sábado, 6 de agosto de 2011

prosa de sábado


MOTE E GLOSAS

Vejamos que décimas inspiradas fizeram os poetas Fenelon Dantas e Chico Alves, sobre o mote “Dos retalhos da minha juventude / Fiz um terno rendado de saudade”.

Fenelon Dantas
O que muito comove o coração
Eu passei toda a minha meninice
E agora caminho na velhice
E a saudade trancada em minha mão
Eu só sei que já fiz uma canção
Pra dizer o que é a liberdade
Meu destino é somente a humildade
Pelejei pra ser grande mas não pude
Dos retalhos da minha juventude
Fiz um terno rendado de saudade

Chico Alves
Hoje eu vivo cantando em todo show
Mas recordo demais a minha infância
Meu passado que teve a importância
Que o próprio destino programou
Com o tempo meu rosto se enrugou
E meu cabelo mudou de qualidade
Eu recordo demais a mocidade
Que o presente é cruel e me ilude
Dos retalhos da minha juventude
Fiz um terno rendado de saudade

A saudade que eu tenho do meu ninho
Você sabe qual foi a minha infância
Separado que estou nessa distância
Inda hoje eu recordo do caminho
Se eu canto lembrando do meu pinho
É porque inda sinto uma saudade
Se eu tinha um carrinho, era de grade
Se eu tinha uma bola, era de gude
Dos retalhos da minha juventude
Fiz um terno rendado de saudade

Mesmo assim eu procuro demonstrar
Recordando o passado tão brilhoso
Desse mundo que é tão maravilhoso
Essa corda eu preciso desatar
Esse tempo eu preciso programar
Com amor, com carinho, com vontade
E se acaso faltar felicidade
Vou pedir a Jesus que me ajude
Dos retalhos da minha juventude
Fiz um terno rendado de saudade

O SONHO DE LINCOLN

Dias antes de ser morto por um fanático, o presidente americano Abaham Lincoln contou à sua esposa e a um amigo íntimo o estranho pesadelo que tivera e muito o impressionara:
“Sonhei que ia de quarto em quarto na Casa Branca e não via ninguém. Um som de soluços, porém, vinha ao meu encontro cada vez mais audível até que cheguei ao Salão Leste. Ali, armada à minha frente, vi uma essa, sobre a qual jazia um cadáver envolto em vestes mortuárias e, ao redor, soldados montando guarda. Havia uma quantidade de pessoas, algumas delas chorando, outras olhando pesarosas para omorto cujo rosto estava coberto. ‘Quem morreu na Casa Branca?’, perguntei a um dos soldados. ‘Foi o presidente’, respondeu-me ele. ‘Foi morto a tiro por um assassino!’ Nesse instante, a pequena multidão irrompeu num grito de dor uníssono que me fez acordar. Não consegui mais dormir naquela noite, e essa estranha visão tem-me perseguido.”
Poucos dias após esse sonho premonitório, o grande presidente americano era barbaramente assassinado.


ATENÇÃO, FOLHETEIROS!


 Tenho uma boa tiragem do cordel MORTE E TESTAMENTO DE OSAMA BIN LADEN, editado pelo Sesc de Fortaleza. Cordelistas ou não que comercializam folhetos podem entrar em contato por email: pedropaulopaulino2@hotmail.com e pedropaulopaulino2@gmail.com. Também faço permuta com folhetos de outros autores.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

cantoria


MARTELO AGALOPADO:
O DESAFIO DOS DESAFIOS

Uma das provas de fogo do cantador repentista é o martelo agalopado, um gênero de cantoria que exige muito fôlego e habilidade. Diz-se que um cantador é dos grandes quando é bom em “martelo”. Esse estilo não é nada mais que o decassílabo heróico, geralmente em estrofes de dez linhas sobre um mote. É quase uma presença obrigatória nos desafios de viola. Toda boa cantoria tem que ter um “pega” em martelo. Nessa composição, o cantador encontra mais espaço para expor suas ideias. Em seu livro Gênios da Cantoria, escrito em parceria com Geraldo Amancio, Wanderley Pereira dedica um capítulo inteiro ao martelo agalopado. Foi de lá que recolhemos essa estrofe, de autoria do próprio Geraldo, uma das maiores expressões da viola nordestina na atualidade:

