sábado, 16 de julho de 2011

CORDEL PROTESTO

ANDORINHA SÓ FAZ VERÃO, SIM

Contrariando o antigo adágio segundo o qual “uma andorinha só não faz verão”, ontem publiquei neste blog um manifesto contra o Ministério da Cultura (MinC), denunciando o descaso com os artistas populares que participaram do PRÊMIO MAIS CULTURA DE LITERATURA DE CORDEL 2010 – EDIÇÃO PATATIVA DO ASSARÉ. Há mais de um ano que os poetas classificados aguardam o pagamento da premiação. O intuito do manifesto, claro, era chamar a atenção dos organizadores do concurso, uma vez que há muito tempo sequer nos dão satisfação. Ao mesmo tempo, enviei e-mail para diversos contatos conclamando a classe para uma campanha intensiva em favor de seus direitos. Certamente, com a postagem do manifesto eu esperava a adesão de vários cordelistas, principalmente daqueles que mantêm blog. A resposta foi zero. O único blog que fez coro comigo foi o blog da amiga Fatita Vieira, que nem cordelista é. Enquanto isso, outros andavam encantados com novela da Rede Globo.
Uma resposta positiva, entretanto, veio à noite via e-mail. Por volta das 21h recebi da Diretoria do Livro, Leitura e Literatura (DLLL), órgão vinculado ao MinC, o seguinte e-mail:

Prezado (as) Senhores (as),

O Ministério da Cultura, por meio da Secretaria de Articulação Institucional e da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura / Fundação Biblioteca Nacional, inicia o pagamento da premiação do EDITAL PRÊMIO MAIS CULTURA DE LITERATURA DE CORDEL 2010 – EDIÇÃO PATATIVA DO ASSARÉ.
Para iniciarmos os procedimentos do pagamento do prêmio solicitamos o envio da documentação descrita no ofício anexo, no prazo de até 15 (quinze) dias úteis contados do recebimento desse comunicado, para o seguinte endereço:
Ministério da Cultura / Diretoria de Livro, Leitura e Literatura
SCS, QD 09, LOTE C, Ed. Parque da Cidade, Torre B, 11º andar
CEP: 70.308-200, Brasília - DF.
Em caso de dúvidas ou maiores informações, entrar em contato nos telefones: (61) 2024-2657/2654 ou pelo e-mail dlll@cultura.gov.br.

Diretoria de Livro, Leitura e Literatura
Ministério da Cultura
SCS Qd. 9 Lt. C - Ed. Parque Cidade - Torre B  - 11º andar
CEP 70.308-200 - Brasília - DF

Um episódio como esse pode servir de termômetro para se medir a falta de coesão entre os artistas populares, principalmente os cordelistas. Não faço cordel por profissão e desde que faço cordel foi esta a primeira vez que participei de um concurso do gênero. Fui um dos classificados no prêmio do MinC e, como todos os outros ganhadores, o que eu desejo agora também é receber o que de fato e de direito é meu. Com este modesto exemplo, prouvera a Deus as andorinhas voem mais unidas e menos egoístas.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CORDEL PROTESTO

MANIFESTO CONTRA O MINC
(Ministério da Cultura)
Pedro Paulo Paulino


Companheiros cordelistas e demais artistas classificados no PRÊMIO MAIS CULTURA DE LITERATURA DE CORDEL 2010 – EDIÇÃO PATATIVA DO ASSARÉ. A tolerância já chegou ao fim com o desrespeito, a desconsideração e o descaso do Ministério da Cultura com a classe dos artistas populares. Como todos sabem, em junho passado completou um ano que conquistamos esse prêmio e até agora o MinC não pagou os ganhadores nem dá qualquer satisfação. Artistas populares de diversos segmentos de todo o Brasil participaram. É hora de todos nós reunirmos forças para protestar em favor dos nossos direitos. Fui um dos primeiros a protestar em versos, no início deste ano, quando glosei sobre o mote: O LULA SAIU DEVENDO / E A DILMA NÃO QUER PAGAR. Os versos, publicados neste blog, ganharam repercussão em diversas mídias. Como não dá para esquecer o calote do MinC, retomo agora o assunto para escrever novas décimas. Cada um de vocês pode acrescentar quantas estrofes queira a este manifesto em forma de cordel.

