segunda-feira, 31 de março de 2014

RELEMBRANDO A DITADURA,
SEM NADA A COMEMORAR

Capa: Arievaldo Viana

Autor: Pedro Paulo Paulino

Vamos relembrar um fato,
Sem nada a comemorar,
Episódio vergonhoso
Que temos para contar:
Com seus atos desumanos,
Já se vão cinquenta anos
Do Regime Militar.

Foi a 31 de março,
Que a nossa grande Nação
Perdeu toda a liberdade,
Sem direito ao cidadão.
No ano sessenta e quatro,
Brasil tornou-se o teatro
Dessa triste aberração.

Pois a partir dessa data,
Ditadores desumanos,
Radicais, totalitários,
Criminosos e tiranos,
Com seu regime infeliz,
Mandaram neste país
Durante vinte e um anos.

Em plena Idade Moderna,
Não tem porquê nem razão
De um país enveredar
Na total escuridão
De estupidez execrável,
Que somente é comparável
Aos tempos da escravidão.

A lembrança que ficou
Do tempo da ditatura
Foi repressão violenta,
A lei cruel da censura,
A falência de conceitos,
A cassação de direitos,
Assassinato e tortura.

Devido à deposição
Do presidente Goulart,
Sucessor de Jânio Quadros
Num momento singular,
Se não me falha a memória,
Começou a trajetória
Do regime militar.

Contra o presidente Jango,
Como era assim conhecido,
Um grupo de militares
Conspirava no sentido
De lhe tomar o poder,
O que veio acontecer,
Deixando o povo oprimido.

O general Mourão Filho,
Deixando Minas Gerais,
Com tropa de três mil homens
Foi se juntando aos demais.
Logo no primeiro dia
Estava a democracia
Nos seus momentos finais.

Por Ranieri Mazzili,
Que então era deputado,
Somente por nove dias
O Brasil foi governado.
No Congresso, com efeito,
Castelo Branco é eleito,
Depois do Golpe de Estado.

Castelo logo adotou
As medidas radicais,
Conhecidas pelos seus
Atos institucionais.
Fim das eleições diretas
Foi uma de suas metas,
Dentre outras tão brutais.

Criou o SNI,
Um poderoso espião,
Protegendo os militares,
Fragilizando a Nação;
De partidos, só ARENA
E MDB, na cena
De suposta oposição.

Depois de Castelo Branco,
E muito mais linha dura,
Seu sucessor, Costa e Silva,
Promoveu a assinatura
Do Ato Institucional
Que dava poder total
À terrível ditadura.

O Congresso foi fechado,
Cresceram as repressões,
Suspensão de garantias,
Abusos, violações,
A polícia, noite e dia
Promovendo à revelia
As mais vis perseguições.

Confrontando os militares
Surge um grupo varonil,
A União dos Estudantes,
Em defesa do Brasil,
Numa marcha audaciosa
Realizou a famosa
“Passeata dos Cem Mil”.

Mas continua o regime
De plena arbitrariedade,
Com o presidente Médici
Falando em prosperidade,
Com seu “milagre econômico”,
Porém gerando astronômico
Débito à posteridade.

O tal milagre gerou
Dívida internacional.
O “Brasil, ame-o ou deixe-o”
Virou lema oficial.
Por outro lado, a Nação
Amargava a situação
Da crise salarial.

O controle do governo
Sobre todos os setores
Impedia organizarem-se
Os nossos trabalhadores,
Pois os sindicalizados
Eram todos controlados
Pelos órgãos repressores.

Departamentos estranhos,
Como DOPS e DOI-CODI,
A linha de espionagem
Em todo o País eclode.
Com a boca costurada
Ninguém pode dizer nada,
Somente o governo pode.

Depois do governo Médici
Veio outro general,
Desta vez, Ernesto Geisel
Que nessa regra geral
Deixou de novo o Brasil,
Com o “Pacote de Abril”,
Sem Congresso Nacional.

Eram todos indicados
Pelo modo aristocrático,
Sem consultarem o povo
Nesse regime antipático,
Ficando assim mais remoto
O nosso sonho do voto
Em um país democrático.

Porém, sucedendo Geisel,
Indicaram Figueiredo.
Era o momento final
Do regime tão azedo.
A ditadura morria,
Um novo tempo surgia
E o povo perdia o medo.

Foram os “anos de chumbo”
Grande atraso pra Nação,
Com danos à economia,
Ao progresso e evolução.
A temível ditadura
Emperrou nossa cultura,
Arte e comunicação.

As cicatrizes ficaram
Desses tempos de terror,
No qual o Brasil viveu
Longos anos de torpor.
Expulsos e constrangidos,
Muitos foram perseguidos
Pela “Operação Condor”.

Dos porões da ditadura,
Sempre os ecos se ouvirão
Dos que foram torturados
Na “cadeira do dragão”,
Das vítimas de afogamentos,
De choques, espancamentos
E de tanta perversão.

Jamais serão esquecidos
Nossos patrícios no exílio,
Sem direito à sua pátria,
Ao seu chão, seu domicílio,
Nossos artistas queridos
Que lutaram destemidos
Pela paz buscando auxílio.

Relembremos os artistas
Zé Keti, Nara Leão,
João do Vale, grande nome
Que nos deu o Maranhão,
Pois fizeram manifesto
Em um famoso protesto,
Com o “Show Opinião”.

Outros artistas famosos,
Caetano, Chico e Gil,
Empregaram seu talento
Da maneira mais sutil,
Pra dizer que a ditadura
Era o emblema da feiura
Da política do Brasil.

Um país que, infelizmente,
É pátria da covardia,
Pois pra defender aqueles
Autores da tirania
No período mais sangrento,
Aprovou no Parlamento
A tal da “Lei da Anistia”.

Assim, não temos motivos
Pra comemorar horrores.
Sem esquecer, todavia,
Os vinte um anos de dores.
Meu recado em versos dei,
Pra não dizer que eu deixei
Também de falar das flores. 

Um comentário:

  1. Esta obra é parte integrante de uma nova coleção de folhetos da dupla PEDRO PAULO / ARIEVALDO VIANA - A COLEÇÃO CANCÃO DE FOGO, VOLUME 2. A primeira caixa, contendo 10 folhetos, foi lançada em abril de 1999 e teve texto de apresentação do saudoso RIBAMAR LOPES.

    ResponderExcluir