Entre os Dez Mandamentos dos sermões,
Respeitar pai e mãe é o primeiro,
O defeito de um filho é ser grosseiro;
A virtude dos pais é serem bons.
Todo filho tem três obrigações:
Escutar, respeitar e obedecer;
Respeitar pai e mãe é um dever;
Esquecer mãe e pai é grosseria,
Se não fossem meus pais, eu não teria
O direito sagrado de viver.

Do mesmo livro retiramos também essa passagem: “A denúncia social é um dos temas mais presentes nas cantorias, de preferência nos festivais que se realizam em locais estratégicos nas cidades. São geralmente lugares públicos, de acesso fácil, que costumam atrair também outras pessoas nem sempre envolvidas com a cantoria. Do poeta Zé Luiz (José Luiz Carlos Lima), do Rio Grande do Norte, recolhemos esta denúncia sobre os catadores de lixo, em São Paulo, a partir do mote: ‘A ganância dos ricos tem gerado / Batalhões de futuros marginais’:

Quando a Lua aparece, o céu se enfeita
E à procura do lixo os cães circulam,
Procissões de menores perambulam
Pelos becos de alguma rua estreita.
São os filhos que a Pátria-Mãe rejeita,
Os herdeiros do nada, órfãos de pais,
Fotocópias da terra, onde os chacais
Tão matando o futuro soterrado,
A ganância dos ricos tem gerado
Batalhões de futuros marginais.

Quem for rico, reflita, pare, olhe!...
Diminua seu lucro, não cobice,
Não rejeite o menor, que Jesus disse:
‘Quem acolhe a criança, a mim acolhe.’
Dê cobertas pra que ela não se molhe
Ao dormir nas sarjetas, nas centrais,
Se despoje dos bens materiais,
Cruze as portas do céu menos pesado,
A ganância dos ricos tem gerado
Batalhões de futuros marginais.

Nesta marcha terrível em que vamos,
Daqui mais uma década até antes,
Estaremos cercados de assaltantes,
Convertidos no monstro que criamos.
Tentaremos sair de onde entramos,
Mas aí já será tarde demais,
Com remorso olharemos para trás
Com vergonha do bem desperdiçado,
A ganância dos ricos tem gerado
Batalhões de futuros marginais.’”

♦♦♦

Curiosa é essa décima em martelo agalopado que determinado cantador fez para João Cabral de Melo Neto. Provocado por um intelectual a cantar sobre o poeta pernambucano, o cantador, que ignorava quem fosse João Cabral de Melo Neto, supôs que se tratasse de três pessoas diferentes, e glosou:

Todos eles são nomes muito estranhos,
Não conheço nenhum nesta ribeira,
Mas conheço Azulão, Louro e Bandeira
E outros nomes de todos os tamanhos.
De nenhum eu respeito os arreganhos,
Pode ser o mais sábio e mais completo,
Como fiz com Zé Duda e com Anacleto,
Esses três do senhor eu mato e piso,
Nenhum deles me vence no improviso,
Nem João, nem Cabral, nem Melo Neto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011


Fugindo um pouco do nosso regionalismo, mas dando sequência ao ecletismo de assuntos deste blog, postamos o texto abaixo que nos foi enviado pelo nosso colaborador Flávio Henrique Marques Ferreira Lima. O tema é de certa forma polêmico e você, leitor, tem evidentemente todo direito de concordar ou não com o pensamento exposto.