Amigos, foi através
De um mentiroso edital
Que um concurso cultural
Roubou os nossos cordéis,
Lançado em 2010
Esse descarado ardil,
Quando era Gilberto Gil,
Se dizendo muito sério,
O chefe do Ministério
Da Cultura do Brasil.

Em junho, precisamente,
De 2010 passado
O edital foi lançado,
Até nacionalmente.
Mas enganou toda gente
Que dele participou.
Ligeiro, o tempo passou.
Hoje, resta o desengano.
Já completa mais de um ano
E o MinC não nos pagou.

Não somente os cordelistas
Que foram prejudicados,
Foram também enganados
Outros tipos de artistas,
Como bem, os repentistas,
Mestres em xilogravura,
Embolada, outra cultura
E produção de CD,
De livro e de DVD
E os agentes de leitura…
  
Um bonito documento
Do MinC tudo exigiu.
Só quem participou viu
Como foi o sofrimento.
Mas pra fazer pagamento
À classe prejudicada,
O MinC faz caçoada,
A coisa virou mistério,
Nunca mais o Ministéiro
Para nós respondeu nada.

Gilberto não mais comanda
Essa pasta incompetente.
Hoje, quem está à frente
É a ministra Ana Hollanda.
Quanto mais a gente anda
Em busca de informação
Da nossa premiação,
Por telefone, internet,
O silêncio se repete,
Menos resposta eles dão.

Para tudo tem dinheiro
Do MinC, no orçamento,
Menos para o pagamento
Desse prêmio caloteiro.
É que artista brasileiro
Da cultura popular
Não se impõe para lutar
Pelo que lhe é devido
E deixa o povo “sabido”
Da gente se aproveitar.

Gente, vamos protestar,
Pois a classe é muito grande!
Escreva também e mande
Do MinC, o prêmio cobrar.
Calados, vamos ficar
Diante desse descaso?
Mais de um ano de atraso
Na nossa premiação,
Nem mesmo satisfação
Eles dão pra nosso caso.
  
Essa ministra Ana Hollanda
Não tem dinheiro pra gente,
Pois gasta a grana somente
Com mentira e propaganda.
Além disso, tem demanda
E dinheiro com fartura
Pra prêmios de envergadura
Da elite da nação,
Só não tem um só tostão
Pra nossa humilde cultura.

Humilde, entretanto rica,
Pois é cultura nativa.
O nome de Patativa
Bem mal no concurso fica.
Até daria uma dica
Para a organização
De prêmios de embromação,
Como o “Mais Literatura”:
Ponham nome de figura
Que rouba nossa nação.

Aqui fica o meu protesto
Em nome de nossa classe.
Não vamos deixar que passe
O caso sem manifesto.
Mesmo sendo tão modesto
O prêmio que conquistamos,
Exigindo, aqui estamos
Do MinC que pague a gente:
Cobramos unicamente
Aquilo que nós ganhamos.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

POETA, CANÇÃO E NATUREZA

Na produção dos cantadores de viola do Nordeste, encontram-se poemas e canções de alto nível, merecedores de reconhecimento nacional. Muitas dessas composições primam por um casamento perfeito de melodia e letra, abordando temas os mais variados. Não é só de romantismo piegas que são feitas as canções de viola dos nossos menestréis. Temos poetas cantadores de elevada inspiração que traduzem pelo estro sentimentos universais, levantam assuntos de alto interesse na atualidade e até mergulham em questionamentos filosóficos.
Um dos temas preferidos de nossos cantadores é a natureza. Há uma infinidade de trabalhos sobre o assunto. O louvor ao sertão e à natureza é a tônica mais notada principalmente nos versos de improviso, como estes do poeta Valdir Teles:

