No dia 29 de julho, Canindé completa 165 anos de emancipação política. Publicamos hoje artigo que questiona tópicos importantes das origens do município.
Canindé, 165 anos de emancipação política
Augusto Cesar Magalhães Pinto*
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| Basílica de S. Francisco em Canindé |
Desde que iniciei minhas pesquisas históricas, vi em diversas fontes que quando da emancipação de Canindé, o município foi formado por terras desmembradas de Fortaleza e Quixeramobim. No nosso livro “Viagem pela história de Canindé”, página 64, capítulo V, denominado “Os primórdios da atuação da Câmara municipal de Canindé”, apesar de termos mencionado textualmente tal afirmação, fazemos referência a primeira reunião da Câmara Municipal de Canindé, ocorrida em Baturité no dia 21 de junho de 1847. Confesso que esse assunto sempre me deixou intrigado. Ora, se não há registro de que Canindé tenha sido desmembrado, ainda que parcialmente de Baturité, por que cargas d’agua a primeira reunião da nossa Câmara foi lá, ao invés de Fortaleza ou Quixeramobim? É bem verdade que Canindé juridicamente pertencia a Baturité e é de se fazer nova indagação: por que não pertencia juridicamente a Fortaleza ou Quixeramobim?
Sem autoridade para questionar, me limitei a dizer no segundo parágrafo do capítulo, de maneira despretensiosa e sem nenhum destaque que “a sessão representou de maneira prática e definitiva de Baturité e Canindé, quando esta, a partir daquela data, passou a contar com sua própria Câmara funcionando em próprio território”. A origem de toda questão se acha no “Anuário do Ceará”, que tem como autores Antônio Martins Filho, Raimundo Girão e Doriam Sampaio; sem dúvida nomes de peso que chancelam uma fonte confiável de pesquisa.
O incansável octogenário Padre Neri Feitosa, a quem Canindé muito deve pela determinação, o gosto pela pesquisa da nossa história e o incentivo que dá aos novos pesquisadores pela autoridade moral do exemplo, reabriu a polêmica em 2010, com sua monografia nº 5, do Instituto de Memória de Canindé, denominada “Achegas ao Livro Origens de Canindé”. Dito autor, discorda do anuário apresentando argumentos sólidos e irrefutáveis, porém, desprovidos de soberba, ressaltando que, “salvos melhor juízo e melhor documentação”, NÃO vê como o município de Canindé tenha em parte sido desmembrado do território do município de Quixeramobim nem que o município tenha cedido parte para a autonomia do município de Canindé, nem que a cidade de Canindé tenha algum dia ficado no mapa territorial de Quixeramobim. De forma elegante, defende os autores do anuário (apesar de não concordar com eles) dizendo que eles “têm uma certa razão de generalizar uma afirmação para não perder tempo com o vaivém da divisão administrativa dos Distritos e Municípios”.
Sabe-se que desde 1796, quando Canindé concluiu sua primeira igreja (apesar de estar faltando uma torre e o assoalho) os canindeenses requereram a Rainha D. Maria I (inicialmente conhecida como “a Piedosa” e depois a “Louca” por sofrer de problemas mentais, sendo que na realidade era seu filho D. João quem de fato governava) a criação de uma paróquia, naqueles tempos chamadas de Freguesia. Estávamos na mera condição de colônia e as relações da Igreja com o Estado português eram regidas pelo Padroado que se constituía num acordo entre a Santa Sé e o governo português. Os cargos mais importantes e até os párocos, então chamados de vigários colados, eram de escolha do monarca e recebiam subsídios como se fossem funcionários públicos. Desta forma, o governo não tinha o menor interesse em criar freguesias que na prática aumentariam a despesa a ser coberta pelo erário.
Na pequena povoação de Canindé, a devoção ao santo padroeiro era incipiente e crescente, sendo que as contribuições recebidas dos fieis que traziam oferendas ao oráculo em penhor da gratidão pelas graças alcançadas foram decisivas para formação do patrimônio de São Francisco das Chagas que, impossibilitado de manter um pároco às expensas das rendas do aludido patrimônio, era um significativo argumento para a Côrte portuguesa dignar-se a criar uma Paróquia e consequentemente nomear um vigário. Todavia, as decisões eram muito lentas e duas décadas depois nada ainda tinha sido resolvido.
Novamente em 1816, os canindeenses mandaram uma súplica, desta feita dirigida à Mesa de Consciência, solicitando uma nova Freguesia nas Ribeiras do Curu. Dita Mesa era quem dava encaminhamento ao pedido, evidentemente, dando parecer e formando um processo que contava inclusive com um parecer de 20 de abril de 1802 que tinha como signatário o Pároco da Vila de Fortaleza, Pe. Cláudio Alvares da Costa e um despacho do Governador da Capitania, Manoel Ignácio de Sampaio, datado de 27 de junho de 1816. Foi neste mesmo ano que D. Maria I faleceu, e seu filho, que há anos de fato governava, foi empossado como rei e recebeu o nome de D. João VI, e era quem na verdade tinha o poder de decisão sobre a criação da nova paróquia.
Fazia oito anos que a família real se achava morando no Brasil fugindo das guerras napoleônicas, e desde então a colônia passou à condição de Reino Unido de Portugal e Algarves. A presença do monarca no solo brasileiro e o crescente aumento do patrimônio de São Francisco foi decisivo para que D. João VI em 30 de julho de 1817, despachasse o alvará de ereção da Paróquia de São Francisco das Chagas de Canindé, elevando-se da categoria de capela, então filial de Fortaleza, para Matriz Colada, ato confirmado pelo então Bispo de Pernambuco, Dom Frei Antônio de São José Bastos.
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| Canindé antigo: vista do local onde é hoje o coração da cidade |
No mesmo documento consta que “Esta partilha não prejudica a Freguesia de Fortaleza porque lhe ficam treze Capelas Filiais...” O documento não faz nenhuma menção a Quixeramobim a não ser quando no parágrafo anterior se refere ao confinamento da nova Freguesia. O Decreto nº 365 de 29 de julho de 1846 que cria o município de Canindé com elevação a Vila, diz no seu artigo 2º que os limites do termo desta Vila serão os mesmo da freguesia e com base na documentação pertinente acima exposta, é de se valorar a pesquisa do ilustre Pe. Neri, que mesmo sendo dispensável nossa opinião é de se reconhecer, no mínimo, que são verossímeis suas conclusões.
Os tempos são outros, é bem verdade; hoje em dia com a proliferação de outras igrejas e até seitas e a consequente perda parcial da hegemonia da Igreja Católica, há uma certa ciumeira quando se faz a ligação da emancipação do município com a atuação da Igreja. Todavia, mesmo que se reclame que o historiador/pesquisador faça uma abordagem “laica” da história, é impossível, pelo menos na história e Canindé, essa dissociação.
Nascemos sob a égide do manto franciscano e foi simbioticamente ligado ao exercício dessa fé que a Meca franciscana floresceu. A aura mística que envolve este solo sagrado dá a esta cidade a condição de segundo maior santuário franciscano do mundo. Afora essa, é inquestionável a vocação desenvolvimentista desta cidade, apesar da nossa orfandade política, sob os múltiplos aspectos. Parabéns, terra querida, pelos teus 165 anos de emancipação na imorredoura esperança de que dias melhores nos aguardam.
*Autor dos livros "Viagem pela história de Canindé" e "Histórias de nossa terra e de nossa gente".
*Autor dos livros "Viagem pela história de Canindé" e "Histórias de nossa terra e de nossa gente".


