sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CORDEL


O PROTESTO DO JUMENTO
CONTRA O MERCADO CHINÊS

Pedro Paulo Paulino

Esta semana, um jumento
Moderno e bem informado
Escutou uma notícia
E ficou desesperado.
A informação dizia
Que muito jegue seria
Lá para a China exportado.

Ao saber dessa notícia
O jumento passou mal.
Porém quando melhorou,
Viu-se cheio de moral,
E contra o ato funesto
Publicou esse protesto
Numa rede social:

 “Socorro, Padre Vieira!
Clamamos aos quatro ventos,
Que desça de onde estiver
Com os seus conhecimentos
E corra pra nos salvar,
Pois a China quer comprar
Mais de um milhão de jumentos!

Tá vendo, meu caro Padre,
Que tal coisa não combina,
O gangão abandonar
Sua pátria nordestina!
Não cabe em meu pensamento:
Que diabo vai ver jumento
Lá pelos confins da China?!

Queremos permanecer
No nosso solo, o Nordeste,
Pois provaram nossa carne
Lá fora, e passou no teste.
Por isso, me desespero,
Morro de fome e não quero
Me mudar praquela peste!

Socorro, Padre Vieira!
Suplico mais uma vez.
Interceda já por nós,
Como o senhor sempre fez.
Jumento vira, em Pequim,
Banquete de madarim
E moda para chinês.

Não deixe isso acontecer,
Eu lhe peço em alta voz!
Vender jegue para abate
É comércio muito atroz.
Nos salve, Padre Vieira!
Evite essa bagaceira
Que querem fazer ‘com nós’.

Aquele povo de lá
É um povo muito rico.
Se querem comprar jumento,
Muito encabulado fico.
Seria muito bizarro
Chinês largar o seu carro
Pra passear num burrico.

Muito interessante mesmo!
Pois quem é que não se zanga?
Vender jumento pra China
Como se fosse miçanga!
Enquanto o chinês hostil
Exporta para o Brasil
Tudo quanto é bugiganga!

Sem falar que no Nordeste,
A nossa população
Já sofre muito porque
Não tem muita proteção.
É grande a carnificina,
Se o Brasil vender pra China,
Por ano, mais de um milhão!

Vai ser o fim do jumento
No sertão do Ceará.
Talvez em todo o Nordeste,
O jegue se acabará,
Pra ser servido na mesa
Da culinária chinesa,
Como quitute ou jabá.

Se o Brasil permitir isso,
Será grande a covardia,
Pois jumento sempre foi
Animal de serventia.
Foi ou não foi, seu Luiz?
O senhor mesmo é quem diz
Lá na sua ‘Apologia’.

Vender jumento pra corte,
Onde foi que se viu isto?!
Com razão eu continuo
Meu protesto e não desisto!
Não seria um grande mal
Comer carne do animal
Que transportou Jesus Cristo?!

Que crime! Que ingratidão!
Que medonha estupidez!
Não há nada que na terra
Mate a fome de vocês?!
Não concordo que jumento
Sirva jamais de alimento
Pra ninguém nem pra chinês!

O jumento é patrimônio
Do Nordeste brasileiro.
Ajudou fazer açude,
Estrada, casa e barreiro.
E novamente é bem-vindo,
Na grande seca servindo
No sertão como ‘pipeiro’.

Meu santo Padre Vieira,
Recomende em sua missa
Que ninguém transforme o jegue
Em motivo de cobiça.
E repita em seu sermão,
Que o jumento nosso irmão
Vale mais que uma linguiça!”

Nenhum comentário:

Postar um comentário