Não precisa de energia,
Lá só basta o sol e a lua;
Ele despido, ela nua;
Um de noite, outro de dia.
Na hora que a tarde esfria,
Deus faz a transformação:
O sol apaga o clarão,
A lua desfila acesa,
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Porém, quando se trata da legítima canção do violeiro, o tema natureza é sempre de lamento pelo estrago causado pelo homem ao meio ambiente. Uma das letras de canção mais bem feitas, nesse sentido, é do poeta potiguar Sebastião Dias, intitulada “Canção da Floresta” que ganhou versão na voz de Fagner. Reproduzimos aqui esse inspirado poema que já começa falando do inquietante futuro do nosso planeta:

Poeta Sebastião Dias
Tombam árvores, morrem índios 
Queimam matas, ninguém vê 
Que o futuro está perdido 
Uma sombra e não vai ter 
Pensem em Deus, alertem o mundo 
Pra floresta não morrer

Devastação é um monstro 
Que a natureza atropela 
Essas manchas de queimadas 
Que hoje vemos sobre ela 
São feridas que os homens 
Fizeram no corpo dela

Use as mãos, mude uma planta 
Regue o chão, faça um pomar 
Ouça a voz do passarinho 
A floresta quer chorar 
A natureza está pedindo 
Pra ninguém lhe assassinar

Quando os cedros vão tombando 
Dão até a impressão 
Que os estalos são gemidos 
Implorando compaixão 
As mãos do homem malvado 
Desmatou sem precisão

Mas quando Deus sentir falta 
Do pau que já foi cortado 
O homem talvez procure 
Pôr a culpa no machado 
Ai Deus vai perguntar : 
"E por quem foi amolado?"

Fauna e flora valem mais 
Que o valor que o ouro tem 
A natureza é selvagem 
Mas não ofende ninguém 
Ela é a mãe dos seres vivos 
Precisa viver também

Ouça os índios, limpe os rios 
Faça a Deus esse favor 
Floresta é palco de ave 
Museu de sonho e de flor 
Vamos cuidar com carinho 
Do que Deus fez com amor

Use as mãos, mude uma planta 
Regue o chão, faça um pomar 
Ouça a voz do passarinho 
A floresta quer chorar 
A natureza está pedindo 
Pra ninguém lhe assassinar

 Ouça "Canção da Floresta" na voz de Fagner acessando o link: http://www.youtube.com/watch?v=8zGa1mIg7ZE

