quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CORDEL


AS DESVENTURAS DE UM JOVEM
CAÇADOR DE POKEMON

Pedro Paulo Paulino

Tem cada coisa na terra
De arrepiar o cabelo.
O mundo vive hoje em dia
Em tão grande desmantelo,
Que parece estar no fim.
Foi aceso o estopim
E não resta mais apelo.

Depois do ano 2000,
Três lustros atravessamos,
E cada coisa absurda
Hoje nós testemunhamos,
Cada coisa sem razão,
Que fugiu da previsão
Do profeta Nostradamus.

É grande e maravilhosa
Nossa tecnologia.
Mas em vez de conquistar
Juízo e sabedoria,
O homem se banaliza,
Degrada e desvaloriza
O que o próprio homem cria.

A nossa modernidade
Produziu a geração
Escrava do forró ruim,
Sertanejo assombração,
E só curte tal estrume
No derradeiro volume
De um nojento paredão.


Dito isto, agora vamos,
Sem faltar com a verdade,
Relatar um triste fato
Ocorrido na cidade;
O fim completo da paz
De um desditoso rapaz,
Alvo da modernidade.

Manoel era um bom moço,
Bastante conceituado,
Correto, trabalhador
E muito bem empregado,
De uma empresa era gerente
E desfrutava contente
Sua vida de casado.

Sua mulher, uma jovem
Educada e muito bela,
Que Manuel conheceu
Na condição de donzela,
Ganhou sua confiança,
Comprou um par de aliança
E logo casou com ela.

A vida do casal era
Uma só lua de mel.
Curtiam lindos passeios
Nas férias do Manoel,
E sempre em fins semana
Iam curtir bem bacana
O amor dos dois no motel.

Adotavam como lema
O dos casais de hoje em dia
Que só planejam ter filho
Depois de bastante orgia.
Tudo era belo pra eles,
De modo que a vida deles
Era um poço de alegria.

Mas o diabo vigilante
Que passa o tempo na espera
Para desmanchar prazeres
E findar toda quimera,
Se apossou do Manoel
Da maneira mais cruel,
Igualmente a besta-fera.

Manoel fazia parte
Desse mundo virtual,
Grudava no celular
Etc coisa e tal,
Mas nada que até então
Causasse desunião
No seu mundo conjugal.

Dessas coisas, na verdade,
Não há ninguém que escape,
Pois o buraco do vício
Não há um cristão que tape.
Seu vício foi aumentando,
Do Facebook passando
Para o tal de zap-zap.

Até aí, tudo bem,
Se comunicar é bom.
Mas sua vida mudou
Radicalmente de tom,
O seu mundo escureceu
No dia em que ele entendeu
De procurar pokemon.

Trata-se de uma caçada,
Porém para ser exato,
Dessa coisa, até agora,
Só tenho ouvido relato.
Caça, pra mim, é jacu,
Peba, mocó e tatu
Ou mel de abelha no mato.

No caso do Manoel,
Seu outro tipo de caça
Era na rua, no parque,
No jardim, bosque, na praça...
Fosse noite ou fosse dia,
A todo canto que ia
Era caçando essa raça.

Já sabia os nomes deles,
Que não sei nem repetir,
Conhecia um por um,
Sem os deixar de seguir.
Às vezes, desesperado,
Passava a noite acordado,
Sem se lembrar de dormir.

A mulher, naturalmente,
Não achava nada bom.
Para ele se arrumava,
Ficava aquele bombom!
Fogosa e cheia de graça,
E o marido, na praça,
Procurando pokemon.

“Manoel, tome juízo,
Veja se para com isso!”,
Reclamava, porém ele
Não ouvia nada disso.
Com um celular novinho
Procurava outro bichinho,
Sem dar conta do serviço.

Cada dia que passava,
Mais aumentava o seu mal,
O desgosto da mulher
E os problemas do casal.
Ela, em plena juventude,
Cheia de vida e saúde,
Principalmente mental.

O que já não era o caso
Do seu infeliz marido,
Pois caçando pokemon
Tornou-se tão distraído,
Que o seu comportamento
A todo e qualquer momento
Era o de um doido varrido.

Manoel, dentro de casa,
Um instante não parava.
Correndo atrás desses bichos,
Muita coisa derrubava.
Com o celular na mão,
Corria sem direção
E desse modo falava:

 “Arreda pra lá, mulher,
Que bem ali eu tou vendo
Um pokemon bem sentado,
Outro acolá vai correndo.
Hoje não peguei nenhum,
Mas só basta eu pegar um
Para este jogo ir rendendo.”

Certa vez ia caçando
E chocou-se num soldado.
De outra feita entrou no mar,
De sapato e engravatado.
Por pouco não se liquida,
Se não fosse o salva-vidas,
Tinha morrido afogado.

Dormindo, abraçava às vezes
Sua mulher com prazer.
Mas quando uma coisa boa
Poderia acontecer,
Ele, no seu pesadelo
Lhe alisava o cabelo
E delirava a dizer:

“Te amo, meu pokemon,
Meu pokemon eu te louvo.
Te adoro mais que tudo,
Pode até falar o povo.
Não te tiro da cabeça,
Tomara Deus que amanheça,
Para eu te caçar de novo”.

Frequentemente, no emprego,
Ele tirava licença,
Alegando qualquer coisa
Ou mesmo alguma doença,
Pois seu vício era mais forte,
E quando o vício é de morte
Não tem remédio que vença.

Era capaz de caçar
Pokemon no Monte Olimpo.
Mas, certa vez, no regresso
Desse terrível “garimpo”,
Quando em casa ele chegou
E da mulher se lembrou,
Achou o canto mais limpo.

É que toda mulher tem
Pensamento matemático.
Pois ela, com seu marido
Completamente lunático,
E sem achar outro jeito,
Achou-se então no direito
De achar um jeito prático.

Sem Manoel lhe dar mais
Aquela felicidade...
Ela, em vez de pokemon,
Achou com facilidade
Um companheiro sensato,
Bom naquilo e bom no trato,
Com 25 de idade.

Foi o fim do Manoel,
O fim do seu aconchego.
E para maior castigo
E maior desassossego,
Mais peitica e mais azar,
De manhã, foi trabalhar,
Tinha perdido o emprego.

 “Você trabalhava bem,
Do comércio tinha o dom”,
Lhe disse assim o patrão
Com a voz em grave tom,
“Porém perdeu o juízo
E só me dá prejuízo
Procurando pokemon”.

Sem mulher e sem emprego,
Assim ficou o coitado.
Por causa de um jogo besta
Que o deixou atoleimado,
Manoel agora é
Apenas mais um mané
Chifrudo e desempregado.

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