sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O HÁBITO DA ARROGÂNCIA

Pedro Paulo Paulino


Aproximam-se os dias em que a cidade de Canindé entra em sua alta estação do turismo religioso. De 24 de setembro a 4 de outubro, a cidade recebe os milhares de romeiros que vêm de vários estados do Brasil para a festa de S. Francisco. Por enquanto, já é bem nítida a presença de visitantes, principalmente do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Não há estatísticas, mas estima-se que a cada ano a festa de S. Francisco cresce em número de pessoas, uma população flutuante muito superior ao número de habitantes locais.
Na opinião geral, a festa é o “inverno” dos canindeenses, haja vista o aquecimento do comércio nesse período, fenômeno que se repete também no Natal. Os mais otimistas consideram esse palco de romaria o segundo maior santuário franciscano do mundo, depois de Assis na Itália. O distintivo não justifica, por outro lado, o atraso sócio-econômico que ainda desabona Canindé do pódio das cidades mais desenvolvidas do Ceará. Uma comparação virou palavra-chava: Juazeiro do Norte, 65 anos mais jovem e também centro de peregrinação, é longinquamente muito superior à nossa “meca” em seus índices econômico e de desenvolvimento. O confronto é humilhante. Não vamos nos deter nesse aspecto.
As últimas postagens do blog tratam de uma polêmia que se encorpou desde que foram retiradas as luzes que embelezavam o exterior da basílica. O brado fervoroso partiu do poeta e radialista Tonico Marreiro, que vem sustentando uma ferrenha campanha reivindicando o retorno das luzes decorativas que transformaram a basílica num cartão-postal internacional. O grito ganhou as ruas, os meios de comunicação e a solidariedade de muitos canindeenses e até de pessoas de outras cidades. Numa enquete aqui no blog, é bem notória a superioridade númerica dos que defendem a volta das luzes da basílica.
Há exatamente um ano foi encetado esse protesto público por parte do Tonico, que neste 7 de setembro manifestou mais ainda seu apelo ao desfilar com uma faixa significativa desse tema. E mesmo trombeteando sua queixa aos quatro cantos, os ouvidos da comunidade franciscana responsável pela paróquia local parecem surdos ao assunto.
A questão surge, a nosso ver, de um outro problema renitente e chocante: a falta de uma cultura arraigada, que dê sustentação e poder de fato e de direito aos costumes e tradições locais. Some-se a isso a baixa auto-estima observada em nossos conterrâneos, permitindo que suas tradições sejam quebradas de maneira ditatorial. Alguém já me fez lembrar que a iniciativa, por exemplo, do atual vigário de Canindé em retirar as luzes da basílica devia, no mínimo, passar por um referendo. A basílica iluminada era uma tradição de mais de 80 anos e, na retina dos fiéis, uma das imagens mais empolgantes das noites do novenário. Mesmo a quilômetros da cidade, a visão noturna da basílica iluminada não tinha uma comparação em seu esplendor. Todo esse brilho e magia foram arrebatados ao povo que se manteve pusilânime. Entende-se que a basílica com seu colorido de lâmpadas é um patrimônio tanto do povo quanto é da própria instituição religiosa.
Em notícia anterior, citamos um rol de costumes que foram abolidos do culto popular a S. Francisco de Canindé, por ação de alguns frades. De minha parte, quero lembrar mais um item que teve fim. A Missa dos Violeiros, também de decênios de tradição, há muito tempo foi excluída da programação da festa. Aquele momento, devotado a uma das colunas da nossa cultura, o cantador de viola, era dos mais atraentes para centenas de pessoas que se reuniam detrás da basílica para ouvir nossos menestréis. Sem justificativa e sem nenhuma satisfação ao público, a Missa dos Violeiros foi erradicada. E não lembro que nem uma só voz tenha se levantado em protesto.
A comunidade canindeense, esteada ainda basicamente em raízes de famílias ditas tradicionais, parece não reunir sem si mesma força suficiente para reagir em momentos como esse. É sabido que o comando da paróquia local sempre esteve nas mãos dos franciscanos vindos de outras cidades e até do exterior. E é exatamente nesse ângulo que mais se apoia o protesto de Tonico Marreiro. “Forasteiros arrogantes”, no dizer dele, “chegam aqui, fazem e desfazem, e o povo fica calado. Eu não!”. Ouvi dele este desabafo em tom de indignação e lamento. Num clamor que ganhou as ruas, Tonico Marreiro, organicamente bairrista e incansável defensor de sua terra, ainda faz suscitar outro questionamento. Por que a juventude canindeense de hoje não encampa uma luta renhida defendendo sua cultura? Nada restará de uma geração e de um povo no geral, do que sua cultura. A reposição das luzes decorativas da basílica de S. Francisco devolveria aos canindeenses e aos milhares de romeiros, não só uma tradição, mas também a única beleza material da cidade. E esse esperado gesto consciente espelharia ainda o aviso mais consagrado da Ordem Franciscana – a Humildade.