quarta-feira, 13 de julho de 2011

vida

DOR NA CONSCIÊNCIA

Aurilene Uchoa*

A dor na consciência não tem comparação na escala das dores físicas. Também não há referência única em todo o corpo, porque dói não se sabe onde. Sabe-se que dói e muito. Por falta de melhor comparação, digamos que a dor na consciência é a náusea da alma. Não adianta buscar na farmácia um único comprimido para dor na consciência, que não encontrarás. A causa desse sintoma também não está catalogada pela Organização Mundial da Saúde, haja vista que cada caso tem uma origem particular. O que se sabe, é que a enfermidade é adquirida, não transmissível, portanto, perfeitamente evitável. Mesmo assim, o índice de sua manifestação é considerado alto, embora ainda não haja estatística sobre o assunto.
O nível de dor na consciência independe do agente causador. Aparentemente, tanto faz a causa ser monstruosa quanto não, a dor vem na mesma magnitude. Tudo indica que os achaques costumam vir pela manhã, quando a vítima desperta e lembra assustada de alguma bobagem feita ou dita no dia anterior. Antes mesmo que a consciência se reanime para enfrentar um novo dia, um alerta contínuo chama a atenção da pessoa, como uma luz vermelha indicando perigo: esse alerta é a dor na consciência. Ela deprime, arrasta a pessoa para baixo, provoca inquietação e abre um leque de desejos negativos. A pessoa não sabe a quem nem a que recorrer para aliviar a tensão. Quanto mais busca melhora, mais se aflige. Vêm ânsias de fuga de si mesmo, de buscar um esconderijo no fundo da terra onde não seja visto por ninguém. Evita o espelho, põe a mão na cabeça, pensa e repensa, e quanto mais fustiga o pensamento, mais aumenta a dor.
Fábio acordou de manhã, boquiaberto, ainda meio sonolento, sentindo-se o mais normal dos homens. De repente, o alerta buzinou na sua mente. Era a dor na consciência, que logo lhe apontou com exatidão a causa do problema. Um escorrego na palavra, no dia anterior, constituía uma infração grave. Por mera bobagem, cometera um ato vil e repugnante à pessoa que mais o admirava. Pecou menos por ato do que por palavra, aliás. Quando ele acordou, julgou-se o mais infeliz dos seres humanos. Achou-se responsável por todos os males do mundo, como se a própria rotação da terra dependesse da vontade dele. E a dor tomou de conta de todo o seu ser.
Tentativas de consertar a coisa a essa altura só fazem mesmo aumentar a proporção do erro. O eterno desejo da vítima nessa ocasião é de voltar o relógio do tempo, apagar tudo e fazer a coisa diferente. Diante dessa impossibilidade, o desconforto cresce. A dor na consciência fotografa implacavelmente a infração, revolvendo no fundo da alma, a todo instante, a causa do problema. O paciente clama por um sedativo, em vão. Uma das reações mais comuns é um profundo sentimento de culpa, seguido por um impulso de auto-condenação. Em alguns casos, a vítima quer auto-impôr suplícios físicos para compensar o suplício moral. Não há consolo.
Já falamos que ainda não há remédio para dor na consciência. Mas estudiosos da alma humana aconselham seis dicas para se evitar o problema:
♦ Meça o que diz e faz
♦ Não perca a calma e o auto-controle
♦ Jamais impaciente-se, mesmo diante de uma longa espera
♦ Não desconfie nem julgue quem lhe preza
♦ Aceite o silêncio do outro, que pode estar depondo a favor de você mesmo a distância
♦ Compreenda que os problemas não são exclusividade sua
Enfim, enquanto não se descobre um remédio eficaz para dor na consciência, manuscritos antigos prescrevem um paliativo raro: o PERDÃO de quem foi ofendido. É um medicamento sem reações contrárias e sem efeitos colaterais. Pode ser assimilado em quantidade única. É receitado desde o príncípio do mundo, mas dificilmente encontrado, devido um certo preceito de mutualidade. Sendo assim, por carência de medicina curativa, o melhor mesmo é prevenir-se da dor na consciência.

*Fortalezense, estudante, colaboradora do blog.

♦♦♦

Esse texto da nossa colaboradora me fez lembrar um dos melhores sonetos do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), intitulado “O morcego”, que aqui reproduzo:

“Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
‘Vou mandar levantar outra parede…’
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!”


terça-feira, 12 de julho de 2011

polêmica

FOME X LEI

A natureza é a fonte primordial de alimento para todas as espécies vivas, inclusive o homem. Fazer uso dos recursos naturais para o sustento é uma prerrogativa. Depredar a natureza, porém, constitui crime. A fiscalização por órgãos públicos à destruição do Meio Ambiente é uma adoção de medida legal indubitavelmente necessária e obrigatória. Os excessos praticados por certos órgãos responsáveis por essa obrigação, todavia, constitui abuso. É do conhecimento geral que os “pombais” das aves denominadas “avoantes”, cujo nome científico é Zenaida auriculata, representa há muito uma opção de alimento para as famílias pobres da zona rural nordestina. Em épocas mais difíceis, os “pombais” significaram uma alternativa divina para o sustento dessa gente. E ainda hoje verifica-se essa realidade. Há, evidentemente, abuso também por parte de pessoas que indiscriminadamente abatem essas aves em época imprópria, como por exemplo, o período de nidificação. É nesse ponto que não se distingue bem onde o abuso do órgão público de fiscalização confronta com o abuso da caça predatória. Entregamos o assunto a três poetas cantadores do sertão, que em décimas mostram cada um seu ponto de vista. Vamos, para começar, convocar o poeta Manoel Nobrega, que vai glosar sobre o mote, apresentado por ele mesmo: “QUAL O FISCAL DO IBAMA / QUE NÃO GOSTA DE AVOANTE?”.


