VINTE E POUCOS ANOS…
Francisco de Assis Freitas Silva*

No dia consagrado ao soldado romano São Sebastião, ingressei nos quadros da gloriosa Polícia Militar do Ceará no distante 1992; recém egresso da puberdade, com 21 anos incompletos, com a experiência em apenas dois empregos, primeiro na construção do zoológico de Canindé como soldador em 1991, na companhia do seu Josa, morador da Cachoeira da Pasta e do seu Chico Mãezinha, exímios ferreiros que teciam belas melodias utilizando martelo e bigorna, malhando o ferro em brasa, além do meu saudoso pai; depois fui trabalhar como recenseador do IBGE, traumática experiência que relataremos outra dia. No dia da apresentação no quartel do CFAP em Antonio Bezerra, um domingo, 19 de janeiro, às sete da noite, nossa turma de uns 250 homens foi recepcionada pelos nossos futuros monitores, alunos do curso de formação de sargentos, que nos deram as primeiras instruções naquele ano em que a democracia ainda engatinhava em nosso país, aprendendo logo o básico: não senhor, sim senhor e o zero é meu, o resto é nosso, na imposição de castigos físicos para eventuais falhas e deslizes, com a flexão de apoio de frente.
Aos poucos nos aclimatamos com a vida de caserna e nos conhecemos melhor, criando fraternas amizades que o tempo e a distância não consegue, enfraquecer. Éramos de várias cidades do Estado do Ceará, a maioria de Fortaleza, mas também de outras cidades como Maranguape, Caucaia, Juazeiro do Norte, Camocim, Tianguá, Iracema, Tururu e Itapipoca, além de outros estados como o Rio de Janeiro representado pelos soldados Jorge e M. Morais, e do nosso Canindé, representado apenas por mim e um parente falecido em 1995 em acidente de motocicleta, o soldado Edilson, que servia nas fileiras do GATE do BP Choque. Vivíamos sob rígida lei marcial; para atravessar um pátio que havia dentro do quartel deveríamos andar com as mãos para trás de forma submissa ou então correndo; alguns comandantes de pelotão exigiam que o aluno fizesse a barba duas vezes por dia, passando um chumaço de algodão no rosto para verificar se a barba estava bem feita; na sexta-feira era a leitura do Boletim Interno, quando ficávamos em torno de duas horas de pé e imóveis um pouco depois do almoço, com as mãos para trás, na chamada posição de descansar que os militares bem conhecem, para ouvirmos ao final do boletim a “dolorosa”, um rol dos que tiveram os nomes anotados por alguma falha e as eventuais punições, geralmente ficar detido no fim de semana. Nas segundas, quartas e sextas, instrução de educação física bem cedo, quando corríamos nas ruas de Fortaleza num percurso de mais ou menos 10 quilômetros; após seis meses perdi oito dos 85 quilos que tinha quando cheguei, já era magro e saí quase um palito.
Os 250 homens foram distribuídos em cinco pelotões, sendo o meu denominado de terceiro pelotão, formado pelos homens de maior estatura, com média de 1,80m de altura, parecendo mais uma equipe de basquete e todos foram classificados no batalhão de choque, onde permaneci alguns meses até ser transferido para Canindé, onde estou até hoje, já tendo trabalhado em cidades pertencentes à jurisdição do 4º BPM como Boa Viagem, Caridade, Hidrolândia e por último Santa Quitéria. Passadas duas décadas muita coisa aconteceu neste grande mundo de meu Deus ante nossos olhos, tanto na nossa vida profissional como na particular. Ainda servindo no Choque no final de 1992, fomos acionados para uma manifestação na Praça do Ferreira, envolvendo uma multidão de pessoas conhecidas como os “caras pintadas”, pedindo o impeachment do presidente Collor; saímos a pé do quartel do 5º BPM, cerca de duzentos homens de escudo, cassetete e capacete, até a Praça do Ferreira, sendo recebidos com uma sonora vaia pela multidão que se encontrava na praça; felizmente o episódio transcorreu de forma tranquila, já que todos os que estavam lá queriam a mesma coisa, tanto os militares, quanto os manifestantes. Também ficou bem marcado um episódio conhecido como Operação Serra Azul, quando detentos do IPPS liderados por um homem conhecido por Carioca conseguiram render o bispo Dom Aloísio, usando-o como refém para fugirem daquela unidade prisional, mobilizando grande aparato policial, inclusive de Canindé. Porém um fato que me marcou profundamente foi a perda de meu pai em setembro de 2006; naquele instante vi parte de meu mundo desabar e me senti um pouco mais solitário em minha jornada.
