sexta-feira, 10 de junho de 2011

TECNOLOGIA


A VILA E A INTERNET

Pedro Paulo Paulino 

Há exatamente seis meses Vila Campos entrava para o universo online. Uma empreitada ousada do canindeense Altay Pereira fazia chegar por aqui os sinais eletrônicos que agora nos conectam com o mundo. Com fôlego de desbravador, Altay veio cá pelos Campos, levou as mãos à testa sombreando os olhos, contemplou o serrote que chamamos Logradouro e viu bem lá no topo a possibilidade de instalar uma torre com seu transmissor. E nós, que sempre olhamos para o Logradouro à espera da chuva, ficamos atentos para essa outra novidade que enfim apareceu, silenciosa e altaneira, sem trocadilhos.
A marcha dessa aventura durou pelo menos uma semana. A escalada da montanha fez lembrar alguma cena cinematográfica, em que não faltaram os incidentes típicos do percurso. Ciceroneados por colaboradores, Lulu e Grandão – os técnicos –, conseguiram chegar ao local adequado para a instalação da torre. Ali encontram uma enorme pedra, de cima da qual se avista a cidade de Canindé, e lá cravaram com cimento uma estrutura de ferro para suporte dos aparelhos.
O sucesso foi alcançado. Não resta dúvida que os percalços andaram desanimando os missionários. No primeiro dia, enfrentaram a dificuldade para o transporte dos equipamentos e do material. Altay não esquece que a primeira e invencível dificuldade foi exatamente encontrar um jegue de aluguel. Havia mais motocicleta e carro a disposição, do que jumento. Os veículos motorizados eram impróprios para escalar o terreno. Como o transporte não foi encontrado, o Grandão determinou-se, fazendo jus à sua alcunha e sem perder a hora, arrojar num ombro uma parte dos acessórios e no outro uma saca de cimento e seguir os guiadores pelas veredas improvisadas serra acima.  A poucos passos de chegar ao local, entretanto, um tropeço fez despencar ladeira abaixo a carga. O saco espatifou-se e… lá se foi o  cimento.
A nova aventura foi mais bem sucedida.
Vencidos esses obstáculos, já instalados e devidamente programados, os aparelhos começaram a enviar o sinal da Rede Mundial de Computadores para estes ermos.
Iniciativas dessa magnitude me fizeram refletir sobre o antigo desafio do homem para se comunicar a distância. Em uma tentativa inspirada de se fazer ouvir melhor por uma multidão, Cristo subiu a montanha para anunciar suas Bem-aventuranças. Marconni foi desacreditado quando propôs na Itália que a voz humana podia navegar pelo espaço sem fio: o rádio ainda é hoje o meio de comunicação de massa mais imediato. Antes, Graham Bell provou que o telefone era uma realidade. E bem antes ainda, Morse anunciou o telégrafo. Nosso Marechal Rondon levou a telegrafia para as selvas da Amazônia. É de todos conhecido o meio de comunicação através do solo utilizado pelo índio (pelo menos nos filmes de Hollywood). Ainda no reino dos mamíferos, é cientificamente compravado que as baleias se comunicam a longas distâncias por sons emitidos através da água. E quem de nós não brincou de telefone usando duas caixas de fósforo ligadas por um cordão? (Não precisa me dizer: os meninos de hoje usam celular.)
Uma invenção sempre chega, momentaneamente, para desbancar a anterior. Um velho já me contou aqui o espanto que causou a chegada do primeiro receptor de rádio neste lugar. Era um monstrengo de vávula e a bateria, trazendo em seus ruídos as notícias da Segunda Guerra e mais tarde narrativas da chegada do homem à Lua, coisa de que muita gente por aqui ainda duvida. Em seguida, chegou nesta região o primeiro aparelho de TV, exatamente no ano em que o Brasil tirou dos pés e das mãos dos italianos a taça Jules Rimet, consagrando-se tri-campeão mundial na Copa do México.
É certo que o rádio e a televisão fizeram mais barulho com sua chegada do que a internet. Talvez porque esta, na sua universalidade, seja mesmo mais separatista, tal como é o mundo. Afora essa novidade, em quase toda habitação do mato brilha hoje a tela de um aparelho de TV em cores, munido de antena parabólica. E mais: um aparelho de telefone celular também está presente em cada rancho – no meu, não. Em atenção a uma desconfiança temerosa, a internet já me basta para nos distanciar cada vez mais uns dos outros. 