“Responda qual o fiscal,
Sem nenhuma hipocrisia,
Que detesta essa iguaria
Com tempero e pouco sal?
Me responda agora, qual,
Se for bom, no mesmo instante,
Que vendo ave bastante,
Recusa comer um grama?
QUAL O FISCAL DO IBAMA
QUE NÃO GOSTA DE AVOANTE?

Essas aves sazonais
Que pousam neste sertão
São aves de arribação
Vindas lá de outros locais.
Tem avoante demais
Fazendo aqui voo razante.
É fácil fazer flagrante,
Porém, o povo reclama:
QUAL O FISCAL DO IBAMA
QUE NÃO GOSTA DE AVOANTE?

Os pombais, no Ceará,
Em tempos mais castigados
Já foram considerados
Um verdadeiro maná.
E novamente hoje está
Sendo alimento abundante.
Mas tem gente que garante
Que matar pomba é um drama:
QUAL O FISCAL DO IBAMA
QUE NÃO GOSTA DE AVOANTE?

Qual o fiscal que rejeita
Avoante bem assada
Ou mesmo até refogada,
Porque todo mundo aceita…
Uma avoante bem feita
É um prato deslumbrante.
É um cardápio elegante
Pra tira-gosto de Brahma:
QUAL O FISCAL DO IBAMA
QUE NÃO GOSTA DE AVOANTE?”

Já o poeta Arizona glosou dessa forma:

“Eu me lembrei da canção
Do grande Luiz Gonzaga
Onde narra a triste saga
Da rolinha do sertão
Alguém lamentava então
Sua morte e num instante
Fez um prato interessante
Comeu assada, com Brahma
Qual o fiscal do Ibama
Que não gosta de AVOANTE?

É uma perversidade
Comportamento mesquinho
Matam aves, quebram o ninho
Na maior impunidade
O IBAMA na verdade
Tem que ser mais atuante
Prender qualquer meliante
Que contra a bichinha trama
Qual o fiscal do Ibama
Que não gosta de avoante?”


De maneira mais filosófica, o poeta Tetéu dos Campos compôs estas décimas:

“Tem corrupto triunfante,
Tem ladrão de profissão,
Nenhum tem a punição
De quem mata um avoante.
No governo a todo instante
Tem golpes, tem mensalão
Tem quadrilhas no sertão,
Ninguém poupa a vida alheia,
Mas quer ver ir pra cadeia,
Mate uma arribação!

Sem paz todo o interior
Polícia e cadeia cobra,
Mas tem polícia de sobra
Para prender caçador.
Pode matar um doutor,
Ou roubar um cidadão,
Que não dar em nada, não,
Prisão hoje é disparate,
Mas quer ver cadeia mate
Uma ave de arribação!

Estão queimando a floresta,
Tocam fogo na caatinga,
Gente vale como binga,
Só tem valor quem não presta.
A justiça não contesta
Nem assaltante e ladrão,
Mas quer ver dar confusão
E sobrar gente de farda
Dê um tiro de espingarda
Numa ave de arribação!

Está faltando enfermeiro,
Doutores nos hospitais,
Mas para mandar fiscais
Para o sertão tem dinheiro.
Vão de terreiro em terreiro
Saber quem tem no fogão,
Não um pedaço de pão,
Mas se for uma avoante,
É preso no mesmo instante,
Como se fosse um ladrão.

Ninguém defende a matança
Das avoantes á toa,
Mas defende que a pessoa
Tire da miséria a pança.
Se Deus manda essa abastança,
É que não faz falta, não.
Tem ela a sua função
Dentro do nosso bioma,
Não há fiscal que não coma
Uma ave de arribação!

De que o sertão necessita
Não é de fiscal do IBAMA,
Mas de quem tire da lama
A população aflita.
De quem crie uma cabrita,
Sem ter medo do ladrão,
De quem dê mais proteção
E de quem melhore a renda,
E não de fiscal que prenda
Quem mate uma arribação!”

