sábado, 1 de outubro de 2011


ESTÓRIAS DE S. FRANCISCO

(Da tradição oral)

Certa vez São Francisco e frei Leonardo de Assis voltavam de uma longa viagem. O santo, de saúde muito fraca, estava realmente exausto. Andava quase se arrastando. Vendo isso, uns tropeiros, que por ali passavam, pediram-lhe que montasse num jumento durante um trecho do caminho.
São Francisco montou no jumento e frei Leonardo seguiu atrás, tangendo o animal.
Embora mais moço que o santo, ele não estava menos cansado. Lá pelas tantas, cedendo a uma tentação, começou a pensar:
– Mas vejam só como as coisas do mundo viram. Está tudo de pernas pro ar! Antes, no mundo, meu pai e o dele nunca tiveram relacionamento. E nem podiam! Eu venho de uma família de nobres e este frei Francisco, de uma família de comerciantes! De biscateiros! Mas o que acontece agora? Ele anda montado e eu vou atrás tangendo o jumento!
Assim, ia pensando, quando, de repente, o santo fez parar o animal e desceu.
– Meu irmaõ, disse S. Francisco, não é direito que eu vá montado e você a pé! Você que no mundo era mais nobre e mais rico do que eu! Monte no jumento, meu irmão, monte. Monte que eu tanjo!
Frei Leonardo ficou de boca aberta! Como é que o santo tinha adivinhado o seu pensamento? Com o rosto rubro de vergonha, lançou-se aos pés de S. Francisco e, entre lágrimas, contou o seu mau pensamento e pediu perdão… 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011


A FESTA DE S. FRANCISCO E
A CASA MARREIRO

Pedro Paulo Paulino

Carrossel na porta de entrada da Casa Marrreiro
Um carrossel fixado acima da porta principal é o primeiro objeto que chama a atenção de quem se aproxima da Casa Marreiro. No carrossel, as figuras de dois vaqueiros atrás do boi… Enquanto gira, transeuntes param e ficam admirando. O artefato já tem réplica no Museu do Vaqueiro, em Fortaleza. O brinquedo que atrai crianças e adultos é obra da engenhosidade do fundador da casa, o poeta e folclorista Raimundo Marreiro (1913-1980). A loja existe desde o ano de 1948 e hoje faz parte da história cultural da cidade. Antes de tudo, é um ícone da Festa de S. Francisco. Sua localização na esquina do mercado central de Canindé é um corredor de passagem quase obrigatória. A diversidade de pessoas que visitam a Casa Marreiro vai do mais humilde trabalhador da roça ao intelectual. Não menos eclética é a exposição dos artigos à venda: da sola do sertão ao retalho, pneus para alpercartas sertanejas (currulepes), chocalhos, facas, estribos, esporas, rede de pesca, arreios para animais sela, peitoral, rabicho, cabeçada, rédeas... No interior da loja, avistam-se ainda objetos curiosos, como bainha para machado e foice, chocalho de cascavel, sutiã para cobra, uma pedra de corisco, o ninho de joão-de-barro etc.
Dentro da loja habita uma personagem lendária, a Boneca Gilda, também criação de Raimundo Marreiro. Gilda é uma loira de boa estatura e elegantemente trajada com seu vestidão de chita. Ela é talvez uma das criaturas mais populares nestes sertões. Exposta bem à vontade próximo ao balcão da loja, Gilda está sempre na mira dos turistas que posam a seu lado. Por isto sua imagem corre mundo. Mas ela tem autorização para vez ou outra desfilar pelas ruas, exibindo seu sorriso maroto. O carrossel, a Gilda e a decoração interna da Casa Marreiro, por sim mesmos, já formam um conjunto patrimonial da cultura autêntica de Canindé.
Poeta Natan Marreiro no balcão da loja
Mas a loja é uma tradição de família. Do poeta Raimundo, sua administração passou para os filhos. Hoje, quem está à frente é o poeta Natan Marreiro. Na casa sente-se ainda, pela marca que imprimiram no ambiente, as presenças dos saudosos Marreirinho e Laurismundo. De todos eles, as histórias se somam à uma só história: a da Casa Marreiro. Esse ambiente, onde se respiram prosa e poesia, justamente por causa disso abriga uma família numerosa: poetas da cidade, escritores, artistas de todo naipe, têm um laço, digamos, de consaguinidade com a Casa Marreiro. Neste período de festejos franciscanos, a Casa Marreiro é um estuário para onde muitos canindeenses que moram fora se dirigem. Pois é certo ali reencontrar os conterrâneos e sentir um cheiro de nostalgia… A prosa então corre solta! Na época do professor Laurismundo, era comum vê-lo conversando com um matuto e, num picar de olho, falando inglês com um turista. Sob o vidro do balcão, ou penduradas no meio do empório, estão as fotografias de um passado mais ou menos distante.
Eis que o poeta Raimundo transmitiu para os filhos o dom de fazer versos, portanto, o que não falta ali é poesia. E há quem chegue cumprimentando e sendo cumprimentado em uma sextilha ou uma décima. Por causa disso, dentro da loja existe um anexo dedicado ao cordel: é a “Banca do Gato”, onde o poeta Natan Marreiro expõe seus próprios folhetos e os folhetos dos confrades. Um acervo de causos e o anedotário da loja está gravado fielmente na memória do seu mais vetusto balconista, o Roque. Ouvindo-o, é possível recompor um autêntico relicário do folclore da cidade. A mistura de romeiros com a fauna habitual da Casa Marreiro dá vida e um colorido marcante. A Festa de São Francisco, em resumo, passa pela Casa Marreiro. Do seu patriarca, o poeta Raimundo, guardam-se na memória versos de alegria e de penar, de sátira e de encômio, de reflexão ou de puro bairrismo, como nesta estrofe, senha de abertura do programa dominical do radialista Tonico Marreiro:

“Esta cidade,
Que para nós é um encanto,
É da cidade do santo
Imitador de Jesus!
Quando o romeiro
De longe a vai avistando,
Seus olhos vão-se inundando
De ternos raios de luz…!”

Prof. Laurismundo, Cesar Menotti, PPP,
Tomezinho e Ercílio Neco (anos 80)
Reunião de amigos em frente
à Casa Marreiro


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

cantoria


PALHAÇO QUE RI E CHORA

Lourival Batista
Lourival Batista Patriota, o “Louro do Pajeú”, um dos mais afamados cantadores de viola, nasceu em S. José do Egito, Pernambuco, em 1915 e morreu em 1992. Irmão de outros dois famosos repentistas, Dimas e Otacílio Batista, foi um dos poetas nordestinos mais inspirados. Na célebre Antologia Ilustrada dos Cantadores, de Francisco Linhares e Otacílio Batista, encontramos estas décimas de um poema de Lourival, intitulado “Palhaço que ri e chora”:

“Pinta o rosto, arruma palma
Dentre os néscios e os sábios;
O riso aflora-lhe aos lábios,
A dor tortura-lhe a alma;
Suporta, com toda calma,
Desgostos a qualquer hora…
Quando quer bem, vai embora;
Vive num eterno drama:
Pensa, sonha, sofre e ama,
Palhaço que ri e chora.

Se ama alguém com desvelo,
Deixá-lo é martírio enorme;
Se vai deitar-se não dorme;
Se dorme, tem pesadelo,
Sentindo um bloco de gelo
Que o esfria dentro e fora.
Desperta, medita e cora,
Sente a fortuna distante,
Julga-se um judeu errante,
Palhaço que ri e chora.

Pelo destino grosseiro,
A vida jamais o agrada;
Se sente a alma picada,
Tem que ir ao picadeiro.
Não pode ser altaneiro,
Não tem repouso uma hora…
Chagas dentro, rosas flora,
Guarda espinhos, mostra flor!
Misto de alegria e dor,
Palhaço que ri e chora.