Fotos gentilmente cedidas por Altay Pereira

quinta-feira, 9 de junho de 2011

QUINTA CORDEL


JOTA BATISTA:
MOSQUITO TAMBÉM É TEMA PRA CORDEL

Qualquer pessoa que, agora ou daqui a cem anos, interessar-se em escrever a história boêmia de Canindé da atualidade, terá por obrigação que pintar o Jota Batista como o espírito mais irreverente e desprendido desta geração. Quando o conheci, nos nossos tempos de ginásio, tive já a impressão de que éramos velhos amigos e companheiros de poesia. Pródigo de um sorriso malandro e constante, o Jota compõe, canta e dedilha o pinho. Quando solta o violão, geralmente dá de garra de uma caneta para escrever cordel, em versos espontâneos e satíricos por excelência. Há nele ainda aquele espírito pronto para tiradas de ocasião, que nada ficam a dever a um Quintino Cunha, só para citar o poeta matreiro da Fortaleza de fins do século dezenove.
Mas nosso Jota Batista é canindeense e como tal encarnou o espírito moleque desta terra. Sempre à vontade e de bem com o mundo e seus habitantes, o Jota é capaz de alegrar um velório. Se inopinadamente surge numa mesa de bar, o ambiente ganha novos ares e nem precisa a banda passar, como reza a letra, para “a moça triste que vivia calada sorrir”. O Jota faz a festa.
Do seu senso de humor, alguma coisa já foi dita pelo poeta Arievaldo em seu livro “O Baú da Gaiatice”. Vamos a uma dessas tiradas, como está no livro:

“Um poeta nosso amigo, num de seus arroubos da mocidade, passou um carnaval inteiro bebendo e tomando banho na chuva, tal e qual o protagonista da famosa película 'Cantando na Chuva'.
Certa vez eu narrava este episódio para o poeta Jota Batista, quando me veio à mente perguntar:
- Como era mesmo o nome daquele ator de 'Cantando na Chuva'?
O Jota respondeu sem pestanejar, num lampejo de espirituosidade que lhé é próprio:
- 'Atô Leiro'”!

Na mesma edição do “Baú”, consta este cordel bastante original escrito por Jota Batista quando exercia o cargo de mata-mosquito da extinta Sucan. Os versos, de muita irreverência e livres como o pensamento do seu autor, falam de dois mosquitos turistas e a tragédia que se abateu sobre ambos. O Jota é quem descreve:

A PELEJA DE DOIS MOSQUITOS
COM O ‘MACHÃO’ DO OLHO SÓ

“Resolveram dois mosquitos
Visitar o Canindé
O nome dum era Chico
Outro se chamava Zé
Por não saberem de nada
Foram os dois pedir morada
Na porta dum cabaré

O Chico disse pro Zé:
Se tu ficar, Zé, eu fico
Do jeito que tu quiser
Respondeu assim o Chico
Tô cansado da viagem
Vou guardar minha bagagem
Não tô a fim de fuxico

Encontraram logo um bico
Nas coxas de uma mulher
O Chico, metido a rico
Falou assim: Anda, Zé
Esta casa é de primeira
Não tem uma só goteira
Vou armar o meu mundé

E fizeram finca-pé
Entraram virilha adentro
Subiram pelo sopé
Se instalaram bem no centro
O Zé disse para o Chico:
Em casa de povo rico
Faz é tempo que eu não entro

Pela porta entrava vento
Com cheiro de ingrisia
Não havia um só tormento
Cada mosquito dormia
Sonhavam os peregrinos
Com lugares bem divinos
Mas, veja o que acontecia