UM TEXTO DE CARL GUSTAV JUNG
SOBRE A MULHER

“Não se pode afirmar ipso facto que a mulher tem uma consciência inferior à do homem: sua consciência simplesmente é diversa da consciência masculina. Mas assim como a mulher percebe claramente coisas que o homem tateia no escuro, do mesmo modo há campos de experiência do homem ainda ocultos para a mulher nas sombras da indiferenciação. Isto sucede no que se refere a coisas que têm, para ela, pouco interesse. O mais importante e interessante para a mulher é o âmbito das relações pessoais, passando para o segundo plano os fatos objetivos e suas interrelações. O vasto campo do comércio, da política, da tecnologia, da ciência, enfim, todo o reino do espírito utilitário aplicado do homem é relegado à penumbra da consciência feminina; por seu lado, ela desenvolve uma consciência ampla das relações pessoais, cujas nuanças infinitas em geral escapam à perspicácia masculina.” [JUNG, Carl Gustav. Estudos sobre Psicologia Analítica: O Eu e o Inconsciente. Trad. de Dora Ferreira da Silva. 3.ª ed. Petrópolis, Vozes, 1991 – pág. 196.]

Carl Gustav Jung (Kesswil, 1875 — Küsnacht, 1961) foi um psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica. No inicio de sua carreira, Jung foi discípulo e seguidor de Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, mas depois se desentendeu com seu mestre e criou um novo campo de estudo da psicologia, baseado em uma concepção original do inconsciente e na interpretação dos sonhos e dos símbolos míticos, mesclando elementos das religiões, da alquimia, mitologia e filosofia. Jung considerava a psicanálise reducionista, com a sua exagerada ênfase na sexualidade e nos instintos (princípio do prazer). Sua obra é monumental, e certos conceitos e termos que criou são populares hoje em dia, tais como complexo, recalque, inconsciente pessoal, inconsciente coletivo, arquétipos, anima, animus, individuação, sombra, introversão e extroversão (tipos psicológicos), Self, sincronicidade, etc.

Uma leitura crítica e atualizadora do texto de Jung, que é de 1928, conduz-nos ao convencimento de que as características femininas nele ressaltadas dizem respeito à maioria das mulheres, sendo evidente que sempre houve (veja-se o caso da filósofa e cientista Hipácia de Alexandria, um verdadeiro gênio que viveu nos séculos IV e V depois de Cristo, dentre muitas outras mulheres geniais de que a História tem registro), há e haverá mulheres dotadas também das virtudes masculinas. Aliás, muitas vezes o gênio tem características andróginas, constituindo-se em uma mescla harmoniosa das virtudes masculinas e femininas. O que se observa no mundo de hoje é que cada vez mais mulheres são dotadas dos atributos masculinos, de modo que, estatisticamente, esse texto de Jung não é tão verdadeiro quanto era na época em que foi escrito. Aliás, na mesma obra (pág. 285), Jung cita um dito de Nietzsche: “Toda verdade é sinuosa.”
(Flávio Henrique)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


CORDEL SATÍRICO

No nosso grupo de amigos e companheiros de Cordel, em Canindé, uma prática muito comum sempre foi a fabricação de versos satíricos entre os poetas. Ninguém dispensa ninguém. Dessa malhação em versos, já contabilizamos uma grande soma de cordéis, alguns impublicáveis devido o tom apimentado; outros, nem tanto. Exemplo é este cordel que eu e Arievaldo Viana produzimos em 1998, a respeito da maratona do nosso confrade Jota Batista para ingressar na prefeitura.
Recém-saído da então Sucam, o renomado cmpositor abandou a árdua tarefa de exterminador de mosquito e procurou se abrigar sob as tetas da administração pública municipal. Tudo corria bem, até o dia em que o prefeito decretou concurso público para todos os servidores: garis, zeladores, motoristas, fiscal da iluminação pública e, para o setor da comunicação, repórter, redator e fotógrafo.
Foi nessa última categoria que se inscreveu o Jota. Displicente, sem pressa com nada, ele nem pegou no roteiro do conteúdo da prova. Depois de marchas e contramarchas, vejamos a seguir o resultado da prosaica empreitada, em versos satíricos salpicados de surrealismo:

Fazer um concurso público
Para no Paço ingressar
É assunto muito sério,
O cabra tem que estudar,
Queimar pestana, aprender,
Para depois ir fazer
E não se decepcionar.