Palhaço, tem paciência,
Que da planície ao pináculo,
Este mundo é um espetáculo,
Todos nós, a assistência.
À falta de inteligência,
Gargalhamos qualquer hora…
Choramos sem ter demora,
Sem ânimo, coragem e fé,
Porque todo mundo é
Palhaço que ri e chora.

Revoltado com os que, não tendo coragem para enfrentar o pesado serviço do eito, lançam mão da viola, cantando o alheio ou escrevendo durante o dia para cantar à noite, o genial violeiro praticamente colocou um ponto final nas suas atividades:

Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Senti, nesta profissão,
Mau subir e bom descer;
Os que são, não querem ser,
Outros que não podem, são…
Toada, aboio e canção
Deiaram o poeta em nada.
Pra não andar nessa estrada,
Resolvi um certo dia
Aposentar-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Quem tem mérito alguém suplanta,
Sobressai-se quem é tolo,
Quem sente mal o tijolo,
Diz que desenha até planta.
Quem é cantador, não canta,
Canta quem não canta nada…
Não há verso, há só toada,
Sem métrica nem teoria:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Eu vi faltar quatro fontes
Que jorravam no terreno:
Bandeira, Marinho, Heleno,
Cesário José de Pontes,
Pássaros que, dos céus aos montes,
Festejavam a alvorada;
Hoje, a nova passarada
Não traz aquela alegria!...
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Medito só e suspiro
Pelos velhos cantadores,
Guerreiros, batalhadores,
Que nunca perderam um tiro.
Hoje, o que mais admiro,
Ver essa rapaziada,
Com arma nova e zelada,
Sem acertar pontaria:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Quem vai ouvir, não desfruta,
Tem memória, falta dote,
E eu fico de camarote
Vendo que o atraso luta…
Maestro deixa a batuta
De uma banda abandonada.
Fica escutando zoada,
Sem certeza e melodia:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Cantador, pra mim, só é
Se nasceu pra versejar,
Como Chudu do Pilar,
Marinho de S. José;
Patativa do Assaré,
Silvino da Imaculada,
Um Belinguim de Queimada,
João preto da Serraria:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Senti morrer Canhotinho,
Grande como Zé Filó,
Sentimental como Jó,
Gladiador com Sobrinho.
Cantou, nas cordas do pinho,
A inocência ultrajada,
Remorso à alma manchada,
Ao som da Ave-Maria:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Que pensamentos bizarros
Do cantador pioneiro,
Bernardino, João Ribeiro,
Manuel Raimundo de Barros.
Versos, flores, crânios, jarros,
Cabeça, horta orvalhada.
Hoje, a arte é deturpada,
Criando quem nada cria:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.
  
Em toda rádio, um programa
Sem surpresa de improviso,
Recado, lembrança, aviso,
Só evitam telegrama.
Cantador faz trato e chama
A gente que o agrada…
Manda abraço pra cunhada,
Pai, irmão, avó e tia:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.

Posso até cantar ainda,
Porque Deus deu-me este dom.
Mesmo, há cantador bom,
Que o Brasil todo o brinda!
Entra mês e mês se finda,
A viola encamisada…
Não chegando um camarada,
Bom poeta, qualquer dia:
Aposentei-me em poesia,
Concluí minha jornada.”