Era madrugada fria
Quando o dono da “pensão”
Chegando da boemia
Muito cheio de tesão
Ficou com a ideia em pé
E pegou sua mulher
Em solene ocasião

E no outro dia, então
Conversava o Zé assim:
Chico velho, meu irmão
Passei a noite tão ruim
Só não sei que diabo foi
Mas um cabra só dum ôi
Dormiu pertinho de mim

Eu não via direitinho
Pois tava bastante escuro
Mas te confeço, amiguinho
Era um cara todo duro
Groso, comprido e feioso
Um penteado horroroso
Eita cão, eu desconjuro

Não quero, amigo, ser puro
Mas passei grande agonia
Daquele sujeito, eu juro
Que ainda me vingo um dia
Sossego, ele não me dava
Saía tanto e entrava
Tal como entrava e saía

Pra completar a orgia
Ficava esfregando o taco
Fungava feito uma jia
Cutucava o meu sovaco
E ainda achando pouco
Soltou um gemido rouco
Eita, como encheu meu saco

Agora, dê seu pitaco
Me conte como dormiu
Por mim, eu tô só o caco
É porque você não viu
Perdi mais de uma costela
Noite ruim como aquela
Só quando a mamãe pariu

Zé, amigo véi gentil
Me presta bem atenção
Te peço, não dê um piu
Nesta minha narração
Agora, que eu te ouvi
Confesso, também dormi
Atracado mais o cão

Esse bicho era grandão
Vê um tronco de madeira
Na testa, tinha um oião
E fazia u’a gemedeira
Tacou qualquer coisa neu
Roliço igual um pneu
Arrastei minha peixeira

Zé, eu só num fiz besteira
Por causa da escuridão
Uma hora, eu fiz carreira
Ele correu pro portão
Depois, veio igual um osso
Muito mais feio e mais grosso
Que parecia um pilão

Contigo, ele foi durão?
Comigo, nem se compara
Contigo, ele foi amigo
Comigo, bateu de vara
Jogou-me um saco pesado
Me deixou mais humilhado
Pois cuspiu na minha cara

