sábado, 23 de dezembro de 2017

PAPAI NOEL DO MATUTO


Autor: Pedro Paulo Paulino

Doutô, se o sinhô puder
Dar um pouco de atenção,
Cum seu aparêi ligado
Na palma da sua mão,
Escute por dois minuto
Essa fala dum matuto
Do sertão do Ceará,
Pru mode o sinhô sabê
O que eu resolvi fazê
Nessa festa de Natá.

Meu nome é João Pajeú,
Trabaiadô da mão grossa.
Minha vida toda foi
Socado dento da roça,
Trabaiando dia a dia
Junto cum minha famia
Pras banda do Canindé.
Dos setenta já passei
E nunca eu acriditei
Que ixiste Papai Noé!

Mermo assim, virge Maria!
Nôtra coisa num se fala...
Uns diz que Papai Noé
Vai entrá na nossa sala
Carregado de presente...
Falam tanto, finalmente,
Cuma eu nunca tinha visto!
O Natá é todo dele,
Acho que falam mais nele
Do que mêrmo em Jesus Cristo.

Se o rádio a gente iscuta,
Só fala in Papai Noé,
Na televisão também
É o mêrmo labacé.
Eu já disse que duvido,
Mas todo dia no ouvido
Essa mêrma falação,
Eu já tô pra acreditá
Que na noite de Natá
Ele vem pro meu sertão.

Eu já cheguei nessa idade,
E pra Jesus digo amém!
E nunca tive a corage
De pedir nada a ninguém.
Mas porém, num sei pruquê,
Escutei alguém dizê,
Dizendo cum munta fé
Bem baixim no meu ouvido
Que eu fizesse o meu pedido
Pro tá de Papai de Noé.

A minha véia inda disse:
– Ô João, tu vai te aquetá!
Tu num sabe que essas coisa
É só pro mode enganá!
Seu consêio eu num ouvi,
E sendo assim resorvi,
Mêrmo sendo um disatino,
Pedir presente também,
Afiná, todo véi tem
O coração de menino.

Quando bateu as seis hora
Da santa Virge Maria,
Junto cum as oração
Comecei no fim do dia
A fazê o meu pedido,
Mêi sem jeito, mêi perdido,
Mas feito cum munta fé.
Me sentei no parapeito
E comecei desse jeito
Falá cum Papai Noé:

– Papai Noé, eu lhe peço
Atenção pra minha prece.
Nem eu cunheço o sinhô
Nem o sinhô me cunhece.
Mas já vi o seu retrato,
Que nem um bicho do mato
A sua barba cresceu.
Disculpe, Papai Noé,
Mas achei que o sinhô é
Munto mais fêi do que eu.

Pelo jeito o sinhô tá
O tempo todo ocupado,
E sendo assim eu vou dá
Bem ligêro o meu recado.
Num abandone o sertão,
De nóis tenha compaxão
E traga também presente
Pra esse povo abandonado.
Num se faça de rogado,
Matuto também é gente.

Prá cumeçá, o sinhô
Traga aí no seu surrão
Uma carrada de chuva
Pra banhá esse torrão.
E traga munta fartura,
Que é pra nossa agricultura
Num dexá de prosseguir.
Vê se o sinhô se garante
E espere mais um instante,
Que mais coisa eu vou pedir.

Essa históra de peru,
O sinhô pode esquecê.
In vez disso, eu aconsêio
Que é munto mió trazê
Uma arroba de jabá,
Que aqui no meu Ciará
Nóis chama carne do só,
Que é pra nóis fazê paçoca
Cum farinha de mandioca,
Cumo fez a minha avó.

Pra cada um dos vizim
Entregue um bujão de gás,
Que pro mode a carestia
Ninguém pode comprá mais.
Vai sê um grande presente
Que o sinhô, todo contente,
Pode dá pro nosso povo.
Pra cuzinhá o feijão,
As muiés aqui já tão
Queimando é lenha de novo!

Papai Noé, nosso povo
Veve do Bolsa Famia,
E sendo véi, que nem eu,
Tem aposendoria.
Mas porém, daqui pra frente,
Vai sê munto ruim pra gente
Esse guvêrno inferná.
O Brasi tá um terrô,
Talvez nem mesmo o sinhô
Num vai mais se aposentá.

Se puder, traga também
Sirviço pra essa moçada
Que por aí anda à toa
Sem ocupação de nada.
Os rapaz e as minina,
Quando finda as disciprina
É sempre um desassossego,
Fica por aí bolano,
Correno ano e mais ano,
Sem nunca arrumá emprego.

Papai Noé, o sinhô
Num se isqueça de trazê
Uns dez queijo dos maió
Que puder aparecê.
Se puder trazer galinha,
Traga também a farinha,
O mio verde, o feijão,
E num traga munto pôco,
Pois aqui nossos cabôco
Num querem prantá mais não.

Eu também peço ao sinhô
Que traga no seu borná
Quarqué coisa pra bebê,
Pois na noite do Natá
O fri num é brincadêra,
Parece u’a geladêra
A noite da cô de breu.
Num tem cristão que aguente,
Inda mais, prencipalmente,
Um véi assim que nem eu.

Ouvi dizê que o sinhô
Anda num tá de trernó,
Mas porém eu acredito
Que por esses brocotó
Esse seu mêi de transporte
Num vai levá munta sorte,
Por isso, nesse momento,
Eu dêxo aqui prometido:
Fique o sinhô garantido,
Que lhe impresto o meu jumento.

Ôta coisa: eu aconsêio
Que num venha assim vistido,
Cum esse ropão vermêio
Nesse sertão rissiquido.
Vista cuma nóis se veste,
Cum os traje do nordeste,
Pruquê na nossa quintura,
Num dá munto certo não,
Cum esse seu macacão
Cobrindo a sua gordura.

Se o sinhô quiser, eu falo
Cum cumpade Apulináro
Pro mode trazê as coisa
No seu caminhão de  horáro.
Mas fique logo avisado
Que tenha munto coidado,
Pois inté o meu sertão,
Igualmente a capitá
Que se chama federá,
Tá coberto de ladrão.

Discurpe, Papai Noé,
Lhe fazê tanto pedido,
Mas matuto é assim mêrmo,
Todo ele é esgalamido.
Venha mêrmo, sem faltá,
Nessa noite de Natá,
De trernó ou mêrmo a pé!
Capriche e faça bunito,
Que só assim acredito
Que ixiste Papai Noé!

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