Em Tempo: os versos de desabafo do grande poeta Lourival Batista, para os dias de hoje, mostram uma dose de exagero. Atualmente, atua um elenco de excelentes cantadores repentistas no Nordeste, a exemplo de Geraldo Amâncio, Zé Maria de Fortaleza, Valdir Teles, Louro Branco, o piauiense Zé Viola, Zé Cardoso, a famosa dupla Moacir e Sebastião, e muitos outros que se nivelam aos mestres do repente citados por Lourival em seus versos de despedida. Até suponho que “Louro do Pajeú”, antes de morrer, aposentou apenas a viola, porque o poeta nele continuou…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

lançamento editorial

O NOVO LIVRO DE RAYMUNDO SILVEIRA

O escritor cearense Raymundo Silveira acaba de lançar seu livro de contos “Lagartas de Vidro”, Prêmio Literário “Correio das Artes 60 Anos” da Paraíba. O lançamento aconteceu em João Pessoa. É o terceiro livro do escritor que é membro da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores). As outras duas publicações são: “Louca Uma Ova” (Prêmio Literário para Autores Cearenses) e “Medicina Crônica” (Prêmio Funarte de Criação Literária). Segundo ele, a comissão julgadora dos trabalhos no Concurso de Contos e Poesia "Correio das Artes 60 anos" foi composta pelos seguintes membros: Maria Valéria Rezende (escritora), Rinaldo de Fernandes (escritor e professor do curso de Letras da UFPB) e Ronaldo Monte (escritor, poeta e psicanalista). Raymundo Silveira anuncia para dezembro deste ano o lançamento conjunto de sua trilogia literária. Transcrevemos abaixo o texto escrito para as orelhas do livro “Lagartas de Vidro”, pela escritora Maria Valéria Rezende.

"Relendo os originais de Lagartas-de-vidro, para  escrever 'a orelha de Ray', vinha-me à memória o premiado 'A orelha de Van Gogh', de Moacyr Scliar, outro médico-escritor, e daí a longa linhagem de seres dessa espécie, talvez em risco de extinção, segundo os que vaticinam o fim da literatura e se estiver certa, como parece, a profecia do próprio Raymundo Silveira no conto Self-service. Meu pai, médico numa família de escritores, dedicava-lhes uma estante especial e  nela, adolescente, pesquei muito do que fez minha formação literária, desde os 'inocentes',  A moreninha, As pupilas do Senhor Reitor, ou os 'inconvenientes' Gargantua et Pantagruel, Memórias de um sargento de milícias, A ceia dos cardeais e muitos outros, até chegar a Grande Sertão: veredas. Cert amente o que faz a literatura que sobrevive ao autor é o embate direto, apanágio dos médicos à antiga, com as queixas, as dores e a imaginação desse intrincado amálgama de corpo e alma que somos, reelaborado pelo talento de escritor.  Aqui o escritor não esconde o médico, não porque nos conte 'causos' de consultório, muito pelo contrário: revela-nos o médico como paciente e compadecido,mas transita por várias sendas da experiência e da linguagem humanas, atravessa num átimo a fronteira entre o mais cru realismo e o fantástico,  engana o leitor fazendo-o crer que lê uma simples crônica antes que irrompa sua pura invencionice, passa dos monólogos de vozes alheias para o relato clinicamente preciso, do fluxo de consciência à metaliteratura, à reflexão na e sobre a vida, à ironia e ao humor, com uma invejável habilidade no manejo da nossa bela e maltratada língua, explorando com maestria suas inúmeras possibilidades sintáticas e seu luxuoso voc abulário. Mas basta de orelha e passemos logo ao corpo inteiro deste livro que faz tão bem o que toda literatura deveria fazer: ajudar-nos, impiedosamente, a compreender melhor o que somos nós." (Maria Valéria Rezende)