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CRÔNICA


QUEM VIAJA…

…De Canindé a Fortaleza percebe o quanto a BR-020 encontra-se deteriorada. A buraqueira tomou conta da malha viária tornando-a um verdadeiro solo lunar. Mesmo a bordo de um veículo confortável, sente-se a angústia provocado pelas péssimas condições da rodovia, que provocam atraso na viagem. O mais espantoso é constatar o quão rápido a malha asfáltica sofreu tanto estrago. Calculo que faz cerca de três anos que esse trecho da BR foi restaurado. Por aí se deduz a má qualidade do trabalho que envolveu milhões de reais aos cofres da Nação. E todos esses gastos com serviços malfeitos são orindos de verba orçamentária, transferida por meio de licitação às grandes construtoras. Ao longo do caminho, carros quebrados por causa dos buracos. Em outros países com legislação séria, tais prejuízos são prontamente ressarcidos pelo Estado. Melhor dizendo, em países adiantos não há estradas ruins.
É profundamente lamentável as condições em que se encontra a BR-020, pois essa rodovia é um extenso braço que comunica a Capital com o interior do Estado, passando pelos sertões de Canindé, dos Inhamuns, até desembocar na divisa do Ceará com o Piauí. Por ela escoa a produção do interior para Fortaleza. Por ela também, e mais ainda, transitam mercadorias que o sertão importa da Metrópole. É, sem sombra de dúvida, uma das artérias mais importantes que cruza o Estado de uma ponta a outra. E até agora, ainda não se viu ninguém empenhado em reivindicar a restauração da BR-020: nenhum parlamentar, pelo que sei, ainda adotou essa causa que clama por urgência, enquanto resta aqui acolá presumivelmente um pouco de pavimentação asfáltica.
O que alivia um pouco o desconforto do viajante, entre Canindé e Fortaleza, é contemplar o cenário verde do sertão. Em outra ocasião, já falei aqui no blog a respeito da floração da catinga. E, mais uma vez, não posso me esquivar de relembrar o quanto ainda continua exuberante a paisagem do sertão, já nessa transição da estação das chuvas para os dias ensolarados. O que domina mesmo o panorama é a floração das violetas, fazendo a catinga parecer um céu pintado de estrelas. De um lado e outro da estrada, veem-se imensas extensões de mata rasteira coberta de flores. A visão nos dá também uma ideia do quanto inconscientemente (e felizmente!) muito do nosso semi-árido ainda está preservado. Nos longos trechos de chão despovoados, a mata nativa dá o ar de sua graça. Ecologicamente, a realiade aponta para um certo equilíbrio nesses intervalos de chão.
Durante a viagem, de súbito uma imagem estranha invade nosso campo de visão. A princípio, uma ideia otimista se apoderou de mim: como uma miragem, pensei estar vendo uma capoeira de algodão. A ilusão foi logo desfeita, pois concluí que, mesmo no auge da prosperidade do nosso Ouro Branco, por este período do ano ainda não era o tempo certo da colheita do algodão, o que acontecia mais tarde, de setembro em diante. Mais de perto, o que eu estava vendo mesmo era uma capoeira de plástico. Já estávamos nos avizinhando de Fortaleza, em locais onde o lixo urbano toma conta do mundo. Sacos plásticos esvoaçando e grudando-se na copa das árvores baixam... foi o que me deu a ideia feliz e até quixotesca de estar vendo um algodoal.
Em Fortaleza, outros sinais de destrato com a coisa pública são notados nos vários pontos da cidade. Lá também a buraqueira toma conta das ruas. Obras inacabadas entulham o trânsito. O tão esperado Metrô parece ainda estar longe de transportar o fortalezense, haja vista a modorra das obras. Em alguns cantos, a cidade parece não ter quem a administre. Maltratada e descuidada está a “Loira desposada do sol”, como a decantou o poeta Paula Ney em soneto célebre. Cidade enorme mas nem mais tão bela, restam-lhe, evidentemente, aqueles vestígios de grande beleza, como deusa desfigurada.
Ali reencontrei o poeta Arievaldo. Em seguida, o poeta e jornalista Wanderley Pereira, na redação da TV Jangadeiro, onde trabalha. Apresentou-me seus colegas e fez questão de me mostrar os vários departamentos da emissora. Tive oportunidade de ver de perto o trabalho complexo de quem faz televisão. Vi as ilhas de edição, estúdios, camarins, sala de redação… Em todos esses setores de trabalho a arte sempre diz presente. Vi também rostos conhecido da tela, os apresentadores que dia a dia estão em nosso convívio pelo milagre da eletrônica. Um ambiente de trabalho onde várias inteligências trabalham em cadeia, lincados tanto pela eletrônica como pelo pensamento. E ali está o Wanderley, com sua larga bagagem de homem de jornal com passagem pela grande imprensa do país. Mesmo no meio da azáfama, encontrou tempo para tirar do bolso um de seus sonetos mais recentes, que aqui repasso para os leitores do blog:

A VIDA

Wanderley Pereira

Fala-se da velhice qual se fora
Um trago ruim da vida, último trago;
Da juventude fala-se com afago
Como de fonte nova, promissora!

Em qualquer fase a vida é portadora
Das dádivas do tempo, é como um lago
Numa paisagem doce, ou como o bago
Do fruto azedo e casca sedutora.

Ela é plantio, mas também colheita;
É porta larga e às vezes porta estreita,
Por onde passam sonhos e ilusão.

Na primavera ostenta mais saúde,
Porém no outono mostra mais virtude,
Mais ardor numa, noutra mais razão!

Fort. 02.06.11
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terça-feira, 7 de junho de 2011


No dia seguinte ao da morte do famigerado "Mel", em março de 2007, escrevi este cordel, que a exemplo do primeiro, ganhou várias reedições. O folheto também veio assinado com o mesmo pseudônimo.