O introspectivo poeta Tommaso B. resolveu ir mais longe e subir os degraus do Parnaso para fazer esta paródia ao famoso soneto de Raimundo Correia (1859-1911), “As pombas”:

“AS AVOANTES

Vai-se a primeira avoante refogada...
Assa-se mais... mais outra... ainda sem penas,
Pombas vão-se torradas às dezenas,
Com sal ou frescas sai uma rodada...

Já tarde, a frigideira encarvoada
Frita pombais inteiros, se um mecenas,
Mostrando-te a carteira, tu depenas
E dele as notas fogem em revoada...

Também nesses balcões onde amontoam
Contas, um por um, bêbados caçoam
Do vale, que contém um, dois pombais;

Na efervescência do álcool se revoltam,
Fogem... E se os fiscais do IBAMA as soltam,
 Os ébrios a esse bar não voltam mais...” 

♦♦♦

Soneto original "AS POMBAS

VAI-SE a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais..."

         


segunda-feira, 11 de julho de 2011

CHUVA TEMPORÃ EM CANINDÉ

Foto: A. C. Alves
Quando acreditávamos que as chuvas tivessem encerrado a quadra invernosa no Ceará, de repente o tempo se transforma e chove forte em várias regiões. A chuva que caiu em Canindé na tarde da última sexta-feira, 8, atingiu cerca de 70mm e foi uma das maiores precipitações do ano na cidade. De uma hora para outra, as ruas ficaram inundadas e muitas casas, até mesmo nas partes mais altas da cidade, ficaram alagadas. Segundo noticiou a imprensa, a chuva trouxe prejuízos para moradores e comerciantes. Já na zona rural do município, choveu com menos intensidade. Mas a presença de relâmpagos e trovões deixou na atmosfera a impressão de começo de inverno. Chuvas fora de época também estão sendo registradas em outros estados nordestinos.
O que aqui chamamos de inverno compreende o período de janeiro a junho, com seu ponto alto nos meses de março e abril. Na tradição oral do sertanejo, há relatos de chuvas fora de época, inclusive no mês de outubro, na região de Canindé. Um octogenário de Vila Campos, Cosme Paulino Viana, o "prefeito" do lugar, lembra que no dia 28 de julho de 1979, choveu torrencialmente nestas paragens, fazendo o rio Cangati enxurrar. A ocorrência de chuvas em julho, certamente, ainda está ligada ao fenômeno climático denominado “La Niña”, o oposto do “El Niño”. Este é um fenômeno cíclico, cujas causas ainda são pouco conhecidas, e que é desencadeado por um aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico, próximo à costa peruana, o que acarreta alterações na circulação atmosférica em escala global.
Quem primeiro observou o aquecimento anormal das águas do Pacífico foi o explorador espanhol Francisco Pizarro que entrou para a história como o “conquistador do Peru”, isso na primeira metade do século dezesseis. O fenômeno foi batizado de “Corriente del Niño”, ou seja, “corrente do Menino Jesus”, por acontecer na época do Natal. Não se sabe a natureza do fenômeno. Uma das hipóteses mais aceitas é que existe embaixo do Pacífico um vulcão em atividade regular. A presença do “El Niño” significa seca no Nordeste brasileiro e inundações nas outras regiões. Já “La Niña”, seu oposto, é anúncio de muita chuva no nosso Nordeste e secas e incêndios nas outras regiões. Este ano, portanto, é ano de “La Niña”.
Eu não me admiraria se o Nordeste, particularmente o Ceará, tivesse uma inversão climática definitiva, em que o fenômeno da seca fosse totalmente erradicado. Vejamos, por exemplo, nossa situação geográfica. Estamos, de um lado, cercados pelo oceano Atlântico, e de outro, pela floresta amazônica. Quer dizer, estamos entre dois fatores primordiais para a ocorrência de chuvas. No entanto, aqui há secas. E ainda devemos levar em consideração que a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) está localizada sobre nossas cabeças, próximo à linha do Equador. É nessa região do planeta que os ventos úmidos dos dois polos da Terra combinam para se encontrar. Esse encontro resulta na formação de nuvens carregadas, as chamadas “cumulonimbus”, aquelas nuvens altas que chamamos torreões e que acabam quase sempre em aguaceiros.
O clima, entretanto, é um mecanismo altamente complexo e de difícil previsão a longo prazo. Não há dúvida que a meteorologia aprimorou-se significativamente nos últimos anos, principalmente com o auxílio da informática. Mesmo assim, estamos sempre na corda bamba quando o assunto é se vai chover ou não. Além disso, fenômenos de grande impacto no planeta, como tsunâmis, vulcões, terremotos etc, provavelmente estão contribuindo para uma transformação global do clima. Ajunte-se a isso a participação do homem como agente poluidor e também agressor da delicada cadeia climática da Terra. Sempre se ouviu falar de uma velha profecia, segundo a qual “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Antonio Conselheiro já defendia esse preceito. De minha parte, não desejo que tal coisa aconteça. Deixemos nosso sertão como sempre foi, de seca e de inverno. Se por força qualquer, o sertão virar mar, o mar traz tsunâmis devastadores. O mar está cheio de navios de guerra, submarinos, talvez conduzindo bombas e outros artefatos mortíferos. No mar, segundo dizem, está o corpo de Bin Laden… É bom estarmos longe do mar.

