quinta-feira, 4 de agosto de 2011


Fugindo um pouco do nosso regionalismo, mas dando sequência ao ecletismo de assuntos deste blog, postamos o texto abaixo que nos foi enviado pelo nosso colaborador Flávio Henrique Marques Ferreira Lima. O tema é de certa forma polêmico e você, leitor, tem evidentemente todo direito de concordar ou não com o pensamento exposto.

UM TEXTO DE CARL GUSTAV JUNG
SOBRE A MULHER

“Não se pode afirmar ipso facto que a mulher tem uma consciência inferior à do homem: sua consciência simplesmente é diversa da consciência masculina. Mas assim como a mulher percebe claramente coisas que o homem tateia no escuro, do mesmo modo há campos de experiência do homem ainda ocultos para a mulher nas sombras da indiferenciação. Isto sucede no que se refere a coisas que têm, para ela, pouco interesse. O mais importante e interessante para a mulher é o âmbito das relações pessoais, passando para o segundo plano os fatos objetivos e suas interrelações. O vasto campo do comércio, da política, da tecnologia, da ciência, enfim, todo o reino do espírito utilitário aplicado do homem é relegado à penumbra da consciência feminina; por seu lado, ela desenvolve uma consciência ampla das relações pessoais, cujas nuanças infinitas em geral escapam à perspicácia masculina.” [JUNG, Carl Gustav. Estudos sobre Psicologia Analítica: O Eu e o Inconsciente. Trad. de Dora Ferreira da Silva. 3.ª ed. Petrópolis, Vozes, 1991 – pág. 196.]

Carl Gustav Jung (Kesswil, 1875 — Küsnacht, 1961) foi um psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica. No inicio de sua carreira, Jung foi discípulo e seguidor de Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, mas depois se desentendeu com seu mestre e criou um novo campo de estudo da psicologia, baseado em uma concepção original do inconsciente e na interpretação dos sonhos e dos símbolos míticos, mesclando elementos das religiões, da alquimia, mitologia e filosofia. Jung considerava a psicanálise reducionista, com a sua exagerada ênfase na sexualidade e nos instintos (princípio do prazer). Sua obra é monumental, e certos conceitos e termos que criou são populares hoje em dia, tais como complexo, recalque, inconsciente pessoal, inconsciente coletivo, arquétipos, anima, animus, individuação, sombra, introversão e extroversão (tipos psicológicos), Self, sincronicidade, etc.

Uma leitura crítica e atualizadora do texto de Jung, que é de 1928, conduz-nos ao convencimento de que as características femininas nele ressaltadas dizem respeito à maioria das mulheres, sendo evidente que sempre houve (veja-se o caso da filósofa e cientista Hipácia de Alexandria, um verdadeiro gênio que viveu nos séculos IV e V depois de Cristo, dentre muitas outras mulheres geniais de que a História tem registro), há e haverá mulheres dotadas também das virtudes masculinas. Aliás, muitas vezes o gênio tem características andróginas, constituindo-se em uma mescla harmoniosa das virtudes masculinas e femininas. O que se observa no mundo de hoje é que cada vez mais mulheres são dotadas dos atributos masculinos, de modo que, estatisticamente, esse texto de Jung não é tão verdadeiro quanto era na época em que foi escrito. Aliás, na mesma obra (pág. 285), Jung cita um dito de Nietzsche: “Toda verdade é sinuosa.”
(Flávio Henrique)

2 comentários:

  1. Essa forma de pensar parece ter sido desenvolvida depois por Camille Paglia. A representatividade do belo sexo no ambiente corporativo atual, em todos os setores, leva a pensar que "esse texto de Jung não é tão verdadeiro quanto era na época em que foi escrito". De fato. Por outro lado será que Jung não levou em conta o inigualável talento que elas tem para simular...? O mundo não seria o que é.

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  2. Será que os filósofos ainda perdem tempo com essa comparação "intelectual"? Pode até ser como diz Camille Paglia, conforme recorda o nobre comentador acima, que ainda estivéssemos morando em cabanas de palha, se a tecnologia tivesse sido deixada nas mãos das mulheres. Mas ninguém é humano sem o bálsamo do sexo hétero, e toda pujança do pensar só é possível com a sua prática rotineira. É mais fácil de entender através dos versos do cantor popular Genival Santos, por demais conhecidos para que se cite-os aqui.

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