segunda-feira, 22 de outubro de 2012


Um dos personagens mais populares da Literatura de Cordel é o “Jorge”, do poema matuto “A estátua do Jorge”, que consagrou o artista quixadaense Alberto Porfírio. Em seu poema, Porfírio narra o drama de Luíza, uma jovem bonita de olhos esverdeados que casou aos 15 anos de idade e enviuvou poucos meses depois. Jorge, seu marido, era um matuto trabalhador e, além disso, primo de Luíza. Segundo consta, Jorge morreu por causa de sua teimosia. Em sua imaginação, o poeta consegue retratar fielmente aspectos psicológicos como a insustentabilidade dos sentimentos humanos. “A estátua do Jorge” é um clássico do Cordel e foi publicado no livro “Poetas populares e cantadores do Ceará”, de autoria de Alberto Porfírio e editado em 1978 pela Horizonte Editora Ltda, de Brasília. O poema foi celebrizado também no rádio, através do forrozeiro Guajará Cialdini que o recitava com maestria. Ao contrário do personagem da novela que estreia na Rede Globo, “Salve Jorge”, no poema de Alberto Porfírio destacou-se uma frase que virou bordão: “Lasque o Jorge”.


A ESTÁTUA DO JORGE

Alberto Porfírio

A Luíza do Zé Braz,
Neta do Zé do Mogêro,
Era a moça mais bunita
Lá da Serra do Perêro.

Com quinze anos de idade
Ela era tão formosa!
Tinha os óios verdeados,
Os cabelo loureados…
Era mermo qui uma rosa.

Todo rapaz da ribêra
Queria namorá com ela.
Quem era qui num quiria
Uma beleza daquela!
Mas ela só tinha amo
Ao Jorge, primo dela.

Até naquela idade,
Antes de conhecê o Jorge,
Seu coração era preso
Qui só corda de reloge,
Mas agora, como estava,
No amô desenrolava
Qui só as droba do alforge.

No dia do casamento
Veio gente de todo lado
Só a fim de vê o Jorge
Cum a prima dele casado.

Houve festa, houve folguedo,
Pagode pra todo lado.

Adispois do casamento,
Vamo vê os pensamento:

A Luíza só pensava
Sê uma boa muié,
Zelosa pra seu insposo,
Qui é assim qui a vida qué…
Andá de braço cum ele
No armoço e no café.
Dispois de todo carinho
Tê im casa um garotinho
Do tamanho de um bebé.

E os pensamento do Jorge
Era só de trabaiá,
Trabaiá, trabaiá muito,
Comprar casa pra mora,
Comprar inté caminhão
Pra na estrada buziná.

Mais o trabáio do Jorge
Era a foice e o machado,
Derrubava as grande mata
A fim de fazê roçado,
Chegava im casa de noite
Sem se queixá de enfadado,
Pegava o chapéu de couro
E ia pro campo atrás do gado.

Quando foi num certo dia
Qui ele vinha do roçado,
Cum uns pau de lenha no ombro,
Cum sede e munto suado,
Levou chuva no caminho
E foi pra casa constipado.

Ah meu senhor, foi aí
Qui cumeçou seu fracasso.
Ele num quis repousá,
Cuma qui fosse de aço,
Sempre de casa pra roça
Sem se importá cum cansaço.

A muié dava remédio,
Mas não servia nem pouco.
E ele lá no roçado,
Trabaiando cumo louco,
Ligado ao cabo da enxada,
Tussindo e falando roço.

Com menos de cinco mês
O Jorge tava arreado,
Cum quintura pelas costa,
Umas dorzinha de lado,
Todo mundo já dizia:
O Jorge tá desgraçado!

Uns diziam: Cabra besta!
Trabaiando pra morrê,
Deixando u´a viúva nova
Qui é bunita cumo quê…
Se ela mim quizer eu quero,
Depende dela querê!

Enquanto isso a Luíza
Trabaiava, trabaiava...
A fim de arranjá remédio
Im casca num sussegava.
Era casca, era raiz,
Era tudo qui incontrava.
Quanto mais dava remédio,
Mais o Jorge apiorava.

Deu tudo qui era xarope,
Dispois passou pras butica,
Deu aguardente alemã,
Deu a jalapa e arnica.
Coitada! Gastou dinhêro
Qui só u´a pessoa rica.

Mas nem santo nem promessa,
Nada serviu nem valeu.
Um dia, de tardezinha,
Quando o sol se escureceu,
Morria o dia na serra
E ali o Jorge morreu.