Cantadores reunidos atrás da basílica de Canindé, quando havia a
tradicional Missa dos Violeiros na festa de S. Francisco: mais uma
"página rasgada" da história da cidade


6 comentários:

  1. Parece que há um interesse deliberado de alguns representantes da igreja em Canindé de afrontar as pessoas que cultuam as tradições, de fincar pé em determinados pontos pelo simples prazer de afrontar, parece até que desejam matar a "galinha dos ovos de ouro". Sim, porque a festa do padroeiro a cada ano se torna mais desenxabida por conta de tais posicionamentos.

    Francisco Umbelino

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  2. Os atuais Franciscanos menores em Canindé, a julgar pela ação danosa a história cultural religiosa da cidade, sempre serão "menores", quando essa mesma história for concluida e escrita para a posteridade.
    Aliás, jamais, em tempo algum, Canindé recebeu uma "leva" de franciscanos composta de gente tão incompetente, arrogante e odiento. Dom Delgado não terminou bem quando mexeu no patrimonio de São Francisco...

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  3. Com relação a lamentar que a "Missa dos Violeiros" não conste mais no calendário festivo do Padreiro de Canindé,é exigir muito de um Frei João Hamilton de uma mente tão miuda... Mas, isso dá MOTE. Com a palavra e o repente O LOURO BRANCO:

    "O Vigário acabou
    Com a Missa dos Violeiros"

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  4. ESSE VIGÁRIO ACABOU
    COM A MISSA DOS VIOLEIROS

    So pode ser muito ôca
    A mente desse Vigário
    Que fez o povo de otário
    Que implora com voz rouca.
    Sua cultura é tão pouca
    Os seus modos são rasteiros
    Insolentes e grosseiros
    Da cultura se afastou
    Esse Vigário acabou
    Com a “Missa dos Violeiros”...

    O pequeno Rui Barbosa
    De grande sabedoria
    Adorava a poesia
    Fosse em verso, fosse em prosa.
    Com sua mente primorosa
    No Brasil foi dos primeiros
    Orgulho dos brasileiros
    Aos “pequenos” orgulhou
    Mas “o daqui” acabou
    Com a “Missa dos Violeiros”...

    (Do cantador Zé Preá)

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  5. Parece-me que a questão tem sido conduzida com muita emoção e ataques pessoais, embora se trate de uma indignação justa. A não ser que já se tenha tentado a via racional e diplomática, mediante o diálogo; e se o vigário recusou o debate e foi insensível ao apelo dos canindeenses, devia-se solicitar ao arcebispo uma audiência com uma comissão formada por pessoas que sejam representativas da comunidade, em cada um de seus principais setores: econômico, político, intelectual e religioso.
    Entendo que se deva tentar antes de tudo a via pacífica, tal como ensinou Gandhi. Sem a abordagem da questão sob um ponto de vista impessoal, racional, só se consegue acirrar o orgulho e a teimosia quando o adversário não tem sensibilidade nem compreensão, ou não quer tê-las por outros motivos que talvez desconheçamos - e é preciso conhecê-los, pois essas mudanças podem pôr em risco a tradição religiosa de Canindé.
    Minha visão é esta, e reconheço que posso estar errado, desde que alguém me explique racionalmente por quê. Com a gentil e honesta dialética, pode-se chegar mais facilmente a um entendimento pacífico, sem muitos atritos. Por que não levar o problema ao arcebispo Dom José Aparecido?

    Flávio Henrique

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  6. O Vigário Batoré
    Ordem dos frades menores
    Já teve idéias melhores
    Ao chegar em Canindé
    Mas depois fez finca-pé
    Com instintos arengueiros
    Por causa de forasteiros
    Meu Canindé se arrasou
    Esse vigário acabou
    Com a MISSA DOS VIOLEIROS.

    Cordeiro Brabo

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