terça-feira, 12 de junho de 2012


O CASEMIRO


Augusto Cesar Magalhães Pinto*

O início dos anos de 1980 chegou a Canindé, vindo da região da Serrinha do Limoeiro, o desconhecido Raimundo Lourenço da Silva, tendo em pouco tempo se tornado figura popular, conhecido como Casemiro.
Mulato de compleição forte, andar desaprumado, verdadeiro troglodita, era dotado de três características singulares: uma preguiça invencível, uma fome insaciável e uma extrema capacidade de se relacionar socialmente. Fazia amizade com pessoas de ambos os sexos e das mais diferentes faixas etárias e classes sociais. Era impressionante essa capacidade levando-se em conta a sua formação matuta, acostumado a viver em localidade isolada, sem ter nenhum estudo, sabedoria popular ou possuir qualquer dote artístico. É bem verdade que ele gostava muito de cantar, principalmente as músicas bregas do Bartô Galeno, e de quebra, imitava com a voz o som dos instrumentos que acompanhavam a música original, fossem eles quais fossem. Não era raro vê-lo cantando em shows populares ou até em eventual festival de calouros, sendo que na verdade só servia de gozação. Mas ele cantava com entusiasmo, soltando todo o seu potencial de voz, inclusive em inglês, procurando imitar o som das palavras do modo que entendia.
Apesar da preguiça, por ele assumida com orgulho, eventualmente realizava alguma tarefa remunerada, notadamente lavar carro, o que lhe rendia algum trocado o qual economizava guardando a sete chaves. Nunca gastou dinheiro com roupas, calçados nem comida: tudo isso recebia por doação dos canindeenses. A propósito, quando se falava em compra de alimento, ele filosofava:
– O dinheiro mais sem futuro de se gastar é com comida: a gente come e com uma hora depois já tá morrendo de fome...
De fato, nesse item ele era privilegiado, haja vista ter acesso diário a várias mesas ricas, pobres ou remediadas, não faltando quem lhe oferecesse um prato de comida. O único problema era que as pessoas de modo geral tinham um horário mais ou menos parecido para se alimentar e, como o Casemiro não ficava saciado com apenas um prato e tinha vergonha de pedir outro, ele, que passava o dia em marcha lenta conversando miolo de pote, naquele horário era célere e percorria o maior número possível de casas em busca de matar sua fome itinerante.
Como já disse em outra ocasião, quando vim a assumir o emprego do Banco do Brasil, regressei definitivamente ao meu torrão e fixei residência na vetusta casa da nossa família, localizada nas proximidades da Praça da Basílica. De certa feita chegou por lá o Casemiro, com uma conversa mole, me pedindo que lhe desse morada. Sem indagar onde ele estava morando e levando em conta que residia sozinho numa casa grande a qual eu não utilizava por completo, dei um cômodo para ele morar, entregando-lhe a chave da porta principal para que ele tivesse livre acesso.
Ter um lugar decente para morar, notadamente no centro da cidade, deixou-o embevecido, tendo ele aliado à preguiça a vergonha de trabalhar. Exemplo disso ocorreu numa Festa de São Francisco, época em que grande parte da população busca uma fonte extra de renda, principalmente no comércio informal. Ocorreu que um bancário trouxe uma carrada de suco artificial, envasada de forma semi-artesanal, em condições higiênicas suspeitas, em garrafinhas descartáveis. Dita mercadoria era vendida no atacado, por preço módico, atraindo muitas pessoas dispostas a revendê-la no varejo. O Casemiro recebeu um privilégio da esposa do atacadista que arranjou-lhe um isopor com gelo para que ele pudesse vender o produto gelado e posteriormente pagar a mercadoria. De princípio ele ficou muito satisfeito, pediu minha opinião e eu lhe falei que era um ótimo negócio, uma vez que para cada suco vendido se ganhava outro a título de lucro. E lá se foi o vendedor principiante, buscando os lugares de aglomeração no afã de vender, gritando exaustivamente:
– Olha o suco! É barato, é barato...
Vez por outra surgia algum conhecido e ele rapidamente se escondia como se tivesse fazendo algo ilícito, ou como se o trabalho fosse degradante; como era muito conhecido, foi um tormento. Mesmo assim trabalhou poucas horas e tendo ganho o que necessitava naquele momento voltou para casa, melancólico, no final da tarde.
– O que foi que houve, Casemiro? Deu certo a venda de suco?
– De dinheiro foi até bom, respondeu – Deu para comprar um pneu pra bicicleta, mas eu não vou mais, não. Aquilo é uma humilhação: passar o dia no meio do sol gritando, adulando o povo pra comprar...
De fato, o temperamento dele não combinava com o trabalho; apesar da saúde de ferro, a única tarefa que ele fazia com satisfação era limpar a sua bicicleta, deixando-a impecavelmente lustrosa.
Naquela época eu trabalhava como fiscal da Carteira Agrícola, e um dia, quando cheguei no final da tarde, o Casemiro tinha adoecido e passado o dia deitado, dizendo sentir uma intensa dor na barriga. Mandei providenciar-lhe uma sopa no restaurante da Maria do Oster, e ele melhorou sensivelmente após a ingestão, tendo permanecido em repouso. À noite, eu me achava na calçada do meu cunhado Pereira, vizinho à minha casa, com alguns frequentadores assíduos daquele encontro diário, quando chegou o Raimundo Chagas Gomes, conhecido como "Raimundo Enfermeiro», que há pouco tinha regressado de forma definitiva para Canindé, depois de servir por 30 anos na Marinha de Guerra do Brasil, na qual aposentou-se como sargento. Lembrei-me do Casemiro e chamei o Raimundo para vê-lo. O enfermeiro bonachão disse que ia fazer uma brincadeira com ele, tendo os companheiros de calçada adentrado na casa. O Casemiro assustou-se com aquela comitiva. O Raimundo, que ele pensava ser médico, examinou-o, fez um ar de que a coisa não estava boa e disse:
– É, seu Casemiro...
Fez uma ligeira pausa, balançou a cabeça negativamente e continuou:
– Seu caso é muito sério!
Trêmulo de medo, o Casemiro indagava:
– Será que eu escapo, doutor?
– Só tem um jeito: vender essa bicicleta pra comprar de remédio!
O Casemiro, sobressaltado, embora sentindo a presença da morte, exclamou:
– Eu prefiro morrer! – disse ele aos prantos, enquanto os presentes soltavam uma sonora gargalhada.

*Autor dos livros: Viagem pela História de Canindé e Histórias de Nosssa Terra e de Nossa Gente.

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