quinta-feira, 21 de abril de 2011

MUNDO LITERÁRIO

Leia na página MUNDO LITERÁRIO um texto bem interessante do escritor cearense GUSTAVO BARROSO (1888-1959), intitulado: OS BARCOS DE S. FRANCISCO DAS CHAGAS DE CANINDÉ. Essa pérola literária foi pesquisada pelo nosso amigo e colaborador do blog, Silvio R. Santos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CRÔNICA


É LENDO QUE A GENTE SE ENTENDE
Por: Pedro Paulo Paulino
Fui convidado a participar de um encontro literário em que seriam discutidas a vida e a obra de Augusto dos Anjos. Lamentei e desculpei-me por não ter atendido ao convite. A novidade, em todo caso, me deixou sobremodo surpreso, tanto pelo assunto ser o incomum poeta paraibano, quanto por ser a terceira vez que uma agremiação se reúne em Canindé para discutir literatura. É que surgiu na cidade a Associação dos Leitores de Canindé. Coordenada pela professora Wladia Oliveira, a entidade mantém reuniões frequentes e ainda edita um pequeno informativo, abordando a cada edição um autor, dando sugestão de leitura e convidando novos participantes. Para fazer parte da agremiação, é exigida apenas a doação de um livro de qualquer gênero.
Mais surpreso ainda fiquei quando tomei conhecimento de que as reuniões são bastante concorridas. Indepedente do proprósito, quanta boa vontade, quanto ideal e quanta esperança nessa iniciativa no mínimo romântica, manifestando-se neste tempo em que a curiosidade literária é coisa rara. Quase não se lê. A maioria alfabetizada ignora hoje em dia a obra de um bom autor, nacional ou não. O frenesi da tecnologia, com sua inúmera variedade de entretenimento, substitui o livro por outros atrativos. E o hábito da leitura resume-se às mensagens telegráficas do telefone celular.
O desuso do livro colabora fortemente para a imperfeitção da consciência, pois nada ajuda mais a formar a mentalidade crítica do que que o hábito da leitura. E não basta apenas ler. É necesário também comentar o que se lê. Além de ser prazeroso. O leitor de hoje é, porém, um misantropo, é quase um excluído, quando devia ser de fato excluído quem não lê. O leitor é também um discriminado. Quem costuma portar um livro debaixo do braço sabe do que estou falando. Faça-o e passará por circunstâncias indesejadas, tais como ser confundido com pregador de alguma seita. Daí, talvez, a necessidade de um clube de leitores.
O amante da leitura sabe o valor material e espiritual do livro. O livro é a extensão da alma e, como tal, carece de adoração, de valorização e de carinho. O gosto ou não da leitura está evidente na maneira como alguém trata um livro. Já falei na doação para ser membro da ALC. Mas os organizadores fazem uma exigência: que seja um livro em bom estado de conservação. Observando a escolha de Augusto dos Anjos como tema de debate, lembrei, a propósito, de um fato ocorrido faz algum tempo, aqui em Canindé. Um amigo me falou ter encontrado no tambor do lixo (extrema ironia!) um exemplar de uma das primeiras edições do “Eu”, o único livro do poeta de maior popularidade até hoje no Brasil. O volume, já se deteriorando, ainda foi salvo.
Quem, a grosso modo, sabe decifrar as letras do nosso alfabeto, não se atreveria em sã consciência atirar no lixo um livro, seja qual for. A campanha por doação encetada pelos coordenadores da ALC merece nossa condescendência. É uma campanha silenciosa, como o próprio livro, mas que ecoa alto em nosso espírito. Parte da boa vontade e do altruísmo de um pequeno grupo de pessoas que com razão vê na leitura a forma mais importante de nos comunicar e aproximarmos. Não basta ter livros, que precisam ser lidos. Afora o interesse de querer ser membro ou não dessa incipiente agremiação literária, colabore. Torne o livro útil. O livro não é peça decorativa, é uma ferramente forte para nossa liberdade. E, mesmo velho e amarelado, não deve ter como destino trágico o tambor dolixo.
(Crônica publicada no jornal DE MÃO EM MÃO, em janeiro de 2007. Obs.: A Associação dos Leitores de Canindé foi extinta pouco tempo depois.)