O AMARGO FIM DO MEL

João Pajeú
Não tem valente no mundo
Pra não achar quem o vença
Está mais do que provada
Esta surrada sentença
Dita pelo próprio povo
Pelo velho e pelo novo
Que o crime não compensa

Quem na criminalidade
Toma ingresso é pra saber
Que bandido a qualquer hora
Está sujeito a morrer
O fato se repetiu
Até hoje ninguém viu
Um bandido envelhecer

Uma notícia esperada
Por toda a população
Põe o fim numa novela
De grande repercussão
Polícia cumpre o papel
Em confronto, agora o Mel
Tomba sem vida no chão

Numa campana montada
Para pegar o bandido
Que foi o mais procurado
E também o mais temido
A polícia eliminou
Aquele que se tornou
Um famoso foragido

Foi no dia 28
De março, 2007
Que o fim da vida do Mel
À noite virou manchete
Foi o fim do seu programa
Ele que ganhou a fama
De ser do crime a vedete

Nas vizinhanças do Sousa
Pequena localidade
A cerca de dois quilômetros
De Canindé, a cidade
Onde o Mel nasceu, cresceu
E ali mesmo morreu
Com 20 anos de idade

Numa operação montada
Pelo Coronel Loyola
Para pegar o bandido
Que portava uma pistola
Da Polícia Federal
Desta vez Mel se deu mal
Findou pisando na bola

Depois de perder comparsas
Que lhe davam proteção
Finalmente Mel foi morto
Cumprindo uma opinião
Conforme diz a notícia
Só se entregava à polícia
Morto, com arma na mão

Há menos de 20 dias
Em Horizonte, ao agir
Numa onda de assalto
Morre Chico da Nadir
Em seguida é preso o Kel
Todos comparsas do Mel
Que pôde se foragir

No entanto, a vida dele
Tava com tempo contado
Sozinho, perdendo força
Sem seus parceiros de lado
Resistindo em se entregar
Sem ter pra quem apelar
Pelo sertão acuado

Porém, numa diligência
Para pôr fim nessa guerra
Que já dura tanto tempo
E tanta desgraça encerra
O Mel, ferido por tiro
Deu derradeiro suspiro
E tombou morto na terra

Agora, o leitor conheça
Um pouco da trajetória
De um bandido sanguinário
Que durante sua história
Fazer mal foi seu esquema
Tinha o crime como lema
Matar era a sua glória

Ednaldo Evangelista
Da Cunha, famoso Mel
Por todo mundo era tido
Como perverso e cruel
Só tinha de doce o nome
Mas pra matar, sua fome
Amargava como fel

Apenas com vinte anos
Fez bastante estripulia
Segundo foi divulgado
Muito crime ele fazia
Assaltante e latrocida
Cada ano em sua vida
Um crime correspondia

Com cara de adolescente
Do crime seguiu a trilha
Se juntando a outros entes
Foi formando uma matilha
De gente da sua classe
Até que ele completasse
Assustadora quadrilha

No ano 2005
Fugiu da delegacia
Lá de Maracanaú
E no estado inicia
Uma série de delitos
E no meio dos conflitos
Forma sua companhia

Numa escalada de crimes
O Mel foi logo acusado
De Matar José Raimundo
(Da polícia era soldado)
E depois noutro duelo
De matar João de Melo
Um sargento reformado

Sempre aprontando e fugindo
Acusaram novamente
Que Mel havia matado
João Lúcio, subtenente
E também foi acusado
De pegar um aposentado
E matar sumariamente

Inimigo da polícia
O famoso malfeitor
Era acusado também
De matar um inspetor
E seguiu sem direção
Por serra, praia e sertão
Espalhando só terror

Em diversos municípios
As forças policiais
(Em qualquer operação
Oitenta homens ou mais)
Trabalhavam sem cessar
Na intenção de pegar
O bando de marginais

Mais de 400 dias
Durava a perseguição
O medo tomou de conta
De toda a população
Que no Mel via uma fera
Parece até que ele era
Protegido pelo cão

