sábado, 12 de dezembro de 2015


A CARTA DE MICHEL TEMER
PARA A PRESIDENTE DILMA

Autor: João Pajeú

“Brasília, mês de dezembro,
Dia sete do corrente
Do ano dois mil e quinze,
Pra ser mais precisamente.
Cara Dilma, se te escrevo
É somente porque devo
Dar-te então notícias minhas.
Almejo, cheio de ânsia,
Encurtar nossa distância
Nestas mal traçadas linhas.

‘Verba vá e verba venha’,
Quero começar assim
Com essa bonita frase
Que fui buscar no latim.
Não precisa que se frise
Que nos momentos de crise
A paixão fala mais alto.
Saibas que não é tolice
O quanto padece um vice
Na solidão do Planalto.

Há quanto tempo, querida,
Que só de longe te vejo!
O que muito amargamente
Só fomenta o meu desejo.
O meu mundo é um deserto.
Embora morando perto,
Só te avisto na tevê.
Eu sofro e ninguém dá fé,
Pois esta Brasília é
Uma selva sem você.

Quero escrever assim mesmo
Misturando os tratamentos,
Pois sem ti ou sem você
São iguais os meus lamentos.
Ó Dilma! fiques sabendo,
Enquanto estou escrevendo
Movido por emoções,
A minh’alma não se farta
De ouvir tudo que é carta
Nas mais bonitas canções.

Por exemplo, aquele clássico
Do bom saudoso Waldick,
Que todo mundo conhece
Por ser discreto e bem chique.
Além do Bartô Galeno
Que dizia no sereno:
‘Deixe de ser tão cruel,
Pá, pá, pá e pá, pá, pá,
Não sei o que tem mais lá,
Num pedaço de papel’.

Querida, quando eu escuto
Aquela carta do Erasmo,
Juro pra ti que só falto
É atingir o orgasmo.
São tantas as emoções
Nas missivas e canções,
Que para te ser sincero,
Em mim causa muita pena
A carta pra Felomena
Do Coronel Ludugero.

Mudando um pouco de assunto,
Mas dentro do mesmo tema,
Eu quisera ser pintor
Pra te fazer um poema.
Ah, se o rei Roberto eu fosse,
Para te cantar bem doce
Este meu amor confesso.
Sob a lua cor de prata,
Te faria serenata
Na calçada do Congresso.

E por falar em tal coisa,
Meu ciúme não oculto.
Teu nome citado lá
É para mim um insulto.
Nem a constituição
Comporta a minha paixão
E fico roendo unha.
No meio do tititi,
Tenho ciúmes de ti
Com o Eduardo Cunha.

Mas isto é segredo nosso,
Pois te juro, minha filha,
Que não conto meus segredos
Nem mesmo para o Padilha.
Além de você e eu,
Somente quem conheceu
Esta carta pessoal
(E nisto não há perigo)
Foi o Bonner, meu amigo,
Do Jornal Nacional.

Ó Dilma! quanta saudade,
Quanta gostosa lembrança
De quando te conheci
E trocamos aliança.
Envolvemos o PT
Com o PMDB
Em romântica barganha...
Caminhamos de mãos dadas,
Nossas almas embaladas
Pela dança da campanha.

Mas o tempo mudou tudo
E muito amargo hoje vivo,
Assim por ti desprezado,
Como um ser decorativo.
Sem você vivo um martírio,
Pois tu és o meu colírio,
Meu remédio, meu xodó;
Um colírio sem mistura,
O qual talvez só não cura
No caso do Cerveró.

Sem mais, aqui me despeço
E encerro esta cartinha,
Que podia ser maior
Que a carta do Caminha.
Mas contudo o tempo é ouro,
E sendo tu meu tesouro,
Deixes de ser tão cruel!
Aguardo, de tua lavra,
Ao menos uma palavra
Num pedaço de papel.”


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