Pedro Paulo Paulino
![]() |
Obra escolhida de Humberto de Campos, lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda |
CURIOSIDADES DE HUMBERTO DE CAMPOS
♦ Ainda
existe na cidade piauiense de Parnaíba o cajueiro centenário plantado por
Humberto de Campos e que inspirou uma de suas crônicas mais conhecidas.
♦ A
biblioteca de Humberto de Campos, com alguns milhares de volumes, foi vendida pela família do escritor para o governo do Estado do Maranhão, por 40
contos.
♦ Ainda depois de morto, Humberto de Campos foi motivo de grande polêmica. Por volta de 1941, novas publicações assinadas por ele, como “psicografadas” por Chico Xavier e editadas pela Federação Espírita do Rio de Janeiro, ganharam grande popularidade em todo o Brasil, fazendo com que a família do escritor movesse uma ação judicial reivindicando direitos autorais. A família perdeu a causa.
♦ Ainda depois de morto, Humberto de Campos foi motivo de grande polêmica. Por volta de 1941, novas publicações assinadas por ele, como “psicografadas” por Chico Xavier e editadas pela Federação Espírita do Rio de Janeiro, ganharam grande popularidade em todo o Brasil, fazendo com que a família do escritor movesse uma ação judicial reivindicando direitos autorais. A família perdeu a causa.
♦ No final
dos anos 50, o nome de Humberto de Campos é estampado novamente na imprensa. O anúncio
da publicação do seu Diário secreto causa alvoroço no meio intelectual
brasileiro. Mesmo assim, seu diário é publicado em fascículos pela revista O
Cruzeiro e depois editado em dois volumes.
♦ Na edição
de 3 de setembro de 2008, a revista Veja trazia em sua coluna “Radar”,
assinada pelo jornalista Lauro Jardim, a seguinte nota: “VENDE-SE UM FARDÃO - Serão leiloados nos próximos dias no Rio de
Janeiro o fardão e o espadim da Academia Brasileira de Letras usados pelo
escritor maranhense Humberto de Campos. O lance mínimo é de 30. 000 reais –
aliás, o mesmo preço de um fardão novinho em folha. A vestimenta tem quase
noventa anos e estava guardada desde 1934, quando Campos morreu. Quem tiver a
intenção de desfilar por aí fantasiado de imortal não deve perder a
oportunidade. Não é todo dia que se consegue um fardão original, até porque a
maioria dos acadêmicos é enterrada com seus trajes de gala”.
♦♦♦
"
RODOLFO
TEÓFILO
Humberto de Campos
QUANDO eu conheci Rodolfo
Teófilo, em 1906, tinha ele já sua grande barba toda grisalha. Era um homem
alto, magro, de rosto fino, que a barba tornava mais longo, e que vivia
enrolado em uma sobrecasaca negra, abotoada de cima a baixo. Fantasiado assim
de guarda-chuva, trazia, para evitar equívocos, outro guarda-chuva na mão. E eu
confesso que, desde que o vi pela primeira vez, senti uma comovida simpatia por
aquele homem, ao mesmo tempo que recebia uma impressão funda, e segura, da sua
capacidade de sonho e de fé. Um homem que anda de guarda-chuva no Ceará,
dispõe, necessariamente, de uma grande força de imaginação.
Era isso nos dias mais ingratos
da existência do romancista. Dividido em dois agrupamentos políticos, o Ceará
fervia, desde as praias do mar até às chapadas do Cariri, de entusiasmo e de
indignação partidárias. As penas dos jornalistas ciscavam, no papel branco dos
jornais, pondo à superfície dele, com as paixões próprias, os vícios ou
defeitos dos adversários. Sem descer às discussões pela imprensa, Rodolfo
Teófilo havia ficado, como eleitor, em oposição ao governo do Estado. O melhor
governo é, sempre, no Brasil, o do partido que vai subir. E Rodolfo Teófilo era
brasileiro e possuía, como todo brasileiro, espírito messiânico.
Essa definição de atitude custou,
todavia, caro, ao velho sonhador. Lente de História no Liceu Cearense, foi
removido imediatamente, como castigo, para a cadeira de grego. Debalde
protestou ele contra essa confusão, alegando, como coautor da “Botânica
Amorosa”, que as raízes gregas nada têm com as dos vegetais. O governo manteve
o ato. E Rodolfo Teófilo, que não sabia grego, foi demitido por abandono do
cargo, exposto a todas as conseqüências de uma pobreza honrada, corajosa e
inflexível.
Para viver, foi fabricar, então,
na sua chácara de Cauípe, vinho de caju, cuja fermentação e filtragem
aperfeiçoou, e que tomou, no comércio, a denominação de “néctar”. Aquela abelha
não fabricava senão mel. Doce de alma e doce de coração, escolheu, para
explorar, a mais doce e amável das indústrias. Não sabia grego, mas era um
irmão de Aristeu, isto é, do primeiro grego que domesticou abelhas.
Não foi, todavia, na sua
indústria, mas no seu apostolado, que o governo cearense passou a atacar o
venerando e suave trabalhador. Toda a vez que a seca se manifestava no sertão,
a companheira da fome era, sempre, a varíola. Farmacêutico, Rodolfo Teófilo
chamou a atenção das autoridades sanitárias para a vacinação intensa. A ciência
provinciana não admite, porém, insinuações. Só os oposicionistas fazem
observações públicas ao governo ou aos seus auxiliares. E Rodolfo Teófilo
passou a figurar no índex governamental.