domingo, 10 de julho de 2011

prosa de domingo

ESCLARECIMENTO

Humberto de Campos*


Embainhado no seu pijama de seda malva, do qual jamais soubera o preço, o Josué Lobato Melo estava com o rosto ensaboado, em frente ao espelho do guarda-casaca, fazendo morosamente a barba. A gilette niquelada corria-lhe pela epiderme, num ruído áspero, de papel machucado. De vem em quando, o rapaz inchava a bochecha, para raspar mais fundo. E o pensamento voava-lhe para longo, vagabundo, em visita a bancas de jogo e a corpos de mulheres.
Foi nesse momento precisamente que a esposa, a Antonieta, entrou no quarto. Vinha do banho, e embrulhava-se toda, arrepiada e friorenta, na sua capa de felpa, que, toda branca, lhe dava os ares de uma gatinha de raça.
Num momento, porém, a capa é atirada para uma cadeira, e aparece, em todo o seu esplendor, o corpo jovem da rapariga. Pelo espelho, indiferente àquele tesouro que é seu, o Lobato Melo vai vendo as moedas que o constituem: o colo firme, os seios pequenos e túrgidos, o ventre e éfebo, as pernas elegantes, modelares, de Diana Caçadora. A testa, os olhos, a boca, as faces, não as pode ver dali, porque o cabelo dourado e curto, que a moça enxuga no momento com uma toalha pequena, lhe cai até o queixo, como a cortina de ouro à porta de um templo encantado.
De súbito, porém, a rapariga vira-se e o que aparece no espelho é, exatamente, a outra face do seu corpo. A anavalha range no rosto do rapaz mas os seus olhos começam a subir, por simples desfastio, por aquela coluna de carne. Admira-lhe os tornozelos brancos, delicados, que emergem da sandália de pelica azul. Analisa-lhe a perna, a coxa, e as ancas firmes, e a cintura graciosa, e as espáduas que se defrontam, claras, lisas, como as duas folhas de um álbum em branco, e em que só se devesse escrever com letras de beijos. E o Lobato Melo ia subir, com os olhos, aquela escada de neve, quando, de repente, indagou, sem se voltar.
- Que mancha é essa, roxa, aí na tua nuca?
Antonieta levou a mão, pelo tato, ao lugar indicado.
- Aqui?
- Sim.
- Tu não sabes, então, que eu tinha de pagar, ontem, aquela conta da costureira?
O rapaz não respondeu. O silêncio caiu, de novo, no aposento no qual só se ouvia, discreto, o escorregar da gilette pelo sabão…

*Escritor maranhense (1886-1934)