terça-feira, 17 de julho de 2012


O SUPER DEDÉ FABIANO


Augusto Cesar Magalhães Pinto*

Quem vê passar pelas ruas da nossa cidade, o conterrâneo Dedé Fabiano, não imagina que seu verdadeiro nome é simplesmente José Gonzaga, nem que aquele corpo maduro jovial carrega a idade considerável de 84 anos e um coração de menino. Bonachão, espirituoso e solidário, é filho do saudoso Mestre Luis Gonzaga de Maria, conhecido como Luis Fabiano, que hoje empresta seu nome a quatro ruas (caso único que se tem notícia), no populoso bairro do Monte, em Canindé.
O Mestre Luis Fabiano era católico fervoroso, membro de diversas associações religiosas e um dos fundadores da Congregação Mariana e da Irmandade de São Vicente de Paula, tendo chegado a ser dirigente de ambas, em épocas distintas. Foi um antigo pedreiro de ofício, sendo da sua época o mais requisitado para os trabalhos da paróquia de São Francisco, tanto pelo nível de confiança que os frades lhe dedicavam, como pela qualidade do seu trabalho, tanto na parte estrutural que realizava com competência e segurança como nos acabamentos, os quais exercia de modo artístico e irretocável. Quem adentra a Basílica de São Francisco pode admirar, tanto no altar-mor, como nos altares laterais o fino e esmerado acabamento que lhe foi dado pelas mãos hábeis daquele artista. Era também muito experiente na construção de barragens, tendo trabalhado como mestre-pedreiro no açude de General Sampaio, na seca de 1932, e, posteriormente, construído a barragem de pedra e cal da fazenda Salgado, então pertencente ao patrimônio de São Francisco.  Conheci quando criança, da lavra do Mestre Luis Fabiano, as capelinhas que formavam a via-sacra rumo à Igrejinha do Monte, mais ou menos no mesmo local dos monumentos atuais, sendo que a Avenida Chico Campos denominava-se naquela época Rua Casemiro Cruz.
A exemplo do pai, Dedé Fabiano é também um homem aquinhoado de dons artísticos: pedreiro, ofício que aprendeu com o pai, é também fabricante de calçados, profissão que aprendeu aos 17 anos na sapataria do Sr. Luis Pereira, tendo ainda trabalhado no mesmo mister na sapataria do Sr. Cídio Martins e ainda na Casa Marreiro, pertencente ao seu cunhado, poeta popular Raimundo Marreiro. Apesar da idade relativamente avançada e com a família já criada e independente, ainda exerce ambas as profissões, quando lhe convém.  Mas hoje o que gosta mesmo de fazer é tomar uma cervejinha, tocar violão e participar de pescaria (especialista na captura de carás de sete quilos), tudo isso, de maneira mais acentuada quando se encontra em Canindé, de retorno dos exílios por dever de ofício, o capitão Arimatéia Bezerra (capitão Ari), esposo de sua sobrinha Aurora Marreiro e meu compadre.
Entretanto, a característica diferencial do Dedé Fabiano é o realismo que ele costuma dar às histórias que gosta de narrar com riqueza de detalhes, havendo quem atribua a um dom artístico que lhe ficou preso na alma; ele teria nascido para ser ator, mas nunca teve chance de exercer a profissão pela absoluta falta de oportunidade. A propósito, foi um dos mais assíduos frequentadores do antigo Cine Canindé, tido como precursor do hábito contemporâneo de assistir aos filmes comendo pipoca com refrigerante, que naquela época era o vetusto Guaraná Taí, cujo recipiente trazia estampado a cabeça de um cachorro, e era lacrado por tampa de folha metálica forrada com cortiça.
Naqueles tempos, o Déde assistia aos bang-bangs e no outro dia contava aos amigos e freqüentadores da Casa Marreiro, as cenas mais empolgantes, rolando pelo chão, num movimento frenético, visando esquivar-se das balas desferidas pelo algoz, e utilizava os dedos, médio e indicador, de ambas as mãos, como se fossem dois «Colt's 45», soltando o ruído característico dos tiros.
Disse-me o poeta Gonzaga Vieira, que muitas vezes foi vizinho de cadeira do Dedé, naquele saudoso cinema, que ele apenas transmitia a cena com todo realismo que assimilava. Prova disso é que nas manjadas cenas de bang-bang, em que os bandidos perseguiam a diligência para assaltá-la, invariavelmente um deles emparelhava o cavalo, encostava na carruagem, e saltava para o seu teto, para em seguida dominar e derrubar o cocheiro. Na falta dos efeitos especiais que a computação gráfica hoje permite, usava-se a técnica disponível, que consistia num foco de aproximação da câmera, resultando na ilusão de celeridade que compunha a cena, e o que se via era uma nuvem de poeira. Nesse momento, quase em êxtase, plenamente concentrado, o Dedé puxava seu lenço e comprimia contra o nariz com medo de pegar uma gripe.