Cada dia que passava
Mais aumentava o problema
Tudo acontece onde impera
A violência suprema
O Mel, talvez sem surpresa
A própria mãe teve presa
Envolvida nesse esquema

Pois a criminalidade
É um vício contumaz
Quando o sujeito acha pouco
Se envolver com marginais
Sem nada que o redime
Acaba, dentro do crime
Envolvendo os próprios pais

A família, como sempre
À justiça recorreu
Contratando advogado
Que a senhora defendeu
Mas, por contrariedade
Ganhou sua liberdade
Enquanto o filho morreu

E Canindé, esta terrra
Tão pacata e prazerosa
Ultimamente vivia
Num clima de polvorosa
Toda noite, nessa escala
Tinha uma chuva de bala
Deixando a gente nervosa

A cidade, infelizmente
Foi assunto nos jornais
Como sendo então reduto
Do bando de marginais
Era triste Canindé
Esta cidade da fé
Nas páginas policiais

Mas todo bandido tem
Seu destino programado
É em vão desafiar
A polícia e o Estado
Eu jamais ouvi dizer
De um bandido morrer
Bem velhinho, aposentado

Pode ser que Canindé
Tenha agora mais sossego
Que volte a paz a reinar
Aqui no nosso aconchego
Quem vendia munição
Para a quadrilha em ação
Vá procurar outro emprego

Polícia trabalha certo
Quando bandido aniquila
Para ver o mel defunto
Formou-se uma grande fila
A população queria
Ter a certeza que um dia
Voltava a dormir tranquila

O poeta Pajeú
Felicita o Coronel
E narra para os leitores
Em folheto de Cordel
A vida curta, aventuras
Audácias e diabruras
E o amargo fim do Mel

Março, 2007

segunda-feira, 6 de junho de 2011

CORDEL HISTÓRICO


Com o pseudônimo de João Pajeú, escrevi em janeiro de 2007 o cordel abaixo, sobre um elemento perigoso, apelidado de "Mel", que durante muito tempo aterrorizou a região de Canindé e desafiou a polícia do Estado. O cordel, devido o sucesso que fez, teve cerca de dez reimpressões. O pseudônimo foi também motivo de muita especulação popular. Amanhã, será postado o segundo trabalho com o mesmo tema, relatando a morte de "Mel".

AS DIABRURAS DE 'MEL'
OU A VOLTA DE LAMPIÃO

João Pajeú


Caro leitor, acompanhe
Esta minha narração
De um bandoleiro que vem
Assombrando o meu sertão
Vou narrar neste cordel
As diabruras de Mel
- A volta de Lampião

O mel, todo mundo sabe
É produto natural
Produzido pela abelha
Só faz bem, nunca faz mal
E tem mel apreciado
No engenho fabricado
Que vem do canavial

Porém, o Mel tão falado
É um ente que está
Assombrando todo mundo
Por sua conduta má
Tem astúcia e tem perícia
Engana até a polícia
Do Estado do Ceará

Dizem que conta somente
Com 20 anos de idade
É pequeno no tamanho
Que lhe dá facilidade
Parece que faz mandinga
Tanto some na caatinga
Como some na cidade

É notícia no jornal
No rádio e televisão
Tem seu retrato estampado
Em quase toda edição
Desta forma o Mel tornou-se
Agora o nome mais doce
Pela boca do povão

Entretanto, pra polícia
É nome muito amargoso
Despista toda volante
Que procura esse danoso
Pratica cada papel
Parece até que o Mel
Tem é pauta com o tinhoso

Deixa todo mundo à toa
E boato em todo lado
Embora não seja o Mel
Que tenha um mal praticado
Basta surgir a notícia
Que dão parte na polícia
E logo o Mel é culpado

Assalto, roubo e seqüestro
A cada dia do mês
Mesmo que não seja o Mel
Que tenha feito, talvez
Não se achando o autor
É todo mundo a favor
De que foi ele quem fez

A imprensa, como sempre
O nome dele espalhou
É provável que bandido
Que matou e assaltou
E depois sumiu da zona
Está pegando carona
Na fama que o Mel ganhou

Recentemente um seqüestro
Ocorrido em Aquiraz
Foi notícia na TV
Emissoras e jornais
Mesmo antes da perícia
Se espalhou logo a notícia:
“É o Mel que está por trás!”

