segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


JAPUARA – 41 ANOS

♦ Nas páginas de um antigo jornal, relatos do conflito sangrento que colocou Canindé na imprensa do mundo inteiro e ainda hoje divide opiniões

♦ Cordel da época, ainda inédito, mostra detalhes do acontecimento e é o único documento em versos sobre o assunto

Pedro Paulo Paulino

Capa do jornal Correio do Ceará,
6 de janeiro de 1971
Hoje está fazendo 41 anos que a Fazenda Japuara, no município de Canindé, foi palco de um conflito sangrento, com repercussão na imprensa nacional e internacional. Numa luta envolvendo trabalhadores rurais, tombaram quatro mortos, além de vários feridos. Dentre os mortos, estava o delegado de polícia civil Cídio Martins e o soldado PM Jorge Paulo de Freitas. As causas da tragédia ainda hoje dividem opiniões. Cerca de cem homens, segundo consta, foram reunidos na cidade e enviados até o local, por ordem do comerciante César Campos, para expulsar os moradores, dentre eles, Francisco Nogueira Barros, que ganhou fama como “Pio da Japuara”. Ele teria sido o primeiro morador da fazenda ameaçado pelo grupo de homens que atacaram sua residência. Nesse primeiro confronto, um deles, Joaquim Rodrigues dos Santos, foi alvejado e morto com um tiro desferido por Pio. A luta recrudesceu e, da parte dos moradores, houve apenas uma vítima fatal, no caso, o Raimundo Nonato Pais, conhecido como Nonato 21, que morreu momentos depois de ser atingindo por dois tiros de revólver.

O Ceará atravessava mais uma seca que se prolongou por quase todo o ano de 1971. Na manhã daquele sábado, 2 de janeiro, aconteceu o desfecho sangrento de uma questão que se vinha prolongando há dias. “No dia 22 de dezembro (1970), três soldados, a mandado de César Campos, foram a Japuara arrancar duas cancelas que foram levantadas por Joaquim Abreu de Sousa e Waldemar Pais. No mesmo dia, Otávio Abreu de Sousa, capataz de César, queimou os roçados de Francisco Nogueira Barros, Antônio Anastácio de Araújo, Antônio Mariano Soares e José Francisco da Silva.” É o que se lê em matéria publicada pelo jornal Correio do Ceará, órgão pertencente aos Diários Associados, em edição do dia 6 de janeiro de 1971.
Foi a reportagem do Correio do Ceará, juntamente com o advogado da Federação dos Trabalhadores Rurais, Lindolfo Cordeiro, que conseguiu localizar Pio Nogueira e mais cinco participantes do choque, três dias depois do fato. Segundo a reportagem, os homens foram encontrados na mata, esperançosos pela chegada de gente de sua confiança. No mesmo dia, foram levados para Fortaleza e entregues ao então secretário de Segurança Pública, coronel Hamilton Holanda Teófilo.
A reportagem de capa do Correio do Ceará, do dia 6 de janeiro de 1971, com o título “CORREIO LOCALIZA FUGITIVOS DE CANINDÉ”, exibe em primeiro plano as fotos de Pio Nogueira, Antonio Mundoca, Alfredo 21, Francisco Plauto e Joaquim Abreu. A chamada inicia com esse texto: “Francisco Nogueira Barros, o Pio, um dos principais envolvidos no conflito da Fazenda Japuara, em Canindé, foi localizado ontem à tarde (5 de janeiro), sedento e faminto, pelos repórteres ‘associados’ Elysio e Humberto Sampaio que realizaram longa caminhada até seu esconderijo improvisado nas matas da serra Santa Teresa”.
Ao repórter Elysio Serra, Pio Nogueira afirmava: “Responsabilizo Júlio César Campos e a Polícia de Canindé como os únicos responsáveis pelo conflito ocorrido sábado último na Fazenda Japuara, no município de Canindé. Tudo o que o comerciante queria os policiais faziam, mesmo arbitrariamente e de encontro à lei”. Ao longo da reportagem, Pio Nogueira fala ainda de injustiças contra ele e seus vizinhos moradores de Japuara. “Fui covardemente agredido pelos homens pagos por César Campos, que foram trazidos de Canindé para a Fazenda Japuara, a fim de derrubar, além das cercas por mim construídas, a casa onde estavam meus filhos”, assegurava ele.
O episódio foi destaque em toda a imprensa da época. Na mesma edição do Correio do Ceará, lê-se: “Não apenas pelas proporções do conflito, mas também pelos fatos que o geraram, o choque sangrento da Fazenda Japuara, em Canindé, alcançaram repercussão internacional. Os grandes jornais do Sul se detêm em análises sobre as causas da tragédia, enquanto agências estrangeiras, como a UPI, além de relatos, emitem para o mundo radiofotos documentando a dramática ocorrência no Ceará”.
JAPUARA NO CORDEL
Além de ser tema de documentários, monografias, teses e reportagens até hoje, a “Briga da Japuara”, como o conflito ficou conhecido popularmente, é claro que também seria alvo da Literatura de Cordel. Um relato desse tipo foi feito pela cordelista Rosa Barros e é intitulado “A Luta da Japuara – Os resultados de terra e dinheiro e bravura de um camponês”. O trabalho, ainda inédito até hoje, é uma raridade e está manuscrito em sua versão original numa caderneta de propriedade da autora. Rosa Barros mora em Canindé e compôs os versos logo após o acontecimento. O seu cordel está dividido em quase uma centena de estrofes de seis linhas. Excetuando a métrica frequentemente vacilante e a rima muitas vezes forçada, o manuscrito tem importância histórica e mostra a grandeza do cordel como agente de informação. Como num romance autêntico, assim ela começa a narrativa:

“Vinde, musa mensageira
Com poder, força e valor
Dai-me santa inspiração
Mandada por Nosso Senhor
Para falar na tragédia
Que César Campos formou

Canindé, cidade santa
De festa e devoção
Onde abrange muitas léguas
A sua grande admiração
Romeiro de longe vem
Cumprir sua devoção

Passou o ano setenta
Em Canindé foi um bom ano
Chegou a setenta e um            
Com o gênio desumano
O César Campos, em Canindé
Foi logo mudando os planos

No dia dois de janeiro
César Campos juntou
Uns oitenta e cinco homens
E disse assim: - Vá, feitor
Arrombem o açude e derribem
As casas dos “morador”

As casas encheram logo
De homens pra viajar
Pra fazenda Japuara
Começaram a caminhar
Para ganhar dez cruzeiros
E sua vida arriscar”

Um vasto elenco de pessoas que participaram direta e indiretamente do combate é descrito pela cordelista Rosa Barros. Minúcias do episódio, o drama e o clamor dos envolvidos estão mesclados em sua narrativa, transformada por ela mesma num épico matuto. Ela aproveita as entrelinhas dos seus versos para manifestar também sua opinião. Infelizmente seu trabalho, apesar do mérito, está até hoje à espera de um editor.

Capa da caderneta da
cordelista Rosa Barros
Fac-símile da primeira página
do cordel manuscrito pela autora






13 comentários:

  1. Os puxa sacos de Canindé preferem não tocar no assunto. Por incrível que pareça os ridículos cultuam o mandante e o executor tem nome de rua. Aliás, ser nome de rua em Canindé não é muita coisa. Beato Salú, Apolo XI são alguns exemplos e eu não me surpreendo se daqui a pouco aparecer uma chamada Bastião Raposa.

    Parabéns ao blog por lembrar da ferida. Este assunto já foi motivo de grandes debates e brigas para não ser apresentado "maquiado" no Kanindé Cultural.



    Vida de gado, povo marcado, povo feliz....

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  2. Apesar de alguns deslizes de métrica e rima, o cordel de Rosa Barros é um documento muito precioso sobre um fato que alguns segmentos da sociedade canindeense ainda teimam em omitir ou varrer para debaixo do tapete da história. Além desse registro de Rosa Barros, há referencia a outro cordel numa revista alemã. Trata-se da edição de número 137 da revista Brasilien Nachrichten, publicação alemã dedicada à cultura brasileira, que trouxe uma ampla matéria sobre o projeto ACORDA CORDEL e faz referencias a este folhetos sobre a Japuara.
    O artigo é assinado pelo professor Hubertus Rescher, que há cerca de trinta anos pesquisa a Literatura de Cordel nordestina. O Prof. Hubertus possui uma coleção de mais de mil folhetos, na qual encontra-se um exemplar raríssimo de um poema que circulou em Canindé-Ce por volta de 1971, sobre o conflito de Japuara, a primeira reforma agrária do Brasil.