Até mesmo em prefeitura
Que empregava à revelia,
Concurso é obrigatório,
Acabou-se a oligarquia:
Tem que estudar matemática,
Geografia, gramática
E até fotografia.

No concurso mais recente
Para ser um retratista
Se inscreveu na prefeitura
O senhor Jota Batista.
Nem a câmera possuía,
Tudo fez à revelia
Dando uma de artista.

Até que na prova escrita
O rapaz não foi ruim.
Respondeu 12 questões,
Uma delas era assim:
Quem descobriu o Brasil?
Disse o Jota: foi meu “til”
O Pedro Cabral Alvim.

Era a segunda pergunta
Mais difícil e complicada.
Quem foi que escreveu a carta
Primeira da pátria amada?
Disse o Jota: eu sou capaz,
Foi um tal de Pero Vaz,
Por alcunha “Caminhada”.

Quem disse a primeira missa
Desta terra brasileira?
Disse o Jota: essa é tão fácil
Que parece até asneira.
Fique sabendo você,
Foi o frei FHC
Num dia de terça-feira.

Quem descobriu a América?
- Outra questão inquiria.
Disse ele: foi Calombo,
Criatura santa e pia.
Sua caravela ela a Pinta,
Mas tinha a Nina retinta
E também Santa Maria.

Em questão de matemática,
Quantos são dois vezes dois?
Disse o Jota: essa é difícil,
Só vou responder depois.
E foi contando nos dedos…
Mas disse alguém em segredo
Que era um “baião-de-dois”.

Resolveu ele pescar
Numa questão bem dramática.
Qual o acento de ônibus?
Lhe perguntava a gramática.
Disse: 36, com fé,
Fora mais 18 em pé,
Isso é que é ser regra prática.

Conhecimentos gerais:
Quem foi o Napoleão?
Disse o Jota: nunca vi
Esse ente no sertão.
Eu não quero fazer arte,
Mas se foi o Bonaparte,
Era um grande canastrão.

Quem foi D. Pedro II?
Perguntava outro quesito.
Disse o Batista: por certo
Era um velhote esquisito
Que eu vi na nota de dez,
E nunca lavava os pés
E nem rezava o bendito.

Quem assinou a Lei Áurea
Que aboliu a escravatura?
Batista teve um acesso
De revolta e de bravura,
E lá no papel botou:
Foi o mesmo que inventou
Concurso de prefeitura.

Quem foi Zé do Patrocínio?
Perguntava outra questão.
Foi um patrocinador
De cachaça no sertão;
Já foi nome de farmácia,
Eu digo e não é falácia,
Esse Zé era um gangão.

E assim foi respondendo
E mantendo sua tática.
Pescava, “fazia cera”,
De maneira diplomática.
E o tempo foi passando,
Foram logo lhe chamando
Pra fazer a prova prática.

Arranjou uma “instantânea”
Com Manelzim, seu irmão.
Não tinha flash nem filme
E lente não tinha, não.
Faltava a câmara escura,
Parecia u’a rapadura
Ou u’a barra de sabão.

E adentrou a Matriz,
Valeu-se do padroeiro:
“Meu S. Francisco, me ajude
Nesse transe passageiro.
Sou manso igual um borrego
E careço desse emprego
Pra morar no seu terreiro”.