Ah meu senhor, avali
Cuma foi o sintimento
Da pobrezinha viúva
Cum seis mês do casamento!
Ninguém pudia fazê-la
Se consolá um momento.

Se alguém dissesse pra ela:
Você torna a se casá…
Ela dizia: Não, não…
Vá cum augôro pra lá,
Nessas face aqui, um home
Nunca mais há de beijá.

Na missa dos sete dia,
Ela, cum o terço na mão,
Acabava de rezá
Ficava riscando o chão,
Ali as águas dos óio
Caía de borbutão!

Nesse tempo não havia
Máquina de tirá retrato.
Só havia quem tirava
Das criatura os formato
E isto, às vez em falta,
Tinha quem fizesse estalta
De pau cortado no mato.

A Luíza contratou
Logo o mió carpintêro,
Mode inscupi u´a estalta
De um tronco de juazêro.
O mestre, cum todo alinho,
Fez um Jorge escrituzinho,
Do jeitim do verdadêro.

Ela quando arrecebeu
Ficou louca de contente.
Ainda beijou o bruto,
Cuma quem tava sem mente. 
O vestiu do mermo jeito,
Ficou um Jorge perfeito,
Sem tê nada deferente.

Ela então mandou chamar
Seu vigário pra benzê,
Mas o padre arrespondeu
Qui isso num pudia sê.

O Jorge, mermo pagão,
Levou para o quarto seu.
(Todo mundo me acredite
Qui desse jeito se deu.)
O povo, pelo qui via,
Um dizia, outro dizia:
A viúva enlouqueceu!

Mas agora, meus amigo,
Escute o qui vou dizê:
O tempo é qui gasta tudo,
Gasta mermo sem se vê,
Quem num quizé sê isquicido
Si ajeite pra num morrê.

Logo nos premêros dia
O Jorge era bem tratado,
Mas de um dia pro outro
Ficou tudo de mudado,
Quem passava ali já via
O Jorge, de oito dia,
Lá num canto, empoêrado.

Aquela qui um dia desse
Vivia triste chorando,
Jurando nunca casá mais
E cum o terço rezando!
Agora, era tão mudada!…
Bem vestida e penteada
Arriba e abáxo cantando.

E já munta gente via
Recostada nas janela, 
Todo mundo admirava
U´a mudança daquela!
Ainda mais um freguês
Já por duas ou três vez
Andava na casa dela.

Um dia se observava
A viúva aguniada
Passando no corredô
Tanto quanto acelerada,
Passando as mão na cabeça
E chamando pela empregada.

Mas falando assim baixinho,
Cum a voz pôco sonora:
- Empregada, ô empregada!
A moça disse: Senhora?!
- Faça depressa um café
Pra um rapaz qui tá lá fora!

A moça foi ao terrêro,
Dispois voltou ao fogão
E falou para a patroa:
Venha cá, venha, venha!
Tá faltando lenha,
Não tem lenha, não!…

A viúva olhou pra moça,
Olhou pra dentro do quarto
E vendo o Jorge empoeirado…
As lembranças do passado
Nessas hora tudo foge.
Esqueceu o desgraçado,
Esqueceu tudo na vida
E, cum voz bem decidida,
Disse à moça: Lasque o Jorge!

A moça achou isso estranho
E com os óio deste tamanho
Perguntou: isto se faz?!
Ela se virou pra um lado
E disse: meta o machado,
Faça o café pra o rapaz!

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ALBERTO PORFÍRIO
Alberto Porfírio da Silva é poeta popular, xilógrafo e escultor. Nasceu no município cearense de Quixadá, em 23 de dezembro de 1926. Estudou depois de idoso, quando as condições lhe permitiram e é professor licenciado pela Universidade Federal do Ceará - UFC. Como cantador-repentista, recebeu das mãos da Condessa Pereira Carneiro, do Jornal do Brasil, uma menção honrosa especial. Ministrou cursos de cantoria pelo rádio, publicou o livro "Poetas Populares e Cantadores do Ceará" e quase uma centena de folhetos de cordel. Tem seu nome reconhecido internacionalmente através da enciclopédia francesa Delta Larousse. Alberto porfírio morreu no dia 23 de setembro de 2009.

2 comentários:

  1. Ouvi muito essa declamação do Guajará, impressioante como dava colorido à narrativa a sua interpretação jocosa, bem lembrado, poeta.

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  2. Escutava todas as manhãs, do rádio da vizinha, o programa do Guajará, e, ouvi algumas vezes declamar "A Estátua do Jorge".
    Saudades!

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