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  3. Concordo com os amigos, sobre esse episódio histórico há vasto material, carece apenas de um tratamento prossional, não afetivo-compadresco. Cumprimento o blog pela iniciativa.

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  4. Fatima Paulino Crisostomo2 de janeiro de 2012 17:14

    Parabens Pedro!Estar linda a nova cara do nosso blog.Espero ler muitas noticias boas do nosso setao em 2012 postadas por voce.
    Feliz Ano Novo.
    Paz e bem pra voce e toda sua familia.
    Fatima Paulino Crisostomo.

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  5. Tenho como companheira uma das netas de um das personagens do conflito e sempre é interessante ouvir o que o avô dela tem a contar do assunto.
    Gostaria de ter acesso a esse material , mesmo que on-line. Seria possível? Penso que a publicação por uma editora talvez fosse alvo de modificações e a realidade não fose fielmente retratada.
    Mas, em verdade, o que me traz aqui hoje é a indicação ao blogueiro/poeta de dois links ; que acho que é do interesse do mesmo.
    http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/indice.htm

    http://www2.uol.com.br/millor/index.htm

    Sem mais para o momento, desejo a todos os que acompanham o espaço um ano novo venturoso e cheio de saúde.

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  6. Creio que o episódio ocorrido na Fazenda Japuara inspirou muitos movimentos agrários posteriores, neste e em outros estados do Brasil, que culminaram em reformas agrárias com assentamentos, muitos deles malogrados por insuficiência de assistência técnica e de infraestrutura, e alguns em virtude de haver uma parte dos assentados que na verdade só o que pretendem é vender a sua terra depois de algum tempo. De qualquer forma, a reforma agrária é uma necessidade em face da má distribuição da riqueza agrária, e a maioria dos países centrais já a adotaram há muito tempo, haja vista a quase predominância da pequena propriedade familiar, com não mais que 10 hectares, na maior parte da Europa que, embora não pareça, é quase que autossuficiente na produção de alimentos.
    Imagine-se que o conflito aconteceu em plena ditadura militar, em 1971, e mesmo assim não foi (acredito) interpretado como um movimento marxista-leninista, talvez porque os agricultores não tinham formação cultural suficiente para inspirar-se na ideologia socialista.
    Lembro-me muito bem de ter estudado no ginásio com a Eliete, filha do Sr. Pio Nogueira, em 1969, na época uma jovem morena muito bonita, com uma bela franja castanha e dentes superiores levemente salientes. Dizia-se que seu pai era tão forte que amassava uma tampa de refrigerante entre os dedos, o que me inspirava certo temor. Parece-me que o Sr. Pio era dono de um bar (ou mercearia) na esquina da Rua Joaquim Magalhães com uma das ruas laterais da Praça Azul, de frente para o Posto Azul.

    Flávio Henrique

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  7. Flávio, eu não conheci, mas o Pio Nogueira era mesmo dono de um bar por trás do Posto Azul, em Canindé. Vc observou bem: o fato aconteceu em plena Ditadura, e nem por isso foi interpretado como um movimento comunista, e sim, como mais uma "briga de terra", o que era tão comum no Nordeste.

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  8. Pedro Paulo, você tem a edição do periódico em que saiu esta manchete? E do cordel? Como faço pra conseguir uma cópia?

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  9. Pedro Paulo como consigo uma cópia desses documentos (o cordel e o periódico)?

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  10. CAROS, EIS O LINK PARA BAIXAR UM LIVRO SOBRE A JAPUARA

    http://www.nead.gov.br/portal/nead/publicacoes/

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  11. Ari, valeu pela dica, mas não este link não está disponivel.

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  12. Raimundo Nonato Paz *

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  13. O ator do belo livro japuara é meu tio. Pio era meu avô,infelizmente não me lembro bem dele, morreu de um derrame. Hoje meus pais estão morando em japuara, muito bom lá mas tbm muito perigoso. Li o livro e confesso q me espanto ao saber que alguém de minha família passou por isso.
    Meu nome é Fernanda Barros

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