Porém, correu tudo errado,
Pois quando saiu a lista
Dos que foram aprovados,
Cadê o Jota Batista?!
Ficou só na solidão
E voltou pro violão.
Nisso, sim, ele é artista.
Registro com pesar o falecimento do meu amigo Zé Maria, também dos Paulino, que nos deixou no último dia 13 de julho. Homem simples e bom camarada, era bastante conhecido em Canindé. Durante muito tempo, esteve a serviço do cartório que então era comandado pelo dr. Nilson Lima. Zé Maria, pessoa solícita, sempre tinha alguma coisa boa para nos contar. 


terça-feira, 2 de agosto de 2011


MEU ENCONTRO COM LUIZ GONZAGA

Pedro Paulo Paulino



Sempre fui ouvinte de rádio, de preferência AM. O rádio sempre esteve presente no meu dia a dia. Mesmo com a profusão de músicas disponíveis hoje na internet, meu prazer é maior quando ouço no rádio uma música de minha preferência, principalmente Luiz Gonzaga. Parece exagero, mas devia ser obrigatório toda emissora do Nordeste tocar pelo menos uma vez ao dia qualquer coisa do Gonzagão. Embora sem essa obrigatoriedade, felizmente ainda se escuta muito o Rei do Baião no rádio.
Este comentário vem a propósito da data de hoje, quando completa 22 anos da morte de Luiz Gonzaga. Naquele dois de agosto de 1989, a música popular brasileira vestia-se de um luto profundo pela perca do maior talento representativo do Nordeste. E já se passaram 22 anos! Arievaldo, que, pelo menos pessoalmente, é o maior discófilo e pesquisador de Luiz Gonzaga que eu conheço, lembra que 22 anos também foi uma etapa importante na vida de Luiz Gonzaga. Com essa idade, ele estava em São João Del Rey, no Exércico Brasileiro. E por esse período também recebia aulas de acordeon.
Tudo já se disse de Luiz Gonzaga. O repertório de metáforas e comparações em torno do seu nome parece ter-se exaurido até a última gota. Não estou aqui para criar nenhum novo epíteto para designá-lo, até porque estou certo que seu título mais justo é mesmo o de “Rei do Baião”. Entretanto, aliada ao talento, sempre vi na coragem outro dos dons natos do velho “Lua”. Imagine um sanfoneiro nordestino no Rio de Janeiro dos anos 40, onde a música predominante tinha toda uma influência europeia. As vozes que se ouviam eram as dos já consagrados Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Francisco Alves e outros. Gonzagão cavou seu espaço e, corajosamente, impôs seu ritmo e, aos poucos, a sua voz. Dos cabarés da lapa, migrou para os salões requintados e tornou-se astro na RCA, a maior gravadora daquela época. Em nada ele negou sua origem nordestina, dos sertões de Pernambuco: no modo de falar, notadamente. O detalhe, porém, mais fantástico de Luiz Gonzaga foi o seu característico chapéu de couro, complementado pelo gibão, à moda de um vaqueiro bravio nos meios mais chiques do Sudeste, ou mesmo um cangaceiro que trocara o rifle pela sanfona.
Luiz Gonzaga foi um monstro, um mestre no rastro do qual uma legião de artistas conseguiu brilhar e galgar fama. Eu guardo na memória uma imagem da minha meninice, como se guarda um joia preciosa a quatro chaves. Esta cena está gravada na minha mente, como um quadro adorado fixadado na parede do cômodo mais nobre e íntimo da casa. Foi num dia qualquer do começo dos anos 80. Eu estava na bodeguinha do meu pai, à beira da estrada na Vila Campos, quando em frente estacionou um automóvel e dele desceram dois homens. O primeiro adentrou o pequeno salão e, ao dar bom dia, logo um cidadão que estava sentado indagou:
- Que mal pergunte, o sr. é o Luiz Gonzaga? Ele respondeu:
- Seu criado.
Pronto, ali estava, em carne e osso, o “Rei do Baião”, na sua suprema simplicidade, tomando café e comendo bolo junto ao balcão do meu pai. Num átimo, uma vistosa roda de pessoas achegou-se para vê-lo. A meninada de um colégio próximo abandonou a sala de aula e correu para ver de perto o Gonzagão, descaracterizado sem a sua indumentária de vaqueiro. Ele abraçou a todos, conversou com roceiros, indagou do inverno, perguntou sobre o lugar e qual o santo do nosso povo… Meu pai, com quem aprendi a gostar mais do Gonzagão, parecia não acretidar que ali, no seu estabelecimento, estava o dono daquela voz que ele tanto escutava no rádio. De mim, parecia que sonhava. Luiz Gonzaga admirou um velho banco de aroeira que havia no salão, já polido pelo uso. E, ao pedir um palito de dente, meu pai, para provocá-lo, partiu o palito em dois e deu uma ponta ao motorista e a outra ao Luiz Gonzaga. Ele pegou o pedaço de palito e exclamou, com riso irônico: “Cearense, sempre fazendo economia…” Em compensação, meu pai não aceitou o pagamento da despesa. A parte detrás do seu carro estava pendurada de peso: era o porta-malas cheio de LPs. Depois de uma meia-hora de prosa, Gonzagão despediu-se e partiu rumo aos Inhamuns.
Foi assim, por obra do acaso, que vi na minha frente o grande astro que sempre adorei desde criança. E por conta disso, passei a me sentir um dos cristãos mais privilegiados deste mundo. E com razão. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