Ele é suspeito de tudo
Pela fama que já tem
De alguns crimes de morte
É acusado também
Muitos males já tem feito
Porém nunca foi suspeito
De ter praticado o bem

Assim como Lampião
Naquele tempo passado
Que chamava de “macaco”
O policial fardado
Da mesma fama ele abusa
Pois a polícia o acusa
De matador de soldado

Talvez tenha proteção
E talvez tenha assessores
Que o ajudam fazer
Violações e horrores
Pois é comum ao bandido
Além de ser perseguido
Ter também seus seguidores

Não se sabe mesmo ao certo
Do tal Mel não ser pegado
Pois o sertão está seco
E o mato esturricado
A não ser que o Mel então
Seja igual camaleão
Que se esconde camuflado

Se está solto na cidade
Ninguém disso dá notícia
E é preciso o bandido
Ter muita cuca e malícia
Até proteção de santo
Pra se esconder num recanto
Onde não falta polícia

Comparo Mel com Bin Laden:
Todos dois são foragidos
Descontando a diferença
Lá dos Estados Unidos
Bush tem seu batalhão
Aqui temos pelotão
E ninguém acha os bandidos

Parece que todo mundo
Está desorientado
Pois hoje é quase impossível
Alguém viver encantado
Mas ninguém não tem ideia
Nem do Mel nem da colmeia
Que proteje esse danado

No lugar onde ele passa
Só se sabe o rebuliço
Uns dizem: “Mel fez aquilo”
Outros dizem: “Mel fez isso”
E só se vê viatura
Correndo à sua procura
Sem achar o seu cortiço

Mais uma vez relembrando
O famoso Lampião
Que no Nordeste tornou-se
Um assombro do sertão
Vem o Mel do mesmo jeito
Ganhando fama e conceito
E vivendo à lei do cão

A diferença é que hoje
Tem a tecnologia
Tem rádio que a todo instante
Tudo em quanto noticia
Jornal, TV, Internet
E o Mel pintando o sete
E gozando à revelia

Tem satélite e helicóptero
Cobertura da Embratel
Polícia tem aparato
Dentro e fora do quartel
A mata é quase um deserto
Está todo mundo esperto
Mas ninguém encontra o Mel

Da modernidade o Mel
Por certo tira proveito
Vê TV, escuta rádio
E sabe tudo de eito
E pra se comunicar
Talvez use o celular
Pra seu plano ser perfeito

No “Comando 22”
Também no “Barra Pesada”
Nos jornais da Capital
No rádio, esquina e calçada
Do ponto chique à barraca
O Mel é quem se destaca
A pessoa mais falada

Eu acho que o melhor plano
É contratar caçador
Cabra matador de onça
E de mel bom tirador
Dar a ele condição
E soltá-lo no sertão
Pra caçar o malfeitor

Apesar de caçador
Mentir tanto que suspira
Vende mel de arapuá
Dizendo que é Jandaíra
Mas pegando o Mel de fato
O jornal mostra o retrato
E ninguém diz que é mentira

É preciso que as forças
Promovam melhor exame
Dessa busca contra o Mel
Pra não passar mais vexame
Talvez o seu enxuí
Esteja longe daqui
E coberto de enxame

Não dizemos que a polícia
Está trabalhando mal
Na busca de um celerado
Que é veneno social
Mas um trabalho discreto
Sem barulho, é mais correto
Para pegá-lo, afinal

Notícia desencontrada
Só faz confundir a cuca
Talvez por isso a patrulha
Quando arma uma arapuca
Para pegar o bandido
O plano é quase perdido
Aí nem mel nem cumbuca

Parece que muita gente
Padece é de diabete
Porém, tratar desse assunto
Ao poeta não compete
Aqui findo este cordel
Canindé, ‘terra do Mel’
Janeiro, 2007