O poeta e comerciante Raimundo Marreiro tinha uma equipe itinerante que percorria os sertões de Canindé e cidades vizinhas com algumas atrações, entre as quais uma onça-pintada, a besta pelada filha de touro e a galinha-capote de três pés. Onde chegava, ou conseguia um prédio (geralmente casas velhas desativadas) ou improvisava lona e cobrava entrada dos curiosos. O ajuntamento de pessoas se dava com a volta olímpica que a Gilda fazia na localidade. A equipe era composta pelas seguintes pessoas: Pitomba, ajudante de ordens do seu Raimundo; Antônio Machado, cozinheiro; Valbim, que dançava dentro da Gilda; Nego da Jia, que tocava cavaquinho, violão, zabumba e eventualmente substituía o Valbim quando este se embriagava; Dedé Fabiano, no violão; Canela, na bilheteria; Pisquita, que topava qualquer serviço; e vez por outra o Raimundo da Onça, o Murilo e o Homerim.
De certa feita, na década de 1960, o Seu Raimundo & Cia foram para uma festa em Pedra Branca no carro do Wilson Parecido e quando chegou nas proximidades de «Madalena», já próximo da saída da «central», uma senhora deu a mão, pedindo passagem (ou carona). O pessoal que ia sobre o caminhão achava-se «bebericando», sendo que o Homerim estava de forma bem displicente sentado sobre o gigante. Não houve freada brusca, mesmo assim o Homerim desequilibrou-se e caiu no exato momento em que o carro parou por total. O Seu Raimundo, muito supersticioso, até porque era um dia 13 de agosto, quis voltar de imediato, dizendo que o incidente era um mal presságio. A turma que estava doida para chegar ao destino ficou muito preocupada com a decisão do «chefe» e tentou demovê-lo da ideia de retornar. Este já estava decidido até que o próprio Homerim o convenceu a seguir viagem, creditando a si mesmo toda a responsabilidade pelo acidente, alegando que foi um mero descuido seu e que ele não estava sentindo nada, pois havia levado apenas alguns arranhões.  
A equipe seguiu viagem e se deu muito bem; a renda do espetáculo mostrou-se suficiente para a cobertura de todas as despesas, e todo mundo recebeu o que lhes era de direito. Dias depois, achava-se um caminhão pertencente ao Sr. Raimundo Cardoso que, carregado de madeira, estacionara na rua Joaquim Magalhães, ao lado da Casa Marreiro. Ao ver o carro, o Dedé Fabiano lembrou-se do ocorrido com o Homerim e passou a contar a história de forma tão entusiástica que em poucos minutos juntou-se um razoável público. Ele foi enfeitando o fato, aumentando só um pouquinho para provocar maior sensação entre os ouvintes. De repente, ele resolveu dar vida à cena que até aquele momento era uma mera narrativa. Subiu no caminhão, pediu a um coadjuvante que encenasse uma pessoa dando a mão para o carro parar, simulou a parada brusca, encenou o momento que estava sentado do gigante e desequilibrou-se, rolou pela cabine, caiu sobre o capô e em seguida, com todo realismo, despencou no chão e rolou no calçamento tosco, onde permaneceu imóvel por alguns segundos com escoriações generalizadas. Alguém foi tentar levantá-lo. Ele saltou com destreza e complementou a história:
- Aí, o Homerim pulou lá na frente, bateu a poeira e disse: não foi nada pessoal, vamos seguir a viagem!
Felizmente naquela época não havia os filmes de Karatê. A narrativa de uma cena em que o «Bruce-Lee» luta, ao mesmo tempo, com uma dúzia de adversários, poderia  transformar-se em tragédia,  através do vigor realista do Déde.
Talvez seja um exagero dizer que o nosso herói não é hoje um grande ator por ter nascido longe dos centros de produção da sétima arte. Afirmo, todavia, com convicção, que se o destino lhe tivesse sorrido com tal chance, hoje ele seria, no mínimo, um afamado dublê; ora de chuteiras penduradas, pela merecida aposentadoria.

*Autor dos livros: Viagem pela história de Canindé e Histórias de nossa terra e de nossa gente.

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