domingo, 25 de setembro de 2011

crônica


CURTO-CIRCUITO BAR


Augusto Cesar Magalhães Pinto*

       Somente quem nasceu em Canindé tem a possibilidade de avaliar este momento mágico que é a festa de São Francisco. Não existe canindeense, que estando morando longe de sua terra, tenha o coração tão duro que não lhe permita se emocionar quando houve o hino “Cheio de amor” e o “Raia aurora”.
      O artista plástico e compositor Manoel Messias, em seu “Hino do Romeiro” toca o coração dos visitantes da Meca franciscana com a frase “quem vem a ti jamais esquece”. E quem teve o privilégio de nascer nessa terra há de esquecê-la um dia?
      A Festa de São Francisco além de ser o ápice da religiosidade da comunidade católica canindeenses, através de todo um aparato litúrgico promovido pela paróquia, permite aos canindeenses um faturamento extra, explorado por grande parte da população. Além dos tradicionais comerciantes, é a vez dos barraqueiros, camelôs, fotógrafos, demais operadores da economia informal, desempregados, além das pessoas comuns que chegam a alugar suas próprias casas de morada e passam a vender refeições como forma de assegurar rendimentos que lhes permita prover algumas necessidades básicas. A Festa, portanto, é para muitos uma chuva abundante no deserto que, se não resolve em definitivo os problemas da população, é um abençoado lenitivo.
      Não se pode negar que apesar do grande número de pessoas que vem render graças e pagar suas promessas a São Francisco neste período, existe muita gente que vem a Canindé buscar somente o lado profano do evento como seja: festas dançantes, bebedeira, prostituição etc.
      A quantidade de bares que são abertos nesse período impressiona, seguramente passam de mil novos empreendimentos temporários, entre barracas e improvisos.
      Foi numa dessas festas que os eletricistas (função pouco requisitada no quente da festa) Aurélio e Marinaldo resolveram montar um bar na Rua Romeu Martins, com o intuito de auferir lucros com o empreendimento. O estabelecimento teve suas bases fincadas em uma casa desativada que servia de abrigo para os cavalos do Toinho do Gordinho (pai do Marinaldo).
      Tratando-se de uma sociedade cujos proprietários e dirigentes são bebedores contumazes, houve a imperiosa necessidade de se estabelecer um pacto de que não trabalhariam bebendo, certos de que trabalho e bebida não combina. Nos primeiros dias, tudo funcionou a contento, muito embora ambos apresentassem sinais de nervosismo e ansiedade, eles chegaram a confidenciar aos clientes que “esse negócio de bar é muito sem futuro, a gente despacha, despacha, e não toma nenhuma”. Pensaram até em desistir do negócio, entretanto, depararam com um problema: haviam investido na instalação elétrica, no aluguel de congelador e na compra de bebidas (fiada) e tinham um compromisso a cumprir.
       Cientes de que se fossem beber e trabalhar ao mesmo tempo seria uma atitude anticomercial, e que somente viria a desmoralizar o empreendimento, tiveram uma brilhante idéia: a cada dia um trabalhava e o outro ficava livre para beber, de preferência no próprio bar com o objetivo de dar lucro à “casa”.
      E assim foi feito: um dia o Aurélio bebia e o Marinaldo despachava; no outro dia a coisa se invertia. Ocorre que na noite do dia 3 para o dia 4 de outubro, Canindé vira a noite; e o Aurélio que passara o dia bebendo teve que render o companheiro a meia noite para que pudesse se entregar ao prazeres etílicos.
     Completamente embriagado, o Aurélio assumiu o posto de trabalho sob a severa vigilância do companheiro que iniciara naquele momento a folga e, conforme combinado, passava a condição de freguês. O Marinaldo vendo o estado de embriagues que o Aurélio se encontrava, viu que ele não teria condição de dar conta do movimento e seria prejuízo certo, resolveu ser solidário ao sócio, ajudando-o a despachar os clientes, àquela altura multiplicados, não dispensando, porém, o copo já que formalmente estava de folga e o companheiro é que estava proibido de beber por força do pacto trabalhista.
       Sabe-se que neste país, segundo criteriosas pesquisas, é grande o número de empreendimentos que vão à falência logo nos primeiros anos de funcionamento. Nossos amigos bateram todos os recordes, e em apenas uma semana perderam tudo e ainda passaram o resto do ano endividados.
       As más línguas comentam que o eles deixaram o fornecedor Pedro Julião a ver navios, mas tudo não passa de intriga da oposição.

*Autor do livro Viagem pela História de Canindé e Histórias de Nossa Terra e de Nossa Gente.