

Patativa do Assaré

Ingém de ferro, você
Com seu amigo motô,
Sabe bem desenvorvê,
É munto trabaiadô.
Arguém já me disse até
E afirmô que você é
Progressista em alto grau;
Tem força e tem energia,
Mas não tem a poesia
Que tem o ingém de pau.

O ingém de pau quando canta,
Tudo lhe presta atenção,
Parece que as coisa santa
Chega em nosso coração.
Mas você, ingém de ferro,
Com este horroroso berro,
É como quem qué brigá,
Com a sua grande afronta
Você tá tomando conta
Dos nossos canaviá.

Do bom tempo que se foi
Faz mangofa, zomba, escarra.
Foi quem expulsou os boi
Que puxava na manjarra.
Todo soberbo e sisudo,
Qué governá e mandá tudo,
É só quem qué sê ingém.
Você pode tê grandeza
E pode fazê riqueza,
Mas eu não lhe quero bem.

Mode esta suberba sua
Ninguém vê mais nas muage,
Nas bela noite de lua,
Aquela camaradage
De todos trabaiadô.
Um falando em seu amô
Outro dizendo uma rima,
Na mais doce brincadêra,
Deitado na bagacêra,
Tudo de papo pra cima.

Esse tempo que passô
Tão bom e tão divertido,
Foi você quem acabô,
Esguerado, esgalamido!
Come,come interessêro!
Lá dos confim do estrangêro,
Com seu baruio indecente,
Você vem todo prevesso,
Com históra de progresso,
Mode dá desgosto a gente!

Ingém de ferro, eu não quero
Abatê sua grandeza,
Mas eu não lhe considero
Como coisa de beleza,
Eu nunca lhe achei bonito,
Sempre lhe achei esquesito,
Orguioso e munto mau.
Até mesmo a rapadura
Não tem aquela doçura
Do tempo do ingém de pau.

Ingém de pau! Coitadinho!
Ficou no triste abandono
E você, você sozinho
Hoje é quem tá sendo dono
Das cana do meu país.
Derne o momento infeliz
Que o ingém de pau levou fim,
Eu sinto sem piedade
Três moenda de sodade
Ringindo dentro de mim.

Nunca mais tive prazê
Com muage neste mundo
E o causadô de eu vivê
Como um pobre vagabundo,
Pezaroso, triste e pérro,
Foi você, ingém de ferro,
Seu safado, seu ladrão!
Você me dexô à toa,
Robou as coisinhas boa
Que eu tinha em meu coração!

domingo, 4 de março de 2012


DENIS BREAN – 95 ANOS


Se fosse vivo, o compositor, jornalista, letrista e radialista DENIS BREAN teria completado no último dia 28 de fevereiro, 95 anos. Denis Brean nasceu Augusto Duarte Ribeiro em Campinas (SP). Em 1934, mudou-se para São Paulo onde trabalhou inicialmente como escriturário. Depois, atuou como jornalista. Em 1936, sua canção "Poesia da Uva" obteve o primeiro prêmio na Festa da Uva, de Jundiaí (SP), gravada por Cyro Monteiro em disco não comercial. A partir da gravação de Carlos Galhardo em 1944 da valsa carnavalesca "No tempo da onça", as portas se abriram para ele. Tanto que em 1945, estourou na voz de Cyro Monteiro com o samba "Boogie-woogie na favela", depois regravado por vários artistas. Em 1947, outro sucesso, "Bahia com H", na voz de Francisco Alves, regravado por João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil no disco "Brasil", de 1981. A partir desse momento sela uma parceria com Oswaldo Guilherme, que produziu algumas pérolas da MPB, como "Franqueza" e "Conselho", ambas gravadas por Nora Ney e Maysa, e regravadas inúmeras vezes. Também emplacaram juntos a marcha de carnaval "Grande Caruso", com João Dias, entre outras. Com outros parceiros obteve êxito com "Marrequinha" (com Raul Duarte), na voz de Isaura Garcia, "La vie en samba" (com Blota Junior), gravada por Dircinha Batista, "Mambo não" (com Luiz Gonzaga) e "Raízes", gravada por Maysa. Além de compor, atuou como jornalista em diversos periódicos, foi produtor de rádio, televisão e discos, tendo lançado na Odeon, entre outros, Hebe Camargo. Também foi gravado por Agnaldo Rayol, Altemar Dutra, Carmen Costa, Carolina Cardoso de Menezes, Dick Farney, Demônios da Garoa, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Emílio Santiago, Gilberto Gil, Joel & Gaúcho, Lana Bittencourt, Leny Eversong, Novos Baianos, Roberto Silva, Waldir Azevedo, Walter Wanderley, Wanderley Cardoso, Wilson Simonal e muitos outros. Denis Brean faleceu em 16/08/1969.

Via Site Collector's: http://www.collectors.com.br/