ELA TEM 107 ANOS...
História de vida de uma sertaneja que ultrapassou um século, cheia de muita alegria, saúde e disposição
Pedro Paulo Paulino
Colaboração: Márcia Daniel Viana
Hoje é o aniversário de uma habitante muito especial de Vila Campos. D. Maria dos Santos está completando 107 anos de idade. Nascida no dia 25 de dezembro de 1904, ela foi uma das primeiras crianças batizadas na capela de S. Roque, erguida na localidade em 1905. Lúcida e sempre com um astral em alta, D. Maria dos Santos não perde oportunidade para uma boa conversa alternada a todo momento por uma gostosa risada. Não se queixa de nenhuma doença nem de dores físicas. “Nem mesmo reumatismo eu sinto”, garante ela, que lamenta apenas o desgaste da visão. Apontando para o filho mais velho sentado à sua frente, brinca: “O joão parece que tá mais velho do que eu”. Desde que ficou viúva, há 18 anos, reside com um dos filhos, o José, e está sempre cercada de netos. “Graças a Deus e S. Roque, minha família está sempre perto de mim.” D. Maria dos Santos, num bom sentido, é toda prosa.
Morada Nova, onde reside D. Maria dos Santos, é uma das pequenas localidades adjacentes que compõem a povoação de Vila Campos. O caminho até lá é uma estrada vicinal, cortada pelo riacho dos Campos. Às margens dele D. Maria nasceu, no dia de Natal de 1904, no sítio Jatobá. A sua existência em tudo tem a marca da mulher sertaneja resistente: nos relevos da pela, na cor tostada, no jeito de falar e, principalmente, nas lembranças que guarda de sua mocidade. Dentre elas, recorda com saudade as festas puxadas a oito baixos na fazenda Canjari, distrito de Targinos. “Naquele tempo era muito diferente. As moças só iam pra festa na companhia de pessoas da confiança dos pais”, explica comparando com a liberdade de hoje. “Os rapazes aqui dos Campos eram os que dançavam melhor”, relembra. A conversa dela é empolgante e envolvente, acompanhada sempre de gestos carinhosos. Enquanto conversa, aproveita para perguntar por pessoas do seu conhecimento. Muitos, é claro, já se foram. Mas ela garante nunca se sentir sozinha. “Aqui não falta gente pra conversar comigo. Tem o povo da casa e os que vêm me ver.”
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| Márcia: conversa animada com D. Maria |
Quando nos recebeu, na manhã da última quinta-feira, ela exibiu no rosto aquela satisfação comumente notada na hospitalidade do sertanejo. Depois de nos cumprimentar com entusiasmo, convidou para sentar na saleta da casa, uma habitação típica da zona rural e fincada numa chapada de onde se avistam lá embaixo os pés de manga frondosos. Logo, o espaço pequeno mas aconchegante da saleta ficou cheio da criançada – os netos de D. Maria. Enquanto eu fotografava o ambiente, Márcia Daniel Viana, que me acompanhou nesse roteiro, puxou uma animada conversa com ela. Para conversar com a nossa entrevistada não é preciso levantar a voz, pois ela escuta tudo muito bem e com muita atenção.
D. Maria dos Santos está entre os mais de 17 mil habitantes centenários no Brasil, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse total, a grande maioria é de mulheres. Levando uma vida em constante atividade, D. Maria destaca que trabalhar na roça, cuidar da casa e da família foram seus principais interesses todo esse tempo. “Eu ainda tenho coragem de trabalhar no roçado”, diz achando graça. Ela própria perdeu a conta do número de seus descendentes. Dos sete filhos – uma morreu ainda jovem – estima hoje em torno de 40 netos. Quanto aos bisnetos… ela realmente não faz ideia. “É tanta gente que nem sei contar”, diz, recompondo o cabelo atiçado pelo vento insistente. Indagada por que não procurou novo companheiro quando enviuvou, ela responde perguntando: “Pra quê?” Todos riem com ela.
AMPARO
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| João, o mais velho |
João Sabino, o filho mais velho, tem 77 anos, é solteirão e também foi adotado pelo irmão, o José Sabino, ou Zé Sabino, uma espécie de esteio da família. “ O sobrenome vem do pai. Eu me sinto feliz em ter minha mãe nessa idade e amparar ela e meu irmão”, diz com segurança, enquanto nos serve água fresca da cacimba. Os outros filhos de D. Maria moram nos arredores, vivendo basicamente da agricultura, com uma renda adicional na base dos programas assistenciais do governo. “Estamos todos sempre perto uns dos outros”, explica, aproveitando a deixa para dizer que este ano fez uma boa safra de milho e feijão. No alpendre detrás da casa, um jumento com dois caçuás está preparado para transportar as mangas coité, em abundância neste período do ano. “Não vendo nenhuma manga, é pra gente mesmo e pros amigos”, diz radiante. Na parede de tijolos sem reboco, os quadros com imagens de santos e retratos da família convivem com o aparelho de TV e o de DVD, atração da garotada da casa. Mas, segundo ele, a mãe centenária não gosta de ver televisão nem de ouvir rádio. “O que ela gosta mesmo é de conversar, achar graça e rezar nas horas certas.” E o santo da devoção dela, claro, é São Roque, o padroeiro do lugar. “Até hoje ainda não perdi uma missa de São Roque”, diz ela, referindo-se aos festejos do santo realizados em Vila Campos cada mês de agosto, há mais de século. E ela afirma confiante que está preparada para a ir à missa de Natal na capela de Campos na noite do dia 24. “Você vem me buscar pra missa?”, pergunta olhando fixamente para a Márcia.
D. Maria dos Santos, 107 anos de idade, leva assim um estilo de vida natural em tudo. Não toma remédio, desconhece o que é estresse, dor de cabeça e a doença da moda, a depressão. Diz que não perde uma noite de bom sono, não vai ao posto do PSF do lugar e dispensa a assistência do SUS. Alegre, brincalhonha, tem a própria longevidade como uma missão. Não tem queixas e sustenta uma fé inabalável. Nota-se em seu estado de espírito uma satisfação constante. “Só acho ruim não poder mais fumar meu cachimbo e tomar uma pinga”, diz, denunciando o Zé como o autor da proibição. O riso é geral. Na nossa despedia, abraçou-nos com boas recomendações e bênçãos. E ainda ensaiou na sala os passos de alguma dança. No meio dos netos, além de rainha do lar, D. Maria dos Santos é uma criança a mais para fazer a alegria da casa.
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| Com filhos, netos e bisnetos |
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| Contando histórias |
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| Zé Sabino: esteio da família |
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| Com a amiga Enide Daniel |
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| Com PPP |