mensagem


Para iniciar o mês de agosto, apresentamos aos leitores esta mensagem enviada pela nossa colaboradora Aurilene Uchoa. Ótimo mês a todos.



O PODER TRANSFORMADOR DA PALAVRA

Conta-se dque o dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o certa vez na rua:
- Sr. Bilac, estou a precisar vender a minha propriedade, que o Senhor tão bem conhece. Poderia, por gentileza, redigir o anúncio para a venda no jornal?
Olavo Bilac apanhou o papel que o amigo lhe estendia e escreveu:

“VENDE-SE ENCANTADORA PROPRIEDADE

Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda.”

Meses depois, o poeta reencontrou o comerciante e perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade.

- Nem pense mais nisso, Sr. Bilac! Quando li o anúncio que o senhor escreveu é que percebi a maravilha que tinha nas mãos!

Esse exemplo transformador da palavra pode nos despertar o sentido do amor-próprio. Tal qual o dono da propriedade à venda, também temos dentro de cada um de nós uma propriedade de valor incalcuável, que é nosso próprio ser. Podemos chamar este imenso bem imaterial de espírito ou consciência. É um bem intransferível, inalienável e infinito, mas muitos de nós, absorvidos pelo dia a dia, esquecemos de que somos legítimos donos dessa encantadora propriedade.
Tragados pela correnteza dos acontecimentos, não poucas vezes esquecemos que dentro de nós há um império, não importa o corpo físico que o abriga. Você pode ter um corpo perfeito, mas pode ser também um deficiente físico, faltar-lhe um braço, uma perna, a visão, mesmo assim, esse corpo conduz uma joia preciosa que é a sua inteligência, a consciência de que você existe e faz parte dessa infinitude a que chamamos Universo. Deixar-se abater por pequenas contrariedades, por fatos banais, picuinhas; deixar que nosso ser, nossa auto-estima, bom-humor vá por água abaixo por trivialidades, é o mesmo que deixar um grande edifício ruir pela ação do cupim.
Assim como o anúncio de Bilac, muitas vezes é necessário que alguém nos anuncie que temos uma propriedade encantadora, nossa individualidade, autoestima, livre arbítrio, capacidade de realizar, colaborar e participar, de um modo ou de outro, do mecanismo univeresal em busca da perfeição. Use a palavra em favor do bem e da edificação moral.
Faça acordar o espírito que anda anestesiado pela descrença e o desengano.
Com sua palavra, você pode desviar uma outra pessoa do rumo da derrota. Você poderá até mesmo, num momento extremo, fazer com que um suicida em potencial mude de ideia.
Reflita no PODER TRANSFORMADOR DA PALAVRA. Escolha para seu uso diário palavras de conforto, encorajamento, firmeza, ternura, gratidão, convicção, construção, afeto e verdade. Anuncie para os outros e para você mesmo que já nascemos nobres, e verá que, a exemplo da história contada no início desta mensagem, você jamais se desfará dessa maravilha que é a sua CONSCIÊNCIA.