Seu coração não se conformava,
entretanto, com a devastação que a varíola fazia no Ceará. Menos para afrontar
o governo do que para substituí-lo no exercício de um dever caprichoso, passou
a vacinar, por conta própria, nas vizinhanças da capital. Adquiria vitelos, e
fabricava uma das melhores vacinas do Brasil, a qual era distribuída
gratuitamente pelos médicos locais que a pediam, ou enviada, independente de
remuneração, para os Estados vizinhos. O governo do Estado multou-lhe o
laboratório. E como se isso não bastasse, o órgão oficial do partido governista
fazia contra a vacina utilizada pelo filantropo a mais terrível e desumana das
guerras, aconselhando a população que a não aceitasse, porque era venenosa e
causava a morte!
Não obstante essa campanha,
Rodolfo Teófilo não esmorecia. Com a sua voz mansa, os seus olhos bons, e a sua
derramada barba de apóstolo, andava de casa em casa, pedindo licença para
premunir a família contra a epidemia reinante. Vacinada a maior parte da
população da capital, passou ele, com a mesma dedicação, a exercer o sacerdócio
entre a gente do interior. Escanchado em um burro, e levando como bagagem
científica apenas a caixa de soro e alguns remédios suplementares, atirou-se
para os municípios mais próximos solicitando, de choça em choça, de fazenda em
fazenda, de povoado em povoado, permissão para vacinar as pessoas que ali
moravam. Os caboclos o recebiam, quase sempre, com acentuada desconfiança,
quase com hostilidade. E foi, então, quando, segundo se contava no sertão,
Rodolfo Teófilo inventou uma linda história cristã, que teria repetido mil
vezes, nos terreiros das cabanas e nos alpendres das casas de campo. Mais
tarde, ele contestou, em carta que me escreveu, a paternidade do conto. A
defesa foi, porém, tão frágil que me pareceu uma confirmação.
“Há muitos anos, — começava, foi
uma grande cidade, capital de um grande reino, atacada pelas bexigas, que
mataram quase toda a população. Dentro de pouco tempo estava a cidade quase
deserta. Quem não morreu, fugiu, abandonando casa, fazenda, riquezas, tudo.
Havia, entretanto, entre o povo, um homem muito bom, que, tendo perdido já
todos os parentes, resolveu deixar a terra empestada. Arrumou a sua roupa, e
partiu. Assim, porém, que chegou fora da cidade, encontrou-se com uma mulher
muito formosa, que puxava uma vaca toda preta, seguida de um bezerrinho, alvo como
o algodão. A mulher, ao vê-lo, perguntou-lhe por que fugia. Como ele lhe
explicasse, ela lhe pôs a mão no ombro, e disse: ‘Não tenhas medo, meu filho.
Volta à cidade com esta vaca e este bezerrinho. Quando chegares lá, tira uma
gota do seu leite e, com ele, faze três cruzes em cada braço, em todas as
pessoas que se quiserem salvar. Toda aquela em quem fizeres isso não será
atacada pela peste’. Aí, a mulher, que não era outra senão Nossa Senhora,
desapareceu, enquanto que o fugitivo regressava ao ponto de partida, onde fez o
que ela lhe havia dito, e salvou todo o resto do povo. Essa vaquinha —
acrescentava o narrador, — teve depois outras crias, e é do sangue e do leite
delas que eu trago algumas gotas, para salvar das bexigas os que são filhos de
Nossa Senhora.”
O sertanejo, ainda desconfiado do
homem, mas confiando em Deus, entregava prontamente o braço, e o braço dos
filhos, e o da mulher. E foi por esse meio que Rodolfo Teófilo, sozinho,
extinguiu a varíola, até hoje, no interior do Ceará.
E esse benemérito acaba de
morrer... Há um homem de menos na terra. Mas há, a esta hora, — se o céu
existe, — mais um justo entre os justos. (Destinos)
"
Cumprimentos pela pesquisa biográfica, esses detalhes não são muito fáceis de encontrar. Pelo visto temos um clube humbertiano: César Menotti (junto-me ao tal) e outros colegas nossos que enfileiram na estante pelo menos a obra escolhida desse escritor polêmico. Em O Anjo Pornográfico, exemplar biografia de Nelson Rodrigues, Ruy Castro assinala os entreveros do mesmo com o pai do grande teatrólogo. Viveu pouquíssimo para uma vida tão recheada de epísódios, nem é preciso citar o caso João do Rio. Seu artigo ilustra bem essa tradição. Quanto ao raríssimo Diário Secreto, a fundação Geia do Maranhão lançou segunda edição em 2010.
ResponderExcluirSe realmente existem raras pessoas que merecem ser chamados de santos, não obstante as fraquezas que todo ser humano tem, Rodolfo Teófilo foi um deles pelo seu altruísmo, abnegação, o serviço desinteressado com que se entregava a todos sem exceção, o seu amor à ciência e a clarividência e engenhosidade em produzir ele mesmo uma vacina contra a varíola. A descrição de Humberto de Campos é soberba, densa, eloquente. Tudo isso nos faz lembrar que os santos tidos como tais pela população são escolhidos mais pelas suas demonstrações de fé cristã e milagres, que são obra mais da fé de cada um aliada aos grandes poderes de autossugestão, do que pela grandiosidade das obras em favor do próximo, que é uma das empresas mais difíceis, sobretudo quando não reconhecidas.
ResponderExcluirFlávio Henrique