Ocorreu em meados de 1997 uma situação atípica, quando eclodiu dentro da PM mineira uma manifestação pedindo melhores salários e condições de trabalho, havendo durante uma assembleia dos policiais (inclusive gravado pela grande mídia) um disparo saído do meio da tropa que atingiu um soldado que estava no palanque falando para os demais, vindo a falecer. Este movimento desencadeou manifestações similares em outros estados da federação, inclusive em nosso estado. Lembremos que no caso da PM cearense, houve confronto dos manifestantes com tropas do batalhão de choque e que o comandante geral saiu ferido à bala no episódio. Quanto aos líderes do movimento, presos e punidos com a alegação do fato de ser proibido o exercício de greve por melhores condições de trabalho aos militares, diferente das demais categorias. Os policiais cearenses ganharam um abono salarial.
E falando em salário, nos primeiro meses após meu ingresso na corporação comecei a receber o tão sonhado soldo, que é o salário dos militares. Na época recebíamos em contracheques. Diferente de hoje quando pegamos fila nos caixas eletrônicos do banco, nesse tempo pegávamos duas filas, uma no quartel e outra no banco. Numa dessas conheci um sargento aposentado que vendo minha condição de novato, puxou conversa e citava fatos relacionados à vida de caserna e suas impressões, me dando conselhos e dizendo que nos trinta anos em que serviu teve muitas decepções e umas poucas alegrias, sempre ouvindo dos mais antigos que a polícia um dia melhoraria. Não melhorou, era sua opinião. Passados vinte anos, ouço o eco de suas palavras em minha mente, e muita gente concorda que a polícia não melhorou, outros que ela efetivamente melhorou, porém afirmo com convicção que ela mudou de uma forma ou de outra. Já no final do ano de 2011, a sociedade cearense é surpreendida com nova mobilização dos policiais militares, assim como em 1997, clamando por melhores salários e condições de trabalho, causando transtornos, medos e revelando a todos o real valor que tem a secular corporação, fazendo compreender o porquê da proibição de greve na categoria. Alguns dias depois houve o consenso e um acordo foi firmado entre governo e manifestantes, deixando a sociedade aliviada com a vida voltando a sua normalidade.
Os anseios do velho sargento podiam não ser possíveis em 1992, o grosso da tropa que compunha a polícia militar tinha um perfil bem diferente do de hoje, quando a maioria dos policiais tem alguma formação acadêmica ou está cursando uma faculdade e não teve uma formação militar tão rígida, como ocorria nos anos noventa com os ecos da ditadura de 64 ainda muito próximos. Hoje a consciência da importância do trabalho realizado pela polícia é do conhecimento de todos, e uma grande mudança realizada por essa conscientização foi certamente a implantação de modelos de policiamento comunitário em diversos estados da federação, aproximando a comunidade e a polícia como as UPPs no Rio de Janeiro, que patrulham os morros cariocas em áreas pacificadas e livres de traficantes de drogas, bem como o Ronda do Quarteirão em nosso Estado, que já mostrou a importância do trabalho do policiamento comunitário e relevantes serviços já prestou à sociedade cearense. Vinte anos depois das palavras de um velho sargento, não se pode afirmar ainda que a polícia melhorou, apenas que ela mudou, assim como a sociedade da qual seus membros saem, e hoje mais do que nunca, todos devemos lutar para evoluir e melhorar nossa sociedade, e junto com ela a polícia que a defende.
*Cabo PM
NOSSA LÍNGUA
Puara Em AL é sinônimo de prostituta, quenga, sujeita.